Experiência Piazzolla: festival de Buenos Aires pode vir ao Brasil em 2017

|

                                                                          O compositor e bandoneonista Astor Piazzolla 

Qualquer fã de Astor Piazzolla (1921-1992) adoraria estar em Buenos Aires durante esta semana. A primeira edição do festival Experiência Piazzolla – de 6 a 11/9, na Ciudad Cultural Konex – reverencia a obra do grande compositor e bandoneonista argentino por meio de uma série de concertos, mostra audiovisual, espetáculos de dança, debates e workshops.

Alguns artistas escalados para essa extensa programação já se apresentaram em palcos brasileiros, como o cantor e compositor Pedro Aznar e o grupo Escalandrum (liderado pelo baterista Daniel “Pipi” Piazzolla, neto do compositor), que estarão juntos, assim como o bandoneonista Néstor Marconi ou a cantora Susana Rinaldi.

Entre outros destaques do evento, o sexteto Vibraphonissimo promete revisitar os repertórios dos álbuns que Piazzolla gravou com dois conceituados jazzistas: o vibrafonista Gary Burton (“The New Tango”, 1986) e o saxofonista Gerry Mulligan (“Reunión Cumbre”, 1974).

O Brasil também está muito bem representado nesse festival por Hermeto Pascoal e seu grupo, que se apresentam na quinta-feira (8/9). Vale lembrar que o imprevisível “bruxo” de Lagoa da Canoa (na foto abaixo) já visitou composições de Piazzolla, como “Libertango” ou “Años de Soledad”, em seus shows e discos.


Edição brasileira

Para os muitos fãs brasileiros de Piazzolla, uma boa notícia: esse festival deve ganhar uma edição em São Paulo e Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2017, com participações de artistas brasileiros. O responsável por trazer o evento ao país é Toy Lima, idealizador e produtor de importantes festivais, como o Chivas Jazz, o Heineken Concerts e o Bridgestone Music.

“Não se trata de uma mostra convencional da obra de Astor Piazzolla, que completaria 95 anos em 2016, mas sim a mais completa imersão no trabalho desse músico realizada até agora em todo o mundo”, avalia o produtor paulista, que também participará de uma das mesas de debates do evento, nesta semana.  


Lima chama atenção para o fato de Piazzolla ter sido criticado durante décadas por parte da imprensa local e argentinos mais conservadores, que não aceitavam sua “música contemporânea da cidade de Buenos Aires” (termo com o qual ele se referia à sua música, por não gostar que a chamassem de tango).

“A intenção da Experiência Piazzolla é mostrar ao público mais jovem a originalidade e o modernismo da obra desse compositor. Na mostra audiovisual a plateia vai conhecer muitas histórias de Piazzolla, um aficionado pela pesca de tubarões, assim como sua habilidade como pugilista, sua aversão à boemia portenha e seu antiperonismo feroz”, comenta o produtor.

Outro aspecto da obra de Piazzolla que Toy Lima destaca é sua contribuição para o cinema. “Poucos sabem que ele compôs uma trilha sonora para o filme “O Último Tango em Paris” (de Bernardo Bertolucci), que foi recusada por ser melancólica demais e substituída pela obra-prima de Gato Barbieri”.

Antecipando sua participação num dos debates do evento, Lima diz que vai comparar a rejeição sofrida por Piazzolla em seu país com as críticas que Tom Jobim enfrentava no Brasil. “Astor está para Buenos Aires como Jobim para o Rio ou Gershwin para Nova York”, observa o produtor, equiparando as contribuições desses grandes expoentes da música do século 20.
 

Mais informações no site do festival Experiência Piazzolla 



Toninho Horta e Maurício Takara: inusitado encontro instrumental no Sesc Pompeia

|

                            Thiago Alves (da esq. para dir.), Mauricio Takara, Toninho Horta e Lisandro  Massa   
 
Se você é um dos que acompanham os shows da série Encontros Instrumentais desde 2015, em São Paulo, provavelmente pensou, como eu, que este será um dos encontros musicais mais inusitados já realizados no Sesc Pompeia. Até Toninho Horta e Mauricio Takara, músicos que vão se encontrar em um palco pela primeira vez, confessam que, num primeiro momento, estranharam o convite.

Essa surpresa é justificável. Afinal, o que o mineiro Toninho, cultuado guitarrista, arranjador e autor de clássicas canções do Clube da Esquina, teria em comum com o paulista Takara, multi-instrumentista com uma diversificada trajetória musical associada à experimentação e à eletrônica?

“Toninho é um ícone, um monumento da guitarra mundialmente conhecido. No início, fiquei pensando se eu teria mesmo algo para contribuir, se eu conseguiria me expressar dentro de um universo musical tão rico como o dele”, admite Takara. “Fui escutar novamente os discos dele e cheguei à conclusão de que temos uma afinidade: a busca de um universo musical novo e próprio”.

A experiência de tocar com músicos que praticamente desconhecia se tornou recorrente na carreira de Toninho ainda na década de 1980, quando viveu por dois anos nos Estados Unidos. “Em Nova York, você conhece músicos de todo lugar: africano, russo, grego, coreano, austríaco. Já tive relações musicais com gente muito bacana, com concepções bem diferentes”, relembra o autor de canções como “Beijo Partido”, “Viver de Amor” e “Pedra da Lua”.

“Ele tem um universo próprio e muito brasileiro, mas sem aqueles estereótipos que costumam ser associados ao Brasil. Usamos processos totalmente diferentes, mas eu vejo algumas similaridades entre a música do Toninho e a minha”, comenta Takara, conhecido como baterista das bandas Hurtmold e São Paulo Underground, além de desenvolver uma obra autoral, em álbuns como “Puro Osso” e “Mundotigre”.

Bastou um primeiro encontro – ocasião em que se conheceram e esboçaram um ensaio – para os novos parceiros ficarem animados. “O pontapé inicial foi bem bom”, resume Takara, que até compôs um material especialmente para o show. “Fiquei surpreso ao ver um cara estabelecido e tão importante, como ele, se mostrar tão aberto e interessado pelo meu universo musical”, comenta o paulista.

“O resultado me agradou tanto que fiquei a fim de gravar esse encontro musical. A vibração de experimentar um som novo foi muito prazerosa”, comemora Toninho, contente com as releituras de composições de sua autoria, como “Dona Olímpia” e “O Vento”, que estarão no repertório. E como experiente arranjador que é, para ampliar as possibilidades sonoras, decidiu convocar o pianista Lisandro Massa e o baixista Thiago Alves a participarem do show.

Takara também confia no material que prepararam juntos. “Acho que vai ser interessante até para quem acompanha o trabalho do Toninho há bastante tempo. Acho que conseguimos criar uma atmosfera nova, tanto para as músicas dele, como para as minhas”. 
 


Venda de ingressos e outras informações no site do Sesc SP.   

(Texto escrito a convite da equipe de programação do Sesc Pompeia, que organiza a série de shows Encontros Instrumentais)

Toots Thielemans (1922-2016): o jazz perde o lirismo e o sorriso do grande gaitista

|


                                         O gaitista e jazzista belga Toots Thielemans, nos anos 1960  

O jazz perdeu o talento de Toots Thielemans, ícone mundial da gaita. O músico e compositor belga morreu na manhã desta segunda-feira (22/8), dormindo em um hospital de Bruxelas, segundo sua produção. Tinha 94 anos e estava internado havia um mês, após sofrer uma queda.

Introdutor da gaita de boca (ou harmônica) na cena internacional do jazz, ele reinou absoluto por cerca de seis décadas. As limitações técnicas desse instrumento não o impediram, ainda nos anos 1950, de dividir shows e gravações com expoentes do gênero. Para isso adotou a harmônica cromática (evolução da gaita diatônica, que é mais utilizada pelos músicos de blues).

“Quando comecei a tocá-la, na década de 1940, os músicos de Bruxelas diziam que eu devia jogá-la fora. A gaita era tratada como um brinquedo, não um instrumento de verdade”, contou Thielemans a este repórter, em entrevista publicada na “Folha de S. Paulo” , em 2007.

Antes de se popularizar como gaitista, já era reconhecido como um promissor guitarrista. Em 1950, excursionou pela Europa com o sexteto do clarinetista Benny Goodman. No ano seguinte emigrou para os Estados Unidos, onde integrou por seis anos o quinteto do pianista George Shearing.

Já atuando como solista, em 1961, lançou “Bluesette” –- delicada valsa de sua autoria, em cuja gravação associou seu assobio ao som da guitarra. Gravada posteriormente por dezenas de músicos de diversos países, essa composição tornou-se um clássico do jazz e jamais saiu do repertório dos shows do gaitista.

Entre tantas parcerias com jazzistas de alto quilate, como Quincy Jones, Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Shirley Horn ou Jaco Pastorious, o disco que Thielemans gravou com o pianista Bill Evans, “Affinity” (1979), é um trabalho um tanto esnobado na época, que merece ser reavaliado.

A expressividade de sua gaita também o levou a ser convidado para gravar trilhas sonoras para filmes, como o hoje cultuado “Perdidos na Noite” (1969), “Os Implacáveis” (1972) e “Jean de Florette” (1986), entre outros. Também participou de trilhas sonoras de programas de TV, como “Vila Sésamo”.

Ao gravar um disco com a cantora Elis Regina (“Aquarela do Brasil”, mais tarde rebatizado de “Elis & Toots”), em 1969, Thielemans expressou sua paixão pela música brasileira, interpretando canções de Ary Barroso, Tom Jobim, Edu Lobo e Egberto Gismonti, entre outros.

Já em 1992, reacendeu o namoro com a MPB no álbum “The Brasil Project”. Produzido pelo violonista Oscar Castro-Neves, este reunia canções de Ivan Lins, Djavan, Chico Buarque, João Bosco, Milton Nascimento, Dori Caymmi, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros, além de participações dos próprios compositores. A repercussão internacional desse disco o levou a lançar “The Brasil Project 2”, no ano seguinte.

Desde 1980, quando se apresentou no 2.º Festival Internacional de Jazz de São Paulo, Thielemans retornou várias vezes ao país –- a última foi em 2009, no Festival Jazz & Blues de Guaramiranga (CE). Um festival de jazz com seu nome foi anunciado para setembro, em La Hulpe (a 25km de Bruxelas), onde vivia.

Quem teve a sorte de vê-lo tocar ao vivo, sabe que, além do lirismo rasgado de sua gaita, no palco ele revelava uma alegria contagiante, quase infantil. O sorriso de Toots também vai fazer muita falta.

(Texto publicado na “Folha de S. Paulo”, em 23/8/2016) 









China Moses: cantora mostrou seu lado "entertainer", em show no Bourbon Street

|

                                                 China Moses durante seu show no Bourbon Street, em São Paulo  

O Bourbon Street Music Club merecia estar mais cheio, na noite de ontem, no primeiro e único show da cantora e atriz norte-americana China Moses, em São Paulo. Não é difícil imaginar o porquê da plateia reduzida: a intensa programação das Olimpíadas na TV; a noite fria com uma garoa tipicamente paulista; e mais uma edição do festival Jazz na Fábrica, que começa amanhã, certamente colaboraram para que alguns ficassem em casa.

Quem foi ao clube paulistano deve ter saído sorrindo, porque China não é só uma talentosa cantora de soul, blues e jazz –- aliás, herdeira do DNA vocal e artístico de sua mãe, a grande cantora de jazz Dee Dee Bridgewater. China é também uma carismática “entertainer”, no melhor sentido da palavra, que combina dotes de atriz com um rasgado senso de humor. Em alguns momentos seu show quase se transforma em uma performance de comédia “stand-up”.

Só mesmo uma comediante teria a ideia de compor “Blame Jerry”, uma inusitada canção inspirada na personagem Gabrielle Sollis -- interpretada por Eva Langoria, na popular série de TV “Desperate Housewives” (2004-2012). Antes de cantá-la no show, China também arranca risadas da plateia, falando de sua obsessão por esse seriado.

“Já perceberam que eu sou meio palhaça”, disse ela, depois de cantar, com um copo na mão, o blues “Hung Over”, em que simulou estar embriagada. Já em “Nicotine”, também uma canção de sua autoria com uma divertida introdução, ela se diz viciada em cigarros, comparando o tabaco a um namorado que não consegue largar. Outra surpresa foi a versão bastante livre de “Move Over”, do repertório da cantora Janis Joplin.

Simpática, China retribuiu os aplausos e pedidos de bis com uma carinhosa homenagem à música brasileira. Sentada à beira do palco, contou que decidiu cantar, na última hora, uma bossa nova que aprendera ainda criança, ouvindo sua mãe: “Wave”, de Tom Jobim, em uma releitura bem jazzística.

Se você ficou interessado, mora em São Paulo e não se importa de pegar uma estrada, o festival Sesc Jazz & Blues ainda oferece três oportunidades para se ver o show de China nesta semana: amanhã (quinta, 11/8), em Piracicaba; sexta (12/8), em Jundiaí; e no sábado (13/8), em Bauru.


Se não for possível ir, veja os vídeos abaixo e fique tranquilo: pelo que se viu e ouviu no show de ontem, é bem provável que China retorne outras vezes.

Mais informações e venda de ingressos no site do SESC SP.




 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB