Muhal Richard Abrams: pianista e compositor é destaque no 5º Jazz na Fábrica

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Depois de trazer a São Paulo cultuados músicos do jazz de vanguarda, como Anthony Braxton, Roscoe Mitchell e Wadada Leo Smith, o festival Jazz na Fábrica introduz em sua quinta edição outros expoentes dessa vertente jazzística: o quarteto do baixista nova-iorquino William Parker e o veterano pianista e compositor Muhal Richard Abrams, que se apresenta pela primeira vez no país, dias 13 e 14/8, no Teatro do Sesc Pompeia.

“Vai ser um concerto de piano solo”, diz Abrams (hoje com 84 anos) à “Folha de S. Paulo”, por telefone, ressaltando que o repertório de suas apresentações será escolhido de maneira aleatória. “Vou tocar o que tiver vontade, no momento em que me sentar ao piano”, afirma o compositor norte-americano, que criou com colegas de Chicago, em 1965, a lendária AACM (Associação pelo Avanço dos Músicos Criativos).

Curiosamente, embora já tenha batizado de Experimental Band um coletivo de jovens músicos com os quais antecipou o projeto da AACM, ainda no início dos anos 1960, hoje Abrams rejeita o termo “experimental” para se referir à música que criou ao lado de parceiros como Leroy Jenkins, Malachi Favors ou os citados Braxton, Mitchell e Smith.

“Nós fazíamos música original com a qual nos expressávamos. Fazíamos música autoral”, afirma o pianista e arranjador, ressaltando que as experiências daquele coletivo buscavam, essencialmente, explorar novas técnicas de composição musical.

Talvez por isso, quando se pede a ele que avalie o legado da AACM, fundada 50 anos atrás, Abrams parece sugerir que não há tanto a comemorar. “Não tenho nada especial a dizer sobre esse legado. Cada dia conduz ao próximo dia. O trabalho que você faz num dia vai se manifestar no dia seguinte. É isso”, diz, sem qualquer ênfase.

Então pergunto a ele se suas fontes de inspiração mudaram com o tempo, se são diferentes hoje comparadas às motivações que tinha para compor, na década 1960, quando sua obra despontou na cena musical.

“A vida é assim: o dia de ontem foi diferente do dia de hoje. O decorrer do tempo faz com que tudo se modifique. Isso é natural”, filosofa Abrams. E a sua relação com os recursos eletrônicos? As novas tecnologias modificaram sua forma de compor, nas últimas décadas? “Todos nós somos indivíduos e cada músico foca sua música no que escolhe fazer. Cada um tem sua perspectiva individual. É isso”, responde.

Ciente de que as artes se relacionam, Abrams também se dedica à pintura, eventualmente. “Algumas pessoas sentem que precisam se expressar por mais de um meio artístico. Como músico e pintor, eu sinto que é tudo a mesma coisa, é tudo expressão pessoal. Uma arte inspira a outra”, analisa.

Essa visão bastante pessoal da criação artística acabou levando Abrams, com o passar do tempo, até mesmo a rejeitar o rótulo do jazz para designar sua música, ainda que continue a tocar, eventualmente, em festivais dedicados a esse gênero.

“Todos os tipos de música que eu ouvi desde cedo, à minha volta, foram importantes para mim, inclusive o blues ou o jazz. A música que eu faço é muito mais ampla do que qualquer gênero ou estilo musical. Eu faço música, não toco um determinado estilo de música”, ressalta.

Portanto, se você for ao Jazz na Fábrica para acompanhar as primeiras apresentações de Abrams no país, não deve esperar ouvir conhecidos standards do jazz, nem escutar “causos" típicos de músicos. Esse veterano compositor e pianista não é um daqueles artistas que buscam agradar a plateia a qualquer custo.

“Eu entro no palco e toco. Não sou um linguista, um comediante ou algo assim, sou músico. Este é o meu discurso, é isso que eu tenho para oferecer à plateia”, conclui.

(Entrevista publicada parcialmente no jornal “Folha de S. Paulo”, na edição de 12/08/2015).




Jazz na Fábrica 2015: festival do Sesc SP focaliza a diversidade jazzística

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Jazz e música instrumental originários de diversos países – Estados Unidos, Cuba, Japão, França, Inglaterra, Israel, México, Áustria e, naturalmente, o Brasil – representados por 23 artistas ou grupos musicais. É o que a quinta edição do festival Jazz na Fábrica vai oferecer de hoje a 30 de agosto, em três palcos do Sesc Pompeia, em São Paulo.

Basta uma rápida olhada na programação para se perceber que esse evento difere de muitos dos festivais de jazz realizados em nosso país ou mesmo no exterior. Em vez de somente tentar atrair o público com vistosos nomes do jazz e do blues, ou até mesmo da música pop, o Jazz na Fábrica já demonstrou em edições anteriores que sua curadoria busca focalizar a diversidade dos estilos jazzísticos, assim como a globalização crescente desse gênero musical. 


"Temos a liberdade de fazer uma curadoria com esse viés mais educativo, formativo, da maneira mais abrangente possível”, observa Luciano Dutra, integrante da equipe de programação do Sesc Pompeia, responsável pela produção desse festival. “Nossa motivação não é especialmente diferente do que costumamos fazer aqui no Sesc, seja em música ou em outras áreas. Buscamos não apenas oferecer uma grade de programação, mas também possibilitar ao nosso público o contato com artistas que não estariam disponíveis em outros canais”, completa Thiago Freire, coordenador da equipe.

Quem inaugura o evento, hoje à noite, no palco da Choperia do Sesc Pompeia, é o saxofonista e compositor norte-americano Kenny Garrett, já conhecido entre o público brasileiro por suas participações em outros festivais. Muito bem acompanhado por Vernell Brown (piano), Corcoran Holt (contrabaixo), Marcus Baylor (bateria) e Rudy Bird (percussão), ele tem em seu currículo parcerias com grandes nomes do jazz, como Miles Davis, Art Blakey, Herbie Hancock, McCoy Tyner e Ron Carter, entre outros.

Uma característica do Jazz na Fábrica, praticada desde sua primeira edição, é a abertura para músicos adeptos de um jazz mais experimental ou próximo da vanguarda, que alguns preferem chamar de “free jazz”. Nesta edição, essa corrente musical estará representada pelo quarteto do baixista nova-iorquino William Parker. Ou ainda pelo veterano compositor e pianista Muhal Richard Abrams, um dos fundadores da lendária AACM (Associação pelo Avanço dos Músicos Criativos), em Chicago, na década de 1960, que fará dois concertos de piano solo.  


Para aqueles que hoje encaram o jazz como uma linguagem universal, “falada” nos mais diversos cantos do mundo, o festival oferece um cardápio saboroso e variado: do eletrificado jazz-rock da veterana banda britânica Soft Machine ao jazz acústico do trio do jovem pianista israelense Shai Maestro (na foto ao lado, no centro), que inclui o baixista peruano Jorge Roeder e o baterista israelense Ziv Ravitz; das fusões do jazz com a cumbia e o funk temperadas pelo grupo mexicano Troker ao jazz contemporâneo do pianista japonês Makoto Kuriya, que terá em seu show as participações especiais dos brasileiros Monica Salmaso (vocais) e Teco Cardoso (saxofones e flautas); dos ritmos afros e caribenhos da big band norte-americana Jungle Fire aos improvisos contemporâneos do Barcode Quartet, que destaca os vocais da austríaca Annette Giesriegl.

Mesmo desfalcada pelo trompetista Roy Hargrove, que cancelou anteontem (por motivos de saúde) os shows que faria com a cantora italiana Roberta Gambarini, a programação do Jazz na Fábrica reserva para os jazzófilos menos afeitos a fusões eletrificadas os concertos do conceituado contrabaixista norte-americano Gary Peacock, com Marc Copland (piano) e Mark Ferber (bateria), ou ainda a apresentação do trio do pianista Laurent De Wilde, franco-americano cujo trio reúne Donald Kontomanou (bateria) e Bruno Rousselet (contrabaixo).

Entre as atrações nacionais, um dos destaques é o reencontro do Grupo Um, criado pelos irmãos Lelo (teclados) e Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão), que marcaram a cena instrumental dos anos 1980 com suas incursões pela música eletroacústica. Na atual formação do grupo estão Mauro Senise (sax e flauta), Felix Wagner (clarinete baixo) e Frank Herzberg (contrabaixo).  


A música instrumental brasileira também estará bem representada por duas formações maiores. A big band paulista Projeto Coisa Fina festeja o lançamento de seu segundo álbum (pelo selo Sesc), no qual interpreta composições de Moacir Santos, Jacob do Bandolim, Theo de Barros e Mozart Terra. Já a carioca Orquestra Atlântica usa instrumentos de sopro e cordas para suas releituras de “standards” da música popular brasileira, além de tocar composições próprias.

Os fãs do jazz vocal também não podem reclamar do elenco desta edição. Quem ainda não ouviu Tania Maria, maranhense radicada na França, desconhece uma das cantoras e pianistas mais carismáticas do jazz contemporâneo. Em dois shows, além de comandar seu trio, ela terá como convidado o percussionista carioca Armando Marçal.

Outra “lady” do jazz é a norte-americana Marlena Shaw, conhecida também por suas incursões pelo funk e pela soul music, que vai dividir o palco com a banda paulista Bixiga 70. Finalmente, a jovem cantora Daymé Arocena, promissora revelação da cena musical de Cuba, fará sua estreia em palcos brasileiros.

Outras informações na página do Jazz na Fábrica, no site do SESC SP

André Mehmari: pianista reencontra seu virtuoso trio em "As Estações na Cantareira"

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A facilidade que demonstra ao transitar por vários gêneros – da música clássica ao jazz, passando pela canção e pela música instrumental brasileira – permite ao compositor e multi-instrumentista André Mehmari produzir, simultaneamente, projetos com repertórios e formações bem diferentes. Raros músicos podem se dar ao luxo de, como ele, lançar pelo menos dois discos por ano. Aliás, ele mesmo os grava e edita, em sua casa-estúdio.

No álbum “As Estações na Cantareira” (lançamento Estúdio Monteverdi), Mehmari retoma a formação com a qual já realizou alguns de seus discos mais cultuados: o virtuoso trio com Neymar Dias (contrabaixo e viola caipira) e Sérgio Reze (bateria). Com quatro movimentos, a suíte que intitula o disco é o item mais clássico do eclético repertório, que destaca outras belezas instrumentais (“Lagoa da Conceição”, “Um Retrato”, “Frevo Forte-Piano”), uma homenagem emotiva (“Dominguinhos Encontra Gonzaga”) e a irreverente releitura do maxixe “Ouro Sobre Azul”, de Ernesto Nazareth. 


(Resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", edição de 25.7.2015)

 

 

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