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Sesc Jazz: música de Henry Threadgill respira em constante processo de recriação

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“Vocês ainda têm tempo pra gente tocar mais um pouquinho?”, sugeriu Henry Threadgill, longe do microfone, sorrindo ao receber os aplausos calorosos da plateia do Sesc Pompeia, na noite de ontem (16/8). Uma pergunta gentil e retórica, que foi respondida prontamente com um sonoro “sim!”, já que os quase 70 minutos de música ouvidos até aquele momento pareceram pouco.

Para alguns fãs desse veterano compositor e instrumentista de Chicago, vê-lo se apresentar pela primeira vez no país, no festival Sesc Jazz, ao lado dos excelentes músicos de seu quinteto Zooid, foi a satisfação de um desejo que durou décadas. Sua vinda chegou a ser cogitada pelo Chivas Jazz, em 2005, mas o festival foi extinto antes de realizar essa edição.

Em plena atividade aos 74 anos, Threadgill é considerado um dos maiores compositores do jazz de vanguarda (aliás, jazz é um termo que ele costuma rejeitar, em suas entrevistas, por considera-lo apenas um rótulo comercial). Ainda no início da carreira ligou-se à lendária AACM (Associação para o Avanço da Música Criativa), liderada pelo pianista Muhal Richard Abrams, outro expoente dessa vertente musical que a plateia do Sesc Pompeia teve o privilégio de ouvir, em 2015.

Como Abrams, Threadgill entra no palco e simplesmente toca. Não tenta se aproximar da plateia, explicando sua música ou contando alguma história que se relaciona com ela. Nem mesmo os títulos de suas composições ele anuncia, antes de toca-las. É a discrição em pessoa.

Antes de tocar “Bells”, peça experimental que escolheu para abrir o concerto, Threadgill sussurrou instruções ao percussionista Elliot Kavee, que a introduziu com um solo. Em “Tomorrow Sunny”, a composição seguinte, foi a guitarra de Liberty Ellman que sobressaiu, inicialmente, até que a improvisação se tornasse fluida e coletiva.

Uma das mais aplaudidas da noite, a nervosa “Off the Prompt Box” (faixa do álbum “In for a Penny, In for a Pound”, de 2015, que contribuiu para que Threadgill recebesse o conceituado prêmio Pulitzer por sua obra) destacou o sax alto do compositor, em um solo expressivo, repleto de harmônicos e outros sons insólitos que extraiu do instrumento.

Aliás, entre os músicos do quinteto, Threadgill é o que menos toca durante todo o concerto. Seus improvisos de flauta ou sax alto são breves e incisivos, como se fossem milimetricamente calculados para entrar no instante certo. E por que teria de ser de outra forma, já que ele é o autor de todo o material do grupo?

Além da formação incomum, que inclui ainda o violoncelo de Christopher Hoffman e a tuba (ou o trombone) de José Davila, também surpreende a hipnótica fluência sonora do Zooid, originalmente um sexteto quando Threadgill o criou há cerca de 18 anos.

Não é por idiossincrasia que o compositor o considera o melhor grupo com o qual já trabalhou até hoje. Mesmo sendo talentosos solistas, nenhum deles busca se sobressair nos improvisos. Todos se unem ao objetivo de criar música com improvisação e liberdade, sem se afastarem da sonoridade idealizada por seu criador. Talvez esteja aí o motivo de essa música soar tão viva e original, em constante processo de recriação.


(Resenha escrita a convite da produção do festival Sesc Jazz. Leia outras críticas de shows desse evento, no site do Sesc SP: https://www.sescsp.org.br/online/revistas/tag/12411_CRITICAS+SESC+JAZZ)

Jazz na Fábrica 2015: festival do Sesc SP focaliza a diversidade jazzística

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Jazz e música instrumental originários de diversos países – Estados Unidos, Cuba, Japão, França, Inglaterra, Israel, México, Áustria e, naturalmente, o Brasil – representados por 23 artistas ou grupos musicais. É o que a quinta edição do festival Jazz na Fábrica vai oferecer de hoje a 30 de agosto, em três palcos do Sesc Pompeia, em São Paulo.

Basta uma rápida olhada na programação para se perceber que esse evento difere de muitos dos festivais de jazz realizados em nosso país ou mesmo no exterior. Em vez de somente tentar atrair o público com vistosos nomes do jazz e do blues, ou até mesmo da música pop, o Jazz na Fábrica já demonstrou em edições anteriores que sua curadoria busca focalizar a diversidade dos estilos jazzísticos, assim como a globalização crescente desse gênero musical. 


"Temos a liberdade de fazer uma curadoria com esse viés mais educativo, formativo, da maneira mais abrangente possível”, observa Luciano Dutra, integrante da equipe de programação do Sesc Pompeia, responsável pela produção desse festival. “Nossa motivação não é especialmente diferente do que costumamos fazer aqui no Sesc, seja em música ou em outras áreas. Buscamos não apenas oferecer uma grade de programação, mas também possibilitar ao nosso público o contato com artistas que não estariam disponíveis em outros canais”, completa Thiago Freire, coordenador da equipe.

Quem inaugura o evento, hoje à noite, no palco da Choperia do Sesc Pompeia, é o saxofonista e compositor norte-americano Kenny Garrett, já conhecido entre o público brasileiro por suas participações em outros festivais. Muito bem acompanhado por Vernell Brown (piano), Corcoran Holt (contrabaixo), Marcus Baylor (bateria) e Rudy Bird (percussão), ele tem em seu currículo parcerias com grandes nomes do jazz, como Miles Davis, Art Blakey, Herbie Hancock, McCoy Tyner e Ron Carter, entre outros.

Uma característica do Jazz na Fábrica, praticada desde sua primeira edição, é a abertura para músicos adeptos de um jazz mais experimental ou próximo da vanguarda, que alguns preferem chamar de “free jazz”. Nesta edição, essa corrente musical estará representada pelo quarteto do baixista nova-iorquino William Parker. Ou ainda pelo veterano compositor e pianista Muhal Richard Abrams, um dos fundadores da lendária AACM (Associação pelo Avanço dos Músicos Criativos), em Chicago, na década de 1960, que fará dois concertos de piano solo.  


Para aqueles que hoje encaram o jazz como uma linguagem universal, “falada” nos mais diversos cantos do mundo, o festival oferece um cardápio saboroso e variado: do eletrificado jazz-rock da veterana banda britânica Soft Machine ao jazz acústico do trio do jovem pianista israelense Shai Maestro (na foto ao lado, no centro), que inclui o baixista peruano Jorge Roeder e o baterista israelense Ziv Ravitz; das fusões do jazz com a cumbia e o funk temperadas pelo grupo mexicano Troker ao jazz contemporâneo do pianista japonês Makoto Kuriya, que terá em seu show as participações especiais dos brasileiros Monica Salmaso (vocais) e Teco Cardoso (saxofones e flautas); dos ritmos afros e caribenhos da big band norte-americana Jungle Fire aos improvisos contemporâneos do Barcode Quartet, que destaca os vocais da austríaca Annette Giesriegl.

Mesmo desfalcada pelo trompetista Roy Hargrove, que cancelou anteontem (por motivos de saúde) os shows que faria com a cantora italiana Roberta Gambarini, a programação do Jazz na Fábrica reserva para os jazzófilos menos afeitos a fusões eletrificadas os concertos do conceituado contrabaixista norte-americano Gary Peacock, com Marc Copland (piano) e Mark Ferber (bateria), ou ainda a apresentação do trio do pianista Laurent De Wilde, franco-americano cujo trio reúne Donald Kontomanou (bateria) e Bruno Rousselet (contrabaixo).

Entre as atrações nacionais, um dos destaques é o reencontro do Grupo Um, criado pelos irmãos Lelo (teclados) e Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão), que marcaram a cena instrumental dos anos 1980 com suas incursões pela música eletroacústica. Na atual formação do grupo estão Mauro Senise (sax e flauta), Felix Wagner (clarinete baixo) e Frank Herzberg (contrabaixo).  


A música instrumental brasileira também estará bem representada por duas formações maiores. A big band paulista Projeto Coisa Fina festeja o lançamento de seu segundo álbum (pelo selo Sesc), no qual interpreta composições de Moacir Santos, Jacob do Bandolim, Theo de Barros e Mozart Terra. Já a carioca Orquestra Atlântica usa instrumentos de sopro e cordas para suas releituras de “standards” da música popular brasileira, além de tocar composições próprias.

Os fãs do jazz vocal também não podem reclamar do elenco desta edição. Quem ainda não ouviu Tania Maria, maranhense radicada na França, desconhece uma das cantoras e pianistas mais carismáticas do jazz contemporâneo. Em dois shows, além de comandar seu trio, ela terá como convidado o percussionista carioca Armando Marçal.

Outra “lady” do jazz é a norte-americana Marlena Shaw, conhecida também por suas incursões pelo funk e pela soul music, que vai dividir o palco com a banda paulista Bixiga 70. Finalmente, a jovem cantora Daymé Arocena, promissora revelação da cena musical de Cuba, fará sua estreia em palcos brasileiros.

Outras informações na página do Jazz na Fábrica, no site do SESC SP

 

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