Mostrando postagens com marcador ray charles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ray charles. Mostrar todas as postagens

Ray Charles: compilação 'The King of Cool' reúne o melhor do cantor de soul e blues

|




Na década de 1950, quando Ray Charles (1930-2004) começou a ser chamado de “gênio do soul”, o termo “genial” fazia sentido – até ser banalizado pelo uso excessivo e inadequado. O cantor e pianista norte-americano merece mesmo essa alcunha, pois inventou um novo gênero musical, praticamente, ao fundir o fervor religioso da música gospel com a sensualidade profana do rhythm & blues.

Quem viu o biográfico filme “Ray” (2004) deve se lembrar da cena em que ele canta “Hallelujah, I Love Her So”, num clube cheio de fãs. Um pastor enfurecido interrompe o show e acusa o cantor de ter se vendido ao demônio, ao transformar um hino gospel em “sexo”. Radicalismos à parte, o religioso tinha uma certa razão: para criar a soul music, Ray utilizou melodias que aprendera na igreja, revestindo-as com harmonias e ritmos mais modernos e sensuais.

Lançada no ano passado, por ocasião dos 10 anos da morte do soulman, a compilação “King of Cool - The Genius of Ray Charles” (distribuída no Brasil pela gravadora Warner) reúne 73 gravações do cantor, em três CDs, que incluem grande parte de seus sucessos. É uma coleção quase perfeita para aqueles que apreciam a música desse artista, mas têm poucos discos dele em sua discoteca.

As gravações cobrem a fase mais criativa da carreira de Ray Charles: os anos em que ele gravou pela Atlantic Records (1952-1959), que destacam clássicos do rhythm & blues e do soul, como “Mess Around”, “I’ve Got a Woman”, "Hit the Road Jack" e “Drown in My Tears”.

Há também faixas dos primeiros anos de Ray na gravadora ABC – representados pelos hits “Georgia on My Mind” (1960), “Unchain My Heart” (1961) e duas versões de “What’d I Say” (1959 e 1960). Aliás, se você ainda não tinha notado que Ray e suas vocalistas, as Raelettes, simulam um ato sexual nessa canção, precisa ouvi-la de novo. À essa altura, Ray já havia se tornado um fervoroso pregador da soul music.

(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 28/2/2015)



Edgard Radesca: diretor do clube Bourbon Street relembra como o jazz o conquistou

|


A cena que selou uma nova fase na carreira do empresário Edgard Radesca está registrada em sua memória como uma foto especial. Com lágrimas nos olhos, ele e seus três sócios se abraçaram quando ouviram as primeiras notas da guitarra do bluesman B.B. King, na inauguração do Bourbon Street Music Club, em 13 de dezembro de 1993. Hoje, quase 20 anos depois, essa casa noturna paulistana é reconhecida internacionalmente como o melhor clube de jazz, blues e black music da América Latina.

Da longa reforma da casa no bairro de Moema, iniciada no final de 1989, até o primeiro show de B.B. King, os proprietários do Bourbon Street esperaram quatro anos para ver o clube inaugurado. Como grande parte dos brasileiros, Radesca e o músico Luiz Fernando Mascaro, seu primeiro sócio e idealizador do projeto, surpreenderam-se quando os fundos que haviam reservado para a obra foram bloqueados pelo governo federal logo após a posse do presidente Fernando Collor. Para seguir adiante, o jeito foi conseguir outros sócios no clube.

“Nunca tratamos o projeto da casa como algo estritamente comercial, como um simples negócio. Buscamos sempre o melhor possível, algo que nos deixasse orgulhosos. Queríamos que nossos amigos e famílias se sentissem bem ao frequentá-la”, diz Radesca, observando que o perfeccionismo exigido por ele e seus parceiros durante toda a execução da obra é mantido até hoje na operação do Bourbon Street.

Centenas de astros do jazz, do blues, do soul e do funk já se apresentaram ali: de Ray Charles a Shirley Horn, de Diana Krall a Marcus Miller. Mas o diferencial dessa casa paulistana frente a outros clubes do gênero pelo mundo é mesmo sua relação íntima com a cultura musical e a gastronomia de New Orleans. Além de exibir com frequência artistas dessa cidade essencial na história do jazz e da música negra norte-americana, o Bourbon Street também produz há 11 anos, em São Paulo, um festival dedicado aos diversos gêneros musicais cultivados na eclética New Orleans.

Combinando apresentações no clube paulistano com grandes shows gratuitos, no Parque do Ibirapuera, o Bourbon Street Fest também realizou cinco edições no Rio de Janeiro e duas em Brasília, com sucesso. “Já recebemos convites para leva-lo a outras cidades, como Salvador e Florianópolis”, comenta Radesca. A repercussão do festival rendeu também o convite para a criação de um evento similar na cidade histórica de Paraty (RJ), o Bourbon Festival Paraty, cuja quinta edição, em maio último, atraiu cerca de 30 mil pessoas.

Ironicamente, o sucesso das 11 edições do Bourbon Street Fest ainda não rendeu ao evento um patrocínio permanente. “A própria formatação do nosso festival, baseada em shows gratuitos, impõe a necessidade dos patrocínios. A receita obtida com os shows no clube durante o Bourbon Street Fest não cobre nem 25% das despesas gerais do festival”, afirma o diretor do evento. Nos últimos anos, o festival foi patrocinado por meio de leis de incentivo à cultura, em nível federal (Rouanet) e estadual (ProAc e ICMS-RJ).

  
“O caso do patrocínio da Oi, para o Bourbon Fest deste ano, ilustra bem a dificuldade que ainda encontramos no planejamento de nosso budget. Apesar de ter patrocinado com sucesso e resultados o festival nos três anos anteriores, em São Paulo e no Rio, a Oi não conseguiu disponibilizar o patrocínio para a edição carioca, em 2013. Patrocinou o festival apenas em São Paulo e, mesmo assim, com uma verba menor”, lamenta Radesca. “A realização plena desta edição, que contou com o maior público nos 11 anos do evento, só foi possível graças ao patrocínio da EMS Pharma e ao apoio da AmBev”.

Filho de universitários (o pai, descendente de italianos, era advogado formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco; a mãe, brasileira, cursou Geografia na Universidade de São Paulo, onde também lecionou), Radesca é engenheiro de produção formado pela USP e pós-graduado em Marketing e Finanças pela Fundação Getúlio Vargas. Inicialmente, trabalhou como executivo nos bancos Citibank e Áurea, área que deixou, em meados da década de 1970, estimulado pelo desafio proposto por um amigo: iniciar do zero uma empresa de vendas por catálogo.

“A empresa do então poderoso Grupo Argos tinha o capital, mas precisava de alguém à frente do negócio. Foram alguns anos de vertiginoso sucesso. Tínhamos um cadastro de um milhão de clientes, com venda média de 100 mil itens por mês. Porém, a Argos enfrentou problemas financeiros que forçaram o fechamento prematuro da promissora startup”, relembra Radesca, que assumiu então o cargo de diretor de marketing de uma empresa do Grupo Abril. Sua missão era criar uma linha de produtos de papel, como jogos, agendas e kits para festas infantis, além de implantar uma rede de lojas-piloto.

Em 1982, quando as empresas do Grupo Abril foram divididas entre os herdeiros, Radesca decidiu abrir a própria empresa. Com um de seus gerentes, criou uma consultoria de desenvolvimento de produtos, design e serviços de marketing, à qual se dedicou por quase duas décadas. Nos primeiros anos do Bourbon Street, chegou a enfrentar uma extenuante jornada dupla, mas, conforme o clube crescia, foi dispensando clientes da consultoria.

A crise econômica que o país atravessou em 1999, com a súbita desvalorização do real, levou o clube paulistano a encarar seu período mais difícil. “O dólar dobrou de valor, saindo repentinamente do patamar de R$ 1 para R$ 2. Como o Bourbon tinha feito várias contratações de artistas, em dólar, tivemos que honrar os compromissos. Para piorar a situação, quase dobraram também os custos das passagens internacionais, assim como o custo do uísque. Quase fomos forçados a fechar as portas da casa”, relembra.

Não bastassem as dificuldades financeiras, a situação se agravou quando seu sócio Luiz Fernando, essencial na operação da clube, descobriu que também teria que enfrentar o tratamento de um câncer. “Foi preciso muita fé e tenacidade para resistir. O Bourbon passou então a assumir empréstimos bancários, de forma a manter seu funcionamento no mesmo padrão elevado de sempre. O cliente que ia à casa não sentia os efeitos da crise: o peixe continuava fresco; o filé, a bebida e a música mantinham a alta qualidade”.

Outra data da qual Radesca não se esquece é 12 de setembro de 2000 – marco do início da superação da crise de 1999. “Como nos melhores roteiros que o destino traça, dois dias depois que o câncer levou a vida do Luiz Fernando, Diana Krall estreou no Bourbon a exitosa série Diners Club Jazz Nights. Essa noite tão importante acabou se tornando uma homenagem ao que Luiz Fernando representou na história do Bourbon. Fiz questão de pedir, do palco, uma grande salva de palmas para ele”.

O olho do dono

Em geral, a rotina profissional de Radesca está subordinada à necessidade de acompanhar o funcionamento diário do Bourbon Street. “Não é lenda: o olho do dono engorda o gado, por melhor que seja a equipe. A presença na casa é importante não só para perceber detalhes que às vezes não foram notados, mas também para que a equipe se sinta apoiada e estimulada. Além disso, nenhum relatório da equipe pode substituir o ver e sentir pessoalmente o show, o público ou o serviço”, ensina o empresário.

“Costumo dormir entre 3h e 4h da manhã, e acordo por volta das 10h. O meu dia é sempre intenso, pois são muitos os assuntos a resolver. No Bourbon, não só fazemos acontecer seis noites musicais por semana, que precisam ser contratadas, produzidas e promovidas, como podemos ter ainda uma sétima noite ocupada por um evento corporativo que requer tanto ou mais empenho da nossa equipe”, resume Radesca.

Claro que essa rotina, no clube, é interrompida com frequência por reuniões externas, almoços de negócios ou viagens. Além disso, quando se lida com entretenimento, é natural que o trabalho também avance pelos fins de semana. “Se não houver um show, uma turnê ou festival do Bourbon, nos quais tenho que estar presente no fim de semana, também pode haver um show ou festival ao qual tenho que ir para me informar, para estar em contato com o meio, tanto aqui em São Paulo como em qualquer parte do país”.

Até pela impossibilidade de ficar o tempo todo no clube, Radesca aprendeu a delegar responsabilidades. “Delegar é um aspecto difícil, porem indispensável para o crescimento pessoal e do negócio. Eu delego bastante, mas ainda bem menos do que gostaria. Convivo bem com o fato de que uma pessoa da equipe pode, muitas vezes, fazer algo melhor do que eu faria. Esta consciência e desprendimento são fundamentais”, reconhece o empresário. “Por outro lado, há atividades que eu acho importante fazer, como as relacionadas à captação de patrocínios. Sempre que possível gosto de apresentar pessoalmente nossos projetos, pois acredito que minha presença e meus argumentos, nas reuniões, fortalecem a negociação”.

Brilho nos olhos

Saber escolher os integrantes ideais para as equipes de trabalho também é essencial. “Gosto de trabalhar com equipes criativas e proativas, com ‘brilho nos olhos’, que buscam fazer mais e melhor. Por convicção e gosto pessoal, procuro manter um ambiente de trabalho com clima leve e alegre, nas equipes do Bourbon Street. Nenhum outro tipo de ambiente é capaz de produzir tanto, mesmo sob a intensa pressão gerada por algumas produções, turnês ou festivais. Sempre há duas maneiras de encarar uma tarefa e uma delas é mais leve”, ensina.

