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Sesc Jazz: o pianista Vijay Iyer e suas reflexões musicais sobre os dias de hoje

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                                                                     O pianista Vijay Iyer e o baixista Stephan Crump

Os paulistanos que tiveram a oportunidade de ouvir pela primeira vez o quarteto de Vijay Iyer, dez anos atrás, no extinto festival Bridgestone Music, dificilmente se esqueceram do impacto causado por aquela música tão inventiva e original. Se, na década passada, esse pianista e compositor norte-americano de ascendência indiana era ainda apontado como uma promissora revelação na cena jazzística, agora ele retorna consagrado para suas apresentações no Sesc Jazz.

Entre muitas vitórias em enquetes das principais publicações especializadas e prêmios já conquistados por Iyer, os críticos da influente revista “Down Beat” lhe concederam uma inédita “quíntupla coroa” (jazzista do ano, pianista do ano, disco do ano, grupo do ano e compositor emergente), em 2012. Seu álbum mais recente, o elogiado “Far from Over” (ECM, 2017), chegou até a figurar na lista de melhores discos do ano da revista “Rolling Stone”, voltada para o rock e a música pop.

Ao apresentar seu sexteto à plateia da comedoria do Sesc Pompeia, no show de sábado (1°/9), Iyer comentou que já toca com essa formação há seis anos. Entre seus parceiros atuais está o contrabaixista Stephan Crump (o único que o acompanhou ao Brasil, em 2008), cuja enérgica e contagiante condução rítmica impulsiona os improvisos do grupo. O grupo inclui ainda o trompete e o flugelhorn eletrificado de Graham Haynes (filho do grande baterista Roy Haynes), o sax tenor de Mark Shim, o sax alto de Steve Lehman e a bateria de Jeremy Dutton.

Basta ouvir alguns minutos de música para se perceber o porquê de Iyer ter escolhido esses instrumentistas como parceiros. Criativos nas improvisações, assim como primorosos em termos técnicos, os cinco contribuem ativamente para que as composições do pianista possam crescer, ganhar mais intensidade e texturas sonoras. Como outros grandes compositores que já contaram com grupos estáveis, Iyer sabe que suas partituras podem alçar voos mais altos, se conceder liberdade para que os parceiros expressem suas personalidades musicais.

Ao introduzir sua bela balada “For Amiri Baraka” (dedicada ao poeta e ativista negro, inicialmente conhecido como LeRoi Jones), Iyer homenageou também Randy Weston, um dos músicos de jazz que o influenciaram. Morto horas antes, aos 92 anos, esse grande pianista e compositor chegou a se apresentar naquele mesmo palco do Sesc Pompeia, em 2014. O duplo tributo musical de Iyer a esses artistas que o inspiraram incluiu também sua emotiva composição “Segment for Sentiment”.

Quem já conhece “Far from Over”, álbum que serviu de base para o repertório desse show, logo notou que as composições gravadas ganharam novas cores e mais intensidade sonora, no palco. Como na funkeada “Nope”, composição em que Iyer troca o piano acústico pelo elétrico, com destaque especial para a bateria de Dutton. Em “Down to the Wire”, o sexteto chegou ao clímax da noite. Num crescendo, o dramático tema apresentado pelo pianista abriu espaço para catárticos improvisos do trompetista e dos saxofonistas, que pareciam gritar, clamar, protestar com seus instrumentos.

Vale lembrar que a obra musical de Iyer é engajada socialmente. Assim como a influência do jazz de vanguarda de Andrew Hill, Muhal Richard Abrams e Cecil Taylor convive em sua música com outras fontes, como o bebop de Thelonious Monk e Bud Powell, a música indiana ou o minimalismo, fenômenos atuais, como a discriminação racial ou a desigualdade social, também já inspiraram algumas de suas composições. Iyer acredita que sua música deve refletir sobre a época em que vivemos, sem ser panfletária.

“Voltem amanhã. O show vai ser diferente”, convidou o pianista, com um sorriso de quem sente que fez bem o seu trabalho, depois que os aplausos eufóricos da plateia o obrigaram a voltar ao palco, com seus parceiros, para um bis. Se os ingressos do último show de Vijay Iyer no Sesc Jazz já não estivessem esgotados, alguns desses fãs certamente voltariam.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)

3º Bridgestone Music: um balanço final

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                                                                                                                     Foto de Mila Maluhy
Pena que o show de Don Byron e seu New Gospel Quintet, última atração do Bridgestone Music, no sábado, tenha sido prejudicado pelo “forfait” do organista Frank Wilkins, que perdeu o vôo para São Paulo. Byron ainda teve uma considerável dose de sorte: conseguiu que o versátil Xavier Davis, pianista do grupo de Christian McBride, substituísse o colega. Mas o estrago já estava feito: o órgão fez falta no repertório centrado em releituras de clássicos do gospel.

Assim restou a Byron fazer um show apenas mediano. Abriu a apresentação com o clarinete, tocando uma relaxada versão de “Giant Steps” (a “prova de resistência” de John Coltrane), movida por ritmos latinos. Mais inusitada ainda, já no meio do show, foi a versão de “Lovesick Blues”, pérola country de Hank Williams, que Byron cantou com os característicos melismas do gênero, num ambíguo tom de caricatura.

Já as releituras de “Feed Me, Jesus” e “Precious Lord” (composições de Thomas E. Dorsey, considerado o pai do gospel negro) contaram com os vocais de DK Dyson. Embora seja uma cantora de recursos,  Dyson chega a soar arrogante, com seu visual imponente e poses artificiais,
diferentemente da simpática Barbara Walker, que conquistou a platéia na noite de estréia. 

Primeira atração do sábado, a cantora canadense Melissa Walker (na foto acima, com McBride) também exibiu muita competência, mas sem brilho especial. Talvez ainda se ressinta do longo período em que teve de se afastar dos palcos para tratar um problema em suas cordas vocais.

Com um repertório que destaca arranjos jazzísticos de sucessos da música pop, como “Mr. Bojangles” (de Jerry Jeff Walker) ou uma curiosa versão de “Flor de Liz” (do brasileiro Djavan), Melissa obteve seus melhores momentos ao homenagear duas ladies do jazz: Nina Simone, com a engajada “Four Women”; e Shirley Horn, com uma versão soul de “Forget Me”. Claro que o quarteto comandado pelo baixista Christian McBride (incluindo os solos de gaita de Gregoire Maret) garantiu um acabamento de primeira linha ao show da cantora.

Depois de três noites excelentes, com destaque para os shows do trompetista Christian Scott, do pianista Ahmad Jamal, do sexteto Escalandrum e do fora-de-série Overtone Quartet, o Bridgestone Music nem precisaria da última noite para se consolidar definitivamente como um festival de alto nível artístico e perfil original, que focaliza o jazz sob o ponto de vista de suas ligações com outras vertentes da música negra. Quem acompanhou esta terceira edição, certamente já está esperando a próxima.


3º Bridgestone Music: Overtone e Escalandrum brilharam na terceira noite do festival

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                                                                                                                     Foto de Mila Maluhy
                                      
Se houvesse alguma dúvida quanto à eficácia do programa da terceira noite do Bridgestone Music, ela certamente seria em relação à anunciada homenagem a Astor Piazzolla feita pelo grupo Escalandrum (cujo líder e baterista, Daniel Piazzollla, é neto do grande criador do “nuevo tango”). Afinal, com a outra atração da noite, o quarteto Overtone (reunião de Dave Holland, Jason Moran, Chris Potter e Eric Harland, quatro feras do jazz atual), seria quase impossível que algo desse errado.

Por isso, se algo realmente surpreendeu a platéia do Citibank Hall, ontem, em São Paulo, foi a ótima apresentação dos argentinos. Daniel e seus parceiros do Escalandrum acertaram plenamente na concepção dos arranjos de clássicos de Piazzolla, como “Adiós Noniño” ou “Fuga nº 9”. Conseguiram imprimir a abordagem jazzística do grupo nessas peças, sem comprometer sua essência. Como na misteriosa “Buenos Aires Hora Zero”, que ganhou uma introdução com ruídos e cacofonias tipicamente urbanas. Ou em “Libertango”, recheada por um solo bem jazzístico do sax alto Damián Fogiel.


Já a apresentação do Overtone Quartet (na foto acima) confirmou o que se esperava: um set daqueles para ficar por muito tempo na memória da platéia. Mesmo quem tem a oportunidade de acompanhar festivais de música ou concertos de jazz com freqüência, sabe como é raro poder ouvir um quarteto tocar com tanta inventividade, sofisticação, virtuosismo e substância musical. 

Não bastasse o fato de os integrantes do Overtone serem grandes instrumentistas, todos contribuem com composições para o repertório, projetando nelas suas personalidades. “Treachery”, do baterista Eric Harland, soou perfeita para abrir a noite, com sua melodia que remete à alegria das bandas de rua. De ascendência gospel, “Blue Blocks” ilustrou a original concepção harmônica de Jason Moran ao piano. A acelerada “Ask Me Why”, do saxofonista Chris Potter, serviu de veículo para que ele exibisse sua excepcional habilidade para criar e desenvolver melodias. 

Mesmo que esse quarteto tenha sido formado com espírito coletivo, princípio que o baixista Dave Holland fez questão de ressaltar ao apresentar seus colegas à platéia, é evidente a ascendência desse músico brilhante, que nas últimas quatro décadas esteve ligado a alguns dos coletivos mais inovadores do gênero. Contar com um baixista elegante e tão experiente como Holland já garante meio caminho para que o Overtone entre na história como um dos grandes grupos do jazz. 




3º Bridgestone Music: minimalista do piano, Ahmad Jamal excitou a platéia

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                                                                                                                    Foto de Mila Maluhy

A evidente excitação da platéia, ao ver Ahmad Jamal entrar no palco, não deixou dúvidas: grande parte dos fãs presentes à segunda noite do Bridgestone Music (ontem, no Citibank Hall, em São Paulo) estava ali, antes de tudo, para ouvi-lo. E o cultuado pianista, hoje com admiráveis 79 anos, certamente não decepcionou ninguém.

Com um grande sorriso, demonstrando certa surpresa pela recepção, Jamal comandou uma exibição primorosa de elegância, garra, sutileza, vigor, imaginação e muito, muito swing. Em poucos minutos, ele e seu poderoso quarteto já tinham a platéia não mãos. Destacam-se Herlin Riley, inventivo virtuose da bateria, e o ágil contrabaixista James Cammack, capaz de antecipar os repentinos movimentos do líder.

Improvisando composições próprias ou standards do jazz, como “Like Someone in Love”, Jamal imprime seu estilo personalíssimo: num mesmo solo alterna silêncios, paradas súbitas, explosões rítmicas, pianíssimos e fortíssimos, torrentes de notas com intervenções minimalistas. Em meio a tantos movimentos, só resta à platéia ficar de olhos e ouvidos bem abertos, mesmerizada, à espera da próxima surpresa.


Atração inicial da noite, a cantora Dee Alexander mostrou que se diferencia da grande maioria de intérpretes que têm surgido na cena jazzística, nos últimos anos. Em seu repertório original, de ascendência africana, os convencionais standards do jazz não têm espaço. Inovadora também é a formação e a sonoridade de seu grupo, o Evolution Ensemble, centrado em instrumentos de cordas, que destaca James Sanders (violino), Tomeka Reid (violoncelo) e Junius Paul (baixo acústico), além do percussionista Ernie Adams (percussão).

Ao cantar sua composição “Rossignol” (inspirada em um pássaro que costuma cantar à noite), Dee foi surpreendida pelas intervenções de alguém na platéia, que travou com ela um inesperado diálogo, imitando sons de pássaros. Pequenas surpresas, como as arquitetadas pouco depois por Ahmad Jamal, que fazem do jazz, música apoiada no improviso e no “aqui e agora”, um gênero tão apaixonante. 



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3º Bridgestone Music: trompetista Christian Scott rouba a primeira noite do festival

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                                                                                                     Foto: Carlos Calado                                           
                                                            
Começou bem a terceira edição do Bridgestone Music, ontem, em São Paulo. O garotão Christian Scott, revelação do trompete, roubou a noite de estréia. Conquistou a platéia do Citibank Hall sem fazer concessões: quase só tocou composições próprias, nem um standard ao menos para agradar a ala mais conservadora do público. Decisão corajosa para um músico ainda quase desconhecido no Brasil, como ele, cujos quatro álbuns permanecem inéditos por aqui.

Falante, Scott fez questão de contar como nasceu sua tensa composição “K.K.P.D.”, um dos destaques do show, que faz parte de seu recente CD “Yesterday You Said Tomorrow”. Vítima de uma blitz noturna, em New Orleans, foi arrancado do automóvel por policiais armados, que o xingaram de “negrinho” e o ameaçaram de mandá-lo para o necrotério. O título dessa música reflete a indignação do autor: nele, Scott fundiu as siglas de Departamento de Polícia com a da organização racista Ku Klux Klan.

Duas outras composições, extraídas do mesmo álbum, também se destacaram. Na releitura de “The Eraser” (de Thom Yorke, da banda pop Radiohead), a sobreposição do trompete, do piano repetitivo de Milton Fletcher e de um ruído eletrônico resultaram em uma atmosfera melancólica e hipnótica. A balada “Isadora” prima pela beleza: um tema delicado, em andamento bem lento, acariciado pelo trompete (com surdina) do autor.

Já a apresentação de Uri Caine e seu quarteto Bedrock, segunda atração da noite, dividiu a platéia, inicialmente. O inquieto pianista e compositor radicado em Nova York reúne uma combinação de gêneros musicais bem heterodoxa nesse projeto. Quem mais pensaria em misturar jazz de vanguarda, soul music, R&B, funk e gospel num mesmo set?

O ponto de equilíbrio nessa fusão inusitada é a simpática cantora Barbara Walker (ex-Pieces of a Dream), que encaixa com muito talento seus vocais cheios de swing, nos intrincados improvisos do pianista, incluindo melismas típicos do gospel e da soul music. Não fosse o carisma e o know-how de Barbara, as experimentações de Caine e seu Bedrock correriam o risco de soar frias e cerebrais em excesso.

Uma estréia promissora para quem esteve no Citibank Hall e pretende retornar outras noites ao Bridgestone Music. 

2º Bridgestone Music: shows do festival podem ser vistos no site em versão completa

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Se você perdeu (ou quer rever) os shows da segunda edição do Bridgestone Music, realizado em maio último, não deixe de dar uma olhada no site desse festival. A cada mês uma apresentação completa está sendo transmitida em streaming. A atração de novembro é o quarteto da sensacional cantora René Marie, uma das surpresas do evento, que dividiu o palco com o talentoso trompetista Jeremy Pelt.

A atração de dezembro será a So What Band, banda de feras do jazz comandada pelo veterano baterista Jimmy Cobb, que relembra todas as faixas do cultuado álbum "Kind of Blue", de Miles Davis. A programação do Bridgestone Music promete ainda a saborosa banda alemã de soul-jazz Tok Tok Tok (em janeiro) e a cantora de soul Bettye Lavette (em fevereiro), outra grande revelação do festival.

 

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