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BMW Jazz Festival: Ahmad Jamal traz seu piano sintético e elegante a São Paulo
Marcadores: Ahmad Jamal, BMW Jazz Festival, Charlie Parker, dizzy gillespie, duke ellington, gershwin, herlin riley, john coltrane, kenny garrett, manolo badrena, miles davis, reginald veal | author: Carlos CaladoAos 83 anos, ele continua a entusiasmar plateias, em festivais pelo mundo. Seus improvisos sintéticos e elegantes influenciaram até um gênio musical como o trompetista Miles Davis, seu declarado admirador.
O pianista e compositor norte-americano Ahmad Jamal é a atração principal da noite de abertura do 4º BMW Jazz Festival, nesta quinta-feira, no HSBC Brasil, em São Paulo. Quem fecha o programa é o talentoso saxofonista Kenny Garrett.
Falando à "Folha de S. Paulo", Jamal relembrou sua primeira e conturbada apresentação no Brasil, em 1978. “O piano Steinway que estava no palco era tão velho que as teclas ainda eram feitas de marfim. Quando algumas se soltaram, eu as atirei para a plateia, que adorou. Nem pude terminar o concerto”, conta, rindo.
Esse incidente não chegou a prejudicar a relação de Jamal com o Brasil. Tanto é que ele retornou outras três vezes – a última em 2010, quando se apresentou no extinto Bridgestone Music Festival. “Eu já não toco mais em clubes, nem viajo muito para tocar, só mesmo em ocasiões especiais. Estou aqui outra vez porque se trata de um evento especial”, justifica.
Seu quarteto já não é exatamente o mesmo de quatro anos atrás. Além do percussionista Manolo Badrena, seu antigo parceiro, e do baterista Herlin Riley, destaque na cena musical de Nova Orleans, desta vez Jamal trouxe o contrabaixista Reginald Veal.
Nascido em Pittsburgh, onde começou a tocar aos 11 anos, Jamal lidera seus próprios grupos desde 1951. O fato de essa cidade da Pensilvânia ter gerado outros grandes músicos do jazz, como Earl Hines, Billy Strayhorn, Erroll Gardner, Ray Brown ou Art Blakey, não é gratuito, segundo ele.
“Há um livro sobre Pittsburgh intitulado ‘There Must Be Something in the Water’ (deve ser alguma coisa na água). Poucas cidades norte-americanas, como Nova Orleans, Saint Louis, Detroit ou Memphis, revelaram tantos grandes músicos. Chamo isso de fenômeno”, define.
Quem acompanha a discografia de Jamal sabe que os standards e clássicos do jazz foram, progressivamente, cedendo espaço às composições próprias. Pergunte a ele quais são as fontes de inspiração para suas composições e a resposta virá em uma única palavra: “vida”.
“Essa proporção já foi inversa, mas hoje eu dedico 80% de meu repertório às minhas composições e apenas 20% a clássicos do cancioneiro norte-americano. Às vezes, para ser notado, você precisa tocar alguma coisa com a qual pessoas estão familiarizadas, mas o que torna tão extraordinárias as canções de Gershwin e outros desses autores é justamente a nossa interpretação”, afirma.
O fato de Jamal raramente tocar ou gravar canções compostas após os anos 1950, como chegou a fazer com “Michelle” (dos Beatles) ou “Superstitious” (Stevie Wonder), seria uma evidencia de que ele considera inferiores as gerações mais recentes de compositores?
“Estávamos discutindo isso ontem mesmo, no avião. Não sei, mas parece que a era dos músicos revolucionários está desaparecendo. Músicos como Duke Ellington, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, John Coltrane e Miles Davis eram revolucionários. Eles ainda existem hoje? Eu continuo procurando-os entre músicos mais jovens”, diz, mencionando a promissora pianista japonesa Hiromi, sua afilhada musical.
E o que Jamal acha de o slogan “less is more” (menos é mais), às vezes mencionado para definir a sintética concepção musical de Miles Davis (com o qual jamais se apresentou ou gravou), ser utilizado também para representar seu estilo de tocar piano?
“Esse princípio também se aplica à alimentação. Se você comer uma torta inteira, pode até ficar doente. Mas se você comer apenas uma fatia por dia, durante 50 anos, tudo bem. Ele se aplica a tudo, mas prefiro chamar isso de disciplina”, conclui o sábio pianista.
Mais informações no site do BMW Jazz Festival
(entrevista publicada na edição online da "Folha de São Paulo", em 29/5/2014
3º Bridgestone Music: minimalista do piano, Ahmad Jamal excitou a platéia
Marcadores: Ahmad Jamal, Bridgestone Music, Dee Alexander, herlin riley, james cammack, jazz | author: Carlos Calado Foto de Mila Maluhy
A evidente excitação da platéia, ao ver Ahmad Jamal entrar no palco, não deixou dúvidas: grande parte dos fãs presentes à segunda noite do Bridgestone Music (ontem, no Citibank Hall, em São Paulo) estava ali, antes de tudo, para ouvi-lo. E o cultuado pianista, hoje com admiráveis 79 anos, certamente não decepcionou ninguém.
Com um grande sorriso, demonstrando certa surpresa pela recepção, Jamal comandou uma exibição primorosa de elegância, garra, sutileza, vigor, imaginação e muito, muito swing. Em poucos minutos, ele e seu poderoso quarteto já tinham a platéia não mãos. Destacam-se Herlin Riley, inventivo virtuose da bateria, e o ágil contrabaixista James Cammack, capaz de antecipar os repentinos movimentos do líder.
Improvisando composições próprias ou standards do jazz, como “Like Someone in Love”, Jamal imprime seu estilo personalíssimo: num mesmo solo alterna silêncios, paradas súbitas, explosões rítmicas, pianíssimos e fortíssimos, torrentes de notas com intervenções minimalistas. Em meio a tantos movimentos, só resta à platéia ficar de olhos e ouvidos bem abertos, mesmerizada, à espera da próxima surpresa.
Atração inicial da noite, a cantora Dee Alexander mostrou que se diferencia da grande maioria de intérpretes que têm surgido na cena jazzística, nos últimos anos. Em seu repertório original, de ascendência africana, os convencionais standards do jazz não têm espaço. Inovadora também é a formação e a sonoridade de seu grupo, o Evolution Ensemble, centrado em instrumentos de cordas, que destaca James Sanders (violino), Tomeka Reid (violoncelo) e Junius Paul (baixo acústico), além do percussionista Ernie Adams (percussão).
Ao cantar sua composição “Rossignol” (inspirada em um pássaro que costuma cantar à noite), Dee foi surpreendida pelas intervenções de alguém na platéia, que travou com ela um inesperado diálogo, imitando sons de pássaros. Pequenas surpresas, como as arquitetadas pouco depois por Ahmad Jamal, que fazem do jazz, música apoiada no improviso e no “aqui e agora”, um gênero tão apaixonante.
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