Num negócio que já nasceu entre familiares (Radesca e Luiz Fernando eram concunhados), é natural que a família continue participando ativamente, no trabalho diário. Célia Radesca, que assumiu a área financeira da empresa durante a crise de 1999, tornou-se desde então a principal parceira do marido, na gestão do clube. “Embora ela seja designer, não esqueceu do que aprendeu no curso de Administração da USP, que trocou pelo curso de Desenho Industrial, no último ano. Para não perder a ternura, Célia também é responsável pela gastronomia e decoração dos eventos especiais”.

Os dois filhos do casal não poderiam ficar de fora. Helena é arquiteta e sócia do marido, Luciano, em um escritório de design que cuida de toda a programação visual do Bourbon Street, de seus festivais e projetos especiais. Bruno, que é artista plástico, contribui com seu conhecimento em Tecnologia da Informação.

Ligado à música desde cedo, Radesca se lembra que, graças ao rádio e à vitrola Telefunken da casa de seus pais, acostumou-se a ouvir vários gêneros musicais: samba-canção, chorinho, música clássica, árias de óperas ou big bands. Como tantos adolescentes de sua geração, também ouviu muita bossa nova e rock’n’roll, na década de 1960. Descobriu o jazz um pouco mais tarde, na década seguinte – especialmente o cool jazz de Miles Davis e os vocais de divas do gênero, como Billie Holiday e Sarah Vaughan.

“Quando Luiz Fernando começou a falar comigo sobre seu projeto de abrir uma casa de jazz e blues, eu – que àquela altura já era sócio de carteirinha do 150 Night Club, aqui em São Paulo, e não perdia um show importante na cidade – mergulhei de cabeça no projeto. Assim começou a se materializar o Bourbon Street”, relembra.

Além da paixão pela música, Radesca também cultiva desde a infância o gosto pela fotografia. “Quando decidimos construir o clube, em 1989, viajamos a New Orleans e lá fiz centenas de fotos de escadas, bares, luminárias, pátios, fontes, varandas e de paredes descascadas. Foram mais de 40 rolos de filme, cerca de 1500 fotos, que serviram de referência para o ambiente e a arquitetura da casa. Tudo com a minha brava câmera Olympus Point & Shoot”, conta.

Desde então, Radesca se acostumou a fotografar os shows de quase todos os músicos que tem a oportunidade de acompanhar, em festivais e clubes, no exterior. “Inicialmente, meu objetivo era organizar uma memória dos artistas de interesse para o Bourbon, nas viagens ao Festival de Jazz de New Orleans. Com o tempo resolvi comprar um equipamento profissional para ir além do registro e poder desfrutar do grande prazer que é fotografar”.

“Há artistas incríveis que fazem que você tenha vontade de clicar 200, 300 vezes, durante um show. Estes anos todos me ensinaram muito e já me considero um fotógrafo, mas, humildemente, sei bem aonde estou na escala dos fotógrafos, onde existem talentos como o de Roger Sassaki, ou outros grandes artistas da fotografia que já passaram pelo Bourbon Street”, comenta.

(Texto publicado no jornal "Valor Econômico", em 16/9/2013)

Etta James: grande intérprete do R&B, no festival de Montreux, em alta definição

|

Impulsiva e desbocada, Etta James (1938-2012) foi uma das grandes intérpretes de rhythm & blues. Nas décadas de 1970 e 1980, seu vozeirão tonitruante e suas performances libidinosas faziam alguns cantores de rock parecerem tímidos seminaristas, mesmo no palco.

Registrado em alta definição, este show no Montreux Jazz Festival, em 1993, mostra Etta ainda em grande forma, cantando alguns de seus sucessos, como o atrevido blues “Come to Mama” e a pungente balada “I’d Rather Go Blind”. Porém, nem a inferior resolução de imagem impede que o material extra deste blu-ray roube a cena, com trechos de cinco apresentações anteriores da cantora, no mesmo festival.
 
