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Bourbon Festival Paraty: mais próxima do blues, 11.ª edição manteve a variedade musical

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                                   A cantora Dawn Tyler Watson, um dos destaques do 11.º Bourbon Festival Paraty


Para quem teve, como eu, a oportunidade de acompanhar uma das primeiras edições do Bourbon Festival Paraty, foi fácil perceber o crescimento desse evento, cuja 11ª edição terminou no último domingo (12/5). De volta à bela cidade histórica do litoral fluminense, logo notei que o palco principal, instalado em uma grande tenda na Praça da Matriz, agora é mais amplo. Ao seu lado há uma outra tenda, com um bar e loja de souvenirs, que também pode proteger a plateia, no caso de uma chuva eventual.

“No início, nosso festival era mais jazz. Agora ele está mais blues”, comentou comigo Herbert Lucas,da equipe de produção do clube paulistano Bourbon Street, que programa e produz o evento desde sua primeira edição. Mesmo que as atrações de blues tenham sido em maior número neste ano, o Bourbon Festival Paraty segue com um perfil diversificado: não faltaram shows (todos gratuitos, vale lembrar) de jazz, soul music, r&b, música instrumental, MPB, até rock.


Logo na noite de abertura do festival, na sexta (10/5), a plateia já foi recebida com uma boa surpresa: a inglesa radicada no Canadá, Dawn Tyler Watson, que comandou um contagiante show de rhythm & blues. Em sua primeira passagem pelo Brasil, a cantora e compositora fez muita gente dançar e cantar, especialmente quando relembrou um clássico do gênero, “Let the Good Times Roll”, acompanhada pelo gaitista Marcelo Naves e a banda The Tigermen.

O blues também deu as caras durante o show de Zeca Baleiro (na foto ao lado), que fechou essa noite, aplaudido euforicamente por milhares de fãs. O compositor e guitarrista maranhense não só cantou “Blues do Elevador”, de sua autoria, contando com o apoio da plateia nos vocais, como relembrou alguns clássicos da MPB que flertam com o blues, como “Vapor Barato” (de Jards Macalé e Waly Salomão) e “Pérola Negra” (Luiz Melodia). Zeca ainda recebeu o bluesman e gaitista Sergio Duarte para uma calorosa canja, dividida com Tuco Marcondes, o eclético guitarrista de sua banda.

Já no sábado (11/5), o festival ofereceu sua noite mais longa e eclética. Na abertura, a música do Folia de TReis (na foto abaixo), formado pelo baterista Edu Ribeiro com o acordeonista Toninho Ferragutti e o bandolinista Fábio Peron, logo conquistou a plateia. O trio exibiu composições próprias de seu recente álbum “Folia de TReis” (lançado pelo selo Blaxtream), calcadas em ritmos e gêneros tipicamente brasileiros, como o choro, o frevo e o samba, além de muita improvisação. A vibração da diversificada plateia, que estava ouvindo pela primeira vez esse trio paulistano, sugere que a música instrumental brasileira está longe de ser um gênero musical elitista, como insistem alguns porta-vozes do chamado “mercado”.

Atração seguinte, o guitarrista Gui Cicarelli contagiou a plateia com seu tributo musical ao grande bluesman e guitarrista norte-americano Stevie Ray Vaughan (1954-1990), morto prematuramente em um acidente de helicóptero. Pena que o brasileiro tenha se excedido, tocando por mais de uma hora e meia, tempo demais para uma noite com três atrações. C
ontando com participações da cantora Bruna Guerin e do bluesman e gaitista Sergio Duarte, tocou até clássicos do repertório de Jimi Hendrix.  


Não fossem a alegria e o carisma de Clarence Bekker (um dos fundadores da popular banda Playing for Change), última atração da noite, na certa uma parte da plateia teria ido embora mais cedo. Entre os momentos mais quentes do show desse cantor e violonista radicado na Holanda, naturalmente, não poderia faltar o hit “Stand by Me”, com participação especial da jovem cantora paulista Bebé Salvego.

Com seus 15 anos, a talentosa Bebé já havia chamado atenção, cantando clássicos do jazz e da MPB, nos palcos menores que o festival costuma instalar em ruas do centro histórico da cidade. Esses palcos também exibiram uma programação diversificada — do blues do homem-banda Vasco Faé à black music do trio Madmen’s Clan.

Já no segundo maior palco do festival, instalado no largo da Igreja de Santa Rita, brilhou na tarde de sábado o Mani Padme Trio, um dos grupos mais criativos da cena jazzística paulista. Além de tocarem composições próprias que fazem parte do novo álbum do trio, o cubano Yaniel Matos (piano), Ricardo Mosca (bateria) e Sidiel Vieira (contrabaixo) recriaram com personalidade “Cais”, clássico do repertório de Milton Nascimento.

Uma pena, mas fui obrigado a abrir mão pelo menos três shows que gostaria de ter acompanhado na programação de domingo (12/5): o trio com Celso Pixinga, Faíska e Carlos Bala, veteranos craques do jazz brasileiro; o quinteto do guitarrista e cantor americano Mark Lambert com a cantora Amanda Maria; e o trio de jazz do grande pianista Kenny Barron com Nilson Matta (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria), cujo excelente show no Bourbon Street Music Club, três dias antes, cheguei a assistir e a comentar neste blog. Como eu poderia dizer a uma querida velhinha, que não iria comemorar com ela o Dia das Mães?


