Wynton Marsalis: trompetista revela que suou para gravar choro de Pixinguinha

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                                         O trompetista e educador Wynton Marsalis, em ensaio no Sesc Consolação 

Para um músico de jazz que chegou a ser apontado pela revista “Time” como uma das 25 pessoas mais influentes da América, em meados dos anos 1990 (época em que travou bate-bocas com os trompetistas Miles Davis e Lester Bowie, que o tachavam de conservador), Wynton Marsalis parece estar em uma fase mais “low profile” ao desembarcar em São Paulo, na manhã da última terça-feira (18/6).

A convite do Sesc, o renomado trompetista e educador americano veio cumprir uma extensa série de concertos e atividades educativas à frente da Jazz at Lincoln Center Orchestra (JLCO), da qual se tornou diretor artístico em 1991. Discutidas e planejadas por quase dois anos, as atividades desse projeto serão realizadas em oito unidades do Sesc, até dia 30/6.

“Estamos muitos felizes”, festejou Danilo Miranda, diretor regional do Sesc, ao abrir uma coletiva de imprensa, poucas horas depois, no 17.º andar do Sesc Paulista. “Percorrendo um itinerário que passa por regiões mais pobres da cidade de São Paulo, faremos esse vasto programa que será bastante importante, tanto do ponto de vista artístico, como do ponto de vista educativo”.

Uma rápida consulta à discografia e à agenda de turnês de Wynton mostra que ele tem dedicado mais tempo aos concertos, gravações e atividades educacionais da Jazz at Lincoln Center Orchestra do que à sua própria carreira de solista. Com o passar do tempo, o trompetista virtuose (o primeiro a conquistar, simultaneamente, prêmios Grammy nas áreas do jazz e da música clássica) cedeu espaço para o educador.

Segundo ele, a grande influência para seu envolvimento com a educação musical está na casa de sua própria família, na cidade de New Orleans (no estado da Louisiana, sul dos Estados Unidos), onde nasceu: seu pai, o pianista e educador Ellis Marsalis (hoje com 84 anos), que contribuiu ativamente para a formação de várias gerações de músicos locais.

“Vi meu pai lutando na comunidade por muitos anos, como poucos fizeram. Ele tem uma grande crença na força da música para transformar comunidades e pessoas. Aprendi com ele”, diz Wynton, que recentemente participou de um concerto em homenagem ao pai, na 50.ª edição do New Orleans Jazz & Heritage Festival, ao lado de três irmãos: o saxofonista Branford, o trombonista Delfeayo e o baterista Jason, que também veio a São Paulo com a JLCO.

Perguntei a ele o que o jazz pode ensinar aos músicos, assim como aos ouvintes, em termos de filosofia de vida. “A arte é uma reencenação simbólica, toda ela. Você pode retornar aos desenhos das cavernas e constatar que eles são uma encenação simbólica”, respondeu, sugerindo que essa música representa, de algum modo, a convivência humana em uma sociedade.

“Quando as pessoas de uma plateia nos veem tocar, elas assistem a uma reencenação do tipo de comunicação que queremos estabelecer. A música nos força a fazer isso um com o outro. Trata-se de um compartilhamento, com certa liberdade, mas também com responsabilidade de um para o outro, inclusive na hora de decidirmos quanto tempo pode durar um solo improvisado”, explicou.

Ainda tratando de educação musical, Wynton contou um episódio saboroso, que marcou os primeiros anos de sua experiência como professor. Tinha cerca de 25 anos, quando um aluno adolescente, desanimado por ver seus erros serem apontados insistentemente, perguntou, com todo o respeito, se não poderia ensiná-lo a partir de aspectos positivos. “Eu não fazia isso por mal, mas porque foi dessa maneira que aprendi a tocar. Esse caso transformou a maneira como eu pensava que deveria ensinar”, admitiu o educador.

Mais divertido é o episódio relacionado ao álbum “Com Alma” (Selo Sesc, 2017), da Banda Mantiqueira, que o convidou a participar da gravação do encrencado choro “Segura Ele”, de Pixinguinha. Wynton revelou que só 
percebeu o quanto essa música é difícil de tocar já no estúdio, em Nova York, onde contou com a ajuda do violonista carioca Romero Lubambo, que também participou dessas gravações.  A cada nova tentativa frustrada de tocar um trecho, ele olhava para Lubambo, que apenas abria os braços, sem dizer nada. “Só duas horas mais tarde ele me disse que estava OK”, concluiu o americano, rindo. 

Claro que essa experiência um tanto frustrante para um músico tão tarimbado só reforçou a admiração que Wynton tem pela música brasileira. Um de seus compositores favoritos é o pernambucano Moacir Santos, cuja música, segundo ele, “é cheia de arte e de vida”. Essa admiração é compartilhada por Ted Nash, músico da JLCO, que também deu um depoimento pessoal durante a entrevista.


“Temos uma conexão incrível, que me faz pensar que o Brasil é como um primo para os Estados Unidos. Temos muitas similaridades em nosso passado: pessoas incríveis, problemas raciais e políticos. Eu sinto que a música pode ajudar a quebrar barreiras. Toda vez que venho ao Brasil, eu me sinto uma pessoa melhor ao voltar para casa. Este país é extraordinário”, disse o saxofonista e flautista.  

Já quase ao final da entrevista, não faltou uma pergunta sobre as críticas que Wynton costuma fazer ao rap e ao hip hop. “Meu problema com o hip hop tem a ver com o uso de certas palavras que não me agradam. Comecei a dizer isso ainda nos anos 1980. Eu sou da época do movimento pelos direitos civis, então voltar a se chamar pessoas de ‘negrinhos’ e ‘putas’ é algo que eu jamais aceitaria. Já mudei de posição sobre outras coisas, mas mantenho essa opinião há 30 anos”, afirmou o líder da JLCO.

Mais informações sobre a programação de Wynton Marsalis e Jazz at Lincoln Center Orchestra, no site do SESC SP



Wynton Marsalis: um ensaio aberto da Jazz at Lincoln Center Orchestra em São Paulo

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                                    Wynton Marsalis (ao centro, no fundo) e a Jazz at Lincoln Center Orchestra   

A longa fila em frente ao prédio do Sesc Consolação, em São Paulo, indicava a importância do evento. Com um ensaio aberto ao público da Jazz at Lincoln Center Orchestra (JLCO), liderada pelo conceituado trompetista e educador musical Wynton Marsalis, começou na tarde de ontem (19/6) a extensa programação do projeto que trouxe essa orquestra nova-iorquina de jazz à capital paulista para compartilhar seus conhecimentos. 

Oito unidades do Sesc (três delas na área periférica da cidade) vão sediar durante 12 dias uma série de concertos, ensaios abertos, workshops, palestras e uma jam session. A maratona de eventos termina no dia 30/6 com um concerto gratuito da orquestra no Sesc Parque Dom Pedro II, incluindo participações de Hamilton de Holanda (bandolim), Nailor Proveta (clarinete e saxofones), Daniel D’Alcântara (trompete) e Ari Colares (percussão).  

Apreciadores desse gênero musical, estudantes de música e até alguns instrumentistas profissionais disputaram os ingressos gratuitos para o ensaio de ontem. Quem conseguiu entrar no teatro ouviu uma prévia do repertório que a orquestra nova-iorquina vai tocar por aqui, viu como Marsalis conduz um ensaio e até o ouviu destrinchar e burilar no trompete algumas frases de “Jump Did-Le-Ba”, encrencada composição de Dizzy Gillespie (1917-1993), mestre do bebop. 

Boa parte da plateia vibrou ao ouvir o líder da JLCO anunciar a primeira música do ensaio: “África”, de John Coltrane (1926-1967), que ganhou um arranjo delicado, com solos do percussionista Ari Colares e da saxofonista Camille Thurman. Também uma talentosa vocalista, Camille, que está há poucos meses na orquestra, dividiu com o trombonista Chris Crenshaw os divertidos vocais em “scat” (maneira de cantar sem palavras, utilizando a voz como instrumento), na citada composição de Gillespie.  

Antes de a orquestra tocar “Coisa n.º 2”, de Moacir Santos (1926-2006), Marsalis (na foto ao lado) pediu a Nailor Proveta que falasse à plateia sobre a obra musical do grande compositor e maestro pernambucano. Vale lembrar que Moacir morou nos Estados Unidos por cerca de quatro décadas e só foi homenageado e aplaudido por plateias brasileiras, como merecia, já em seus últimos anos de vida. 

Bastante aplaudido também foi o solo de trompete de Daniel D’Alcântara, em “Epistrophy”, um dos temas mais conhecidos do originalíssimo compositor e pianista Thelonious Monk (1917-1982).  O arranjo assinado pelo trombonista Chris Crenshaw é bem mais suingado do que as versões gravadas por esse pioneiro do jazz moderno. 
  
Já ao anunciar “Brasilliance”, seção da “Latin American Suite”, de Duke Ellington (1899-1974), Marsalis foi logo avisando à plateia que essa composição não se baseia, essencialmente, na música brasileira. O que não impediu Proveta de inflamar a plateia com seu solo, ao citar “Lamento Sertanejo” (de Dominguinhos), em um frenético ritmo de baião puxado pela percussão de Colares. 

A programação de Wynton Marsalis e JLCO prossegue hoje (20/6), com o concerto gratuito “Vozes Visionárias: Mestres do Jazz”, às 17h, no Sesc Campo Limpo. Mais informações sobre outras apresentações e atividades desse projeto no site do SESC SP.


Romero Lubambo e Dianne Reeves: uma noite muito inspirada no clube Bourbon Street

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                                  O violonista Romero Lubambo, Dianne Reeves e o contrabaixista Sidiel Vieira 

Quando alguém gritou “Bridges”, na plateia, os olhos de Dianne Reeves brilharam. Sorrindo, a cantora olhou para o violonista Romero Lubambo e, um instante depois, os dois presentearam os fãs com uma bela versão de “Travessia”, a canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, que ela gravou em inglês, no final dos anos 1990. Isso logo depois de terem emocionado a plateia com a melancólica “Tarde”, outra beleza composta por Milton (e Marcio Borges), que Dianne fez questão de cantar em português.

Essas foram apenas duas entre várias surpresas que o grande instrumentista e sua convidada muito especial ofereceram aos felizardos que foram ouvi-los no clube Bourbon Street, em São Paulo, na noite de ontem. Parceiros em shows e gravações há mais de vinte anos (“Romero é meu irmão com outra mãe”, ela costuma dizer), os dois podem se dar ao luxo de escolher no palco boa parte do repertório de suas apresentações.

Inspirado pelo Dia dos Pais, comemorado ontem nos Estados Unidos, Lubambo abriu o show com "Luiza", composição dedicada a uma de suas filhas, e a emendou com o alegre baião “Pro Flavio”, que compôs para homenagear seu pai. Dianne não deixou por menos: visivelmente emocionada, dedicou a seu pai — tinha apenas dois anos quando o perdeu — a canção “I Remember” (de Patsy Moore). 

Surpreendente também, ao menos para eventuais fãs de Pat Metheny que ainda não conheciam o repertório de Dianne, foi a versão de “Minuano”, composição instrumental do guitarrista americano. Já a contagiante releitura da canção “Love for Sale” (de Cole Porter), em ritmo de samba, foi um dos veículos para que o carioca Lubambo e seus parceiros paulistas — o baixista Sidiel Vieira e o baterista Thiago Rabello — pudessem brilhar nos improvisos. Que noite inspirada!

Cariocas e fluminenses ainda podem aplaudir mais um encontro de Romero Lubambo e Dianne Reeves, nesta semana. Eles voltam a se apresentar na sexta (dia 21/6), no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, com entrada franca.


Romero Lubambo: um grande músico carioca, mais conhecido nos EUA do que no Brasil

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Romero Lubambo não se surpreende mais quando o confundem, no Brasil, por causa de seu nome, com algum músico da América Central. Até Edu Lobo  um dos grandes compositores brasileiros, com o qual esse violonista carioca radicado nos Estados Unidos tem gravado e tocado nos últimos anos  já comentou em shows que chegou a pensar, antes de se conhecerem, que ele fosse cubano. 

“Já elogiaram meu português, em alguns lugares do Brasil”, diverte-se o carioca do bairro de Engenho de Dentro, que se mudou para Nova York em 1985 e desde então volta ao país com relativa frequência para shows e gravações. Hoje, aos 63 anos, Lubambo não se mostra incomodado pelo fato de, ironicamente, ser mais conhecido no exterior do que no país onde nasceu.

Seu prestígio é evidente entre as principais publicações especializadas em jazz e música instrumental. “Romero Lubambo talvez seja hoje o melhor praticante de seu ofício. Sua facilidade, criatividade e energia são de uma classe única”, elogiou a revista “Jazziz”. “Lubambo é um magistral violonista que compõe canções sedutoras”, escreveu Thomas Conrad, na “Jazz Times”.

Graças à sua imensa habilidade ao transitar por diferentes gêneros musicais, além do primor técnico de suas performances ao violão e à guitarra, Lubambo possui um currículo invejável. Expoentes do jazz, como Mike Stern, Michael Brecker e Paquito D’Rivera, destacam-se numa extensa lista de parcerias, que inclui astros da música clássica, como Yo-Yo Ma e Kathleen Battle, ou outras intérpretes vocais de alto quilate, como Luciana Souza, Diana Krall e Leny Andrade.

Dianne Reeves (na foto abaixo), estrela do jazz com a qual já se apresenta há mais de vinte anos, será sua convidada especial em três shows que farão nos próximos dias, no Brasil: no clube carioca Blue Note Rio (dia 15/6), no clube paulistano Bourbon Street (16/6) e no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (21/6), no litoral fluminense. 



"Acho que a Dianne é muito mais do que uma cantora”, comenta o brasileiro. “Ela é uma musicista cujo instrumento é sua voz. Aliás, a voz dela já é por si só uma coisa maravilhosa. Dianne está sempre ligada no que acontece no palco, o que é muito legal, porque você a instiga de maneira musical e ela sempre responde. Assim acabamos criando coisas novas, mesmo tocando juntos há tanto tempo”.

Outro aspecto que os aproxima é a afinidade com diversos tipos de música. “Dependendo de onde faço um show, posso puxar um pouco mais para um lado ou outro. Eu me sinto feliz tocando blues, jazz, bossa nova, samba, baião. Gosto de música boa em geral”, afirma o violonista. “Aliás, hoje eu toco mais música brasileira nos Estados Unidos do que no Brasil, onde preferem que eu toque alguma coisa mais internacional”.

Foi o baixista paulistano Nilson Matta, com o qual já tocava, que o estimulou a se mudar para Nova York, em meados dos anos 1980. “Naquela época o Brasil era um país muito isolado 
 ainda não havia internet, nem celular  e eu queria muito conhecer de perto a cultura americana. Infelizmente, eu não conseguiria tocar no Brasil a música que queria fazer. Para sobreviver, eu teria que tocar outras coisas”, reflete Lubambo. 

O apoio do baterista carioca Duduka da Fonseca, que já vivia em Nova York e o apresentou a outros músicos, foi essencial. “Quem assinou meu primeiro visto de trabalho foi a cantora Astrud Gilberto. Passei quatro anos tocando com ela. Depois conheci o flautista Herbie Mann, que se tornou meu pai americano. Aprendi muito com ele, inclusive como me portar no palco”, conta Lubambo, que tocou com esse jazzista até sua morte, em 2003.

Mais duradoura tem sido a parceria com Duduka e Nilson Matta, que remonta a 1986, com a formação do Trio da Paz. Embora não se apresente com muita regularidade, esse brilhante trio instrumental já lançou sete álbuns e planeja gravar outro em breve. “Quando a gente se encontra, toda a bagagem que acumulamos em 33 anos juntos ressurge. As pessoas que nos ouvem costumam sentir isso nos shows”.

Outro projeto de Lubambo que deve chegar ao mercado ainda neste ano é um álbum recém-gravado com a RPL Chamber Orchestra, no Lincoln Center, em Nova York. O paulista Rafael Piccolotto de Lima, regente e líder dessa orquestra de câmera, escreveu arranjos para composições do violonista. O álbum conta com participação da cantora Pamela Driggs, esposa de Lubambo, e será lançado pelo selo Sunnyside.

O violonista aproveita a temporada no Brasil para lançar seu segundo disco em parceria com Edu Lobo e o saxofonista Mauro Senise. Os shows de lançamento do álbum “Quase Memória” (selo Biscoito Fino) ocorrem dias 19 e 20/6, no Teatro XP Investimentos, no Rio. O disco anterior desse trio 
 “Dos Navegantes”, que também destaca composições de Lobo  conquistou um Grammy Latino em 2017. 

“Esses shows são completamente diferentes de meus shows com a Dianne. Com ela eu exercito minha flexibilidade na guitarra, fazemos jazz, blues e coisas mais próximas do funk e do pop. Com o Edu, tocamos música totalmente brasileira, com aquelas harmonias maravilhosas e melodias incríveis”, avisa Lubambo.

(Texto escrito para o caderno cultural do jornal "Valor Econômico", publicado em 14/6/2019)










Antonio Loureiro: músico mineiro relê canções de Milton Nascimento com um septeto

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                          Imagem de Milton Nascimento, em show do baterista e arranjador Antonio Loureiro 

Os apreciadores da música instrumental brasileira, na cidade de São Paulo, ainda têm uma chance neste domingo (26/5), às 18h, para ouvir as inventivas releituras de algumas das mais populares canções de Milton Nascimento, que o mineiro Antonio Loureiro e outros seis talentosos músicos de diversos estados do país apresentaram ontem pela primeira vez, no palco do Sesc 24 de Maio, em mais uma edição do projeto “Tirando de Letra”. 

“A ideia não é desconstruir a música de Milton Nascimento, mas fazer dela uma nova leitura a partir de nossa criatividade, da nossa experiência musical”, comenta o arranjador e baterista Loureiro, que escolheu Toninho Ferragutti (acordeom), Ricardo Herz (violino), Joana Queiroz (sax tenor, clarinete e clarone), Frederico Heliodoro (baixo elétrico), Daniel Santiago (violões) e Pedro Martins (teclados e guitarra) como seus parceiros nessa aventura musical. 

Do imponente arranjo de “Milagre dos Peixes” à versão em tons eruditos de “Canção da América” (ambas de Milton e Fernando Brant), passando pelo criativo solo de Heliodoro (em “Cais”, de Milton e Ronaldo Bastos) ou o delicado duo de cordas de Santiago e Martins (em “Travessia”, de Milton e Brant), em meio a outras surpresas, esse show nos faz pensar que entre os poucos motivos de orgulho que temos hoje neste país a música está entre os mais expressivos. Viva Milton Nascimento!

Tuto Ferraz: os "clássicos" do baterista e compositor no Blue Note de São Paulo

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                                            O baterista Tuto Ferraz e o baixista Rui Barossi, no clube Blue Note SP

Foi assim, em preto e branco, que visualizei a apresentação do sexteto do baterista Tuto Ferraz, ontem (16/5), em São Paulo. Não só por estar no Blue Note, recém-inaugurada franquia do clube nova-iorquino, cujo nome remete à gravadora responsável por muito do que se produziu de melhor no jazz dos anos 1950 e 1960. Foi quase sempre em p&b, que fotógrafos que admiro, como William Claxton, Herman Leonard e Francis Wolff, retrataram essa música.


Seis anos atrás, ao lançar seu saboroso álbum “À Deriva”, Tuto me disse que o jazz produzido entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960 é o seu favorito. Além disso, suas composições têm um quê de clássicos da canção norte-americana, os chamados “standards”, que fazem parte do repertório dos jazzistas: melodias simples e cantáveis, que grudam em nossos ouvidos. Se você ouvir o valsante “Bom Dia” ou o samba “Chorando na Gafieira”, temas que a plateia do Blue Note paulistano aplaudiu calorosamente ontem, vai concordar comigo. 


Ao lado de outros cinco craques da cena instrumental de São Paulo (o pianista Pepe Cisneros, o saxofonista Josué dos Santos, o trompetista Bruno Belasco, o contrabaixista Rui Barossi e o guitarrista Agenor de Lorenzi), Tuto tocou grande parte do repertório do álbum “À Deriva”. Também exibiu um tema inédito, “Tango Russo”, que estará no álbum de jazz que ele promete gravar em breve. A amostra do que vem por aí deixou água na boca.


Bourbon Festival Paraty: mais próxima do blues, 11.ª edição manteve a variedade musical

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                                   A cantora Dawn Tyler Watson, um dos destaques do 11.º Bourbon Festival Paraty


Para quem teve, como eu, a oportunidade de acompanhar uma das primeiras edições do Bourbon Festival Paraty, foi fácil perceber o crescimento desse evento, cuja 11ª edição terminou no último domingo (12/5). De volta à bela cidade histórica do litoral fluminense, logo notei que o palco principal, instalado em uma grande tenda na Praça da Matriz, agora é mais amplo. Ao seu lado há uma outra tenda, com um bar e loja de souvenirs, que também pode proteger a plateia, no caso de uma chuva eventual.

“No início, nosso festival era mais jazz. Agora ele está mais blues”, comentou comigo Herbert Lucas,da equipe de produção do clube paulistano Bourbon Street, que programa e produz o evento desde sua primeira edição. Mesmo que as atrações de blues tenham sido em maior número neste ano, o Bourbon Festival Paraty segue com um perfil diversificado: não faltaram shows (todos gratuitos, vale lembrar) de jazz, soul music, r&b, música instrumental, MPB, até rock.


Logo na noite de abertura do festival, na sexta (10/5), a plateia já foi recebida com uma boa surpresa: a inglesa radicada no Canadá, Dawn Tyler Watson, que comandou um contagiante show de rhythm & blues. Em sua primeira passagem pelo Brasil, a cantora e compositora fez muita gente dançar e cantar, especialmente quando relembrou um clássico do gênero, “Let the Good Times Roll”, acompanhada pelo gaitista Marcelo Naves e a banda The Tigermen.

O blues também deu as caras durante o show de Zeca Baleiro (na foto ao lado), que fechou essa noite, aplaudido euforicamente por milhares de fãs. O compositor e guitarrista maranhense não só cantou “Blues do Elevador”, de sua autoria, contando com o apoio da plateia nos vocais, como relembrou alguns clássicos da MPB que flertam com o blues, como “Vapor Barato” (de Jards Macalé e Waly Salomão) e “Pérola Negra” (Luiz Melodia). Zeca ainda recebeu o bluesman e gaitista Sergio Duarte para uma calorosa canja, dividida com Tuco Marcondes, o eclético guitarrista de sua banda.

Já no sábado (11/5), o festival ofereceu sua noite mais longa e eclética. Na abertura, a música do Folia de TReis (na foto abaixo), formado pelo baterista Edu Ribeiro com o acordeonista Toninho Ferragutti e o bandolinista Fábio Peron, logo conquistou a plateia. O trio exibiu composições próprias de seu recente álbum “Folia de TReis” (lançado pelo selo Blaxtream), calcadas em ritmos e gêneros tipicamente brasileiros, como o choro, o frevo e o samba, além de muita improvisação. A vibração da diversificada plateia, que estava ouvindo pela primeira vez esse trio paulistano, sugere que a música instrumental brasileira está longe de ser um gênero musical elitista, como insistem alguns porta-vozes do chamado “mercado”.

Atração seguinte, o guitarrista Gui Cicarelli contagiou a plateia com seu tributo musical ao grande bluesman e guitarrista norte-americano Stevie Ray Vaughan (1954-1990), morto prematuramente em um acidente de helicóptero. Pena que o brasileiro tenha se excedido, tocando por mais de uma hora e meia, tempo demais para uma noite com três atrações. C
ontando com participações da cantora Bruna Guerin e do bluesman e gaitista Sergio Duarte, tocou até clássicos do repertório de Jimi Hendrix.  


Não fossem a alegria e o carisma de Clarence Bekker (um dos fundadores da popular banda Playing for Change), última atração da noite, na certa uma parte da plateia teria ido embora mais cedo. Entre os momentos mais quentes do show desse cantor e violonista radicado na Holanda, naturalmente, não poderia faltar o hit “Stand by Me”, com participação especial da jovem cantora paulista Bebé Salvego.

Com seus 15 anos, a talentosa Bebé já havia chamado atenção, cantando clássicos do jazz e da MPB, nos palcos menores que o festival costuma instalar em ruas do centro histórico da cidade. Esses palcos também exibiram uma programação diversificada — do blues do homem-banda Vasco Faé à black music do trio Madmen’s Clan.

Já no segundo maior palco do festival, instalado no largo da Igreja de Santa Rita, brilhou na tarde de sábado o Mani Padme Trio, um dos grupos mais criativos da cena jazzística paulista. Além de tocarem composições próprias que fazem parte do novo álbum do trio, o cubano Yaniel Matos (piano), Ricardo Mosca (bateria) e Sidiel Vieira (contrabaixo) recriaram com personalidade “Cais”, clássico do repertório de Milton Nascimento.

Uma pena, mas fui obrigado a abrir mão pelo menos três shows que gostaria de ter acompanhado na programação de domingo (12/5): o trio com Celso Pixinga, Faíska e Carlos Bala, veteranos craques do jazz brasileiro; o quinteto do guitarrista e cantor americano Mark Lambert com a cantora Amanda Maria; e o trio de jazz do grande pianista Kenny Barron com Nilson Matta (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria), cujo excelente show no Bourbon Street Music Club, três dias antes, cheguei a assistir e a comentar neste blog. Como eu poderia dizer a uma querida velhinha, que não iria comemorar com ela o Dia das Mães?


(Cobertura realizada a convite da produção do Bourbon Festival Paraty)


 

Bourbon Festival Paraty: paulistanos também apreciaram o piano elegante de Kenny Barron

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                                                                               O pianista norte-americano Kenny Barron

A plateia paulistana teve o privilégio de ouvir, na noite de ontem, no Bourbon Street Music Club, uma das principais atrações musicais da 11.ª edição do Bourbon Festival Paraty  evento que começa na tarde de hoje (10/5), na charmosa cidade histórica do litoral fluminense.

Muito bem acompanhado por Nilson Matta (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria), o grande pianista norte-americano Kenny Barron abriu a apresentação com a popular “All Blues” (de Miles Davis). Depois recriou com muita personalidade os standards “You Don’t Know What Love Is”, “I Remember April” e “Body and Soul”. O trio tocou também uma composição de Matta, o samba "Paraty", que o contrabaixista radicado em Nova York certamente voltará a apresentar no festival.

O Bourbon Fest Paraty vai até domingo, com extensa programação gratuita, em ruas e praças da área histórica da cidade. A MPB e o blues de Zeca Baleiro, o rhythm & blues da cantora inglesa Dawn Tyler Watson, a música instrumental brasileira do trio Folia de TReis, o swing do guitarrista Mark Lambert, o jazz contemporâneo do grupo Mani Padme, a 
soul music do cantor Clarence Bekker e o tributo do guitarrista Gui Cicarelli ao bluesman Stevie Ray Vaughan também se destacam entre as atrações do evento.

Mais informações no site do festival: www.bourbonfestivalparaty.com.br/


New Orleans Jazz Fest: ao festejar 50 anos, evento reforçou seu apoio à diversidade

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                            Trombone Shorty (no centro) se despede da plateia do 50.º New Orleans Jazz Fest 

Talvez só mesmo a orientação progressista da cosmopolita cidade norte-americana de Nova Orleans possa explicar o fato de artistas como a rapper Boyfriend ou a “queen diva” Big Freedia terem se apresentado no New Orleans Jazz & Heritage Festival, cuja 50.ª edição terminou no último domingo (5/5). Quem já as ouviu sabe que as músicas de ambas não têm nada a ver com o jazz.

Difícil imaginar a feminista Boyfriend (personagem que essa rapper nascida em Nashville assume até em entrevistas), num festival mais conservador do gênero. Vestindo lingerie, com caricatos bobes no cabelo, ela transpôs para o palco do Jazz Fest (é assim que os moradores da cidade se referem ao evento) os shows que vem fazendo há alguns anos em boates LGBT de Nova Orleans. Sua versão de “Another Brick in the Wall”, da clássica banda de rock Pink Floyd, é hilariante.

Inusitado também é ver em um dos maiores palcos do Jazz Fest o “bounce” de Big Freedia 
— uma frenética modalidade de música eletrônica, cuja dança acrobática chega a lembrar os rebolados do grupo baiano É o Tchan. Em vários momentos, o show da “queen diva” se transforma praticamente em uma competição. Os dançarinos se esforçam para mostrar que podem fazer seus traseiros tremerem mais que os dos colegas.

“O Jazz Fest está ficando velho”, brincou o instrumentista e cantor Trombone Shorty, 33, hoje um dos artistas de Nova Orleans mais populares mundialmente, quase ao final do show de encerramento do festival. Minutos antes, ele protagonizou um emotivo encontro de gerações ao receber os veteranos músicos da banda Neville Brothers, que até 2012 costumavam encerrar o evento no mesmo palco – o maior dos doze instalados no hipódromo da cidade.  


                                   
Acompanhado pelo irmão Cyril e pelo filho Ivan, o cantor Aaron Neville interpretou uma pungente versão do hino religioso “Amazing Grace”, sob o olhar emocionado de Shorty, que tinha apenas 12 anos quando fez as primeiras aparições ao lado dos Neville Brothers. Tratando-se de um festival que sempre estimulou colaborações entre músicos de diferentes gerações, essa cena já entrou para a história do evento.

As altas temperaturas verificadas durante quase todo o festival podem ajudar a explicar alguns desatinos incomuns, vistos nos oito dias de programação. Ontem, na tenda de jazz moderno, os disputados lugares para assistir ao excelente show do quinteto do pianista e compositor Herbie Hancock (na foto acima) renderam alguns bate-bocas na plateia.  




Pior foi o que se viu no primeiro domingo (28/4), quando um dos clãs musicais mais populares de Nova Orleans homenageou seu líder. A tenda de jazz foi pequena demais para o esperado reencontro dos irmãos Branford, Wynton, Delfeayo e Jason Marsalis (na foto acima) com o pai  o pianista e educador Ellis Marsalis, 84. Não bastassem as ríspidas disputas pelas últimas cadeiras vazias, membros da produção chegaram a perturbar o show várias vezes, gritando para que as pessoas desocupassem os corredores e entradas da tenda.

Entre os destaques mais jazzísticos do festival, a jovem cantora Cécile McLorin Salvant confirmou em um show primoroso 
 com meia sala vazia, ironicamente, mas aplaudida de pé  que é uma das grandes intérpretes da cena atual do gênero. Mais sorte teve o cantor José James, cujo tributo em vida ao soulman Bill Withers (hoje com 80 anos) foi festejado por uma plateia mais ampla e eufórica. Uma boa surpresa foi o jazz cigano dos instrumentistas do grupo europeu Django Festival Allstars.    


Ao final dos oito dias de programação fica a impressão de que a 50ª edição não será tão inesquecível quanto pretendiam seus organizadores. O cancelamento do show dos Rolling Stones (o vocalista Mick Jagger teve de enfrentar uma cirurgia cardíaca), um mês antes, deixou o evento sem sua atração mais famosa. Talvez já não houvesse mais tempo hábil para reforçar a grade de programação, que poderia ter sido mais brilhante, em uma data tão especial.

Mesmo assim, no caso de um festival tão eclético, com mais de 500 atrações que vão do gospel e do blues tradicional ao jazz contemporâneo, passando por quase todas as vertentes da música popular afro-americana, uma avaliação geral é sempre algo muito pessoal. Até porque, no imenso leque de atrações do New Orleans Jazz & Heritage Festival, cada um acaba escolhendo o seu próprio programa.

(Texto publicado parcialmente no website da "Folha de S. Paulo", em 7/05/2019. Viagem realizada a convite da New Orleans & Company e do Cambria Hotel)

Marcelo Coelho: saxofonista e compositor se divide entre os palcos e o empreendedorismo

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                                                                     O saxofonista e educador musical Marcelo Coelho 

Foi-se o tempo em que um músico profissional podia se dar ao luxo de se preocupar apenas com seu aprimoramento técnico – eventualmente, lecionar ou até seguir uma carreira acadêmica. Hoje, as dificuldades do mercado musical impõem ao artista a necessidade de aderir ao empreendedorismo para viabilizar sua carreira nos palcos.

O saxofonista e compositor Marcelo Coelho encarou esse dilema, em meados desta década. Ao completar seu pós-doutorado em Composição na USP, que sucedeu seu doutorado na Unicamp e o mestrado em Jazz Performance na Universidade de Miami, o mineiro de Itabira (MG) radicado em São Paulo foi convidado a lecionar em várias universidades brasileiras. Decidido a se dedicar mais à sua carreira de instrumentista e compositor, mesmo sem saber ainda se seria possível sustentá-la, declinou os convites.

Coelho vislumbrou um caminho ao assistir a um debate sobre financiamento privado para música. Ali conheceu o engenheiro e músico Thiago Lobão, sócio de um fundo de investimento em agronegócio, que tinha interesse em atuar no mercado musical. Os dois decidiram continuar a conversa e, depois de alguns encontros, esboçaram uma metodologia de organização e planejamento de carreiras musicais. O passo seguinte foi promover workshops gratuitos de capacitação empreendedora para colegas do saxofonista.

Em dezembro de 2016, já como sócios diretores da Acelerarte, uma aceleradora com o intuito de capacitar e conectar músicos a potenciais investidores e parceiros estratégicos, Coelho e Lobão participaram de um painel da SIM (Semana Internacional de Música) – o mesmo evento onde haviam se conhecido, um ano antes, em São Paulo.

“O impacto foi grande”, diz Coelho. “O pessoal da música não estava acostumado a ouvir alguém do mercado financeiro usar uma linguagem tão próxima à linguagem dos músicos. Muita gente nos procurou depois daquele evento – não só artistas, mas também produtores de gravadoras, que queriam que a gente participasse de seus projetos de alguma maneira”.

Já em 2017, para poder suprir a demanda de artistas interessados e para que os diretores da empresa pudessem continuar a trabalhar em suas atividades principais, a Acelerarte passou a contar com mais um sócio: Silvio Junqueira, recém-saído do mercado financeiro. Naturalmente, Coelho se tornou o primeiro “case” da aceleradora. “Agora já estou conseguindo viabilizar minha carreira musical, por meio de captação de recursos, com organização e planejamento de equipe”, comemora o músico.

Segundo Coelho, cerca de 500 artistas e produtores (incluindo nomes conhecidos na cena musical paulista, como a cantora Vanessa Moreno, o violonista Gian Corrêa e o pianista Leandro Cabral) participaram das sessões de capacitação empreendedora que a Acelerarte tem realizado em diversos locais do país. Com o tempo, a empresa passou também a organizar eventos dirigidos a investidores.

“Ainda estamos tateando nesse trabalho de busca de investidores, porque essa atividade é muito nova”, admite Coelho. “Há investidores que só se interessam em atuar como mecenas, eventualmente, mas o nosso objetivo é contar com investidores fidelizados. Alguns deles praticamente não se interessam pelo retorno financeiro: são investidores mais atraídos pelo impacto cultural do trabalho de um artista”.

Quem ouve Coelho falar como empreendedor sobre os objetivos de sua empresa, sem conhece-lo ainda como artista e educador, dificilmente consegue imaginar o arrojo de sua obra musical. A gênese das pesquisas que ele desenvolve há cerca de duas décadas está no livro “Suíte I Juca Pirama” (lançado em 2013 pela editora Fames), baseado na tese de doutorado que defendeu na Unicamp, em 2008.

