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Chico Cesar: compositor e cantor aborda sua intimidade, no álbum "Estado de Poesia"

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"Acorda, acordeon, que eu tô sonhando”. O primeiro verso de “Caninana”, um irresistível xote de coloração pop, já antecipa o que vai se ouvir. Em “Estado de Poesia” (lançamento Urban Jungle/Natura), seu primeiro disco de canções inéditas desde 2008, o compositor e cantor Chico César retoma seu ofício artístico, com evidente prazer, depois de passar seis anos atuando como gestor público de cultura na Paraíba, onde nasceu.

Em entrevistas, Chico tem dito que esse CD tem dois lados diversos. Em um deles, o compositor desfia canções que falam de sua intimidade, como “Palavra Mágica”, “Atravessa-me” ou a própria faixa-título, cheias de romantismo. Por outro lado, há canções de viés social, como o reggae “Negão”, que aborda o racismo, ou a indignada “Reis do Agronegócio” (parceria com Carlos Rennó), com certa influência de Bob Dylan. Ainda nessa linha, “No Sumaré”, um samba agridoce ao estilo de Adoniran Barbosa, também denuncia o preconceito. Por essas e outras, Chico César já estava fazendo falta.


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 28/11/2015)



Diana Krall: pianista e cantora troca o jazz pelo pop no medíocre álbum "Wallflower"

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Imagine que um dia Bob Dylan decida largar a guitarra para gravar um disco de clássicos da bossa nova. Ou que João Bosco troque seu violão por uma pick-up de DJ para se dedicar à música eletrônica. Guardadas as proporções, Diana Krall fez algo semelhante em “Wallflower” (lançamento da gravadora Verve/Universal), seu 12º álbum.  

Não é fácil entender por que uma talentosa pianista de jazz, que também sabe cantar, toca só em três das 12 faixas oficiais desse álbum. Quem assume o piano --tocando, aliás, de maneira bem burocrática-- é o produtor David Foster, conhecido por trabalhos com figurões da música pop mais convencional, como Celine Dion, Barbra Streisand e Andrea Bocelli. Detalhe: atualmente, ele é o presidente da gravadora Verve.  

Dirigido ao segmento de público conhecido nos EUA como “pop adulto”, “Wallflower” traz um repertório previsível. Foster e Diana escolheram canções pop que frequentaram as rádios e paradas de sucesso, nas décadas de 1960 e 1970, assinadas por medalhões do gênero, como Elton John, Don Henley, Randy Newman e Paul McCartney (autor de I'll Take You Home Tonight", a única canção inédita), entre outros.  


A versão de “California Dreamin’”, o hit do quarteto vocal The Mamas and the Papas que abre o CD, já antecipa a atmosfera fria, meio deprimente, que marca quase todas as faixas. A versão de Diana, revestida por cordas melosas transforma essa canção solar em uma viagem ao Polo Norte. Pior ainda: o ritmo é marcado, acredite, por um bipe eletrônico.  


Em “Superstar” (canção de Leon Russell, que fez sucesso com a dupla Carpenters), Diana força uma certa rouquidão na voz --o velho truque para soar sensual-- que soa artificial. As cordas açucaradas e os vocais de apoio, no arranjo de “Operator (That’s Not the Way It Feels)”, de Jim Croce, fariam mais sentido em um disco da estrelinha country Shania Twain. E as participações "especiais" dos cantores Michael Bublé e Bryan Adams não acrescentam nada de substancial.


Quem conhece os últimos álbuns de Diana sabe que ela já vem evitando o jazz há alguns anos. “Quiet Nights” (2009) era um disco de bossa nova que parecia feito na década de 1960. Em “Glad Rag Doll” (2012), ela resgatou canções dos anos 1920 e 1930 com uma pegada pop. Agora Diana se superou: “Wallflower” é seu disco mais pop, no sentido mais medíocre desse termo. 

 
(resenha publicada na "Folha de S. Paulo", em 16/02/2015)

Madeleine Peyroux: primeiro DVD da cantora traz imagens de seus shows nas ruas de Paris

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Registrado em janeiro de 2009, num clube de Los Angeles, este DVD com um show de Madeleine Peyroux concentra-se no repertório de “Bare Bones”, seu quarto e recente álbum. Nele, a cantora norte-americana não só se firmou como compositora, como parece enfim ter começado a encontrar sua identidade musical.

No DVD "Somethin' Grand" (lançamento Universal), as conhecidas versões de canções melancólicas de Leonard Cohen (“Dance to the End of the Love”) e Bob Dylan (“You’re Gonna Make Lonesome When You Go”) agora se misturam com composições mais vibrantes, calcadas no soul e no rhythm’n’blues, como “You Can’t Do Me” ou a própria “Bare Bones” (parcerias com o produtor Larry Klein e Walter Becker, da dupla Steely Dan). Além disso, a sombra da forte influência de Billie Holiday, diva do jazz que marcou os primeiros discos de Peyroux, já é bem menor.

Especialmente interessante para os fãs é a inclusão de um documentário que revê a carreira da cantora. Além de destacar flagrantes da época em que Madeleine se apresentou nas ruas e no metrô de Paris, inclui também depoimentos que revelam sua relutância em se adaptar às formalidades e aparências do showbiz.

(Resenha publicada parcialmente no “Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 30/10/2009)


Bob Dylan e Led Zeppelin: documentários resgatam influências de pioneiros do blues

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Um aviso para os fãs de Bob Dylan ou do Led Zeppelin: o DVD duplo "Down the Tracks" (lançamento da gravadora ST2) não traz nenhum número musical do autor da canção “Blowin’ the Wind”, nem do cultuado grupo de rock inglês. Isso não significa que os dois documentários incluídos nesta edição deixem de ter interesse para admiradores de ambos. A idéia aqui é investigar a influência de pioneiros do blues, hoje já quase esquecidos, sobre as obras desses ícones do rock.

Depoimentos de pesquisadores, produtores e músicos se alternam com raras imagens de bluesmen da velha guarda, como Son House, Charlie Patton, Howlin’ Wolf, Muddy Waters e Bukka White, entre outros, traçando uma história dessa manifestação afro-americana, que está na base de quase todos os gêneros existentes hoje na cena musical dos EUA. Mesmo narrada de maneira enviesada, uma história de grande valor para qualquer um que se interesse pela música popular do século 20.

(resenha publicada no “Guia da Folha – Livros, Discos & Filmes”, em 31/7/2009)



Madeleine Peyroux: enfim encontrando sua identidade musical

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Na faixa de abertura (“Instead”, um saltitante blues acústico), o timbre vocal e a maneira de arrastar certas palavras ainda lembram o estilo único de Billie Holiday (1915-1959). Mas basta ouvir as faixas seguintes de “Bare Bones” (selo Rounder/Universal), o quarto álbum de Madeleine Peyroux, para se notar que a jovem cantora norte-americana parece enfim ter começado a descobrir sua identidade musical.

Com a produção assinada por Larry Klein (conhecido por sua longa associação com a canadense Joni Mitchell), “Bare Bones” estabelece Madeleine como compositora. Na verdade, ela já havia exibido quatro canções próprias no anterior “Half the Perfect World” (2006), mas ainda sem a consistência que revela agora.

Para uma intérprete cujo repertório foi centrado durante anos em standards do blues e do jazz, ou, mais recentemente, em canções folk de Leonard Cohen e Bob Dylan, quase sempre tingidas por uma considerável dose de melancolia, uma canção como “You Can’t Do Me” (“você não pode transar comigo”), parceria da cantora com Klein e Walter Becker (da banda Steely Dan), é um sinal de novidade.

O ritmo bem marcado entre o rock e o rhythm & blues, colorido por órgão e guitarra, reforça a saliência dos versos: “Eu sei que fico tão triste / Vou fundo como um escafandrista no mar / Fora como um sax tenor à Coltrane / Perdida como uma criança chinesa na guerra / Morta, morta, morta! / Desgraçada como um meeiro do Mississipi / Fodida como uma cheerleader de colégio”.

Esse tom confessional se mantém em outras canções do álbum, como a delicada “I Must Be Saved”, única composta somente pela cantora, que também assina as outras dez com vários parceiros. Ou a triste “River of Tears” (outra com Klein), que Madeleine fez para se despedir do pai, morto alguns anos atrás.

Para quem ainda não teve a oportunidade de ver alguma das várias apresentações que Madeleine já fez por aqui, nos últimos anos, fica um aviso: parte do encanto de suas interpretações registradas nos discos se desfaz no palco, já que ela está longe ainda de ser uma cantora segura, muito menos carismática.

Mas essa timidez acaba funcionando a favor da cantora, reforçada por seus folclóricos sumiços da cena musical, que já renderam páginas e páginas nos jornais e na internet. Graças a esses episódios de aparente rebeldia, não são poucos os fãs que acreditam que a frágil e confessional Madeleine Peyroux realmente viveu todas as perdas e fracassos amorosos sugeridos em suas canções.

(resenha publicada na “Folha de S. Paulo”, em 18/02/2009)



 

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