(Cobertura realizada a convite da produção do Bourbon Festival Paraty)


 

Bourbon Festival Paraty: paulistanos também apreciaram o piano elegante de Kenny Barron

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                                                                               O pianista norte-americano Kenny Barron

A plateia paulistana teve o privilégio de ouvir, na noite de ontem, no Bourbon Street Music Club, uma das principais atrações musicais da 11.ª edição do Bourbon Festival Paraty  evento que começa na tarde de hoje (10/5), na charmosa cidade histórica do litoral fluminense.

Muito bem acompanhado por Nilson Matta (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria), o grande pianista norte-americano Kenny Barron abriu a apresentação com a popular “All Blues” (de Miles Davis). Depois recriou com muita personalidade os standards “You Don’t Know What Love Is”, “I Remember April” e “Body and Soul”. O trio tocou também uma composição de Matta, o samba "Paraty", que o contrabaixista radicado em Nova York certamente voltará a apresentar no festival.

O Bourbon Fest Paraty vai até domingo, com extensa programação gratuita, em ruas e praças da área histórica da cidade. A MPB e o blues de Zeca Baleiro, o rhythm & blues da cantora inglesa Dawn Tyler Watson, a música instrumental brasileira do trio Folia de TReis, o swing do guitarrista Mark Lambert, o jazz contemporâneo do grupo Mani Padme, a 
soul music do cantor Clarence Bekker e o tributo do guitarrista Gui Cicarelli ao bluesman Stevie Ray Vaughan também se destacam entre as atrações do evento.

Mais informações no site do festival: www.bourbonfestivalparaty.com.br/


Isca de Polícia: banda paulistana lança outro álbum com influências de Itamar Assumpção

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Quem foi ao teatro do Sesc Pompeia, no último fim-de-semana, pôde comprovar que a influência do grande Itamar Assumpção (1949-2003) segue viva e inspiradora. Nos shows de lançamento do álbum “Isca Vol. 2: Irreversível” (selo Elo Music), a banda Isca de Polícia exibiu mais uma inédita coleção de canções marcadas pela estética musical e poética desse compositor, expoente da geração que ficou conhecida como Vanguarda Paulista. 

Formada atualmente por Paulo Lepetit (baixo elétrico), Luiz Chagas e Jean Trad (guitarras), Suzana Salles e Vange Milliet (vozes e vocais), além dos bateristas Marco da Costa (só no disco) e Vitor Cabral, a Isca de Polícia acompanhou Itamar em diversas fases ao longo dos anos 1980 e 1990. Mesmo com total credibilidade, essa banda paulistana só decidiu lançar em 2017 seu primeiro disco autoral (“Isca Vol. 1”).

Lepetit, o compositor mais ativo da banda, também é o autor mais frequente nas 10 faixas do novo álbum, cuja produção ele assina com Vange. Como no disco anterior, o repertório inclui parcerias do baixista com outros parceiros e admiradores de Itamar, como Arrigo Barnabé (“Consciência Contemporânea”, que ironiza o fascínio por procedimentos estéticos), Chico César (“Bolino”, que alfineta o conservadorismo da igreja católica), Alzira E (a romântica “Meus Olhos”) e Zélia Duncan (a funkeada “Se Não Tô Bem”).

Duas das canções levam a assinatura do próprio Itamar. “Beleléu Via Embratel” (composta para concorrer em um festival, nos anos 1980, mas não gravada até agora) lembra as clássicas “Fico Louco” e “Nego Dito”. Já a contagiante “Tomara” (parceria com Vange) soa como um adequado mantra para os pesados dias em que vivemos. “De morno pra beijo ardente /Depressão pra alto astral /Fênix onde doente /É o que desejo for all /Tomara seja pra sempre /É o que desejo for all”, ambicionam os versos.

Faixa inicial do álbum, a dançante “Danou-se” (de Lepetit e Luiz Chagas) também foi escolhida para abrir o show de lançamento, que inclui no repertório alguns sucessos de Itamar. Aliás, um show profissionalíssimo, que tem tudo – saborosos arranjos musicais, figurinos criativos e (o mais importante) excelente performance das vocalistas e dos músicos da banda – para fazer sucesso no circuito dos festivais de música ou em outros palcos pelo país.





Naná Vasconcelos, Zeca Baleiro e Paulo Lepetit: trio se diverte com a diversidade brasileira

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                                              Ilustração para encarte do CD, baseada em fotos de Matthieu Rougé

Fruto da inédita parceria do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos com o cantor maranhense Zeca Baleiro e o baixista paulista Paulo Lepetit, artistas que já deixaram suas marcas em diferentes gêneros da música popular brasileira, o álbum “Café no Bule” (lançamento do Selo Sesc) logo envolve o ouvinte com sua descontração. O samba de terreiro “Batuque na Panela” antecipa o tom bem-humorado de outras faixas, como o coco-de-roda “Mosca de Bolo” ou o “Xote do Tarzan”.

