Etta James: uma intérprete explosiva que privilegiava a emoção no palco e na vida
Marcadores: Beyoncé, blues, Cadillac Records, etta james, jazz, rhythm and blues, soul | author: Carlos CaladoEtta colocava suas emoções à frente de tudo, tanto nos palcos como na vida. Era uma mulher extremada, capaz de revelar amor ou ódio com a mesma intensidade. Cantava como falava: sabia ser suave, mas ficou mais conhecida pelas explosões, fossem de raiva, ressentimento ou sensualidade.
Quando esteve pela primeira vez no Brasil, no Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em 1978, deu um show de excessos. Usando roupas espalhafatosas e um cabelão black power, chocou parte da plateia com insinuações sexuais e gestos obscenos, mais apropriados a uma estrela junkie do rock.
Na década seguinte, surpreendeu de novo os fãs paulistanos, em uma temporada no 150 Night Club. Já próxima dos 50 anos, mais sóbria, entrou no palco como uma lady, exibindo jóias e os cabelos alisados, mesmo deixando claro, minutos depois, que não abandonara a atitude intensa e provocadora.
“Sou esquizofrênica até os ossos”, confessou ao escritor David Ritz, que assinou com ela a autobiografia “Rage to Survive”, publicada nos EUA em 1995. “Tive duas mães, duas infâncias e vivi duas vidas diferentes, em duas cidades. Talvez seja por isso que me tornei duas pessoas diferentes”, completou, no primeiro parágrafo.
Nascida em 1938, Jamesetta Hawkins (seu nome verdadeiro) foi criada pelos tios. Sua mãe, grávida aos 14 anos, demorou a revelar à filha a identidade de seu pai. “Eu a via como uma deusa distante, uma estrela que eu não podia tocar, não podia entender, nem mesmo chamar de mãe”, contou a cantora, expondo uma de suas feridas mais profundas.
É preciso juntar a isso seu precoce ingresso no showbizz, aos 15 anos, seguido pelo envolvimento com drogas pesadas, para se entender melhor o explosivo contexto de suas interpretações de sucessos como “Tell Mama”, “I’d Rather Go Blind” ou “All I Could Do Was Cry”.
Pena que a romântica balada “At Last”, seu maior hit, tenha sido pivô de um episódio constrangedor, já no final de sua vida. Etta não perdoou o fato de Beyoncé, que a interpretou no filme “Cadillac Records” (2008), ter sido convidada a cantar essa música numa festa que comemorou a posse do presidente Obama, no ano seguinte.
“Ninguém vai roubar essa canção de mim. Ela é minha”, desabafou, ao se apresentar no Jazz Fest de Nova Orleans, já bastante abatida e cantando sentada, como em outras de suas aparições, naquele ano de 2009. Uma intérprete de sua importância para a música negra não precisaria ter escancarado publicamente esse ressentimento, mas a impulsiva Etta James preferiu dar voz às suas emoções até o fim da vida.
(Texto publicado parcialmente na “Folha de S. Paulo”, em 21/1/2012)
"Cadillac Records": trilha sonora traz releituras de Muddy Waters, Etta James e Chuck Berry
Marcadores: Beyoncé, blues, buddy guy, Cadillac Records, etta james, jazz, muddy waters, rock, terence blanchard | author: Carlos CaladoÉ compreensível que os criadores de “Cadillac Records”, filme que recupera a história do influente selo norte-americano de blues e rock’n’roll Chess Records, tenham preferido que os sucessos dessa trilha sonora fossem interpretados pelos próprios atores, em vez de dublados. Essa opção trouxe, sem dúvida, mais verossimilhança ao filme.
No entanto, é impossível não fazer comparações ao se ouvir as versões dos clássicos blues “I’m a Man” e “Hoochie Coochie Men” (hits de Muddy Waters, revivido por Jeffrey Wright no filme), das românticas baladas “At Last” e “I’d Rather Go Blind” (sucessos de Etta James, interpretada por Beyoncé) ou dos rocks “Nadine” e “Maybellene” (pérolas de Chuck Berry, recriado por Mos Def), entre outras. Por mais que os intérpretes e arranjadores tenham se esforçado no estúdio, as gravações originais sempre soarão melhores, mais convincentes.
Mesmo assim, quem não se importar com esse detalhe pode se divertir com os dois CDs dessa trilha sonora, lançada pela Sony BMG, que inclui algumas boas surpresas, assinadas pelo veterano bluesman Buddy Guy (em “Forty Days and Forty Nights”), pelo trompetista de jazz Terence Blanchard (“Radio Station”) e pelo cantor Raphael Saadiq, ex-integrante do trio Tony! Toni! Tone! (em Let’s Take a Walk”).
(resenha publicada parcialmente no “Guia da Folha - Livros, Discos & Filmes”, em 28/08/2009)
"Soul Men" e "Cadillac Records": a black music agita as telas
Marcadores: Beyoncé, blues, Cadillac Records, cinema, etta james, isaac hayes, soul men | author: Carlos Calado
Se você curte filmes ambientados no universo da black music, como "Ray", "DreamGirls" ou "The Commitments", não deixe de ver "Soul Men", já disponível em DVD e blu-ray, no mercado norte-americano. Nessa comédia ao estilo "on the road", Bernie Mac e Samuel L. Jackson (na foto acima) interpretam ex-integrantes da Real Deal, uma fictícia banda de soul e r&b dos anos 1960.
Brigados durante décadas, os dois músicos decidem voltar à estrada após a morte de outro ex-parceiro - interpretado pelo cantor John Legend, em rápida aparição. Além da saborosa trilha sonora, embalada por muito soul e funk, o filme inclui participação do astro Isaac Hayes, que morreu em 2008, pouco antes de o filme entrar em cartaz. Mesmo destino do comediante Bernie Mac, para tristeza dos fãs de ambos.
Já o dramático "Cadillac Records" resgata a história da Sun Records, gravadora que lançou pioneiros do rhythm & blues, como Muddy Waters, Willie Dixon e Chuck Berry, ídolos das primeiras gerações do rock & roll. No elenco aparece Beyoncé, no papel da rebordosa cantora Etta James, que passou a acusar publicamente a colega de “roubar” seu sucesso "At Last", incluída na trilha sonora desse filme. Com o destaque que tem na história do blues e da black music, Etta não precisava pagar tamanho mico.
(publicado parcialmente na “Homem Vogue”, ano 8, nº 24)

