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"Sambalanço": filme de Tárik de Souza narra a história da bossa dançada nos bailes

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                                   O guitarrista Marco Mattoli e o cantor Orlandivo, em show no CopaFest 2011 

Se você ainda não sabe o que é sambalanço, não precisa ficar constrangido. Logo na primeira cena do filme “Sambalanço - A Bossa Que Dança” (direção de Tárik de Souza e Fabiano Maciel), que narra com bom humor a história dessa vertente musical, o pianista Eumir Deodato também admite não saber o que é sambalanço. Mesmo que tenha tocado esse estilo musical, em bailes, na década de 1950.

Autor do livro homônimo (lançado em 2016), o jornalista Tárik de Souza também assina o roteiro e assume a narração desse documentário. “Ao contrário da bossa nova, um movimento estético organizado e acompanhado por vários teóricos de plantão, o sambalanço surgiu em paralelo, na surdina, em boates da zona sul e nos clubes da zona norte do Rio de Janeiro”, define o narrador, no estilo personalíssimo que o transformou em referência na crítica musical brasileira.

“O sambalanço, que não era samba de morro, nem sincopado de gafieira, promoveu mais um movimento de quadris do que um batuque de cabeças pensantes. Espalhou-se como um vírus pelas boates e pistas de dança, na virada dos anos 50 para os anos 60”, ele prossegue, em uma das sacadas que fazem de seu texto uma atração especial nesse documentário.

Contagiantes também são as aparições do cantor e compositor Orlandivo (1937-2017), criador de pérolas do sambalanço, como “Tamanco no Samba” (parceria com Helton Menezes), “Bolinha de Sabão” (com Adilson Azevedo) e “Palladium” (parceria com Ed Lincoln), esta interpretada no filme pelo paulista Marco Mattoli, líder da banda Clube do Balanço. Não bastassem suas melodias inovadoras, Orlandivo ainda introduziu nesse estilo de samba um novo instrumento de percussão: seu inusitado chaveiro com sete chaves.

Outro expoente do sambalanço que contribui com divertidos causos, em depoimento para o filme, é o violonista e arranjador Durval Ferreira (1935-2007), autor de clássicos do repertório da bossa nova, como “Estamos Aí”, “Batida Diferente” e “Tristeza de Nós Dois”. Ao lado dele, relembrando sucessos do sambalanço, também estão o cantor Miltinho, o organista Ed Lincoln e o baterista Wilson das Neves, entre outros. Sem falar em interessantes depoimentos de intérpretes como Elza Soares, Silvio César, Dóris Monteiro e João Roberto Kelly.

Quem se emocionou com documentários que abordam o samba no festival In-Edit Brasil 2020, como “Elton Medeiros - O Sol Nascerá” (de Pedro Murat), “Porfírio do Amaral: A Verdade sobre o Samba” (de Caio Rubens) ou “Dom Salvador & Abolition” (de Artur Ratton e Lilka Hara), certamente vai se divertir vendo “Sambalanço - A Bossa que Dança”. Uma saborosa aula de jornalismo musical com a grife Tárik de Souza.

Veja os documentários do 12.º In-Edit Brasil (com ingressos a R$ 3), até 20/9, neste link: https://br.in-edit.org/ 






Sambalanço: livro de Tárik de Souza disseca a vertente dançante da bossa nova

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                                 Marco Mattoli (à esq.), líder da banda Clube do Balanço, e o cantor Orlandivo


Grande referência na crítica musical brasileira, o jornalista Tárik de Souza lança na próxima semana o livro “Sambalanço, a Bossa que Dança: um Mosaico”. Com a riqueza de detalhes e a escrita sofisticada que costumam caracterizar seus textos, ele disseca essa vertente suingada da bossa nova, que contagiou salões de dança durante as décadas de 1960 e 1970.

Orlandivo, Durval Ferreira, Eumir Deodato, Waltel Branco, Elza Soares, Doris Monteiro, Lafayette, João Donato e Marco Mattoli são alguns dos intérpretes, compositores, arranjadores e instrumentistas entrevistados longamente por Tárik para esse livro (o formato pingue-pongue, com perguntas e respostas completas, torna mais saborosa ainda a leitura dessas entrevistas).

O livro inclui também uma breve discografia do sambalanço (que alguns preferem chamar de samba de balanço ou apenas balanço) e uma coleção de verbetes que ilustram as obras e carreiras de outros cultores dessa vertente musical, como Djalma Ferreira, Ed Lincoln, Luiz Antonio, Miltinho e Walter Wanderley.

A pesquisa de Tárik, que se estendeu ao longo de uma década e meia, originou também um documentário. Dirigido pelo cineasta Fabiano Maciel (autor de “Niemeyer - A Vida É um Sopro”), o filme “Sambalanço, a Bossa que Dança” tem lançamento previsto para março de 2017.

Outra obra de Tárik está chegando ao mercado. Dividido em dois volumes, o livro “MPBambas” reúne as transcrições integrais das entrevistas que o jornalista realizou para a homônima série de TV do Canal Brasil, exibida de 2009 a 2014. Entre os entrevistados, no primeiro volume, estão Nana Caymmi, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Hermeto Pascoal, Johnny Alf e Milton Nascimento. Já no volume seguinte entraram Zeca Pagodinho, Dominguinhos, Gal Costa, Inezita Barroso e Carlos Lyra, entre outros.

Noites de autógrafos: dia 12/12 (segunda-feira), às 19h, na Bossa Nova e Companhia (r. Duvivier, 37, Copacabana, Rio); dia 14/12 (quarta), às 19h, na Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, Cerqueira César, São Paulo)



4º CopaFest: cenas de um festival de música instrumental brasileira (e algo mais)

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       Arthur Verocai (centro), Luiz Alves, Idriss Boudrioua e Nivaldo Ornelas / Photo by Carlos Calado

À primeira vista, o CopaFest – realizado de 20 a 22/10, no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro – parece um festival voltado exclusivamente à música criada por instrumentistas brasileiros, mas sua quarta edição mostrou que seus curadores, felizmente, não encaram esse perfil musical com rigidez.

No show de abertura, o saxofonista Mauro Senise e o pianista Gilson Peranzzetta, bem acompanhados por Zeca Assumpção (contrabaixo), Rafael Barata (bateria) e um quarteto de cordas, recriaram canções e temas instrumentais de Edu Lobo (expoente da canção brasileira que, vale lembrar, sempre dedicou parte de sua obra à música sem palavras), como o vibrante “Casa Forte” e o cinematográfico “Arpoador”. Já nos números finais, o próprio Edu entrou em cena para cantar algumas de suas obras primas, como "Choro Bandido", "A História de Lily Braun" (parcerias com Chico Buarque) e “Vento Bravo”. (veja os vídeos abaixo)

 
                      Zeca Assumpção (esq. para dir.), Mauro Senise e Edu Lobo/ Photo by Carlos Calado

Só pelo inusitado baile-show planejado para a sexta-feira, esse festival já teria sido um sucesso. A noite começou muito bem, com a apresentação do Clube do Balanço. Comandada pelo guitarrista Marco Mattoli, a banda paulista fez a alegria dos dançarinos mais experientes, tocando uma seleção instrumental de clássicos do samba-rock e do sambalanço, incluindo inusitadas versões do mambo “Tequila” e da jazzística “Café Reggio” (da trilha do filme “Shaft”).

No bis exigido pela plateia, veio uma surpresa: a “canja” do cantor e compositor carioca Orlandivo (que foi crooner da banda do tecladista Ed Lincoln, homenageado da noite), relembrando com a devida malemolência seu clássico “Palladium”.


                                          O guitarrista Marco Mattoli e o cantor Orlandivo / Photo by Carlos Calado

O retorno do tecladista e arranjador Lincoln Olivetti aos palcos cariocas, em seguida, não poderia ter sido mais festivo. As presenças de Jorge Benjor, Fernanda Abreu, Marisa Monte, Daúde, Charles Gavin e Ronaldo Bastos, na plateia, deram uma medida do frisson causado pelo evento.

Sorrindo, ao lado de músicos jovens, como o tecladista Donatinho, o guitarrista Davi Moraes e o baixista Kassin, além de um afiado naipe de sopros, Olivetti relembrou sucessos de sua parceria com o guitarrista Robson Jorge, como “Eva”, “Ginga” e “Aleluia”, reconhecidos de cara pela plateia. Também fez seu tributo a Ed Lincoln, recriando o sambalanço “Palladium”, exibiu um sensacional arranjo de “Spinning Wheel” (hit da banda Blood, Sweat & Tears), em ritmo de samba, e só conseguiu sair do palco depois de bisar três números.


                         Davi Moraes e Donatinho cumprimentam Lincoln Olivetti / Photo by Carlos Calado

Os sorrisos do baixista Luiz Alves, deliciando-se com as surpresas contidas na original “Flying to L.A.”, composição de Arthur Verocai, repetiram-se nos rostos de muita gente, na plateia da terceira e última noite do CopaFest. Alguns, provavelmente, estavam ali ouvindo pela primeira vez a música desse veterano guitarrista e arranjador carioca, que ainda poucos brasileiros conhecem.

“Nunca fiz um show como este aqui no Rio, aqui na minha terra”, disse Verocai, emocionado, tendo a seu lado uma banda repleta de grandes instrumentistas, como o baterista Pascoal Meirelles e os saxofonistas Nivaldo Ornelas e Idriss Boudrioua. Depois de deliciar a plateia com belezas instrumentais de sua autoria, como “Sucuri”, “Balada 45” e “Tudo de Bom”, além de homenagear Copacabana, bairro onde nasceu, com o sinuoso samba “Posto 6”, o compositor ainda chamou ao palco Daíra Sabóia, Clarisse Grova e Sanny Alves, para cantar “Na Boca do Sol”.



                                                    O percussionista Airto Moreira / Photo by Carlos Calado
Figura rara em palcos do país desde o final da década de 60, quando se radicou nos EUA, o percussionista Airto Moreira começou seu show com garra. Relembrou a beleza selvagem de “Lilia” – composição de Milton Nascimento, lançada no cultuado álbum “Native Dancer” (1972), em parceria com o jazzista Wayne Shorter – de cuja gravação original participou.

Pena que a participação da banda Eyedentity, que destaca a cantora Diana Booker (filha de Airto e Flora Purim) e seu marido, o também percussionista Krishna Booker, tenha ficado muito aquém do talento do grande mestre da percussão mundial. Misturando hip hop, baião, rock, trip hop e outras referências musicais, em seus improvisos, essa banda californiana exibiu um som híbrido e viajandão que, ironicamente, carece de identidade.

Um final meio morno para um festival que tem sabido explorar com sucesso toda a riqueza e a diversidade da música instrumental brasileira – sem radicalismo.

(texto parcialmente publicado na “Folha de S. Paulo”, em 24/10/2011)






 

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