Também chama atenção a diversidade rítmica do repertório, quase todo assinado pelos três parceiros, que vai de uma dançante ciranda (“Ciranda da Meia-noite”) a um maracatu com tiradas filosóficas (“Loa”), passando pelo afoxé “A Dama do Chama-Maré”, que ganhou tempero de reggae e um naipe de metais. Um disco que não nasceu da pretensão de criar canções rebuscadas, mas sim do prazer proporcionado por esse encontro musical. Prazer que também se estende ao ouvinte. 


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/03/2016)

Zeca Baleiro: cantor aplica seu estilo vocal aos sucessos de Zé Ramalho

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Poucos compositores consagrados, como Zeca Baleiro, fariam o mesmo: dois anos atrás, o maranhense aceitou o convite para protagonizar um show inteiramente dedicado à obra do paraibano Zé Ramalho, do qual é fã declarado. Muitos não correriam o risco de ter suas interpretações comparadas às gravações originais.

“Chão de Giz” (lançamento Som Livre), o DVD que registra esse show, mostra que Baleiro se saiu bem. Mais contido que Ramalho, ele imprime seu estilo vocal a sucessos como “Admirável Gado Novo”, “Avohai” e “Beira-Mar”, além de lançar novas luzes a canções menos conhecidas do colega, acompanhado pela eficiente banda Cavalos do Cão.

A direção da cineasta Monique Gardenberg realça o tom sombrio das canções de Ramalho, usando vários recursos cênicos, incluindo um telão no qual são projetadas cenas de filmes épicos de Eisenstein e Godfrey Reggio. Entre o material extra, um clipe da canção “Garoto de Aluguel” traz Baleiro em cenas e trajes que suas fãs vão, provavelmente, apreciar.


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/08/2015)

Zeca Baleiro: compositor e cantor maranhense vai do funk ao rap, em 'Calma Aí, Coração'

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A primeira faixa soa como um chacoalhão no ouvinte. “Tanta pobreza humilhada / tanto canalha no topo / Você é feliz, ma non tropo / Porque nenhum bem lhe basta”, provocam os ácidos versos de “O Desejo”, um rap que põe os dedos em muitas feridas da sociedade contemporânea. É assim que Zeca Baleiro introduz o álbum “Calma Aí, Coração” (edição da gravadora Som Livre), gravado ao vivo, na casa noturna carioca Viva Rio.

Como grande parte do repertório deste CD foi lançada no anterior “O Disco do Ano” (2012), a versão em DVD oferece vários extras. Além das mesmas 12 faixas do CD, traz clipes das canções “Tatoo”, “Meu Amigo Enock” e “Calma Aí, Coração”, releituras dos sucessos “Babylon” e “Alma Não Tem Cor” (André Abujamra), e ainda entrevistas com parceiros do maranhense, como Frejat, Hyldon e Wado. Um show bem cuidado, em que a verve crítica de Baleiro chega ao clímax no sarcástico “Funk da Lama”, com direito até a uma hilária coreografia.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 26/7/2014)

Maria Alcina: irreverência e deboche em tempos 'politicamente corretos'

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Projetado pelo produtor Thiago Marques Luiz para comemorar os 40 anos de carreira da cantora Maria Alcina, em 2012, o álbum “De Normal Bastam os Outros” (lançamento do selo Nova Estação) só chega ao mercado dois anos mais tarde. No caso de uma artista irreverente e debochada como ela, que jamais seguiu a cartilha da normalidade, o atraso até faz sentido.

A inédita “Eu Sou Alcina” (de Zeca Baleiro) abre o álbum como um simpático cartão de visitas (“eu sempre fui mesmo da pá virada / safada fada fadada / a ser o que sou, pois é”, diz a letra). Do compositor Péricles Cavalcanti, o frevo “Dionísio, Deus do Vinho e do Prazer” também soa adequado na voz da cantora (“no meu reino não tem siso nem proibição”).

Mas é nas canções mais antigas e gaiatas que Alcina soa totalmente à vontade, no álbum. Como o samba-coco “Bigorrilho”, com versos de duplo sentido que ela divide com Ney Matogrosso. Ou a releitura de “Sem Vergonha” (Jorge Ben), que ela já gravara em 1992. Em tempos tão “politicamente corretos”, a descontração e o deboche de Maria Alcina chegam a ser necessários. 


(resenha publicada originalmente no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/3/2014)

Zeca Baleiro: compilação reúne parcerias do maranhense e faixas incluídas em novelas

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Quem acompanha a carreira do compositor e cantor maranhense Zeca Baleiro já se acostumou a ouvi-lo em parcerias eventuais, em discos de outros artistas. Tanto que ele acaba de lançar um segundo volume da compilação “Lado Z” (de 2007), que já havia reunido algumas de suas gravações ao lado de intérpretes e compositores de diferentes vertentes da música brasileira. As 13 faixas desta segunda antologia (lançamento do selo MZA) denotam, mais uma vez, a inclinação de Baleiro pela diversidade. Da ironia de sua canção “Você Só Pensa em Grana”, gravada em duo com Paulinho Moska, à balada rock “Proibida pra Mim”, ao lado da banda Charlie Brown Jr, essa série de parcerias inclui os cantores Fagner, Adriana Maciel, Nosly e Oswaldo Montenegro.

A compilação também inclui faixas criadas para trilhas de telenovelas ou projetos especiais. “Lado Z, vol. 2” corria o risco de soar como uma colcha de retalhos, mas o talento interpretativo de Zeca Baleiro o transforma, praticamente, em mais um disco de carreira desse artista. 


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 24/11/02)

Luiz Gonzaga: tributo em CD triplo mostra atualidade da obra do rei do baião

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Só pelo que fez em favor da música popular do Nordeste, exibindo toda sua diversidade rítmica e melódica ao apresenta-la a ouvintes de outras regiões do Brasil durante as décadas de 1940 e 1950, o influente sanfoneiro, cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989) mereceria ser homenageado diariamente. Porém, em tempo de vacas magras no mercado fonográfico, não fosse a comemoração pelo centenário de nascimento do popular “rei do baião” dificilmente veríamos gravações como estas chegarem agora às lojas.

Com produção de Thiago Marques Luiz, que já conduziu projetos semelhantes centrados nas obras de Adoniran Barbosa (1910-1982) e Ataulfo Alves (1909-1969), o álbum triplo “100 Anos de Gonzagão” (lançamento do selo Lua Music) reúne 50 itens do repertório do mestre da sanfona, entre clássicos sucessos e temas menos conhecidos pelo grande público, relidos por intérpretes de diversas gerações e vertentes da música popular brasileira.

O produtor paulista tem outra vez a seu lado o violonista Rovilson Pascoal e o baixista André Bedurê, responsáveis pela direção musical e arranjos do álbum. Os dois também tocam em várias faixas, contribuindo assim para uma relativa homogeneidade sonora, algo bem vindo em um projeto que envolve tantos artistas e gravações.

O repertório é organizado de maneira temática. Intitulado “Sertão”, o primeiro dos três CDs reúne 17 canções que remetem ao universo dos boiadeiros, da fauna e da flora sertaneja, dos emigrantes da seca. Os veteranos Dominguinhos (consagrado herdeiro de Gonzagão ao qual o projeto também é dedicado), Geraldo Azevedo, Ednardo e Anastácia abrem o álbum com uma animada versão da toada “Asa Branca”, a obra-prima de Gonzaga e Humberto Teixeira. 


 O tom de reverência predomina em diversas versões, como as de Zezé Motta (“A Vida do Viajante”), Amelinha (“Légua Tirana”), Anastácia e Osvaldinho do Acordeon (“A Feira de Caruaru”). Mas também há releituras bem pessoais, como a de Chico César (na foto ao lado), que dialoga com sua guitarra no baião “Pau de Arara”, ou a do grupo Vanguart, que injeta melancolia na toada “Assum Preto”.

“Xamêgo”, o segundo CD, exibe canções de temática amorosa, algumas abordadas com mais liberdade. A começar pela debochada Maria Alcina, que transforma a faixa homônima em um hilariante carimbó de duplo sentido. O grupo nova-iorquino Forró in the Dark também brinca com a sensualidade de “O Cheiro da Carolina”, num arranjo que combina sopros e ruídos eletrônicos. Agrupadas ao final desse volume, as cantoras Vânia Bastos, Célia e Maria Creuza aproximam a marcha “Olha Pro Céu”, o baião “Roendo Unha” e a valsa “Dúvida”, respectivamente, do universo mais sofisticado da MPB. 


É no CD “Baião” que estão as releituras mais livres, ou mesmo mais irreverentes, do álbum. O clássico “Respeita Januário” soa como um blues eletrificado, na descontraída versão de Zeca Baleiro (na foto ao lado). Recriado por Márcia Castro, o baião “Paraíba” ganha batida e sonoridades de rock. Já o coco “Siri Jogando Bola” remete ao som retrô da Jovem Guarda, na releitura de China. Mas a maior surpresa vem em “Baião de Dois”, com a bossa novista Claudette Soares revivendo a época em que foi chamada de “Princesinha do Baião”, em saboroso arranjo do B3 Organ Trio.

O álbum termina com o dançante “Madame Baião”, gravado em Nova York pela banda Nation Beat, num original arranjo que mistura clarinete, rabeca e guitarra. Mais uma prova de que, décadas depois de conquistar o Brasil, o baião de Gonzagão continua a ser cultuado até na terra de Tio Sam.


(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 28/09/2012)

Festival Paraty Latino: Omara Portuondo, Lopez-Nussa e outras saborosas atrações

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                                                                     A cantora cubana Omara Portuondo

As simpáticas ruas de pedra de Paraty, cidade histórica do litoral fluminense, voltam a receber por três dias um elenco de conceituadas atrações internacionais e nacionais de diversas vertentes da música latina. De 4 a 6/11 acontece a segunda edição do Festival Paraty Latino, que oferece 20 shows gratuitos, ao ar livre, em palcos instalados na praça da Matriz e na praça Santa Rita.

Maior estrela desse evento, a veterana cantora cubana Omara Portuondo retorna ao Brasil à frente da Orquestra Buena Vista Social. Traz seu conhecido repertório, recheado de boleros clássicos, que a transformaram em estrela mundial, ainda no final da década de 1990, ao integrar o cultuado coletivo musical Buena Vista Social Club.

De Cuba também é o jovem pianista Harold Lopez-Nussa, revelação do jazz e da música instrumental. Ele vai dividir o palco com o violonista e compositor paulista Swami Jr., um de nossos músicos mais versáteis e criativos, que acaba de lançar o belo álbum “Mundos e Fundos”.

