Allen Toussaint: atração do Bourbon Street Fest, compositor faz primeiros shows no país
Marcadores: Allen Toussaint, bourbon street music club, Dr. John, elvis costello, entrevista, huey smith, jazz, professor longhair, ryhthm and blues, soul | author: Carlos CaladoDurante cinco décadas ele atuou nos bastidores, compondo canções, escrevendo arranjos e produzindo discos. Por isso, é bem provável que você ainda não tenha ouvido falar em Allen Toussaint, mas pergunte sobre ele a figurões da música pop, como Elvis Costello, Paul Simon ou Paul McCartney, com os quais ele já trabalhou. Todos admiram esse cultuado pianista e compositor de Nova Orleans.
Pela primeira vez no Brasil, Toussaint, 76, será a principal atração da abertura do 12º Bourbon Street Fest, hoje, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. Também vai se apresentar no teatro Oi Casa Grande (dia 18, no Rio) e no Bourbon Street Music Club (dia 19, em São Paulo).
“Quando morei em Nova York, ouvi músicos brasileiros e todos eram ótimos”, diz o pianista norte-americano, em entrevista exclusiva ao Música de Alma Negra. “Essa é uma das razões que me deixam ansioso por conhecer esse país. Acho que o Brasil costuma inspirar boa música”.
Toussaint deixou Nova Orleans, em 2005, quando sua cidade foi devastada pelo furacão Katrina. Ironicamente, a tragédia resultou em uma inusitada reviravolta em sua carreira. Em Nova York, passou a fazer shows de piano solo, no clube Joe’s Pub, onde tomou gosto pelo palco. Desde então suas aparições em festivais de jazz ou na TV só têm aumentado.
“Eu sequer imaginei que um dia estaria sozinho num palco, porque sempre me senti confortável nos estúdios de gravação. Só posso dizer que essa nova situação tem sido gratificante e fico feliz por isso”, comenta o produtor, que já trabalhou com músicos de alto quilate, como Eric Clapton, John Mayall, Etta James, Dr. John, Irma Thomas, Aaron Neville e as bandas The Meters e The Band.
O álbum mais recente de Toussaint, “Songbook” (selo Rouder, 2013) tem um tom autobiográfico. Gravado ao vivo, no Joe’s Pub, reúne não só algumas de suas canções mais populares, como “Southern Nights”, “It’s Raining” e “Soul Sister”, mas também revela a diversidade de sua obra, que abrange diversos gêneros, como o rhythm & blues, o soul, o funk e o jazz.
“Acho que esse álbum reflete a variedade musical que sempre marcou a minha vida. É encantador ter a oportunidade de tocar para plateias que me dão licença para exibi-la e sabem apreciar todos esses gêneros musicais”, comenta o compositor.
A modéstia de Toussaint também se manifesta quando a conversa traz à tona o nome de seu mentor musical: o influente pianista e compositor Professor Longhair (1918-1980), pioneiro do rhythm & blues de Nova Orleans.
“Sou um discípulo do Professor Longhair. No que concerne à música de Nova Orleans, ele é uma espécie de rei. Fico feliz quando dizem que fui influenciado por ele, porque através de mim Professor Longhair continua vivo. Eu, Dr. John e Huey Smith, assim como outros discípulos do Professor em Nova Orleans, vamos continuar honrando sua memória”, afirma.
Quase dez anos após toda a destruição e as mortes desencadeadas pelo furacão Katrina, Toussaint se diz bastante otimista em relação ao cenário musical de sua cidade.
“A música produzida hoje em Nova Orleans vive uma fase muito melhor do que em outras épocas. Mexe com o meu coração pensar em quantas pessoas, não só nos EUA, mas em todo o mundo, tentaram ajudar a cidade porque ficaram consternadas. Como seres humanos, saímos rejuvenescidos daquela tragédia. O Katrina foi um batismo e uma benção para nós”, conclui o compositor.
Diana Krall: sussurrando e derrapando no português, em "Quiet Nights"
Marcadores: bossa nova, burt bacharach, claus ogerman, diana krall, elvis costello, jazz, stacey kent, tom jobim | author: Carlos Calado
Diana Krall e outros cantores estrangeiros, que têm insistido em gravar em português, precisam conversar urgentemente com a cuidadosa Stacey Kent. Também uma fã assumida da música brasileira, essa norte-americana declarou, quando se apresentou aqui, no ano passado, que só pretende cantar em português depois de estudar a sério nossa língua e dominar sua pronúncia.
Por mais que sejam boas as intenções de Diana, sua suposta homenagem à música brasileira quase se transforma em piada, ao se ouvir tantas derrapadas na pronúncia dos versos da canção “Este Seu Olhar” (faixa do novo CD "Quiet Nights"). Suas tentativas de decalcar o sotaque carioca chegam a ser hilariantes. Tom Jobim, autor dessa canção, não merece. Nem mesmo os fãs brasileiros da cantora merecem ouvir algo assim.
Esse não é o único senão de “Quiet Nights”, que, de maneira geral, soa como uma seqüela pouco inspirada do álbum “The Look of Love” (2001). A começar pelo repertório um tanto óbvio, que inclui um costumeiro Burt Bacharach (“Walk on By”) e standards da canção norte-americana que já foram gravados centenas de vezes, inclusive de maneira mais criativa, por outros intérpretes do jazz.
Naturalmente, os arranjos do experiente Claus Ogerman ajudam a criar uma aura de consistência sonora, mas será que Diana pensou que só por ter transformado “Garota de Ipanema” em “The Boy from Ipanema” já conseguiu imprimir algo de novo a uma canção tão desgastada por décadas de redundância?
Outro aspecto que incomoda é a maneira como ela canta nessas gravações, quase sussurrando, com a voz mais grave do que em outros álbuns. A intenção da cantora é, obviamente, soar mais sensual, mas o resultado não convence, soa meio falso. Será que Elvis Costello levou a sério essa “carta de amor”?
(publicada na “Folha de S. Paulo”, em 8/04/2009)
Diana Krall: mais bossa nova e standards do jazz
Marcadores: claus ogerman, diana krall, elvis costello, jazz, quiet nights, tom jobim, woody allen | author: Carlos Calado
Não é apenas nas altas rodas da economia internacional que o Brasil vem ganhando destaque. Cultuada por nove entre dez estrelas da cena contemporânea do jazz vocal, a bossa nova também dá o tom a “Quiet Nights”, novo CD da cantora e pianista canadense Diana Krall, 44.
Em entrevista à “Folha”, por telefone, a intérprete definiu esse álbum como “uma carta de amor” dedicada a seu marido, o músico de rock Elvis Costello, e aos filhos Dexter e Frank, de 2 anos. “Agora eles já estão mais crescidos e eu não preciso cuidar deles o tempo todo. Adoro ter uma família que me inspira. Não quero pensar só em música”, disse.
Familiar também é o time que assessorou a cantora nessa gravação. Não à toa, ela convocou o arranjador Claus Ogerman, o produtor Tommy LiPuma e o técnico de som Al Schmidt, que já haviam participado de seu best-seller “The Look of Love” (2001), igualmente calcado na bossa nova.
Clássicos de Tom Jobim, como “Garota de Ipanema” (transformada em “The Boy from Ipanema”) e “Corcovado” (na versão “Quiet Nights”), dividem o repertório com standards da canção norte-americana, como “Where or When” (Rodgers & Hart) e “Too Marvelous for Words” (Johnny Mercer), em ritmo de bossa.
Contagiada pelos dias que passou no Brasil, no ano passado, Diana até se arriscou a cantar em português (na faixa “Este Seu Olhar”, de Jobim), mas se desculpa pelas escorregadas na pronúncia. “Acho que ela não está perfeita, mas foi gravada com o coração”, justifica.
“Seria ótimo se eu conseguisse contratar uma babá brasileira, que também cozinhasse e me ensinasse português e ioga”, diz, contando que até tentou aprender um pouco da língua, mas os shows e afazeres diários a impediram de continuar.
Segundo a cantora, foi um passeio ao Jardim Botânico, no Rio, que a inspirou a fazer esse álbum. “Visitei aquele lugar onde Jobim gostava de ir. Encontrei muita neblina, pássaros, macacos, um lugar mágico, fantástico. Eu me senti em um filme”, conta.
“Ali vi uma faceta do Brasil que eu não conhecia. Acho que a música brasileira costuma ser encarada de maneira estereotipada, sempre associada à praia, ao sol”, comenta, dizendo que para gravar esse CD seguiu por outra direção. “Pensei em algo cinematográfico: um filme em preto e branco”.
O cinema, por sinal, é uma área à qual Diana gostaria de se dedicar mais. “Já participei de um filme de Woody Allen [“Igual a Tudo na Vida”, 2003], mas meu sonho é fazer uma personagem, num filme dele, que não tenha nada a ver com cantar ou tocar piano”.
(publicada na “Folha de S. Paulo”, em 8/04/2009)
