Jazz, samba, soul, choro, blues, bossa nova, salsa, MPB, instrumental, R&B, funk, hip hop e outras vertentes musicais, em dicas, resenhas, entrevistas e coberturas de festivais
por Carlos Calado
Quem sou
Jornalista, editor e crítico musical, escrevo sobre festivais, shows e discos. Desde meados dos anos 1980 tenho acompanhado profissionalmente a produção fonográfica brasileira e eventos musicais em diversos países. Faço palestras sobre música, curadorias e já dirigi projetos para o Sesc SP. Sou autor dos livros "Tropicália: a História de Uma Revolução Musical", "A Divina Comédia dos Mutantes", "O Jazz como Espetáculo" e "Jazz ao Vivo", entre outros. Colaboro eventualmente para os jornais "Folha de S. Paulo" e "Valor". Nos shows e festivais que acompanho, gosto de fotografar músicos que admiro.
A baterista e compositora Yissy Garcia Quem acha que o jazz é música para gente velha (uma bobagem preconceituosa que volta e meia ouvimos por aí) morderia a língua se tivesse assistido ao contagiante show que a baterista e compositora cubana Yissy Garcia e seu quinteto Bandancha fizeram ontem (24/10), em mais uma noite do festival Sesc Jazz, no Sesc Pompeia, em São Paulo.
Além de misturar influências do funk, do hip-hop, do reggae e da música eletrônica em seu jazz contemporâneo de ascendência afro-cubana, Yissy é uma baterista brilhante, que esbanja criatividade nos improvisos. Carismática, ela toca com um irresistível sorriso no rosto, transmitindo à plateia todo o prazer que sente ao tocar sua música.
Yissy abriu o show contando à plateia que seu pai (o baterista Bernardo Garcia, um dos fundadores da Irakere, lendária banda de jazz cubano da qual também faziam parte o trompetista Arturo Sandoval e o saxofonista Paquito D’Rivera) costumava dizer que o Brasil era o seu país favorito. “Estou realizando um sonho nesta noite”, ela disse, demonstrando estar emocionada.
Impossível não lembrar do genial trompetista e jazzista Dizzy Gillespie (1917-1993), que arriscou uma profecia ao visitar a ilha de Cuba, no final dos anos 1980. Segundo ele, o jazz, a música cubana e a música brasileira, que se desenvolveram a partir de raízes comuns, se tornariam uma só no futuro. Mesmo que essa profecia não venha a se realizar, não há dúvida de que essas três preciosas fontes musicais são responsáveis por muito do que se criou de melhor na música do século 20.
Sorte de quem pôde ouvir e se deliciou com a música de Yissy Garcia e sua Bandancha. É sempre bom lembrar que temos primos distantes e queridos em Cuba, cuja música costuma nos emocionar e fazer sorrir.
Manoel Cruz, baixista e compositor / Foto de Adriano Damas
O contrabaixista e compositor Manoel Cruz traz uma boa notícia para os apreciadores da música instrumental e do jazz. Seu saboroso álbum “Brazilian News” revela uma influência que o distingue do que tem se produzido majoritariamente na cena musical brasileira, nos últimos anos.
“Gosto muito de música latina. Sempre ouvi Irakere, Paquito D’Rivera, Arturo Sandoval”, diz o instrumentista radicado em São Paulo, explicitando sua afinidade com o jazz latino e os ritmos afro-cubanos. Aliás, uma influência muito saudável, que já contribuiu para enriquecer a música brasileira em outras épocas.
Essencial no elenco deste álbum é a presença de Gabriel Rosati, conceituado trompetista italiano que cultiva a sonoridade e o fraseado característicos do “latin jazz”. Essa herança musical está muito bem sintetizada na faixa “Fiesta Sunset”, contagiante composição de Cruz.
“Costumo dizer que esse ritmo é uma ‘macumbia’. É o nosso jeito de tocar música latina”, define com bom humor o compositor e arranjador brasileiro. A gravação também destaca a participação do saxofonista dominicano Sandy Gabriel, mais um craque do jazz latino, que contribui com um solo cheio de energia.
Outro destaque no repertório do álbum é o samba “Brazilian News”. A melodia é exibida pelo baixo elétrico de Cruz, que também assume na gravação os discretos vocais. A seu lado estão o pianista Ary Holland e Douglas Las Casas, parceiros experientes que já integram seu trio há alguns anos.
“Gosto de deixar os músicos bem à vontade. Este é um disco feito no peito, na amizade mesmo. Devo muito a eles”, reconhece Cruz, que também conta com participações dos guitarristas Rogério de Oliveira, no envolvente “Samba D Boa”, e Aldo Landi, em “Caboclice”, um tema em ritmo ternário que vira jazz.
Em meio a várias incursões jazzísticas, Cruz teve a ótima ideia de incluir no repertório uma releitura de “Lamento Sertanejo” (de Dominguinhos e Gilberto Gil), que serve de veículo para inspirados solos de Rosati e Holland. A bela melodia dessa canção é realçada pela interpretação sensível do contrabaixista.
No final dos anos 1980, ao visitar a ilha de Cuba, o grande trompetista e compositor Dizzy Gillespie (1917-1993) arriscou uma previsão: a de que a música cubana, o jazz americano e a música brasileira se tornariam uma só, no futuro. Por enquanto isso ainda não aconteceu, mas este álbum de Manoel Cruz demonstra a afinidade que une essas preciosas tradições musicais.
Texto escrito para a capa do álbum "Brazilian News", de Manoel Cruz, que será lançado nesta sexta-feira (16/8), em show no clube Blue Note, em São Paulo.
Chucho Valdés e Gonzalo Rubalcaba / Foto de divulgação
Esse é um encontro musical com todo o potencial para ser lembrado no futuro. Mestres do piano admirados internacionalmente, Chucho Valdés e Gonzalo Rubalcaba são representantes da riqueza e da diversidade da música cubana, além de cultivarem há décadas o espírito inventivo e a modernidade do jazz. Já exibido em outros países, esse duo de pianos chega neste mês a palcos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Filho do lendário pianista Bebo Valdés, Chucho, hoje com 76 anos, despontou na cena musical de seu país ainda na década de 1960, tocando com a Orquesta Cubana de Música Moderna. Em 1973, em parceria com o saxofonista Paquito D’Rivera, fundou a influente banda Irakere. Com ela destilou por mais de duas décadas fusões de diversas vertentes da música tradicional cubana com o jazz. Desde o final dos anos 1990, já como solista, tem se apresentado pelo mundo com o mesmo brilho.
Também descendente de uma destacada família musical de Cuba, Rubalcaba tem 55 anos. Estudou música clássica e, depois de tocar com várias formações e orquestras da ilha, formou em 1983 o Proyecto, seu grupo de jazz afro-cubano. Apadrinhado pelo jazzista Dizzy Gillespie, logo passou a frequentar festivais internacionais. O contrato com o conceituado selo Blue Note permitiu que gravasse mais de uma dúzia de discos, com destaque para suas parcerias com o baixista Charlie Haden e o baterista Paul Motian.
Além da admiração mútua, embora pertençam a gerações diferentes, Valdés e Rubalcaba compartilham afinidades. “O fato de termos referências musicais similares torna mais fácil fazermos música juntos. A diferença de gerações não impede que possamos nos sentar para conversar e trocar lembranças de orquestras, de músicos, de discos, de lugares que frequentamos”, comenta Rubalcaba, que sempre creditou a influência de Valdés, em sua formação. “Nossa intenção – Chucho bem antes de mim – foi buscar um lugar mais amplo para o folclore afro-cubano. Creio que esse esforço no sentido de introduzir nossas raízes musicais num contexto mais universal é o que mais nos aproxima”.
“Gonzalo começou ouvindo pianistas de gerações anteriores à dele. Eu era um desses pianistas, mas hoje ele é muito diferente de mim”, observa Valdés, que acompanhou a trajetória do brilhante colega desde muito cedo. “Gonzalo tem um estilo mais contemporâneo, bastante avançado, e eu mantenho a linha musical que sempre adotei. Seguimos por caminhos diversos”.
Além da profunda ligação que ambos têm com a música afro-cubana e com o jazz, outra afinidade os aproxima. “A música sul-americana também nos interessa muito, especialmente a música brasileira, cuja riqueza rítmica e melódica é uma das maiores de nosso planeta. Aliás, poucos anos atrás, me diverti muito tocando com João Donato, que em minha opinião é um dos grandes músicos brasileiros, ao lado de Tom Jobim”, aponta Valdés.
Rubalcaba concorda com o parceiro. “Cuba, assim como o Brasil, é uma nação onde se produz música de maneira natural, constantemente. A música tem um poder muito forte, inclusive de renovação, nesses países. É como uma espécie de bênção que os músicos cubanos e brasileiros receberam. É quase impossível imaginar Cuba ou o Brasil sem a música”, reflete o pianista.
A intimidade da dupla com a cultura e a religião afro-cubana também determinou a escolha do nome – “Transe” – para esse projeto que os une pela primeira vez. “Por esse vínculo que Chucho e eu compartilhamos me pareceu que o conceito de transe seria apropriado para definir o nosso encontro. Um estado de transe é um estado de elevação”, explica Rubalcaba. “Essa condição de transição a um estado superior de consciência e de imaginação está presente em uma parte importante da prática religiosa da essência folclórica afro-cubana”, acrescenta.
Para quem não é familiarizado com a linguagem do jazz, Valdés dá uma dica valiosa aos receosos de não conseguirem acompanhar a evolução dos improvisos da dupla: esse concerto é, praticamente, um bate-papo entre amigos. “É isso que fazemos com nossos pianos: uma conversa musical, com perguntas e respostas. Trata-se de um diálogo bonito e frequentemente bem-humorado, que não tem nada a ver com algum tipo de competição entre nós”, avisa o pianista.
“A ideia de conversa está muito ligada ao que conhecemos por improvisação, na música”, continua Rubalcaba. “Entre amigos se fala sobre um mesmo tema muitas vezes. E cada vez que se volta a esse tema, tentamos trazer algo novo à conversa, buscamos evoluir nesse tema – procuramos um novo acordo, se possível. Na improvisação musical acontece algo semelhante porque, afinal, estamos tratando de interação, de comunicação”.
Sobre a possibilidade de registrar esses encontros musicais em um disco, Rubalcaba diz que ainda não se decidiram. “Deixar algo registrado desse projeto parece ser um passo natural, mas neste momento ainda não temos claro quando faremos isso. Temos tocado bastante, nos EUA, na Europa e na Ásia. E o concerto em São Paulo será o primeiro na América do Sul. Num projeto como esse, com apresentações ao vivo, me parece ser mais fácil ir depois ao estúdio para fazer o disco, porque você já conhecerá bem a música. Assim, o que for registrado terá uma validade maior”.
Os dois não costumam divulgar o programa de seus concertos, portanto também deverá ser assim desta vez. “Preferimos decidir o que vamos tocar na hora, para manter o frescor da música”, justifica Valdés. Para os mais curiosos, pode-se ao menos dizer que são consideráveis as chances de se ouvir “El Manisero”, a popular canção cubana de Moisés Simons, ou “Caravan”, clássico do repertório da big band de Duke Ellington. Ambas frequentaram o repertório de concertos anteriores da dupla, em meio a composições próprias ou citações eruditas de Chopin, Gershwin e Manuel de Falla, durante os improvisos.
No Brasil, as apresentações de Valdés e Rubalcaba farão parte da segunda edição do projeto Mais Piano, com patrocínio da Rede. Tanto em São Paulo (dia 29/8, na Sala São Paulo; dia 2/9, com entrada franca, no Parque do Ibirapuera) como no Rio de Janeiro (dia 31/8, na Sala Cecília Meireles), esses concertos terão mais uma atração à altura dos protagonistas.
Quem vai abrir o programa dessas noites é o talentoso André Mehmari, pianista, compositor e arranjador que, em apenas duas décadas de carreira, já conquistou um lugar entre os grandes instrumentistas brasileiros. Como solista, lançou oito álbuns e já se apresentou em alguns dos mais conceituados festivais de jazz brasileiros, assim como no exterior.
(Texto publicado no caderno de cultura do "Valor Econômico", em 24/8/2018)