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Grooveria: coletivo musical reforça trabalho autoral no contagiante álbum "Moto Contínuo"

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                                        Tuto Ferraz (no centro) e o coletivo Grooveria / Foto de divulgação                    

Quem conheceu a Grooveria nas concorridas jams do clube paulistano Na Mata Café durante a década passada, ou a ouviu mais tarde em apresentações por várias capitais do país, já sabe porque esse coletivo de São Paulo tornou-se uma referência para quem curte música dançante da melhor qualidade.

Essa sólida trajetória de 16 anos está muito bem representada em “Moto Contínuo”, o terceiro álbum do coletivo musical criado e comandado pelo baterista, compositor e arranjador Tuto Ferraz. Releituras dançantes de clássicos da MPB e composições próprias que misturam influências do samba e da black music resultam em uma receita musical aprimorada a cada nova apresentação.

“Acho legal fazer a releitura de um clássico, para que a galera de hoje possa ouvi-lo com uma pegada mais atual”, comenta o líder da Grooveria, referindo-se a faixas do álbum, como o afro-samba “Berimbau” (de Baden Powell e Vinicius de Moraes), que destaca a cantora Fernanda Abreu, ou a popular canção “Ponteio” (de Edu Lobo e Capinan), com participação de Walmir Borges, nos vocais. Ambas reaparecem em novas versões, depois de serem tocadas durante anos nos shows da Grooveria.


Mart’nália e Fernanda Abreu

Já a saborosa releitura do samba “Jorge Maravilha” (de Chico Buarque), cuja base rítmica foi gravada ainda em 2012, ficou anos na gaveta até que Tuto tivesse a ideia de convidar Mart’nália para canta-la. “Era o que estava faltando. Mart’nália arrebentou na gravação”, comenta o arranjador e baterista. Outra boa sacada dessa versão, já quase ao final da faixa, é a citação de um conhecido riff de metais da banda do soulman norte-americano James Brown.

O fã mais atento vai logo notar que, se antes as releituras predominavam no repertório da Grooveria, agora as composições próprias comparecem em número bem maior. “Funky Night”, um irresistível disco-funk instrumental assinado por Tuto que abre o álbum, homenageia o arranjador e tecladista Lincoln Olivetti, craque do gênero. O líder da Grooveria não deixou por menos: para reviver a original sonoridade dos metais nos arranjos de Olivetti, foi buscar no Rio o naipe de sopros que tocou com ele até sua morte prematura, em 2015.

Outra favorita dos dançarinos nos shows da Grooveria durante os últimos anos é “Alright”, funk que aparece no álbum em versões em inglês e em português (“Chapando no Groove”). Essa composição de Tuto também ficou guardada durante alguns anos até 2012, quando ele decidiu procurar Fernanda Abreu (os dois ainda não se conheciam) para convidá-la a escrever a letra. Hoje musa e parceira de vida do baterista, a cantora carioca gravou essa faixa, além de todos os vocais de apoio do álbum.  


Black music e MPB

Assim como reconhece a marcante influência que recebeu da black music, mencionando a banda Earth, Wind and Fire e o guitarrista Nile Rodgers entre seus favoritos no gênero, Tuto também destaca a importância dos ritmos brasileiros em sua formação. Graças às discotecas de seus pais e de sua irmã mais velha, cresceu ouvindo muita MPB, especialmente as canções dos compositores mineiros do Clube da Esquina e os sambas de Chico Buarque, João Bosco e Djavan. Nada mais natural, portanto, que ele inclua no repertório do novo álbum da Grooveria quatro sambas de sua autoria, compostos com diversos parceiros.

Com o próprio Tuto no vocal e versos que remetem à falta de participação da sociedade brasileira na difícil situação que atravessamos (“Eu quero ver você fazer alguma coisa pra virar um sim /eu quero ver você gritar, espernear, mas não deixar barato assim”), o samba “Eu Quero Ver” soa clássico. Poderia até ter sido composto na década de 1970, assim como tem potencial de se tornar um hino para aqueles que realmente desejam um país livre da corrupção e da roubalheira generalizada.

Os sambas-funks “Vim” (com participação especial do guitarrista Claudio Zoli), “Menina Morena” (com vocais de Rogê) e “Sambou” (cantado por Jota Erre) confirmam a profunda intimidade da Grooveria com as pistas de dança. “Essas músicas refletem aqueles anos em que a gente tocava muito em baladas de clubes”, comenta Tuto, consciente de que seu coletivo está preparado para ingressar em uma nova fase.

Muito bem produzido, o terceiro álbum da Grooveria confirma sua evolução musical, assim como o fato de que esse coletivo já possui um trabalho autoral e experiência mais que suficiente para se apresentar em festivais e salas de espetáculos. Essa criativa fábrica de grooves está pronta – e merece – ser ouvida por plateias bem mais amplas. No Brasil e pelo mundo afora.




Cassiano: último álbum do pioneiro da soul music no Brasil retorna às lojas

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Sentado, com o violão na mão, terno e chapéu "vintage", ele mais parece um clássico cantor de blues dos anos 1930. Esta é a capa do álbum "Cedo ou Tarde", último disco oficial do lendário soulman brasileiro Cassiano, que acaba de voltar às lojas, em um pacote de raridades relançadas em CD pela Sony Music (mais informações no post anterior).

"Este disco representa tudo pra mim. É toda uma vida", disse Cassiano a este repórter, na entrevista que fiz com ele para a "Folha de S. Paulo", em julho de 1991, dois meses antes do lançamento do álbum. Não era à toa que o paraibano de Campina Grande, na época com 47 anos, não conseguia esconder sua emoção. Cassiano praticamente havia sumido da cena musical. Seu disco anterior era "Cuban Soul", lançado em 1976. Depois de ficar meses hospitalizado, em 1980, ele perdeu um pulmão. Sua última temporada de shows acontecera em 1983.

Idealizado pelo produtor Liber Gadelha, o retorno de Cassiano aos estúdios de gravação se deu em grande estilo. Para acompanhar o mestre do soul em releituras de seus sucessos foram convidados outros artistas com afinidade por esse gênero musical, como Claudio Zoli ("A Lua e Eu") e Sandra de Sá ("Primavera"), além de astros da MPB, como Djavan ("Coleção"), Luiz Melodia ("Djavan") e Marisa Monte ("Cedo ou Tarde"). Também entraram algumas inéditas do compositor, como o samba-soul "Know How" (cantada por Ed Motta) e o funk "Bye Bye" (com Karla Sabah).

"O que é rico não morre. O soul tem vida tão longa que só daqui a cem anos vai se poder entendê-lo melhor", comentou Cassiano, arriscando uma hipótese para explicar o relativo ostracismo enfrentado pela black music no Brasil da década de 1980, marcada pela predominância do rock nacional. "O movimento aqui ficou restrito a mim e ao Tim (Maia). Só agora, vinte anos depois, é que a semente brotou", completou o soulman, eufórico.

Talvez Cassiano tenha sido otimista demais ao analisar o potencial desse resgate por aqui, naquele momento. Mas quem tem acompanhado o grande interesse que o soul e a black music voltaram a despertar nos últimos anos, especialmente na cena dos festivais internacionais, sabe que o autor de pérolas negras, como "Primavera", "A Lua e Eu" e  "Coleção" (as duas últimas em parceria com Paulo Zdanowski), estava coberto de razão. Salve mestre Cassiano!

Se você também é fã das canções de Cassiano, mas ainda não o conhecia, vale a pena ver o pioneiro soulman num videoclipe (incrivelmente mambembe) exibido pela Rede Globo, em 1975, para "A Lua e Eu":


 

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