Nesse projeto, ele propõe um sistema de composição musical a partir de pesquisas desenvolvidas por dois músicos educadores que o influenciaram diretamente: os estudos polirrítmicos de José Eduardo Gramani e a harmonia modal aplicada ao jazz por Ron Miller. Para pôr em prática esses conteúdos, Coelho utilizou o poema “I-Juca Pirama”, do poeta romântico e teatrólogo Gonçalves Dias (1823-1864).

“Inicialmente, o que despertou minha atenção nesse poema foi sua imagética. Ao contar a história de um índio, ele funcionava como um filme para mim. Só mais tarde fui entender que o mais interessante estava na rítmica dos versos”, conta o pesquisador. Ao desenvolver uma técnica para extrair ritmos da construção dos versos do poema, que resultaram em uma partitura, Coelho criou um sistema de composição que pode ser aplicado a qualquer gênero musical.

Um conceituado jazzista que logo percebeu a originalidade desse projeto foi o saxofonista e compositor Dave Liebman. Coelho o conheceu quando ainda concluía seu mestrado, em Miami, ao frequentar um curso de férias ministrado pelo americano. “Liebman me disse que o que eu estava fazendo ainda era muito disruptivo. Minhas músicas eram intensas demais, mas na opinião dele isso era típico de um compositor em formação. Eu ainda não tinha encontrado a dosagem certa, mas o conteúdo estava pronto”, relembra o brasileiro.

A relação entre Coelho e Liebman evoluiu e os dois já chegaram a dividir o palco algumas vezes, como no Festival Amazonas Jazz de 2012, em Manaus, quando tiveram a companhia do violonista e compositor carioca Guinga. “Não me contento em ficar dentro do idioma jazzístico. Sei fazer e faço quando necessário, mas esse não é o meu perfil musical”, reflete Coelho. “Estou bem próximo da linha de improvisação do Liebman, que me impactou, não no conteúdo, mas no conceito”.

Se até agora as composições e os oito álbuns assinados por Coelho ainda circulam entre plateias e ouvintes de jazz e música instrumental, o saxofonista empreendedor está prestes a lançar um projeto que pode ampliar bastante o seu público. No final de 2018, ao aplicar seu sistema de composição a um poema do rapper paulista Crônica Mendes, Coelho logo percebeu o potencial dessa parceria. Os dois já estão preparando a gravação de um disco, com produção do DJ Raffa, curiosamente, filho do compositor de música contemporânea e regente Cláudio Santoro (1919-1989).

“Esse projeto pode chamar até a atenção de investidores de impacto, porque ele tem legitimidade social e artística”, anima-se o saxofonista, que promete convidar o parceiro rapper para participar de seu próximo show com o grupo McLav.In, no dia 7/5, no clube paulistano Bourbon Street. “Nosso público é misturado, mas tende a ser gente que gosta de inovação tecnológica e de música intensa, pessoas que querem viver uma experiência estética. Como fazemos um som transgressor, de certa maneira, a turma mais jovem é a que embarca primeiro”.

Marcelo Coelho & McLav.In

Dia 7/5, às 21h30, no Bourbon Street Music Club (rua dos Chanés, 127, tel. 5095-6100, Moema, São Paulo). Couvert artístico: R$35. Com 
Saulo Martins (piano), Glécio Nascimento (baixo) e Abner Paul (bateria)

(Texto publicado em 3/5/2019, no caderno de cultura do jornal "Valor Econômico") 

Duo + Dois: um quarteto que toca com alegria e toda a liberdade do jazz

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                                 Carlos Malta (da esq. para dir.), Fernando Melo, Luiz Bueno e Robertinho Silva

Quando músicos consagrados decidem se lançar em uma nova parceria, é natural que as expectativas de seus admiradores aumentem. Em agosto de 2016, ao saber que os violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno, do Duofel, iriam estrear um quarteto com o o saxofonista e flautista Carlos Malta e o percussionista Robertinho Silva, logo pensei no grande potencial criativo desse projeto. Como não esperar algo especial desses quatro instrumentistas de alto quilate, que há décadas transitam por diversas vertentes musicais?

Mesmo tendo a oportunidade de assistir a uma das primeiras apresentações desse quarteto (ainda em 2016), confesso que, passados dois anos, me surpreendi ao escutar este álbum. Eu não esperava encontrar no repertório tantos clássicos da música popular brasileira, em releituras que chamam atenção pelos inusitados tratamentos harmônicos e rítmicos, sem falar nos criativos improvisos do grupo.

Também fiquei impressionado pelo grau de coesão e empatia sonora que o quarteto revela nessas gravações. Mesmo que Malta e Silva tenham iniciado esse projeto como convidados do Duofel, basta ouvir qualquer faixa deste álbum para se perceber que hoje eles são parceiros ativos. Os quatro tocam como se já estivessem juntos há muitos anos.

Entre vários achados musicais fica difícil destacar uma ou outra gravação. É bem possível que, como eu, você se encante pela onírica releitura do “Canto de Yemanjá” (de Baden Powell e Vinícius de Moraes), não resista à suingada condução rítmica de “Água de Beber” (Tom Jobim e Vinícius), se emocione com a evanescente versão de “Cais” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) ou sorria ao ouvir a contagiante introdução e os improvisos do grupo em “Maracangalha” (Dorival Caymmi).

“Este projeto é marcante, em nossa história, porque trouxe algo que nunca tínhamos experimentado em quase 40 anos de carreira do Duofel: a liberdade do jazz, no sentido de se criar a música na hora ou de se transformar algo mais ou menos combinado. Essa foi umas das parcerias mais felizes que eu e Fernando já experimentamos”, comenta o violonista Luiz Bueno.

Depois de escutar este disco outras vezes, tenho certeza de que a alegria, a liberdade criativa e a fina musicalidade que o quarteto Duo + Dois transmite nestas gravações também vai contagiar muitos outros ouvintes.


Texto escrito a convite do Selo Sesc para o encarte do CD "Duo + Dois". O show de lançamento acontece na próxima segunda-feira (25/3), às 19h, no teatro do Sesc Consolação, pelo projeto Instrumental Sesc Brasil. Mais informações em:  www.sescsp.org.br/programacao/181792_DUO+DOIS#/content=saiba-mais





Terrie Odabi: cantora de soul e R&B conquista plateia paulistana do Bourbon Street

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                                                      Terrie Odabi e o guitarrista Fred Sunwalk, no Bourbon Street 

Em sua primeira turnê pelo Brasil, a cantora americana Terrie Odabi demonstrou surpresa ao ver a plateia do Bourbon Street Music Club se levantar para aplaudi-la, no meio do show de ontem. Sabemos que o público paulistano tem o curioso hábito de aplaudir de pé quase qualquer artista, mas no caso dessa intérprete californiana a inflamada reação do público extrapolou o mero ritual.

Bastaram alguns minutos de show, na noite de estreia do The Blues Festival, para que a plateia paulistana logo percebesse que tinha à sua frente uma cantora fora de série, aliás, muito bem acompanhada pela banda brasileira Alabama Johnny. Carismática e bem-humorada, Terrie exibe uma voz poderosa e versátil. É uma intérprete capaz de inflamar seus ouvintes.

Seu repertório é formado, majoritariamente, por clássicos do rhythm’n’blues e da soul music. De cara, esboçou um discurso feminista, cantando “I’m a Woman”, o pesado blues assinado e gravado por Koko Taylor (1928-2009). Fez alguns se mexerem nas cadeiras, ao lembrar a dançante “Chain of Fools”, hit de Aretha Franklin (1942-2018). Emocionou a plateia com a “I’d Rather Be Blind”, pungente balada que ganhou a assinatura vocal de Etta James (1938-2012).

O fato de reunir tantos sucessos de outras intérpretes em seu show não quer dizer que Terrie Odabi seja uma cantora de covers. Assim como faz nas releituras das canções já citadas, ela esbanja personalidade ao interpretar “Ball and Chain”, o blues associado a Janis Joplin (1943-1970), assim como na versão de “Come Together”, hit de John Lennon e Paul McCartney que também já foi muito bem gravado por Tina Turner.

Se você perdeu a chance de ouvir Terrie ao vivo, não precisa se lamentar. Os rasgados elogios que ela fez ao Brasil durante o show, assim como a reação calorosa da plateia que a obrigou a cantar um extenso bis, indicam que esta não será certamente sua única aparição por aqui.

O The Blues Festival prossegue nas próximas semanas, no palco do Bourbon Street. A Cinelli Brothers, banda de blues e r&b radicada em Londres, toca na noite de 20/03. O evento termina com o encontro do gaitista e cantor carioca Flávio Guimarães com o guitarrista norte-americano Little Joe McLerran e os Simi Brothers, em 3/04. O guitarrista Gui Cicarelli também será o anfitrião dessas duas noites.





Festivais em 2019: roteiro de eventos de jazz, blues, bossa e música instrumental pelo Brasil

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Aqui você encontra um roteiro com as atrações musicais dos principais festivais brasileiros já anunciados para 2019. É atualizado regularmente para que fãs do jazz, do blues, da música instrumental brasileira, da bossa nova, do choro, do soul, do r&b e da black music possam se programar com antecedência.


                                           O trompetista Christian Scott, atração do Mastercard Jazz (SP)
                                                                


8.º Santos Jazz Festival 
Quando e onde: de 25 a 28/07/2019, em Santos (SP) 
Atrações: BCGM Jam (Bocato, Cuca Teixeira, Glécio Nascimento e Michel Leme), Nuno Mindelis, Xênia França, Tributo a Nina Simone (com Alma Thomas e Ellen Oleria), Ritchie & Blacktie, Funk Como Le Gusta, Sandra de Sá & Elas, Alba Santos & Aniel Someillan, LMC Big Band, entre outras 
www.facebook.com/SantosJazzFestivalOficial/?tn-str=k*F 

5.º Festival BB Seguros de Blues e Jazz
Quando e onde: 9/6, em Belo Horizonte (MG); 15/6, em Curitiba (PR); 27/7, em São Paulo (SP); 3/8, em Brasília (DF); 10/8, em Porto Alegre (RS); 14/9, em Goiânia (GO); 21/9, em Manaus (AM); 19/10, em Recife (PE)
Atrações: Robert Cray, Jimmy Burns, Hamilton de Holanda, André Christovam, Sergio Dias convida Luiz Carlini, O Bando, Décadas Brass Band e outras a serem divulgadas 

www.festivalbbseguros.com.br  

Gramado Jazz & Blues Festival
Quando e onde: 26 e 27/07/2019, em Gramado (RS)
Atrações: Amilton Godoy Trio, Pedro Veríssimo & Marmota, Nicola Spolidoro, Melina Vaz Quarteto, Andy Serrano e outros,
www.facebook.com/gramadojazzblues/ 


17.º Savassi Festival
Quando e onde: de 5 a 11/08/2019, em vários espaços de Belo Horizonte (MG)
Atrações: Yotam Silberstein, Hadar Noiberg, Shira Ouziel, Juarez Moreira, Túlio Araujo e Choro Amoroso, Chico Amaral Quarteto, Marcos Paiva, Salomão Soares, Louise Wooley, Frederico Heliodoro Sexteto, Deangelo Silva, Davi Fonseca, Duo Finlândia, Quarteto Dois a Dois, Mark Lambert e Orquestra Jovem Sesiminas entre outras
www.savassifestival.com.br/home/

10.º Fest Bossa & Jazz
Quando e onde: de 15 a 18/08, em Praia da Pipa (Natal, RN); de 19 a 21/09, em Mossoró (RN); de 10 a 13/10/2019, em São Miguel do Gostoso (RN)
Atrações: a serem anunciadas
www.facebook.com/FestBossaeJazz

Mastercard Jazz

Quando e onde: dias 31/8 e 1º/9/2019, na área externa do Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP)
Atrações: Christian Scott, Aaron Parks, Terrace Martin, Robert Randolph & The Family Band, Lakecia Benjamin, Laura Jurd, Xênia França, Bixiga 70 e Lourenco Rebetez. 

2.º Poços É Jazz Festival
Quando e onde: de 15 a 17/11/2019, em Poços de Caldas (MG) 
Atrações: a serem anunciadas
www.pocosejazz.com.br

10.º Festival Choro Jazz 
Quando e onde: de 28 a 30/11, em Fortaleza; de 3 a 8/12/2019, em Jericoacoara (CE)
Atrações: Jaques Morelenbaum, Trio Corrente, Cristovão Bastos Quinteto, Mauricio Carrilho, Época de Ouro, Pedro Amorim, Carol Panesi & Jota P, Celsinho Silva e outras a serem anunciadas    
www.facebook.com/ChoroJazz/


















Festivais já realizados em 2019:  

20.º Festival Jazz & Blues
Quando e onde: de 2 a 5/3/2019, em Guaramiranga (CE); 2 e 3/3/2019, em Aquiraz (CE); e 9/3/2019, em Fortaleza (CE)
Atrações: Guinga (com Nailor Proveta e Teco Cardoso), Trio Jobim, Terrie Odabi, Jesuton, Kátia Freitas, Mel Mattos, Marcos Maia (com Nono Garcia e Budi Garcia), Vanildo Franco, Eder Rocha, Vivi Pozzebón, Marajazz e Marimbanda, entre outras
www.jazzeblues.com.br   


The Blues Festival
Quando e onde: dias 13/03, 20/03 e 3/04/2019, no Bourbon Street Music Club (São Paulo/SP)  
Atrações: Terrie Odabi & Alabama Johnny; The Cinelli Brothers; Flávio Guimarães com Little Joe McLerran & The Simi Brothers; Gui Cicarelli (hostess e participações especiais)
www.bourbonstreet.com.br/

9.º Nublu Jazz Festival

Quando e onde: de 21 a 23/3/2019, no Sesc Pompeia (São Paulo, SP) e no Sesc São José dos Campos (SP)
Atrações: Tony Allen e Thiago França, Marc Ribot y Los Cubanos Postizos, Georgia Anne Muldrow, The Midnight Hour, GoGo Penguin e Nomade Orquestra, entre outras.
www.sescsp.org.br/programacao/27616_NUBLU+JAZZ+FESTIVAL#/content=programacao


11.º Bourbon Festival Paraty
Quando e onde: de 10 a 12/05/2019, em Paraty (RJ)
Atrações: 
Zeca Baleiro in Blues, Kenny Barron, Nilson Matta e Rafael Barata; Mark Lambert & Amanda Maria; ; Dawn Tyler Watson; Toninho Ferragutti, Edu Ribeiro e Fábio Peron; Tributo a Stevie Ray Vaughan (Gui Cicarelli, Bruna Guerin e Sérgio Duarte); Clarence Bekker Band; Celso Pixinga, Faíska e Carlos Bala; Mani Padme; John Wesley Duo e outras

www.facebook.com/bourbonfestivalparaty/

Floripa Jazz Festival
Quando e onde: de 13 a 19/05/2019, em Florianópolis (SC)
Atrações: Thiago Espírito Santo convida Joshua Redman (participação de Grégoire Maret), Eumir Deodato, Yamandu Costa Trio, Duo Peranzzetta e Senise, Quartabê, Vitor Araujo, Dudu Lima Trio, Derico Jazz Quartet, Céu, Yangos e Orquestra Manancial da Alvorada, entre outras

www.floripajazz.org

Rio Montreux Jazz Festival 
Quando e onde: de 6 a 9/06/2019, no Rio de Janeiro (RJ)
Atrações: John Scofield Combo 66, Brasil Cuba (Ivan Lins, Chucho Valdés e Irakere), The Stanley Clark Band, Al Di Meola, Hermeto Pascoal, Corinne Bailey Rae, Steve Vai, Amaro Freitas, Quarteto Jobim e Maria Rita, Hamilton de Holanda Quarteto convida Paulinho da Costa, Carlos Malta e Pife Muderno, Ricardo Herz Trio, Yamandu Costa, Diego Figueiredo, Pedro Martins Trio e outras  

riomontreuxjazzfestival.uhuu.com/  


16.º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival 
Quando e onde: de 20 a 23/6/2019, em Rio das Ostras (RJ)
Atrações: Romero Lubambo convida Dianne Reeves, Lucky Peterson, Roy Rogers & The Delta Rhythm Kings, Bob Franceschini All Star Band, The Jig, Big James & The Simi Brothers, Bixiga 70, Serginho Trombone, Flávio Guimarães & Blues Groovers, entre outras
www.facebook.com/rostrasjazzblues/  
  


Distrito Jazz  
Quando e onde: de 27 a 29/6/2019, em Porto Alegre (RS)
Atrações: Camille Bertaut com Salomão Soares, Arvoll, Marmota, Kiai, Marmota, Karmã, Trabalhos Espaciais Manuais, Julio Herrlein Quarteto e convidados a serem anunciados 
www.facebook.com/events/2341738242814218/

2.º Festival Congás Transforma
Quando e onde: 29/6/2019, no Parque Villa-Lobos (S. Paulo, SP)
Atrações: Hamilton de Holanda, Leo Gandelman, Orquestra Voadora, Trio Titanium e DJ Ale Rauen
www.facebook.com/events/2109886315976875/

Rafael Martini e Alexandre Andrés: músicos mineiros lançam álbum "Haru" em São Paulo

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                                                            O pianista Rafael Martini e o violonista Alexandre Andrés

Foi um prazer especial para mim assistir ao show do pianista Rafael Martini e do violonista e flautista Alexandre Andrés, ontem, no Sesc Pinheiros. Conheci esses talentosos instrumentistas e compositores uma década atrás, ao participar por vários anos do júri do Prêmio BDMG Instrumental, em Belo Horizonte. Graças à dedicação e à sensibilidade da produtora Malluh Praxedes, que o criou, esse influente prêmio já contribuiu para revelar dezenas de jovens craques da música instrumental brasileira.

Martini e Andrés estão lançando o álbum “Haru”, recheado de belas canções que compuseram, algumas delas sozinhos, outras em parcerias com os letristas Makely Ka, Bernardo Maranhão e Leonora Weissman. Os fãs de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e outros autores do lendário Clube da Esquina logo vão notar essa natural ascendência, em algumas canções desse disco, que também já foi lançado no Japão.

Reencontrar Martini e Andrés agora, mais maduros e com suas carreiras estabelecidas, trouxe de volta minha surpresa ao ouvi-los pela primeira vez, bem mais jovens, no concurso patrocinado pelo BDMG. Ambos já esbanjavam talento, como músicos que estavam praticamente começando.

Outra boa surpresa foi ver os dois homenagearem agora, no auditório do Sesc Pinheiros, a grande compositora e flautista paulistana Léa Freire, que fez uma participação especial no show. Esse diálogo criativo, essa admiração mútua entre duas diferentes gerações musicais, me fez pensar que ainda temos algo de que podemos nos orgulhar neste país -- coisa rara por aqui, nos últimos tempos.






Bossa 60: Carlos Lyra e Paul Winter relêem clássicos que gravaram nos anos 1960

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                                                                    O saxofonista Paul Winter e o compositor Carlos Lyra

Uma comemoração dentro de outra. No show de encerramento do projeto “Bossa 60”, ontem, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, o compositor e cantor Carlos Lyra – um dos expoentes da agora sexagenária bossa nova – reencontrou o saxofonista norte-americano Paul Winter, com o qual gravou o histórico álbum “The Sound of Ipanema”, em 1964.

Emocionado, Winter lembrou da primeira vez que esteve no Rio de Janeiro, em 1962, quando participou com seu grupo de jazz de uma turnê por 23 países, bancada pelo Departamento de Estado dos EUA. “Eu me apaixonei pelo Brasil e não via a hora de retornar”, disse o saxofonista, que conheceu Lyra no final do mesmo ano, por ocasião do lendário concerto de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York.

Cinquenta e cinco anos após a gravação de “The Sound of Ipanema”, Winter e Lyra revisitaram no palco o repertório desse álbum, lançado no momento em que a bossa nova explodia internacionalmente. Entre as 11 faixas do disco já estavam canções de Lyra que se tornaram clássicos desse estilo musical, como “Você e Eu” e “Coisa Mais Linda” (parcerias com Vinicius de Moraes), “Maria Ninguém” e “Lobo Bobo” (parceria com Ronaldo Bôscoli).

Mesmo sem tocar violão, Lyra cativou a plateia com seu canto meio falado e seus comentários irônicos, como ao introduzir, sorrindo, a divertida “Lobo Bobo” como seu “maior sucesso”. Bem acompanhado, tinha a seu lado um sexteto de craques da música instrumental carioca: Fernando Merlino (piano), Adriano Giffoni (contrabaixo), Ricardo Costa (bateria), Flávio Mendes (violão e guitarra), Dirceu Leite (sax e flauta) e Diogo Gomes (trompete e flugelhorn). 


No programa distribuído à plateia, todo o repertório do concerto tinha a assinatura de Lyra, mas Winter ganhou um espaço para sair um pouco do universo da bossa nova. Emocionou a plateia com seu sax soprano, ao tocar sua lírica composição “Sun Singer”, do álbum homônimo que lançou em 1983, quando já havia trocado o jazz pela música new age. Depois provocou sorrisos da plateia ao interpretar a “Cantata 147” (de J. S. Bach) com sotaque brasileiro. 
 
Para quem ainda recusa a tese de que as influências entre o jazz e a bossa nova foram de mão-dupla, esse reencontro de Lyra e Winter não poderia ser mais didático.



 

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