                                                                         O pianista Harold Lopez-Nussa

Também de origem cubana é o cantor Fernando Ferrer, que participou da primeira edição desse festival. Sobrinho do cantor Ibrahim Ferrer (1927-2005), já integrou grupos de prestígio no gênero, como o Cubanismo, e tem rejuvenescido a tradição do “son” e de outros gêneros da música cubana.

No elenco nacional, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro promete mais uma animada versão de seu Baile do Baleiro, dessa vez com participação especial da cantora Marina De La Riva. Já o cantor e compositor carioca Paulinho Moska vai reencontrar o argentino Lisandro Aristimuño, com o qual tem se apresentado em outros países da América do Sul.

A programação inclui ainda outras saborosas atrações musicais, como o grupo argentino Violentango, o cantor chileno Pedro La Colina & Grupo Cañaveral, o trio uruguaio La Soleá, o pianista cubano Pepe Cisneros e a cantora peruana Adriana Mezzadri. Vale repetir, tudo de graça.

Outras informações no site do festival: paratylatino.com.br/

Mathilda Kóvak: compositora lança ópera-rock em livro para adolescentes

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Desde a década de 80, quando começou a chamar atenção como uma enfant terrible do pop nacional, Mathilda Kóvak compôs centenas de canções, algumas gravadas por Zeca Baleiro, Ed Motta, Fernanda Abreu, Pedro Luís, Rita Lee e Suely Mesquita, entre outros intérpretes. Nos últimos anos, além de ter escrito uma pequena biografia do compositor Lamartine Babo (1904-1963), dedicou-se mais à literatura infantil.

No próximo domingo (2/10), a compositora e escritora niteroiense lança – na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro – seu primeiro livro dirigido ao público adolescente: “A Maldição da Rainha do Rock” (Escrita Fina Edições). Nesta entrevista, ela comenta alguns de seus trabalhos musicais, critica a cena atual da MPB, justifica sua admiração pela inglesa Amy Winehouse e expõe as referências que inspiraram seu livro.


                                                A capa do quadrinista César Lobo
 
A história de seu novo livro, “A Maldição da Rainha do Rock”, me fez lembrar um filme que eu curti bastante, na década de 70, “O Fantasma do Paraíso” (Phantom of the Paradise, 1974). Dirigido pelo norte-americano Brian de Palma, ele transformou o romance “O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leroux, em uma divertida ópera-rock. Esse filme está entre as referências de seu livro? Pode falar sobre elas?
Mathilda Kóvak - Eu adoro "O Fantasma do Paraíso", que foi, sim, uma das referências para a criação deste livro. Eu vi esse filme, nos anos 70 mesmo, num cinema cheio de adoradores de rock’n’roll, no Rio de Janeiro, numa sessão da meia-noite. Esse filme e outras óperas-rock me inspiraram, porque, como digo no livro, ele é a primeira ópera-rock literária de todos os tempos. Eu me inspirei também em "Rock Horror Picture Show", que vi num cinema de Nova York, com todas aquelas pessoas singing along, reproduzindo o que se passava na tela. Eu me lembro que, na época, pensei que aquilo seria o cinema do futuro. Algo interativo. E, claro, me inspirei em "Hair", "Jesus Christ Superstar" e em musicais mais antigos, da Metro e de Fred Astaire. Eu adoro musicais também. E meu sonho sempre foi escrever libretos. De certo modo, este pequeno livro foi uma espécie de realização-mirim deste sonho, embora ele seja mesmo um romance destinado ao público adolescente. Mas um romance musical, de todo modo.

Você já trabalhou em publicidade e em rádio e TV, é compositora, letrista, cantora, humorista e roteirista, mas nos últimos anos tem se dedicado com mais frequência à literatura para crianças e adolescentes. Como você explica – se é que existe alguma lógica – essa sua trajetória no campo cultural? 

Mathilda - Não existe exatamente uma lógica, mas eu diria que existe um denominador comum a tudo o que criei em diferentes frentes, que é o meu estilo. Depois de mais de 30 anos de profissões, eu posso dizer que tenho uma marca-registrada, que meu texto pode ser identificado como de minha autoria, por quem quer que o leia, tanto faz se é uma letra, um roteiro, um livro, é a mesma narradora. Cantar foi só uma forma de tornar mais direta esta narrativa. Porém, eu ainda quero me aventurar em outros campos, como a ciência e, neste livro, de certo modo, eu me exercitei um pouquinho nisto, porque ele também tem elementos de science fiction. Eu tenho uma alma de cientista. Gosto de experimentar. E, de alguma maneira, transitar por diferentes canais de expressão, foi uma espécie de pesquisa científica para mim, uma vez que os espécimes que encontrei, neste longo e diversificado caminho, eram dignos de classificação em compêndios de biologia e congêneres (risos).
Escrever para crianças é uma atividade que me acompanha, desde 1989, ou seja, há 22 anos. Minha estreia na literatura para adolescentes vem justamente com este livro. Um convite da Laura Van Boekel, da Escrita Fina, que me conhecia da Rocco, onde editei um livro infantil, "A Caixa da Pandura". Eu recebi algumas encomendas, ao longo desses anos, para escrever para adolescentes, só que não conseguia porque achava isso muito limitado, ao contrário do que ocorre na literatura infantil, que é solta, livre e lúdica. Mas os adolescentes do século XXI se parecem comigo e, portanto, foi mais fácil entrar no universo deles. Enfim, fora minha atividade como jornalista, que você se esqueceu de mencionar (risos), nunca planejei uma carreira específica. Eu sempre fui respondendo a convites.
Eu acho que, por uma razão que eu não sei até hoje explicar, sempre fui considerada uma mulher inteligente e original, que ninguém sabia exatamente para que servia e, portanto, eu era convidada a realizar coisas em diferentes áreas, porque achavam que eu tinha algo a comunicar. Até hoje isto acontece. Eu recebo convites para escrever para teatro, ou mesmo para me apresentar num teatro, e eu pergunto: "Mas fazendo o quê?". E me respondem: "o que você quiser". Eu nunca fui do tipo que batalha por nada, porque sou muito preguiçosa. Eu respondo a estímulos. E assim eu vou experimentando minhas ideias, que independem do meio, para existir.
Talvez eu me aventure no teatro também. Mas quero fazer alguma coisa diferente do que já foi feito, porque esta é também minha marca registrada. Talvez por não ser uma especialista em nada, quando sou chamada a realizar algo, eu faço diferente, mais por incompetência, do que propriamente por compromisso com a originalidade (risos). Fui chamada recentemente, por uma curadora de artes plásticas, para fazer uma exposição num centro cultural em SP. Eu tive a ideia de fazer uma exposição sobre mim mesma intitulada: "Mathilda Kóvak, a obra póstuma de uma artista viva". Eu tenho 52 anos, e acho que até hoje existem pessoas que pensam que eu sirvo para alguma coisa, mas não sabem exatamente o quê. Eu mesma me considero apenas uma boa redatora.

 
Não sei se você concorda, mas me parece que no cinema norte-americano das últimas décadas é marcante uma tendência à infantilização do espectador. Não é à toa que a maioria dos filmes de hoje produzidos em Hollywood, muitos calcados em super-heróis e histórias para crianças, parecem ser feitos para que as famílias possam ir com os filhos ao cinema. Obviamente, para que tantos os adultos como os adolescentes e crianças apreciem o mesmo filme, a solução é rebaixar, infantilizar o conteúdo. Como você vê essa questão? É a indústria que tenta transformar o público em criança, fazendo filmes feitos para serem vistos com um balde de pipoca e um barril de refrigerante na mão? Ou o ser humano que estaria sofrendo de uma espécie de síndrome de Benjamin Button?  

Mathilda - Na verdade, quando a indústria do entretenimento descobriu que existia um segmento adolescente, há mais ou menos 30 anos, que era capaz de consumir, em doses industriais, tudo o que fosse destinado a ele, começou a investir nele, maciça e massivamente. Este fenômeno veio acompanhado de pesquisas de marketing, que sempre existiram, mas que, ao se voltar para um público ainda em formação, tornaram a indústria ainda mais servil. Em vez de trazer conhecimento a este público, a indústria de massa começou a buscar nele elementos que pudessem atraí-lo. De certo modo, isto não apenas infantilizou o público, em geral, como contribuiu para a imbecilização dos adolescentes. Mas a sociedade norte-americana, berço dessa indústria, sempre teve uma tendência ao brinquedo, à infância eterna. Americanos não gostam de pensar na morte e, por esta razão, vivem uma infância de muitas décadas, como se pudessem adiar a finitude, recusando-se a crescer. Isto não é novidade. Peter Pan tem quase um século de existência.
O que é mais recente é o fato de que a indústria do cinema, principalmente, tenha se voltado para um único público, praticamente, ignorando o resto. Talvez porque este público de pais já tenha sido parte do início deste processo. Eu me lembro que, nos anos 70, quando eu era adolescente, a indústria começou a ensaiar os primeiros passos neste sentido. Eu fui uma adolescente que lia Dostoievsky, Tolstoi, Kafka, Thomas Mann e via filmes de Bergman, Fellini, os filmes noir da década de 40, enfim, eu não era exatamente uma adolescente típica de uma cidade balneária. Creio mesmo que ainda não existisse esta ideia de se criar algo exclusivamente destinado ao público adolescente, a não ser por um outro filme ou livro, que não tinham maior expressão. Mesmo o adolescente mais imbecil, da minha época, tinha uma certa cultura. Acho que foram Spielberg, George Lucas e derivados, que começaram com a teenmania. Porém, é interessante notar que agora, ainda que exista um público adolescente, que consuma produtos como "Crepúsculo," existe um outro público paralelo, surgindo talvez em virtude do aparecimento da internet, que funciona um pouco como máquina do tempo, e este segmento é mais criativo e exigente.
O meu livro foi construído a partir de pesquisas, junto a estes adolescentes, em seus blogs, no convívio com eles. Para ser sincera, eu tive que reescrever o livro todo, depois desta pesquisa, porque ele estava muito bobo antes. Existem adolescentes no século XXI, que andam colocando adultos no chinelo, em termos de conhecimento e criatividade. Digo, sem nenhuma demagogia, ou teenagogia, que aprendi muito com esses adolescentes e espero aprender muito mais. E acho mesmo que esta subserviência teen não vai durar muito tempo ainda, porque os adolescentes mesmos vão se tornar cada vez mais exigentes, com o que andam assimilando na internet. Estou quase convencida de que toda esta produção infantilizada atingiu o seu paroxismo e que, a partir de agora, vai começar a declinar. O Benjamin Button, por sua vez, veja você, foi escrito pelo Fitzgerald, na era do jazz. O filme já é uma infantilização do conto, que, aliás, não tem absolutamente nada a ver com o filme. Eu não sei se o ser humano está sofrendo de uma síndrome de Benjamin Button, mas os produtores de cinema de Hollywood certamente estão. E estão se ferrando por isto. As séries norte-americanas que apostam em temáticas mais adultas são muito mais bem-sucedidas do que os filmes. Ainda assim, acho que é possível criar para adolescentes, sem cair no tatibitati.

No final da década de 90, ao cobrir o New Orleans Jazz & Heritage Festival, na Louisiana (EUA), tive o prazer de conhecer e entrevistar Katrina Geenen, cantora e produtora de rádio, que lançou em 2001 o álbum “High & Low”, interpretando 11 canções de sua autoria – algumas em versões bem jazzísticas. Como foi essa experiência com ela?  

Mathilda - A Katrina é uma das maiores cantores e artistas que conheço. Ela tem uma voz que não se parece com a voz de nenhuma outra cantora e um jeito de interpretar muito particular também. Foi algo realmente mágico este nosso encontro. Ela queria gravar um cd e não achava um repertório inédito com o qual se identificasse e, um dia, na casa de Rita Peixoto, uma excelente cantora brasileira, ela ouviu algumas músicas de minha autoria compostas originalmente em inglês, e quis fazer um disco inteiro só com composições minhas. Eu, por minha vez, procurava uma intérprete de língua inglesa para essas canções. Assim, ela convidou o Paulo Baiano, que havia produzido o meu CD, e fez um songbook de minha obra anglófona (risos). O CD foi muito bem acolhido pela crítica, em New Orleans. Fui comparada a Derrida e louvada como uma letrista do padrão de um Cole Porter. Eu fiquei bastante envaidecida, claro, com os elogios, e acho mesmo que minhas letras em inglês são superiores às em português, porque, como meu vocabulário em inglês é menor, eu escolho as palavras certas e tenho mais poder de síntese. Além disto, minha formação foi constituída através de canções em inglês, muito mais do que em português, porque sou uma fanática pela música americana, de todo o século XX.
 
Conheci seu trabalho musical em 1990, na época em que você era a líder da banda pop Os Mathildas, de breve duração. Com todo esse revival de bandas dos anos 70 e 80, vocês já pensaram em rearticular os Mathildas?  

Mathilda – (risos) Bom, eu até que gostaria muito de reunir o Mathildas, mas dois de seus integrantes moram, há 18 anos, nos Estados Unidos. O que fiz foi reunir, com o Pedro Montagna, baixista da banda, e um dos donos da Livraria da Travessa, onde farei o lançamento do livro, várias gravações da banda, que somam mais de 40 canções. A ideia é masterizar e lançar num CD. O trabalho com Mathildas é um dos que mais gosto. Eu até hoje, quando o ouço, acho que antecipamos muita coisa. Esta banda teve excelente acolhida da crítica, tanto no Rio, quanto em São Paulo e Belo Horizonte. Chegamos a ter um contrato com a WEA. Nunca vou me esquecer da cara do Liminha, quando ele ouviu a gravação de "Com a Macaca", a música de trabalho, no estúdio Nas Nuvens. Ele ouviu, perplexo, e disse: "Nossa, muito doido. Muito bom. Não se parece com nada que eu já tenha ouvido antes". E realmente não se parecia (risos). E sabe o que era o ritmo que intrigou o produtor? Um exercício de baixo, sobre o qual eu coloquei uma letra, criada por mim e pela Patricia Wuillaume, tecladista da banda, durante a projeção do filme do Caetano Veloso, no Fest Rio. O Arthur Omar, que tinha sido meu professor de cinema, se levantou na sala de projeção e gritou: "Esse filme é uma merda". Eu disse, então, para a Patrícia: "Nossa, ele tá com a macaca". Aí a gente fez a letra, ali mesmo, com as pessoas ao lado, fazendo: "psiu, psiu." Mas o filme era muito chato e a gente se distraiu inventando uma letra.

Como você encara a cena musical de hoje no Brasil? É uma época criativa?  

Mathilda - Se você pensar em mainstream, é, sem dúvida, a pior época da música no Brasil. Mas o circuito alternativo apresenta trabalhos bons e criativos, como o trio Sinamantes, da minha parceira Natalia Mallo, a Claudia Dorei, ambas de SP, ou bandas de rock´n roll formada por meninas, como algumas que participaram do CD “Mrs. Lennon”, em homenagem a Yoko Ono, no qual fiz uma faixa. Há também bandas de adolescentes muito interessantes aparecendo. Eu conheci um músico de Niterói, de 17 anos, que me deixou muito impressionada. Ele se chama Caio Mazur. Suas letras se parecem muito com as letras do Mathildas. Falam de morte, suicídio e outros temas pesados, com bom humor. O Theo Cunha, que tem 15 anos, também é uma promessa da música, para mim. Ele, aliás, inspirou um dos personagens do livro. Existe também um menino, que eu conheci, quando ele tinha 12 anos, o Diogo Strausz, que hoje tem 21 anos e é um guitarrista fenomenal de rock. E já ouvi falar muito bem de bandas de rock’n’roll, que andam aparecendo na periferia de SP. Acho que a internet trará à tona muita gente criativa na música de todos os lugares.
Agora, essa chatice de MPB, com cantoras que primam pela sensaboria, ou fórmulas reeditadas há quatro décadas, realmente, é insuportável. Acho que a última leva de gente criativa, na música brasileira, veio mesmo com o rock dos anos 80 e se estendeu ao início dos 90, com bandas como a minha, Mulheres Negras, Luni e similares. O que veio depois foi um decalque da Tropicália, do qual eu fiz parte também com o Retropicália, O Ovo e Bolsa Nova, cujos integrantes, com raras exceções, caíram na mesmice. O problema do Brasil é que se criam, desde os anos 60, uns feudos, umas glebas, que contribuem para o afunilamento do mercado. Por fim, a atitude desses artistas, que não querem largar o osso, acaba por ser burra, porque o mercado se empobreceu de uma tal forma, que eles mesmos, o senhores feudais do nosso cancioneiro, estão sofrendo os prejuízos. A concorrência é a alma do bom negócio. Se você não tem desafios, se você é hegemônico, você não cresce como artista. E o mercado, por sua vez, também passa a sofrer de nanismo artístico.


Quem acompanha suas intervenções no Facebook sabe que você é fã ardorosa de Amy Winehouse. Sei também que você gosta de jazz e blues. O que você tem ouvido de bom nos últimos tempos?   

Mathilda - Eu acompanho este seu blog e pesquiso suas indicações, porque você sempre indica boas novidades, no jazz e no blues. A Amy Winehouse foi realmente a única cantora que me sensibilizou nos últimos anos. Não apenas por ser uma intérprete fantástica e uma compositora genial, mas por sua atitude iconoclasta. Eu realmente achei, quando ela ganhou todos aqueles Grammys, que iria haver uma guinada no mercado, saturado de Madonnas e seus carbonos. A Madonna deu início à saga das cantoras-executivas, das agências de publicidade cantantes, das marqueteiras. Nunca foi uma artista de verdade. Quando a Amy surgiu, eu e muita gente pensamos: "Até que enfim".
Sinceramente, eu custo a crer que ela tenha cumprido esta sina dos 27 anos. Chego a pensar mesmo numa armação de gravadora ou algo parecido. Era muito óbvio. Dizem que ela deixou 30 gravações inéditas. A julgar pela que saiu no CD do Tony Bennett, e pelo que eu vi aqui, no show dela, ainda teremos material de Amy Winehouse muito superior ao de qualquer outra cantora branca contemporânea. Digo branca, porque não dá pra concorrer com as cantoras negras, que são as melhores de todas. Mas Amy Winehouse tinha alma negra e parecia receber mesmo o espírito de divas do soul e do jazz. E, de qualquer maneira, ela era ainda uma compositora extraordinária, com letras extremamente pessoais e uma musicalidade infinita. Ela me comove, me emociona muito.
Agora, eu ando com mania também de ouvir Kate Bush. Na era punk, de onde vim, eu tinha que esconder que gostava dela. Hoje em dia, os fãs de Kate Bush saíram do armário, inclusive, o sex pistol John Lydon. Ela é uma compositora muito original e uma cantora que também tem uma personalidade singular. Tenho ouvido o CD “Red Shoes”, que já é antigo, mas que comprei recentemente. Tenho ouvido bastante também o Saara Saara, uma banda independente liderada por um artista muito criativo, Servio Tulio, que também tem um trabalho muito interessante, chamado Kabarett Berlin. Ouço também, na Rádio Roquete Pinto FM, na internet, o programa “Geléia Moderna”, que sempre apresenta uma infinidade de gente boa do mundo todo, de que infelizmente não tenho mais cabeça para decorar os nomes. E ouço bastante música clássica, na rádio MEC FM. E ouço algumas rádios da internet, quando me mandam links. Eu recebo indicações musicais muito boas, tanto contemporâneas, quanto antigas, mas pouco conhecidas, via internet.
Eu perdi a vontade de fazer música, porque, mesmo que eu ficasse 24 horas por dia, só ouvindo música, eu não conseguiria ouvir tudo de bom que é ou foi produzido no mundo. Apesar de o mercado, sobretudo no Brasil, ter se estagnado, a música está aí, na internet, pra quem quiser ouvir, e de graça. Eu acho isso maravilhoso. E tenho muito orgulho de ter tido uma de minhas canções, "Resurrection", numa lista das mais baixadas da internet. Meu CD, "Mahatmathilda, a Evolução de Minha Espécie", também foi pirateado nos quatro cantos do mundo. Meu primo entrou numa loja, que ele me disse ser a mais chique de Barcelona, e deu de cara com uma edição pirata do meu CD. Eu acho tudo isto uma insurreição. Adoro ser contrabandeada deste jeito. Acho muito melhor do que ser roubada por uma gravadora major, ou pelo ECAD, e ainda tenho planos de criar um site para disponibilizar todas as mais de 700 canções que compus, para quem quiser baixar. Por mim, a arte seria distribuída de graça e os artistas seriam bancados por fundações. Talvez estejamos caminhando para isto. Como disse Nietzsche, tem que haver o caos para que dele surja uma fulgurante bailarina.




 

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