Jazz em 2019: 20 álbuns de revelações e veteranos do gênero nos Estados Unidos

|



Para quem gosta de acompanhar as novidades e os lançamentos na cena internacional do jazz, aqui vai uma lista comentada de 20 álbuns lançados durante 2019, no mercado norte-americano. Não se trata de uma lista de “melhores do ano”, mas de recomendações de álbuns que tive a oportunidade de ouvir e que me agradaram.

Como o acesso a CDs lançados fora do país torna-se mais difícil a cada ano, você pode ao menos ouvir algumas faixas desses álbuns, se clicar no título de cada disco comentado (em streaming gratuito do YouTube). Espero que você curta, como eu, essas novidades do jazz. Boa audição!


Antonio Adolfo - “Samba Jazz Alley”(AAM) – Mais uma joia musical do pianista carioca, que nos últimos anos tem vivido na ponte aérea Miami-Rio. O título do álbum se refere ao lendário Beco das Garrafas, berço do samba-jazz, que Adolfo frequentou ainda adolescente. No repertório, sofisticadas releituras de clássicos da bossa nova (de Tom Jobim, Johnny Alf e Baden Powell), além de temas de sua autoria.

Benett Paster - “Indivisible” (independente) – As composições desse versátil tecladista radicado em Nova York são bem diversificadas: um contagiante soul-jazz (“Gritty Greens”), funk à New Orleans (“Belgrade Booty Call”), jazz-rock que lembra os Brecker Brothers (“Salamander”), um refinado country (“Murfreesboro Waltz”), até samba (“Indian Summer”). Cardápio saboroso para quem não tem gosto restrito.

Carol Sudhalter - “Live at Saint Peter’s Church” (Alfa Projects) – Mulher que toca sax barítono já é algo incomum, mas esta veterana jazzista vai além: também é ótima flautista, além de cantora eventual. Neste concerto gravado em uma igreja nova-iorquina, Carol interpreta composições de Sonny Rollins (“Valse Hot”), Benny Golson (“Park Avenue Petite”) e Tom Jobim (“Luiza”) à frente de um quarteto.

Chris Pasin - “Ornettiquette” (Planet Arts) – Ao batizar seu quarto álbum, este trompetista residente em Nova York já entrega suas referências. Pasin formou sua concepção musical ainda na adolescência, ouvindo discos dos vanguardistas Ornette Coleman e Don Cherry. Cinco composições de Coleman estão no repertório do sexteto, que inclui o vibrafonista e pianista Karl Berger, veterano do jazz “avant-garde”.

Dave Stryker - “Eight Track III” (Strikezone) – Releituras de hits da soul music, como “Move on Up” (Curtis Mayfield), “Everybody Loves the Sunshine” (Roy Ayers) e “Too High” (Stevie Wonder”), destacam-se neste álbum do criativo guitarrista e seu quinteto, que inclui o vibrafonista Stefon Harris. Stryker também lançou há pouco “Eight Track Christmas”, simpático álbum com versões de clássicos natalinos.

Dave Rudolph Quintet - “Resonance” (independente) – Expressivo álbum de estreia do baterista e compositor da Flórida, que assina as nove faixas. Seu quinteto – formado por ex-colegas de universidade, como o guitarrista Larue Nickelson e o saxofonista Zach Bornheimer – soa coeso e inventivo. Faixas como “Atonement”, “Those Clumsy Words” e “Night Squirrel” chamam atenção pelo sabor contemporâneo.

Duduka da Fonseca & Hélio Alves - “Samba Jazz & Tom Jobim” (Sunnyside) – Radicados há décadas em Nova York, o baterista carioca e o pianista paulista têm conquistado plateias de clubes e festivais de jazz, com o repertório deste álbum. Além dos vocais de Maucha Adnet (em belezas jobinianas, como “Dindi” e “A Correnteza”), destacam-se também participações dos trompetistas Claudio Roditi e Wynton Marsalis.

Ernie Watts - “Home Light” (Flying Dolphin) – Este é um daqueles mestres do sax tenor, cuja sonoridade você pode identificar ouvindo apenas duas ou três notas. Watts desenha aqui cenários sonoros bem diversos: da vanguardista “Frequie Flyers” (de sua autoria) à sensível balada “Horizon” (parceria com o pianista Christof Saenger). Já a faixa que empresta o título ao álbum é um sentimental soul-jazz.

Fabrizzio Sciacca Quartet - “Gettin’ in There” (independente) – Em promissor disco de estreia, o contrabaixista italiano de 29 anos lidera um invejável quarteto, com os conceituados Donald Vega (piano), Billy Drummond (bateria) e Jed Levy (sax tenor). Na suingada “For Sir Ron”, sua única composição no álbum, Sciacca homenageia o grande baixista Ron Carter, seu mentor e professor na Manhattan School.

Gretje Angell - “In Any Key” (Grevlinto) – De uma família de bateristas, essa cantora radicada em Los Angeles desponta em promissor disco de estreia. Com um belo timbre vocal, Gretje relê standards do jazz (“I’m Old Fashioned”, “Tea for Two”) e clássicos da bossa (“One Note Samba”, “Berimbau”), além de demonstrar talento nos improvisos (“Them There Eyes”). A seu lado está o guitarrista Dori Amarilio.

Jelena Jovovic - “Heartbeat” (Universal) – Uma bela surpresa o disco de estreia desta talentosa cantora da Sérvia, que já o abre com uma inusitada versão de “Witch Hunt” (de Wayne Shorter). Autora de seis das dez faixas, Jelena canta em inglês, sem sotaque. Em “The Countless Stars”, ela demonstra intimidade com a linguagem do “scat singing”, tão à vontade quanto no dançante boogaloo “Little Freddie Steps”.

Jordon Dixon - “On” (independente) – Natural da Louisiana e radicado em Washington, o saxofonista assina todo o repertório desse álbum. Em faixas como o hard bop “Lee Lee Dee” ou a balada “What You’ve Done for Me”, Dixon exibe seu som volumoso ao sax tenor, que chega a lembrar o do mestre Dexter Gordon. Já em “Fake Flowers”, com um dançante groove à New Orleans, ele se mostra fiel às suas origens.

Jorge Nila - “Tenor Time” (Ninjazz) – Neste tributo a sete mestres do sax tenor, o saxofonista de Nebraska revela sua afinidade com diversos estilos jazzísticos, sem decalcar seus ídolos. Ao lado de Dave Stryker (guitarra), Mitch Towne (órgão) e Dana Murray (bateria), Jorge demonstra sua intimidade com o soul-jazz, nas saborosas faixas “Our Miss Brooks” (de Harold Vick) e “Soul Station (Hank Mobley).

Karl Berger & Jason Kao Hwang - “Conjure” (True Sound Recordings) – O encontro do veterano vibrafonista e pianista alemão com o violinista sino-americano, nomes de destaque na cena do jazz de vanguarda, rendeu um álbum repleto de atmosferas intrigantes. Hwang definiu bem o resultado das gravações que fizeram no estúdio doméstico de Berger, sem partituras: “música espontânea e imprevisível, como a vida”.

Matthew Snow - “Iridescence” (independente) – Ativo na cena jazzística de Nova York há sete anos, esse contrabaixista e compositor faz uma promissora estreia em disco. À frente de um sexteto jovem tão jovem quanto ele, Snow demonstra personalidade musical nas oito composições que assina. Temas como “Amber Glow”, “The Change Agent” e “The Exit Strategy” indicam sua afinidade com a estética do hard bop.

Ray Blue - “Work” (Jazzheads) – Não é demérito algum para esse articulado saxofonista radicado em Nova York se referir a ele como um músico da velha guarda. Ray Blue é um adepto do jazz que não abre mão do swing, o que ele confirma, tanto em sua composição “Attitude”, como em releituras de temas de craques do jazz moderno, como “Amsterdam After Dark” (de George Coleman) ou “Sweet Emma” (de Nat Adderley).

Roger Kellaway - “The Many Open Minds of Roger Kellaway” (IPO) – Aos 80 anos, este pianista e arranjador já fez muita coisa ao lado de músicos de perfis bem diversos, como Duke Ellington, Elvis Presley ou Yo-Yo Ma. Neste álbum, em trio com o guitarrista Bruce Forman e o baixista Dan Lutz, ele revisita clássicos do jazz, como “52nd Street Theme” (T. Monk), “Take Five” (P. Desmond) e “Doxy” (S. Rollins).

The Doug MacDonald Quartet - “Organisms” (independente) – Bem conhecido nos estúdios e clubes de jazz de Los Angeles, o guitarrista toca neste álbum um repertório de standards e temas próprios, com um quarteto que destaca o sax de Bob Sheppard. Num ano bem produtivo, MacDonald lançou mais dois álbuns: “Califournia Quartet”, com outro quarteto, e “Jazz Marathons 4”, com os 10 músicos do Tarmac Ensemble.

The Gil Evans Orchestra - “Hidden Treasures Monday Nights” (GEO) – Os brasileiros que tiveram o privilégio de ouvi-la ao vivo, nos anos 1980, jamais se esqueceram dessa eletrizante orquestra. Décadas depois, o trompetista Miles Evans e o produtor Noah Evans, filhos do grande arranjador (morto em 1988), resgatam o espírito original da orquestra, que inclui vários craques da cena jazzística nova-iorquina.

Tucker Brothers - “Two Parts” (independente) – Os irmãos Joel (guitarra) e Nick Tucker (baixo) já são bem conhecidos na cena musical de Indianapolis. Como líderes do quarteto Tucker Brothers, eles exibem nove composições próprias, neste que é o terceiro álbum do grupo. Da emotiva “Warm Heart” à encantatória “Return to Balance”, o grupo demonstra personalidade musical e gosto pelas improvisações.


Fernando Barba: criador do grupo Barbatuques narra em livro sua trajetória musical

|

                                                                             Fernando Barba, criador do grupo Barbatuques

Admiro o trabalho musical e pedagógico de Fernando Barba há quase duas décadas. Em 2002, tive o prazer de selecionar o Barbatuques, grupo de percussão corporal criado e liderado por ele, para se apresentar no Prata da Casa, um projeto do Sesc Pompeia dedicado a apoiar novos talentos musicais, do qual fui curador durante dois anos e meio.

Já naquela época, a criatividade do Barbatuques se destacava entre os grupos e artistas participantes. Não foi à toa que, nos anos seguintes, o grupo percorreu o Brasil e desenvolveu uma brilhante carreira que segue até hoje, com turnês no exterior e aparições em eventos internacionais, como o encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016.



Como muitos colegas e fãs de Barba, em abril de 2017, fiquei surpreso e preocupado ao saber que ele teria de enfrentar uma cirurgia urgente, após ser diagnosticado com um tumor no cérebro. Durante o processo de recuperação das sequelas que enfrenta até hoje, Barba decidiu compartilhar suas memórias e experiências musicais. 

No livro “A Vida Começava Lá - Uma História de Repercussão Corporal” (Stacchini Editorial), que escreveu em parceria com Renata Ferraz Torres, sua irmã, Barba relembra com sinceridade e riqueza de detalhes sua ligação com a música corporal, assim como sua essencial participação na trajetória do grupo Barbatuques.

O lançamento será neste domingo (24/11), das 14h às 17h, na Livraria da Vila (r. Fradique Coutinho, 915, Pinheiros, zona oeste de São Paulo). Claro que não vou perder essa oportunidade de dar um abraço no querido Barba.





Preta Jazz Festival: evento teve predominância negra e feminina em seu elenco

|

                                                              O pianista pernambucano Amaro Freitas, no Preta Jazz Festival  

Um comentário do compositor e cantor Renato Gama sobre o fato de o elenco do Preta Jazz Jazz Festival (ontem, 20/11, em São Paulo) reunir artistas negros, majoritariamente, chamou a atenção da plateia do Auditório Ibirapuera para o ineditismo daquela noite. Nada mais coerente tratando-se de um festival de música ligado à Feira Preta – o maior evento dedicado ao empreendedorismo negro da América Latina.

Se a predominância de artistas negros é habitual em alguns festivais de jazz pelo mundo, como o de Nova Orleans (nos Estados Unidos) ou o da Cidade do Cabo (na África do Sul), por exemplo, não se pode dizer o mesmo de eventos similares no Brasil – um país no qual, ironicamente, mais da metade da população é afrodescendente.

Vale destacar também outra proeza do Preta Jazz, que nem chegou a ser mencionada durante os shows: com exceção do trio do pianista Amaro Freitas, as outras três atrações do festival eram majoritariamente compostas por mulheres. Nos últimos anos, muitos festivais de jazz pelo mundo vêm tentando aumentar a proporção de mulheres em seus elencos, mas a predominância ainda é marcadamente masculina.

Pena que parte da plateia do Preta Jazz (provavelmente não acostumada a noites musicais com mais de três horas de duração, comuns em festivais do gênero) tenha ido embora antes do último show. Quem ficou se encantou com a inédita e bem-humorada parceria da cantora moçambicana Lenna Bahule com a baixista Ana Karina Sebastião (ex-Quartabê), que entraram em cena cantando o clássico samba “Alguém me Avisou” (de Dona Ivone Lara) e exibiram composições próprias recheadas de improvisos (na foto abaixo).   


Atração mais impactante da noite, o pianista e compositor pernambucano Amaro Freitas demonstrou mais uma vez – à frente de seu poderoso trio, com o baixista Jean Elton e o baterista Hugo Medeiros – porque é festejado como a grande revelação do jazz em nosso país, nos últimos anos. Amaro não se repete: a cada nova apresentação revela uma disposição maior ainda por experimentar novos caminhos e estruturas musicais, em seus improvisos e composições, desprezando clichês. Amaro é um daqueles músicos que podem se apresentar com sucesso em qualquer festival do gênero no mundo.

Conhecido como líder da banda Nhocuné Soul, a qual lidera há mais de duas décadas, Renato Gama abriu mais uma vertente em sua obra, dois anos atrás. Com uma formação instrumental incomum (que inclui fagote e violoncelo ao lado de flauta e sax alto), a Orquestra Profunda de Delicadeza empresta sua sofisticada sonoridade a poemas musicados de escritoras negras. Renato também preparou uma boa surpresa: numa sacada típica de festival de jazz, convidou Amaro Freitas para uma “canja” com integrantes de sua compacta orquestra.

Naruna Costa, Naloana Lima e Martinha Soares, as cantadeiras urbanas do grupo Clarianas (que também são instrumentistas), abriram a noite com um envolvente repertório de cantorias populares que abordam o cotidiano das periferias de nosso país. Não à toa cantam e tocam descalças.

Com um programa original, que inscreve o jazz e a música instrumental dentro da ampla diversidade da música brasileira de ascendência negra, o Preta Jazz Festival estreou bem. Tomara que retorne em 2020.


Duduka da Fonseca Trio: tocante homenagem a Dom Salvador, no clube Bourbon Street

|

                                                             O baterista Duduka da Fonseca e baixista Guto Wirtti   

A relação entre músicos de diferentes gerações, especialmente no universo do jazz, costuma chamar minha atenção. A admiração que um instrumentista tem por outro mais experiente, que lhe apontou caminhos musicais ou até mesmo o incentivou a se tornar músico profissional, lembra a relação de um discípulo com seu mentor. Quem teve a sorte de conviver com um(a) professor(a) muito especial, que abriu seu horizonte intelectual ou lhe deu o estímulo que faltava para abraçar uma carreira até então inusitada, sabe do que estou falando.

Voltei a pensar nisso durante a apresentação do Duduka da Fonseca Trio, no último domingo (10/11), no clube Bourbon Street, em São Paulo. Grande baterista carioca, radicado em Nova York desde 1975, Duduka aprendeu a tocar acompanhando discos de jazzistas americanos e brasileiros. Por isso, em 1980, quando o pianista e compositor paulista Dom Salvador (pioneiro do samba-jazz, que também já vivia em Nova York) o chamou para substituir o baterista de seu grupo, Duduka, já próximo dos 30 anos, brincou com ele: “Eu toco com você desde os meus 14 anos”. Ali começou uma parceria e uma amizade de quatro décadas, que prossegue até hoje.   


Duduka narra esse episódio no encarte do excelente álbum que gravou em 2018, com 11 composições de Dom Salvador. Nas gravações de “Duduka da Fonseca Trio Plays Dom Salvador” (CD lançado pelo selo Sunnyside), ele já tinha a seu lado o pianista David Feldman (na foto ao lado) e o baixista Guto Wirtti, jovens craques da cena jazzística carioca, que também o acompanharam no Bourbon Street.

Entre várias belezas musicais, os três tocaram “Retrato em Branco e Preto” (de Tom Jobim e Chico Buarque) e “Waiting for Angela” (Toninho Horta), mas a maior parte do repertório do show saiu mesmo do disco dedicado a Dom Salvador: composições como “Gafieira”, “Farjuto” e “Samba do Malandrinho”, que trazem a assinatura rítmica do original pianista de Rio Claro (SP), além da sensível balada “Mariá”, que ele dedicou à sua esposa.

A admiração que Duduka revela ao anunciar as composições de Salvador é inspiradora. Nestes tempos em que o ódio e a violência parecem ter se tornado tão comuns em nosso cotidiano, a homenagem de um músico a outro de uma geração anterior (numa área profissional em que também há muita competição) soa como uma lição de fraternidade e amor. Uma noite especial para quem estava na plateia do Bourbon Street.



POA Jazz Festival: inspirador, evento gaúcho incentiva conexões e diversidade musical

|

                                                                            O grupo instrumental gaúcho Raiz de Pedra 

Não é qualquer festival de jazz que tem a audácia de incluir em sua programação uma banda de hip-hop. Ainda mais um grupo como o Rafuagi, principal nome do gênero no Rio Grande do Sul, que não dispensa críticas à desigualdade social e ao racismo, entre outros temas muito pertinentes, nas letras de suas músicas.

A ideia do curador Carlos Badia, ao convidar o Rafuagi para a 5ª edição do POA Jazz Festival (que terminou já na madrugada de domingo, no Centro de Eventos Barra Shopping Sul, em Porto Alegre), faz todo o sentido. A inusitada parceria com o Quarto Sensorial, trio instrumental que mistura jazz experimental e rock progressivo, trouxe novas sonoridades e mais musicalidade ao hip hop do grupo (na foto abaixo, o rapper Ricky Rafuagi). 


Mesmo assim, na plateia, alguns não gostaram de ouvir o rap “Manifesto dos Porongos”, contundente releitura do “Hino Rio-Grandense”, que o Rafuagi lançou em 2016. Com o refrão “povo que não tem virtude acaba por escravizar”, essa música se refere a um revoltante episódio da Guerra dos Farrapos (1835-1845). Uma tropa formada por centenas de escravos, que receberam a promessa de serem libertados ao final da guerra, foi dizimada graças à traição dos líderes dessa rebelião contra o governo imperial. Um sangrento caso de racismo e violência que poucos conhecem no resto do país.   

Alguns espectadores chegaram a deixar a plateia, incomodados pela crítica desconstrução do hino gaúcho, mas voltaram mais tarde para ouvir uma das atrações mais esperadas do festival. A cantora francesa Cyrille Aimée e o violonista paulista Diego Figueiredo (na foto abaixo) formam um duo encantador, ao recriarem um repertório que inclui clássicos do jazz (“Night in Tunisia”), bossa nova (“Chega de Saudade”) e canções francesas (“La Vie em Rose”). Cyrille também domina a arte do “scat singing” e, em alguns momentos, transforma sua voz doce em um instrumento musical, dialogando nos improvisos com o brilhante violão de Diego.   

Última atração entre os shows do festival, a banda norte-americana Davina & The Vagabonds divertiu a plateia com seu jazz tradicional de brechó e dançantes rhythm & blues. Tatuada, cheia de caras e bocas, a vocalista, pianista e compositora Davina Lozier (na foto abaixo) lembra uma cantora de cabaré, mas possui repertório próprio. Composições como “Sugar Drops” ou “Deep End” remetem a clássicos blues dos anos 1920, recheados de humor e auto-ironias.

A noite de sábado começou com a apresentação do Sexteto Gaúcho, grupo da nova geração do choro, que lançou seu álbum de estreia, “Bicho Solto”, em 2018. Mesmo quando esse sexteto de chorões toca clássicos do gênero, como “Bem Brasil” (de Altamiro Carrilho) ou o delicado “Ternura” (de K-Ximbinho), dá para se sentir, tanto na sonoridade do acordeom de Matheus Kleber, como nos andamentos mais rápidos, o característico sotaque do choro cultivado no Rio Grande do Sul.

Confesso que, ao saber que o formato desta edição do POA Jazz Festival consistia em quatro shows por noite, cheguei a pensar que os espectadores dificilmente resistiriam até o final dos extensos programas. Mas a alta qualidade das atrações musicais manteve o interesse da plateia, em duas noites que se estenderam pelas madrugadas.  

Do reencontro dos músicos do cultuado grupo instrumental gaúcho Raiz de Pedra, que formou uma legião de fãs nos anos 1980 e 1990 (imagine algo como um retorno do Quarteto Novo, tamanha era a excitação que se sentia na plateia) às contagiantes fusões de ritmos do Nordeste brasileiro com o jazz exibidas pela banda paulista Silibrina, passando pelo sofisticado jazz do quarteto do saxofonista holandês Jasper Blom e pelo tributo do jovem pianista Cristian Sperandir ao saudoso compositor gaúcho Geraldo Flach (1945-2011), a noite de abertura, em 8/11, foi também repleta de boas surpresas. 

Vale observar ainda que o POA Jazz leva muito a sério seu slogan “Somos múltiplas conexões”. Além dos oito shows da programação principal, o festival gaúcho também realizou várias atividades paralelas, como uma homenagem ao crítico musical e pesquisador gaúcho Juarez Fonseca por seus 50 anos de carreira ou a exibição do documentário “Zuza Homem de Jazz”, que foi debatido com seu protagonista, o jornalista, produtor e curador musical Zuza Homem de Mello.

Outros debates e palestras abordaram temas como as perspectivas do jornalismo cultural, políticas culturais e a sustentabilidade nos projetos culturais. Houve também uma série de masterclasses, com os integrantes do grupo Raiz de Pedra, com Mathias Pinto, violonista do Sexteto Gaúcho, e Jesse Van Huller, guitarrista do Jasper Blom Quartet. Aliás, esse grupo holandês se apresenta hoje, às 23h, no clube JazzB, em São Paulo.

Num ano tão difícil para a realização de projetos culturais que dependem de patrocínios, em meio a um contexto reacionário de censura e de ataques à cultura de nosso país, o 5.º POA Jazz Festival deu um show de profissionalismo e perseverança, mesmo sendo obrigado a fazer cortes em seus planos iniciais. Um exemplo inspirador a ser seguido nessa área.

(Cobertura realizada a convite da produção do evento)

Sesc Jazz: o carisma de Yissy Garcia, a baterista cubana que toca sorrindo

|

                                                                                   A baterista e compositora Yissy Garcia 

Quem acha que o jazz é música para gente velha (uma bobagem preconceituosa que volta e meia ouvimos por aí) morderia a língua se tivesse assistido ao contagiante show que a baterista e compositora cubana Yissy Garcia e seu quinteto Bandancha fizeram ontem (24/10), em mais uma noite do festival Sesc Jazz, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Além de misturar influências do funk, do hip-hop, do reggae e da música eletrônica em seu jazz contemporâneo de ascendência afro-cubana, Yissy é uma baterista brilhante, que esbanja criatividade nos improvisos. Carismática, ela toca com um irresistível sorriso no rosto, transmitindo à plateia todo o prazer que sente ao tocar sua música.

Yissy abriu o show contando à plateia que seu pai (o baterista Bernardo Garcia, um dos fundadores da Irakere, lendária banda de jazz cubano da qual também faziam parte o trompetista Arturo Sandoval e o saxofonista Paquito D’Rivera) costumava dizer que o Brasil era o seu país favorito. “Estou realizando um sonho nesta noite”, ela disse, demonstrando estar emocionada.

Impossível não lembrar do genial trompetista e jazzista Dizzy Gillespie (1917-1993), que arriscou uma profecia ao visitar a ilha de Cuba, no final dos anos 1980. Segundo ele, o jazz, a música cubana e a música brasileira, que se desenvolveram a partir de raízes comuns, se tornariam uma só no futuro. Mesmo que essa profecia não venha a se realizar, não há dúvida de que essas três preciosas fontes musicais são responsáveis por muito do que se criou de melhor na música do século 20.

Sorte de quem pôde ouvir e se deliciou com a música de Yissy Garcia e sua Bandancha. É sempre bom lembrar que temos primos distantes e queridos em Cuba, cuja música costuma nos emocionar e fazer sorrir.












Sesc Jazz: festival paulista reverencia a arte do saxofonista Gary Bartz

|

                                                          
                                                                             O saxofonista Gary Bartz e o pianista Barney McCall 

Em mais uma noite do festival Sesc Jazz, ontem (20/10, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo), o saxofonista e compositor norte-americano Gary Bartz foi logo avisando à plateia que não costuma interromper seus shows para receber aplausos, nem mesmo para anunciar a próxima música do repertório.

O veterano jazzista não estava brincando. Só interrompeu o show depois de tocar por mais de uma hora, para recuperar o fôlego. Então trocou o sax alto pelo soprano e anunciou uma pérola de seu repertório naquela noite: “Si Tu Vois Ma Mère” 
 a  singela composição de Sidney Bechet, pioneiro do jazz de New Orleans, que Woody Allen resgatou na trilha sonora de filme “Meia-Noite em Paris” (de 2011).

Em seguida, tocou um trecho da melodia de “Ponta de Areia” (de Milton Nascimento), que provocou sorrisos na plateia. Pouco depois veio “Just Friends”, clássica canção americana que os jazzistas tocam com frequência (não à toa gravada por Charlie Parker, o genial saxofonista cuja influência levou Bartz a adotar esse instrumento). Não faltaram também canções compostas pelo próprio Bartz, como “I’ve Known Rivers” e “Precious Energy”, que ele mesmo cantou.

É bem provável que grande parte da plateia estava ali ouvindo Bartz pela primeira vez e que tenha se interessado por ele ao saber de sua parceria com Miles Davis, ainda no final dos anos 1960. Embora seja muito menos conhecido que seu antigo parceiro, Bartz também tocou com outros gigantes do jazz, como Art Blakey, Charles Mingus, Eric Dolphy, McCoy Tyner e Max Roach 
 seu currículo musical é capaz de deixar qualquer jazzista com inveja.    

O que importa mesmo é que Bartz e seus talentosos parceiros – Barney McCall (piano), James King (contrabaixo) e Francisco Mella (bateria) 
 cativaram a plateia durante duas horas de show, sem recorrer a um repertório mais conhecido. Ver um músico de 79 anos exercer seu ofício com tanta dedicação e respeito por sua plateia é algo estimulante.

 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB