Jazz, samba, soul, choro, blues, bossa nova, salsa, MPB, instrumental, R&B, funk, hip hop e outras vertentes musicais, em dicas, resenhas, entrevistas e coberturas de festivais
por Carlos Calado
Quem sou
Jornalista, editor e crítico musical, escrevo sobre festivais, shows e discos. Desde meados dos anos 1980 tenho acompanhado profissionalmente a produção fonográfica brasileira e eventos musicais em diversos países. Faço palestras sobre música, curadorias e já dirigi projetos para o Sesc SP. Sou autor dos livros "Tropicália: a História de Uma Revolução Musical", "A Divina Comédia dos Mutantes", "O Jazz como Espetáculo" e "Jazz ao Vivo", entre outros. Colaboro eventualmente para os jornais "Folha de S. Paulo" e "Valor". Nos shows e festivais que acompanho, gosto de fotografar músicos que admiro.
Se você perdeu (ou quer rever) os shows da segunda edição do Bridgestone Music, realizado em maio último, não deixe de dar uma olhada no site desse festival. A cada mês uma apresentação completa está sendo transmitida em streaming. A atração de novembro é o quarteto da sensacional cantora René Marie, uma das surpresas do evento, que dividiu o palco com o talentoso trompetista Jeremy Pelt.
A atração de dezembro será a So What Band, banda de feras do jazz comandada pelo veterano baterista Jimmy Cobb, que relembra todas as faixas do cultuado álbum "Kind of Blue", de Miles Davis. A programação do Bridgestone Music promete ainda a saborosa banda alemã de soul-jazz Tok Tok Tok (em janeiro) e a cantora de soul Bettye Lavette (em fevereiro), outra grande revelação do festival.
Só mesmo a globalização pode explicar como uma cantora nigeriana e um músico alemão se juntaram, no final dos anos 90, na improvável cidade de Freiburg (norte da Alemanha), para formar uma dupla que revigorou a hoje cinquentona soul music com canções originais, vocais sensuais e influências jazzísticas. Inédita em palcos brasileiros e ainda sem discos lançados aqui, a banda Tok Tok Tok será uma das atrações da segunda edição do Bridgestone Music, festival que vai ocupar o Citibank Hall, em São Paulo, de 14 a 16 de maio. Até lá, segundo a gravadora Universal, o novo CD da banda, “She and He”, já estará disponível no Brasil.
“Já me pararam algumas vezes na rua para perguntar se eu sou brasileira”, conta a vocalista e letrista Tokunbo Akinro. Filha de um nigeriano com uma alemã, ela passou a infância na África e morou alguns meses nos EUA, antes de se radicar na Alemanha. Conheceu o saxofonista e violonista Morten Klein numa escola de música, em Freiburg, onde ainda vivem.
Voz doce e sensual Quem já a ouviu sabe por que essa dupla tem aparecido com destaque em festivais europeus. A voz doce e sensual de Tokunbo, os arranjos precisos de Klein e suas saborosas composições já renderam nove álbuns. “She and He”, o primeiro distribuído por uma grande gravadora, pode levar a banda a atingir um público bem mais amplo (ouça trechos das 14 faixas no site www.toktoktok.net). “A maioria das canções deste álbum fala de amor, mas queríamos fugir de letras óbvias do tipo ‘eu te amo”, “nós nos amamos’. Quando escrevo uma canção, penso que estou criando uma história para um filme. Eu valorizo muito as imagens”, diz a cantora. A provocativa “Longing for Brad” expressa de maneira bem-humorada a intenção de questionar o papel tradicional da mulher nas relações amorosas. Na letra, Tokunbo menciona os nomes de 27 namorados ou amantes. E diz nos versos finais: “todos esses caras à minha volta / não quero nenhum deles”. “Por que uma garota não pode, como os homens, ter seus casos por aí?”, pergunta a letrista, que cai na risada quando se pergunta a ela se a canção citada é autobiográfica. “Várias de nossas canções retratam situações que já vivemos, mas gosto de manter um certo mistério sobre isso”, ela responde. Admiração pela MPB Única faixa sem letra do CD, “Coração” demonstra a admiração que a dupla tem pela música brasileira. “Aqui na Europa, quando você ouve falar no Brasil já pensa logo em bossa nova. Nós amamos os clássicos de [Tom] Jobim”, diz Klein.
O saxofonista e produtor da banda admite que “She and He” é um álbum mais pop, menos jazzístico que os anteriores “Reach Out” (2007) e “From Soul to Soul” (2006). Mesmo assim, acha que a melhor definição para a Tok Tok Tok ainda é “uma banda de soul e jazz”.
“As canções da soul music falam de pessoas comuns, que são capazes de enxergar a realidade em que vivem sem se colocarem na condição de vítimas”, analisa o saxofonista, observando que muitos clássicos do soul rejeitam o escapismo, diferentemente de outros gêneros musicais.
Não foi à toa que a dupla começou fazendo releituras de sucessos de Ray Charles e Stevie Wonder. Ou se inspirou em outros ídolos do gênero, como James Brown e Isaac Hayes, para fazer o CD “From Soul to Soul”, talvez a obra-prima da banda. “Certamente vamos tocar canções desse álbum aí no Brasil”, promete Klein.
(entrevista publicada na “Folha de S. Paulo”, em 25/03/2009)
O soul-jazz da banda alemã Tok Tok Tok alude a um caso de paixão imediata. O jazz começou a namorar a soul music logo após o surgimento deste gênero derivado do rhythm & blues e do gospel, no final dos anos 50. O grande pioneiro das fusões do jazz com o soul foi o pianista Horace Silver, que as antecipou em composições próprias, como “The Preacher” e “Sister Sadie”.
Na década de 60, o soul-jazz reinou absoluto em clubes e bares dos EUA, apreciado por muitos fãs, apesar dos narizes torcidos dos jazzófilos mais puristas, que preferiam ouvir essa música tratada como “arte”, em salas de concertos.
Jimmy Smith, George Benson e Les McCann foram alguns dos inúmeros músicos que se dedicaram a esse estilo híbrido. E ele continua por aí, em discos de jazzistas da cena atual, como o guitarrista John Scofield ou o saxofonista italiano Stefano di Battista. Esse namoro musical ainda vai longe.
Sai a world music, entra o soul. Em sua segunda edição, de 14 a 16 de maio, no Citibank Hall, em São Paulo, o Bridgestone Music Festival investe em outra combinação de gêneros. Em 2008, trouxe atrações de jazz e world music. O foco no jazz permanece, neste ano, mas será temperado por ótimas cantoras de soul e rhythm & blues.
“A world music poderá voltar nas próximas edições”, diz o produtor Toy Lima, explicando que a dose de jazz vai aumentar em função das duas noites que reservou para festejar os 50 anos de “Kind of Blue”, cultuado álbum do trompetista Miles Davis (1926-1991).
Os dois concertos (em 14 e 15/5) serão liderados por Jimmy Cobb, 80, único remanescente do sexteto que gravou o disco. Para reler as clássicas “All Blues”, “So What” e “Blue in Green”, o baterista trará cinco feras do jazz nova-iorquino: Wallace Roney (trompete), Vincent Herring (sax alto), Javon Jackson (sax tenor), Larry Willis (piano) e Buster Williams (baixo).
Duas atrações inéditas no país vão abrir essas noites. O pianista Robert Glasper (foto acima), 30, é uma promissora revelação desta década. Seu jazz contemporâneo engloba elementos de soul, hip hop, até samba. A sofisticada cantora René Marie traz como convidado outro grande talento do jazz revelado há pouco: o trompetista Jeremy Pelt, 32.
Já a terceira noite do festival será focada no soul e no R&B. Tokunbo Akinro, vocalista da banda Tok Tok Tok, pode ser a sensação do evento. A veterana cantora Bettye LaVette estréia no país, no auge de sua carreira. Em janeiro, cantou no show da posse do presidente norte-americano Barack Obama.
Os ingressos começam a ser vendidos no próximo dia 21. Mais informações no site do festival: www.bridgestonemusic.com.br