Versões de dois clássicos do soul, “Drown in My Tears” (de Ray Charles) e “Respect Yourself” (dos Staple Singers), trazem Etta ainda com cara de menina travessa, em 1975, à frente de uma banda recheada de sopros. Já o pesado blues “Take to the Limit”, em 1978, é praticamente um slogan dessa cantora, em formato musical. Na vida e no palco, Etta James não aceitava limites

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/6/2013)


Claude Nobs (1936-2013): criador do Festival de Montreux promoveu a música brasileira

|

                                        Claude Nobs - Photo by by Lionel Flusin - Montreux Jazz Festival Foundation

A cena dos festivais internacionais de música perdeu um de seus líderes mais carismáticos e influentes. Morreu anteontem, na Suíça, o produtor Claude Nobs, 76, que criou o Montreux Jazz Festival, em 1967, e o comandou até seus últimos dias.

Nobs estava internado, em coma, desde a noite de Natal, quando sofreu um acidente ao esquiar perto do vilarejo de Caux, onde vivia. Em seu chalé, guardava o precioso arquivo com os registros sonoros e visuais de concertos do festival.

Só o fato de ter conseguido que muitos medalhões da música internacional, como Miles Davis, B.B. King, Ray Charles, Keith Jarrett ou Carlos Santana, participassem com frequência do evento já demonstra sua influência nos meios musicais. A pequena cidade de Montreux praticamente entrou no mapa graças ao festival.

Nobs imprimiu sua imagem ao Montreux Jazz: fazia questão de apresentar pessoalmente quase todas as atrações do evento à plateia. Sem falar nas eventuais “canjas”, soprando sua gaita ao lado de vários convidados, com bom humor e competência musical.

“Ele comandou o festival até o final, mas tinha ‘fairplay’. Costumava dizer que entre dez ideias loucas que sugeria só uma era aprovada”, relembra a brasileira Marcia Corban, que trabalhou ao lado de Nobs durante 25 anos, como “backstage manager”.

Noites brasileiras
  
Em 1978, ao criar as noites brasileiras, em parceria com o produtor carioca Marco Mazzola, Nobs contribuiu ativamente para divulgar a música brasileira na Europa. Gilberto Gil, João Gilberto, Elis Regina, Hermeto Pascoal e Pepeu Gomes foram alguns dos brasileiros que lançaram discos com registros de suas apresentações no festival.

Entre as décadas de 1970 e 1990, praticamente, todo o primeiro time da música popular brasileira – de Caetano Veloso, Jorge Benjor e João Bosco a Marisa Monte, Paralamas e Daniela Mercury – se apresentou nas concorridas e festivas noites brasileiras em Montreux. Estas se tornaram pontos de encontro dos “brazucas” radicados no velho continente, mas também atraíam a atenção do público europeu.

A partir de 1993, quando se mudou para as confortáveis instalações do Centro de Convenções do Congresso, o Montreux Jazz Festival passou a dividir suas atrações principais entre os palcos do (mais acústico) Auditorium Stravinsky e do (mais eletrificado) Miles Davis Hall, durante 16 noites consecutivas, além dos shows gratuitos no jardim externo.

A participação do megaprodutor norte-americano Quincy Jones, que a partir de 1991 passou a coordenar algumas noites e eventos especiais, também foi essencial para que o festival contasse anualmente com muitos nomes de ponta da música negra norte-americana e do jazz.

                              Herbie Hancock, Quincy Jones e Nobs - Photo by  Daniel Balmat - MJFF
Ex-chef de cozinha

Antes de criar e assumir a direção do Montreux Jazz, Nobs chegou a trabalhar como chef de cozinha. Em 1990, quando fiz a cobertura desse festival pela primeira vez, para a “Folha de S. Paulo”, perguntei a ele qual era sua receita para o evento.

“O que eu aprendi em todo esse tempo é que você nunca deve ter receio de mostrar boa música a um público, mesmo que ele não a conheça. Você pode contar com a qualidade da apresentação, com a emoção, com a musicalidade e com a atmosfera do show”, explicou.

Para veículos de imprensa de diversos países, que anualmente cobriam o evento, Nobs proporcionava experiências raras. Durante o evento, convidava alguns dos jornalistas para descontraídos almoços que promovia em seu chalé, nas montanhas de Caux, com a presença dos principais artistas do festival.

Foi em eventos como esses, nos anos 1990, que tive a oportunidade de entrevistar Quincy Jones, George Benson e a cantora Nina Simone, além de ter a chance de assistir a trechos de fantásticos concertos do festival, nas décadas de 70 e 80, que Nobs exibia com orgulho, para saciar um pouco da curiosidade dos convidados ao conhecerem seu arquivo.

As reações dos apreciadores mais puristas, que criticavam Nobs por incluir outros gêneros musicais na programação do festival, o levaram diversas vezes a pensar na possibilidade de abandonar o rótulo jazz. Em 1976, o evento chegou a assumir o nome Festival Internacional de Montreux, mas o diretor logo se arrependeu e resgatou a grife original.

“Para mim jazz é improvisação e liberdade. A batida que suinga pode ser rápida ou lenta, dançante ou romântica, saltitante ou suave. Pode expressar todos os sentimentos sem qualquer limitação”, sintetizou Nobbs, quando perguntei a ele sua definição pessoal para essa música.

Parceria São Paulo-Montreux

Em 1978, Nobs foi convidado a se tornar consultor do 1º Festival Internacional de Jazz de São Paulo, que trouxe ao Brasil, em setembro daquele ano, dezenas de astros do jazz e da música negra, de Dizzy Gillespie e Chick Corea a Al Jarreau e Etta James, abrindo espaço também para que uma nova geração de instrumentistas brasileiros se estabelecesse.

A parceria entre esse pioneiro festival paulista e o Montreux Jazz prosseguiu em 1980, com a segunda edição do evento. O elenco mais diversificado ainda, com Dexter Gordon, Betty Carter, B.B. King, Peter Tosh, Champion Jack Duprée, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, entre outros, confirmou o sucesso da eclética receita sonora de Nobs.

Já na década de 2000, o Montreux Jazz perdeu parte de sua relevância artística, atingido também pela crise econômica que abateu a indústria fonográfica. Shows como os de Lana Del Rey, Vanessa Paradis ou É o Tchan, entre outros, mostraram que o evento passou a apostar em modismos, premido pela necessidade de conquistar novas plateias.

Ainda é cedo para saber se o Montreux Jazz Festival conseguirá manter seu prestígio sem o carisma de seu criador. Mas o legado de Claude Nobs, felizmente, está registrado em milhares de horas de filmagens e gravações que permitirão às gerações futuras de fãs desfrutar de seu declarado amor pela música.

(texto publicado parcialmente na edição de hoje da “Folha de S. Paulo”)


Wynton Marsalis e Willie Nelson: segundo disco da dupla só deixa saudade de Ray Charles

|

                                                                                                                           Foto: Stephen Chernin 

Se a fórmula funcionou antes, por que não repeti-la? Assim devem ter pensado os envolvidos no inusitado encontro do astro country Willie Nelson com o jazzista Wynton Marsalis, em 2008. Os dois retornam com “Here We Go Again” (lançamento Blue Note/EMI), registro de outro concerto no Lincoln Center, em Nova York, trazendo como convidada a cantora Norah Jones. O problema é que a “boa idéia” de homenagear o pioneiro do soul Ray Charles (1930-2004) acaba revelando o oportunismo do projeto.

Os arranjos criativos de Marsalis até trazem novas cores sonoras e levadas rítmicas a sucessos do gênero, como “Hallelujah I Love Her Soul”, “Unchain My Heart” e “Hit the Road Jack”. Nelson e Norah também não decepcionam, emprestando seus maneirismos vocais às canções. Porém, ao final de cada releitura, a ausência dos vocais fervorosos e da emoção espontânea que Ray Charles imprimia em suas performances só aumenta a saudade desse gênio musical.

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/04/2011)

 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB