Mostrando postagens com marcador maracatu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador maracatu. Mostrar todas as postagens

Vitor da Trindade: compositor e cantor elogia a negritude em seu primeiro álbum

|


Conhecido na cena musical como integrante do trio Revista do Samba, com o qual já gravou cinco discos, o percussionista, violonista e cantor Vitor da Trindade lança "Ossé" (edição independente), seu primeiro álbum individual. Presente em quase todo o repertório desse trabalho está sua referência maior: para compor 13 das 14 faixas desse disco, ele musicou poemas do avô, o pernambucano Solano Trindade (1908-1974), influente artista e ativista da cultura afro-brasileira.

Do contagiante maracatu “Maracatucar” à funkeada “Amor”, Vitor passeia por vários ritmos de ascendência negra. Canções como “Mulata” ou “Canto à Musa Crioula” elogiam a negritude, mas o viés social, tão característico da obra de Solano, também está presente. Trazendo vocais falados na linha do rap, “Rio” é umas das canções mais atraentes do álbum: acompanhados por muito suingue e humor refinado, os versos do poeta traçam um irônico olhar sobre a dinâmica social na Cidade Maravilhosa. 



Areia e Grupo de Música Aberta: improvisação e som instrumental com sotaque nordestino

|

                           Ivan do Espírito Santo (esq. para dir.), Walter Areia, Cássio Cunha e Julio Cesar  

Nos  Estados Unidos ou na Europa, a música instrumental do contrabaixista e compositor Walter Areia seria, certamente, rotulada como jazz. Mas o ex-integrante da banda recifense Mundo Livre S/A, expoente do movimento Mangue Bit, prefere chama-la de “música aberta”.

Formado em 2009, o quarteto liderado por Areia já nasceu com a consciência de que a improvisação não é um recurso de composição musical instantânea utilizado somente pelos jazzistas.

“O conceito de ‘música aberta’ dá nome a uma forma mais ancestral de improvisação, onde motes musicais reaparecem após cada solo – mesmo formato das pelejas entre cantadores da poesia popular nordestina”, justifica o baixista.

Como ele, os músicos do grupo trazem experiências com outros projetos e segmentos da cena musical de Pernambuco. O saxofonista e flautista Ivan do Espírito Santo também é arranjador e maestro da Orquestra Contemporânea de Olinda. O acordeonista Julio Cesar integra a SpokFrevo Orquestra. Cássio Cunha também é baterista da banda de Alceu Valença.  
 

“Ao Vivo”, segundo álbum do Areia e Grupo de Música Aberta, reúne seis faixas (todas compostas pelo líder) extraídas do DVD que o quarteto lançou em 2014. O áudio original foi remixado e remasterizado para download em formato digital de alta resolução.  


A presença do acordeom é essencial no conceito musical do grupo, não só como instrumento harmônico, mas também no sentido de trazer uma sonoridade levemente nordestina, diferente daquela que nos acostumamos a ouvir em quartetos de jazz com piano.  


O som encorpado do baixo acústico de Areia introduz a faixa inicial, “Maracatu de Baque Etereo”. A melodia revela um tom de melancolia, presente em outros temas do álbum, que o solo de Espírito Santo, improvisador criativo, dissolve.  

Em “Teus Pés”, é um contagiante ritmo de caboclinho que deflagra os improvisos de soprano e acordeom. “Do Início ao Fim de Tudo” chega como um vendaval, mas logo resgata a atmosfera melancólica. No solo, o acordeonista cita até um fragmento melódico da triste toada “Assum Preto” (Luiz Gonzaga).  

  Seja chamada de jazz ou de música aberta, o fato é que Areia e seus parceiros fazem música instrumental de qualidade, com um original sotaque nordestino. Com um pouco de sorte, esse projeto pode até leva-los a países que valorizam mais a música sem palavras.

(Resenha publicada na "Folha de S. Paulo", em 1º/06/2016)

Naná Vasconcelos, Zeca Baleiro e Paulo Lepetit: trio se diverte com a diversidade brasileira

|

                                              Ilustração para encarte do CD, baseada em fotos de Matthieu Rougé

Fruto da inédita parceria do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos com o cantor maranhense Zeca Baleiro e o baixista paulista Paulo Lepetit, artistas que já deixaram suas marcas em diferentes gêneros da música popular brasileira, o álbum “Café no Bule” (lançamento do Selo Sesc) logo envolve o ouvinte com sua descontração. O samba de terreiro “Batuque na Panela” antecipa o tom bem-humorado de outras faixas, como o coco-de-roda “Mosca de Bolo” ou o “Xote do Tarzan”.

Também chama atenção a diversidade rítmica do repertório, quase todo assinado pelos três parceiros, que vai de uma dançante ciranda (“Ciranda da Meia-noite”) a um maracatu com tiradas filosóficas (“Loa”), passando pelo afoxé “A Dama do Chama-Maré”, que ganhou tempero de reggae e um naipe de metais. Um disco que não nasceu da pretensão de criar canções rebuscadas, mas sim do prazer proporcionado por esse encontro musical. Prazer que também se estende ao ouvinte. 


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/03/2016)

Quinteto Violado: show, exposição e livro comemoram os 40 anos do grupo

|



Um dos grupos mais originais e longevos na história da música popular brasileira, o Quinteto Violado encerra neste fim de semana, na Caixa Cultural, em São Paulo, a temporada de espetáculos gratuitos em comemoração a seus 40 anos de carreira. Uma exposição multimídia sobre a obra do grupo integra o evento, que já percorreu outras quatro capitais do país.

A trajetória do Quinteto Violado pode ser apreciada também na recém-lançada biografia “Lá Vêm os Violados” (Edições Bagaço), do jornalista e crítico musical paraibano José Teles, autor de “Do Frevo ao Manguebeat” (Editora 34, 2000), entre outros livros sobre a música de Pernambuco.

Apoiando-se em entrevistas e vasto material de arquivo, Teles aborda em sua narrativa os 39 discos (muitos ainda não editados em CD), os espetáculos musicais e as turnês desse grupo pernambucano, que hoje conta com apenas um remanescente da formação original: o violonista e também paraibano Marcelo Melo.

Influenciado pelo seminal Quarteto Novo (de Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Théo de Barros e Airto Moreira), ao qual foi muitas vezes comparado, o Quinteto Violado estreou em disco, em 1972, já em meio a grande expectativa, graças a elogios do tropicalista Gilberto Gil amplificados pela mídia nacional.

“Mas o que é que o Quinteto Violado trazia em seu matulão para atrair tamanha atenção? A música da região nordestina, mais a pernambucana, com um tempero pop, palatável. Somente em Pernambuco poderia ter surgido um conjunto assim”, afirma o autor, destacando que um dos méritos do grupo foi ter divulgado, fora de seu Estado, ritmos pouco conhecidos, como o maracatu, a ciranda ou mesmo o frevo.

Teles também observa ao longo do livro que a música do grupo nem sempre foi bem compreendida pela imprensa do eixo Rio-São Paulo. Eram frequentes, por exemplo, as errôneas associações do Quarteto Violado ao Movimento Armorial, liderado pelo escritor e “guru” Ariano Suassuna. “Com exceção da utilização de elementos da cultura popular, nada convergia para a semelhança estética ou ideológica do QV com os Armoriais”, afirma o jornalista.

De sensação na cena musical brasileira dos anos 1970, o grupo pernambucano se viu relegado à produção independente, nas décadas seguintes, com menor exposição nacional, mas não desistiu. Já nos anos 1990, seu álbum “Quinteto Canta Vandré” (1997) voltou a atrair grande interesse no resto do país.

Bem recebido também foi o CD “Farinha do Mesmo Saco” (1999), no qual o grupo interpretou repertório de compositores da nova cena musical pernambucana, como Chico Science, Jorge Du Peixe, Fred 04, Ortinho e Lenine. Como já fazia desde 1972, o Quinteto Violado misturou mais uma vez, nessas gravações, tradição e contemporaneidade, imprimindo sua estética sonora. Não é à toa que continua a ser uma referência na música popular brasileira.


(texto publicado parcialmente na Folha de S. Paulo, edição de 7/04/2012)

 

"AfroBossaNova": Paulo Moura e Armandinho inserem ritmos afros em clássicos de Jobim

|

A inusitada introdução de “Chovendo na Roseira”, faixa de abertura do CD que o clarinetista Paulo Moura e o bandolinista Armandinho gravaram ao vivo, em 2008, já antecipa as intenções desses mestres da música instrumental. Aqui não há lugar para versões convencionais. Nem o fato de as 11 composições gravadas em “AfroBossaNova” (lançamento Biscoito Fino) serem de Tom Jobim (1927-1994) impede a dupla de tratar esse material com muita liberdade, nos arranjos e improvisações.

A clássica “Águas de Março” é atravessada por um frenético batuque africano, que se transforma em maracatu, forró e carnaval baiano. A romântica “Luiza” ressurge em um inventivo solo a capela (sem acompanhamento) de Moura. O samba “O Morro Não tem Vez” abre espaço para a vibrante percussão de Giba Conceição, Gabi Guedes e Nei Sacramento. Sem falar nas citações insólitas que Moura e Armandinho fazem em vários momentos, durante seus solos. Homenagens musicais não precisam ser reverentes.

(resenha publicada no "Guia da Folha Livros, Discos & Filmes", em 28/08/2009) 


 

Naná Vasconcelos: o maestro dos trovões rege maracatus no Carnaval de Recife

|

                                                              Capa do álbum "Amazonas", de Naná Vasconcelos

No início dos anos 1970, o percussionista Naná Vasconcelos encarou uma missão difícil: para se tornar solista, numa época em que o berimbau e outros instrumentos de percussão ainda eram considerados meros coadjuvantes, ele enfrentou preconceitos e narizes torcidos. Já nesta década, consagrado como um dos melhores instrumentistas do mundo, esse músico pernambucano tem assumido outro desafio na abertura oficial do Carnaval de Recife: reger centenas de ritmistas, em eventos que a cada ano têm atraído um número maior de foliões.

É isso que ele voltará a fazer no próximo dia 20, no Marco Zero, a maior praça da capital pernambucana. Ao comandar o encontro de 14 nações de maracatu, com mais de 600 ritmistas, Naná terá a seu lado, como convidados especiais, Caetano Veloso e o jovem pianista Vitor Araújo. Outra novidade do evento, neste ano, é uma homenagem ao povo nagô por meio de duas lendárias figuras da cultura afro-brasileira: a pernambucana Dona Santa, conhecida como a rainha dos maracatus, e a ialorixá baiana Mãe Menininha do Gantois.

“Os maracatus, que estavam quase desaparecendo, viraram centro das atenções de novo”, comemora Naná, que admite ter ficado receoso ao receber o convite da prefeitura local, para reger o primeiro encontro de maracatus, em 2002. A rivalidade entre as nações de maracatu é semelhante à que existe entre as escolas de samba cariocas ou paulistas, mas o prestígio do veterano percussionista contribuiu para que os maracatus aceitassem participar.

Enfrentando resistências
Mesmo assim, sete anos depois, o maestro ainda enfrenta algumas resistências. “Botar 14 maracatus para tocar juntos, cada um com seu sotaque, é um desafio danado, uma briga de foice. Para que todos possam tocar juntos, eu trago algumas convenções musicais que não fazem parte da tradição do maracatu. Peço licença aos mestres para trabalhar com seus discípulos, mas até hoje alguns deles ainda se recusam a usar o que passei para seus batuqueiros. Dizem que é ‘coisa do Naná’”.

Estimulado pelo conceito de “carnaval multicultural”, que tem regido a folia recifense nos últimos anos, Naná já experimentou diversos formatos sonoros, nesses encontros de maracatus. Já contou com uma orquestra, com uma banda sinfônica, até com uma banda de rock formada para a ocasião. E a exemplo do que fazia na década passada, quando era diretor musical do festival PercPan, passou a convidar estrelas da MPB, como Maria Bethânia, Marisa Monte e Elza Soares, para cantar com os batuqueiros.

Naná convive com os ritmos e tambores do maracatu desde a infância, em Recife. Dona Petronilha, sua mãe, esperava que ele adormecesse para sair com uma amiga atrás do maracatu. “Como não havia poluição sonora, naquela época, uma noite ouvi um ruído que parecia um trovão. Então pensei: ‘É trovão? Mas não está chovendo’. Essa cena marcou minha vida. Maracatu é trovão”, diz o percussionista, que obrigou a mãe a levá-lo para ouvir um maracatu pela primeira vez aos sete anos de idade.

Prestígio nos círculos do jazz
Ironicamente, o grande prestígio que Naná desfruta nos círculos do jazz e da música instrumental, tanto na Europa como nos Estados Unidos, onde viveu e atuou durante grande parte dos anos 1970 e 1980, nem sempre repercutiu à altura entre os executivos do mercado fonográfico brasileiro. É difícil de acreditar que um de seus discos mais cultuados, o inventivo “Amazonas” (lançado pela Philips, em 1973), não tenha sido relançado até hoje. Essa injustiça será reparada pelo selo paulista Museu do Disco (museudisco@ig.com.br), que promete lançar a primeira edição em CD do álbum no próximo mês.

“Acho que o ‘Amazonas’ assustou um pouco as pessoas, na época, porque não parecia com nada conhecido. Teve gente que até perguntou o que eu queria com aquilo”, relembra Naná, esboçando uma explicação para que esse álbum, o segundo de sua discografia solo, ficasse fora de catálogo por mais de três décadas. “Fizeram uma prensagem de umas 5 mil cópias, que foram vendidas, mas, como não tocava no rádio, ele foi engavetado”.

Naná já tinha uma carreira na Europa, quando veio ao Brasil, em 1973. Pensou em lançar aqui “Africadeus”, álbum gravado na França, um ano antes, que o introduziu como solista de berimbau. Mesmo com o entusiasmado aval do escritor Jorge Amado, não conseguiu convencer André Midani, diretor da Philips, a prensar seu disco, mas acabou assinando contrato para uma nova gravação.

Trabalhando sozinho
“Fiz quase tudo sozinho”, conta o músico, que compôs cinco das oito faixas do álbum, além de criar arranjos para dois temas do folclore africano (“Dhina Ô” e “Amazio”). A exceção é “Aranda”, composição do violonista Nelson Ângelo com o letrista Ronaldo Bastos, que Naná transforma em uma peça meio dramática, contando com um expressivo arranjo de cordas do próprio Ângelo.

Em outras faixas, o percussionista e compositor mistura seus vocais onomatopaicos com palmas, imitações de pássaros, assobios, berimbau, tambores e diversos instrumentos de percussão. Inspirada em canções de Luiz Gonzaga, “Coisas do Norte” combina fragmentos melódicos de aboios e lamentos nordestinos. “Cara com Cara” se apóia em ritmos emprestados do samba de roda e do coco.

Mas nenhuma das oito faixas se compara em irreverência a “Um Minuto”, que fecha o álbum. Aproveitando os recursos do estúdio, Naná gravou diferentes risadas que foram distribuídas pelos oito canais de som, como numa obra de música de vanguarda. “No meio da gravação, vi o técnico telefonar para alguém da gravadora, dizendo que eu estava doido”, relembra o compositor, rindo.

Não foi à toa que, após o lançamento desse disco, Naná viu os convites para tocar no Brasil rarearem. “Quase ninguém me chamava mais porque fiquei com a imagem de vanguardista, mas eu curtia isso”, diz, admitindo que, se ainda não tivesse iniciado a carreira no exterior, encontraria dificuldades para sobreviver. Quando voltou a tocar aqui, já em 1986, Naná não pensou duas vezes para desembolsar 200 dólares por um simples LP: uma cópia em bom estado de seu “Amazonas”, que já tinha virado raridade

(entrevista publicada no caderno cultural do “Valor Econômico”, em 13/02/2009)



 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB