Tuto Ferraz: os "clássicos" do baterista e compositor no Blue Note de São Paulo

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                                            O baterista Tuto Ferraz e o baixista Rui Barossi, no clube Blue Note SP

Foi assim, em preto e branco, que visualizei a apresentação do sexteto do baterista Tuto Ferraz, ontem (16/5), em São Paulo. Não só por estar no Blue Note, recém-inaugurada franquia do clube nova-iorquino, cujo nome remete à gravadora responsável por muito do que se produziu de melhor no jazz dos anos 1950 e 1960. Foi quase sempre em p&b, que fotógrafos que admiro, como William Claxton, Herman Leonard e Francis Wolff, retrataram essa música.


Seis anos atrás, ao lançar seu saboroso álbum “À Deriva”, Tuto me disse que o jazz produzido entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960 é o seu favorito. Além disso, suas composições têm um quê de clássicos da canção norte-americana, os chamados “standards”, que fazem parte do repertório dos jazzistas: melodias simples e cantáveis, que grudam em nossos ouvidos. Se você ouvir o valsante “Bom Dia” ou o samba “Chorando na Gafieira”, temas que a plateia do Blue Note paulistano aplaudiu calorosamente ontem, vai concordar comigo. 


Ao lado de outros cinco craques da cena instrumental de São Paulo (o pianista Pepe Cisneros, o saxofonista Josué dos Santos, o trompetista Bruno Belasco, o contrabaixista Rui Barossi e o guitarrista Agenor de Lorenzi), Tuto tocou grande parte do repertório do álbum “À Deriva”. Também exibiu um tema inédito, “Tango Russo”, que estará no álbum de jazz que ele promete gravar em breve. A amostra do que vem por aí deixou água na boca.


Bourbon Festival Paraty: mais próxima do blues, 11.ª edição manteve a variedade musical

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                                   A cantora Dawn Tyler Watson, um dos destaques do 11.º Bourbon Festival Paraty


Para quem teve, como eu, a oportunidade de acompanhar uma das primeiras edições do Bourbon Festival Paraty, foi fácil perceber o crescimento desse evento, cuja 11ª edição terminou no último domingo (12/5). De volta à bela cidade histórica do litoral fluminense, logo notei que o palco principal, instalado em uma grande tenda na Praça da Matriz, agora é mais amplo. Ao seu lado há uma outra tenda, com um bar e loja de souvenirs, que também pode proteger a plateia, no caso de uma chuva eventual.

“No início, nosso festival era mais jazz. Agora ele está mais blues”, comentou comigo Herbert Lucas,da equipe de produção do clube paulistano Bourbon Street, que programa e produz o evento desde sua primeira edição. Mesmo que as atrações de blues tenham sido em maior número neste ano, o Bourbon Festival Paraty segue com um perfil diversificado: não faltaram shows (todos gratuitos, vale lembrar) de jazz, soul music, r&b, música instrumental, MPB, até rock.


Logo na noite de abertura do festival, na sexta (10/5), a plateia já foi recebida com uma boa surpresa: a inglesa radicada no Canadá, Dawn Tyler Watson, que comandou um contagiante show de rhythm & blues. Em sua primeira passagem pelo Brasil, a cantora e compositora fez muita gente dançar e cantar, especialmente quando relembrou um clássico do gênero, “Let the Good Times Roll”, acompanhada pelo gaitista Marcelo Naves e a banda The Tigermen.

O blues também deu as caras durante o show de Zeca Baleiro (na foto ao lado), que fechou essa noite, aplaudido euforicamente por milhares de fãs. O compositor e guitarrista maranhense não só cantou “Blues do Elevador”, de sua autoria, contando com o apoio da plateia nos vocais, como relembrou alguns clássicos da MPB que flertam com o blues, como “Vapor Barato” (de Jards Macalé e Waly Salomão) e “Pérola Negra” (Luiz Melodia). Zeca ainda recebeu o bluesman e gaitista Sergio Duarte para uma calorosa canja, dividida com Tuco Marcondes, o eclético guitarrista de sua banda.

Já no sábado (11/5), o festival ofereceu sua noite mais longa e eclética. Na abertura, a música do Folia de TReis (na foto abaixo), formado pelo baterista Edu Ribeiro com o acordeonista Toninho Ferragutti e o bandolinista Fábio Peron, logo conquistou a plateia. O trio exibiu composições próprias de seu recente álbum “Folia de TReis” (lançado pelo selo Blaxtream), calcadas em ritmos e gêneros tipicamente brasileiros, como o choro, o frevo e o samba, além de muita improvisação. A vibração da diversificada plateia, que estava ouvindo pela primeira vez esse trio paulistano, sugere que a música instrumental brasileira está longe de ser um gênero musical elitista, como insistem alguns porta-vozes do chamado “mercado”.

Atração seguinte, o guitarrista Gui Cicarelli contagiou a plateia com seu tributo musical ao grande bluesman e guitarrista norte-americano Stevie Ray Vaughan (1954-1990), morto prematuramente em um acidente de helicóptero. Pena que o brasileiro tenha se excedido, tocando por mais de uma hora e meia, tempo demais para uma noite com três atrações. C
ontando com participações da cantora Bruna Guerin e do bluesman e gaitista Sergio Duarte, tocou até clássicos do repertório de Jimi Hendrix.  


Não fossem a alegria e o carisma de Clarence Bekker (um dos fundadores da popular banda Playing for Change), última atração da noite, na certa uma parte da plateia teria ido embora mais cedo. Entre os momentos mais quentes do show desse cantor e violonista radicado na Holanda, naturalmente, não poderia faltar o hit “Stand by Me”, com participação especial da jovem cantora paulista Bebé Salvego.

Com seus 15 anos, a talentosa Bebé já havia chamado atenção, cantando clássicos do jazz e da MPB, nos palcos menores que o festival costuma instalar em ruas do centro histórico da cidade. Esses palcos também exibiram uma programação diversificada — do blues do homem-banda Vasco Faé à black music do trio Madmen’s Clan.

Já no segundo maior palco do festival, instalado no largo da Igreja de Santa Rita, brilhou na tarde de sábado o Mani Padme Trio, um dos grupos mais criativos da cena jazzística paulista. Além de tocarem composições próprias que fazem parte do novo álbum do trio, o cubano Yaniel Matos (piano), Ricardo Mosca (bateria) e Sidiel Vieira (contrabaixo) recriaram com personalidade “Cais”, clássico do repertório de Milton Nascimento.

Uma pena, mas fui obrigado ative a abrir mão pelo menos três shows que gostaria de ter acompanhado na programação de domingo (12/5): o trio com Celso Pixinga, Faíska e Carlos Bala, veteranos craques do jazz brasileiro; o quinteto do guitarrista e cantor americano Mark Lambert com a cantora Amanda Maria; e o trio de jazz do grande pianista Kenny Barron com Nilson Matta (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria), cujo excelente show no Bourbon Street Music Club, três dias antes, cheguei a assistir e a comentar neste blog. Como eu poderia dizer a uma querida velhinha, que não iria comemorar com ela o Dia das Mães?


(Cobertura realizada a convite da produção do Bourbon Festival Paraty)


 

Bourbon Festival Paraty: paulistanos também apreciaram o piano elegante de Kenny Barron

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                                                                               O pianista norte-americano Kenny Barron

A plateia paulistana teve o privilégio de ouvir, na noite de ontem, no Bourbon Street Music Club, uma das principais atrações musicais da 11.ª edição do Bourbon Festival Paraty  evento que começa na tarde de hoje (10/5), na charmosa cidade histórica do litoral fluminense.

Muito bem acompanhado por Nilson Matta (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria), o grande pianista norte-americano Kenny Barron abriu a apresentação com a popular “All Blues” (de Miles Davis). Depois recriou com muita personalidade os standards “You Don’t Know What Love Is”, “I Remember April” e “Body and Soul”. O trio tocou também uma composição de Matta, o samba "Paraty", que o contrabaixista radicado em Nova York certamente voltará a apresentar no festival.

O Bourbon Fest Paraty vai até domingo, com extensa programação gratuita, em ruas e praças da área histórica da cidade. A MPB e o blues de Zeca Baleiro, o rhythm & blues da cantora inglesa Dawn Tyler Watson, a música instrumental brasileira do trio Folia de TReis, o swing do guitarrista Mark Lambert, o jazz contemporâneo do grupo Mani Padme, a 
soul music do cantor Clarence Bekker e o tributo do guitarrista Gui Cicarelli ao bluesman Stevie Ray Vaughan também se destacam entre as atrações do evento.

Mais informações no site do festival: www.bourbonfestivalparaty.com.br/


New Orleans Jazz Fest: ao festejar 50 anos, evento reforçou seu apoio à diversidade

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                            Trombone Shorty (no centro) se despede da plateia do 50.º New Orleans Jazz Fest 

Talvez só mesmo a orientação progressista da cosmopolita cidade norte-americana de Nova Orleans possa explicar o fato de artistas como a rapper Boyfriend ou a “queen diva” Big Freedia terem se apresentado no New Orleans Jazz & Heritage Festival, cuja 50.ª edição terminou no último domingo (5/5). Quem já as ouviu sabe que as músicas de ambas não têm nada a ver com o jazz.

Difícil imaginar a feminista Boyfriend (personagem que essa rapper nascida em Nashville assume até em entrevistas), num festival mais conservador do gênero. Vestindo lingerie, com caricatos bobes no cabelo, ela transpôs para o palco do Jazz Fest (é assim que os moradores da cidade se referem ao evento) os shows que vem fazendo há alguns anos em boates LGBT de Nova Orleans. Sua versão de “Another Brick in the Wall”, da clássica banda de rock Pink Floyd, é hilariante.

Inusitado também é ver em um dos maiores palcos do Jazz Fest o “bounce” de Big Freedia 
— uma frenética modalidade de música eletrônica, cuja dança acrobática chega a lembrar os rebolados do grupo baiano É o Tchan. Em vários momentos, o show da “queen diva” se transforma praticamente em uma competição. Os dançarinos se esforçam para mostrar que podem fazer seus traseiros tremerem mais que os dos colegas.

“O Jazz Fest está ficando velho”, brincou o instrumentista e cantor Trombone Shorty, 33, hoje um dos artistas de Nova Orleans mais populares mundialmente, quase ao final do show de encerramento do festival. Minutos antes, ele protagonizou um emotivo encontro de gerações ao receber os veteranos músicos da banda Neville Brothers, que até 2012 costumavam encerrar o evento no mesmo palco – o maior dos doze instalados no hipódromo da cidade.  


                                   
Acompanhado pelo irmão Cyril e pelo filho Ivan, o cantor Aaron Neville interpretou uma pungente versão do hino religioso “Amazing Grace”, sob o olhar emocionado de Shorty, que tinha apenas 12 anos quando fez as primeiras aparições ao lado dos Neville Brothers. Tratando-se de um festival que sempre estimulou colaborações entre músicos de diferentes gerações, essa cena já entrou para a história do evento.

As altas temperaturas verificadas durante quase todo o festival podem ajudar a explicar alguns desatinos incomuns, vistos nos oito dias de programação. Ontem, na tenda de jazz moderno, os disputados lugares para assistir ao excelente show do quinteto do pianista e compositor Herbie Hancock (na foto acima) renderam alguns bate-bocas na plateia.  




Pior foi o que se viu no primeiro domingo (28/4), quando um dos clãs musicais mais populares de Nova Orleans homenageou seu líder. A tenda de jazz foi pequena demais para o esperado reencontro dos irmãos Branford, Wynton, Delfeayo e Jason Marsalis (na foto acima) com o pai  o pianista e educador Ellis Marsalis, 84. Não bastassem as ríspidas disputas pelas últimas cadeiras vazias, membros da produção chegaram a perturbar o show várias vezes, gritando para que as pessoas desocupassem os corredores e entradas da tenda.

Entre os destaques mais jazzísticos do festival, a jovem cantora Cécile McLorin Salvant confirmou em um show primoroso 
 com meia sala vazia, ironicamente, mas aplaudida de pé  que é uma das grandes intérpretes da cena atual do gênero. Mais sorte teve o cantor José James, cujo tributo em vida ao soulman Bill Withers (hoje com 80 anos) foi festejado por uma plateia mais ampla e eufórica. Uma boa surpresa foi o jazz cigano dos instrumentistas do grupo europeu Django Festival Allstars.    


Ao final dos oito dias de programação fica a impressão de que a 50ª edição não será tão inesquecível quanto pretendiam seus organizadores. O cancelamento do show dos Rolling Stones (o vocalista Mick Jagger teve de enfrentar uma cirurgia cardíaca), um mês antes, deixou o evento sem sua atração mais famosa. Talvez já não houvesse mais tempo hábil para reforçar a grade de programação, que poderia ter sido mais brilhante, em uma data tão especial.

Mesmo assim, no caso de um festival tão eclético, com mais de 500 atrações que vão do gospel e do blues tradicional ao jazz contemporâneo, passando por quase todas as vertentes da música popular afro-americana, uma avaliação geral é sempre algo muito pessoal. Até porque, no imenso leque de atrações do New Orleans Jazz & Heritage Festival, cada um acaba escolhendo o seu próprio programa.

(Texto publicado parcialmente no website da "Folha de S. Paulo", em 7/05/2019. Viagem realizada a convite da New Orleans & Company e do Cambria Hotel)

Marcelo Coelho: saxofonista e compositor se divide entre os palcos e o empreendedorismo

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                                                                     O saxofonista e educador musical Marcelo Coelho 

Foi-se o tempo em que um músico profissional podia se dar ao luxo de se preocupar apenas com seu aprimoramento técnico – eventualmente, lecionar ou até seguir uma carreira acadêmica. Hoje, as dificuldades do mercado musical impõem ao artista a necessidade de aderir ao empreendedorismo para viabilizar sua carreira nos palcos.

O saxofonista e compositor Marcelo Coelho encarou esse dilema, em meados desta década. Ao completar seu pós-doutorado em Composição na USP, que sucedeu seu doutorado na Unicamp e o mestrado em Jazz Performance na Universidade de Miami, o mineiro de Itabira (MG) radicado em São Paulo foi convidado a lecionar em várias universidades brasileiras. Decidido a se dedicar mais à sua carreira de instrumentista e compositor, mesmo sem saber ainda se seria possível sustentá-la, declinou os convites.

Coelho vislumbrou um caminho ao assistir a um debate sobre financiamento privado para música. Ali conheceu o engenheiro e músico Thiago Lobão, sócio de um fundo de investimento em agronegócio, que tinha interesse em atuar no mercado musical. Os dois decidiram continuar a conversa e, depois de alguns encontros, esboçaram uma metodologia de organização e planejamento de carreiras musicais. O passo seguinte foi promover workshops gratuitos de capacitação empreendedora para colegas do saxofonista.

Em dezembro de 2016, já como sócios diretores da Acelerarte, uma aceleradora com o intuito de capacitar e conectar músicos a potenciais investidores e parceiros estratégicos, Coelho e Lobão participaram de um painel da SIM (Semana Internacional de Música) – o mesmo evento onde haviam se conhecido, um ano antes, em São Paulo.

“O impacto foi grande”, diz Coelho. “O pessoal da música não estava acostumado a ouvir alguém do mercado financeiro usar uma linguagem tão próxima à linguagem dos músicos. Muita gente nos procurou depois daquele evento – não só artistas, mas também produtores de gravadoras, que queriam que a gente participasse de seus projetos de alguma maneira”.

Já em 2017, para poder suprir a demanda de artistas interessados e para que os diretores da empresa pudessem continuar a trabalhar em suas atividades principais, a Acelerarte passou a contar com mais um sócio: Silvio Junqueira, recém-saído do mercado financeiro. Naturalmente, Coelho se tornou o primeiro “case” da aceleradora. “Agora já estou conseguindo viabilizar minha carreira musical, por meio de captação de recursos, com organização e planejamento de equipe”, comemora o músico.

Segundo Coelho, cerca de 500 artistas e produtores (incluindo nomes conhecidos na cena musical paulista, como a cantora Vanessa Moreno, o violonista Gian Corrêa e o pianista Leandro Cabral) participaram das sessões de capacitação empreendedora que a Acelerarte tem realizado em diversos locais do país. Com o tempo, a empresa passou também a organizar eventos dirigidos a investidores.

“Ainda estamos tateando nesse trabalho de busca de investidores, porque essa atividade é muito nova”, admite Coelho. “Há investidores que só se interessam em atuar como mecenas, eventualmente, mas o nosso objetivo é contar com investidores fidelizados. Alguns deles praticamente não se interessam pelo retorno financeiro: são investidores mais atraídos pelo impacto cultural do trabalho de um artista”.

Quem ouve Coelho falar como empreendedor sobre os objetivos de sua empresa, sem conhece-lo ainda como artista e educador, dificilmente consegue imaginar o arrojo de sua obra musical. A gênese das pesquisas que ele desenvolve há cerca de duas décadas está no livro “Suíte I Juca Pirama” (lançado em 2013 pela editora Fames), baseado na tese de doutorado que defendeu na Unicamp, em 2008.

Nesse projeto, ele propõe um sistema de composição musical a partir de pesquisas desenvolvidas por dois músicos educadores que o influenciaram diretamente: os estudos polirrítmicos de José Eduardo Gramani e a harmonia modal aplicada ao jazz por Ron Miller. Para pôr em prática esses conteúdos, Coelho utilizou o poema “I-Juca Pirama”, do poeta romântico e teatrólogo Gonçalves Dias (1823-1864).

“Inicialmente, o que despertou minha atenção nesse poema foi sua imagética. Ao contar a história de um índio, ele funcionava como um filme para mim. Só mais tarde fui entender que o mais interessante estava na rítmica dos versos”, conta o pesquisador. Ao desenvolver uma técnica para extrair ritmos da construção dos versos do poema, que resultaram em uma partitura, Coelho criou um sistema de composição que pode ser aplicado a qualquer gênero musical.

Um conceituado jazzista que logo percebeu a originalidade desse projeto foi o saxofonista e compositor Dave Liebman. Coelho o conheceu quando ainda concluía seu mestrado, em Miami, ao frequentar um curso de férias ministrado pelo americano. “Liebman me disse que o que eu estava fazendo ainda era muito disruptivo. Minhas músicas eram intensas demais, mas na opinião dele isso era típico de um compositor em formação. Eu ainda não tinha encontrado a dosagem certa, mas o conteúdo estava pronto”, relembra o brasileiro.

A relação entre Coelho e Liebman evoluiu e os dois já chegaram a dividir o palco algumas vezes, como no Festival Amazonas Jazz de 2012, em Manaus, quando tiveram a companhia do violonista e compositor carioca Guinga. “Não me contento em ficar dentro do idioma jazzístico. Sei fazer e faço quando necessário, mas esse não é o meu perfil musical”, reflete Coelho. “Estou bem próximo da linha de improvisação do Liebman, que me impactou, não no conteúdo, mas no conceito”.

Se até agora as composições e os oito álbuns assinados por Coelho ainda circulam entre plateias e ouvintes de jazz e música instrumental, o saxofonista empreendedor está prestes a lançar um projeto que pode ampliar bastante o seu público. No final de 2018, ao aplicar seu sistema de composição a um poema do rapper paulista Crônica Mendes, Coelho logo percebeu o potencial dessa parceria. Os dois já estão preparando a gravação de um disco, com produção do DJ Raffa, curiosamente, filho do compositor de música contemporânea e regente Cláudio Santoro (1919-1989).

“Esse projeto pode chamar até a atenção de investidores de impacto, porque ele tem legitimidade social e artística”, anima-se o saxofonista, que promete convidar o parceiro rapper para participar de seu próximo show com o grupo McLav.In, no dia 7/5, no clube paulistano Bourbon Street. “Nosso público é misturado, mas tende a ser gente que gosta de inovação tecnológica e de música intensa, pessoas que querem viver uma experiência estética. Como fazemos um som transgressor, de certa maneira, a turma mais jovem é a que embarca primeiro”.

Marcelo Coelho & McLav.In

Dia 7/5, às 21h30, no Bourbon Street Music Club (rua dos Chanés, 127, tel. 5095-6100, Moema, São Paulo). Couvert artístico: R$35. Com 
Saulo Martins (piano), Glécio Nascimento (baixo) e Abner Paul (bateria)

(Texto publicado em 3/5/2019, no caderno de cultura do jornal "Valor Econômico") 

Duo + Dois: um quarteto que toca com alegria e toda a liberdade do jazz

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                                Carlos Malta (da esq. para dir.), Fernando Melo, Luiz Bueno e Robertinho Silva

Quando músicos consagrados decidem se lançar em uma nova parceria, é natural que as expectativas de seus admiradores aumentem. Em agosto de 2016, ao saber que os violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno, do Duofel, iriam estrear um quarteto com o o saxofonista e flautista Carlos Malta e o percussionista Robertinho Silva, logo pensei no grande potencial criativo desse projeto. Como não esperar algo especial desses quatro instrumentistas de alto quilate, que há décadas transitam por diversas vertentes musicais?

Mesmo tendo a oportunidade de assistir a uma das primeiras apresentações desse quarteto (ainda em 2016), confesso que, passados dois anos, me surpreendi ao escutar este álbum. Eu não esperava encontrar no repertório tantos clássicos da música popular brasileira, em releituras que chamam atenção pelos inusitados tratamentos harmônicos e rítmicos, sem falar nos criativos improvisos do grupo.

Também fiquei impressionado pelo grau de coesão e empatia sonora que o quarteto revela nessas gravações. Mesmo que Malta e Silva tenham iniciado esse projeto como convidados do Duofel, basta ouvir qualquer faixa deste álbum para se perceber que hoje eles são parceiros ativos. Os quatro tocam como se já estivessem juntos há muitos anos.

Entre vários achados musicais fica difícil destacar uma ou outra gravação. É bem possível que, como eu, você se encante pela onírica releitura do “Canto de Yemanjá” (de Baden Powell e Vinícius de Moraes), não resista à suingada condução rítmica de “Água de Beber” (Tom Jobim e Vinícius), se emocione com a evanescente versão de “Cais” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) ou sorria ao ouvir a contagiante introdução e os improvisos do grupo em “Maracangalha” (Dorival Caymmi).

“Este projeto é marcante, em nossa história, porque trouxe algo que nunca tínhamos experimentado em quase 40 anos de carreira do Duofel: a liberdade do jazz, no sentido de se criar a música na hora ou de se transformar algo mais ou menos combinado. Essa foi umas das parcerias mais felizes que eu e Fernando já experimentamos”, comenta o violonista Luiz Bueno.

Depois de escutar este disco outras vezes, tenho certeza de que a alegria, a liberdade criativa e a fina musicalidade que o quarteto Duo + Dois transmite nestas gravações também vai contagiar muitos outros ouvintes.


Texto escrito a convite do Selo Sesc para o encarte do CD "Duo + Dois". O show de lançamento acontece na próxima segunda-feira (25/3), às 19h, no teatro do Sesc Consolação, pelo projeto Instrumental Sesc Brasil. Mais informações em:  www.sescsp.org.br/programacao/181792_DUO+DOIS#/content=saiba-mais





Terrie Odabi: cantora de soul e R&B conquista plateia paulistana do Bourbon Street

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                                                      Terrie Odabi e o guitarrista Fred Sunwalk, no Bourbon Street 

Em sua primeira turnê pelo Brasil, a cantora americana Terrie Odabi demonstrou surpresa ao ver a plateia do Bourbon Street Music Club se levantar para aplaudi-la, no meio do show de ontem. Sabemos que o público paulistano tem o curioso hábito de aplaudir de pé quase qualquer artista, mas no caso dessa intérprete californiana a inflamada reação do público extrapolou o mero ritual.

Bastaram alguns minutos de show, na noite de estreia do The Blues Festival, para que a plateia paulistana logo percebesse que tinha à sua frente uma cantora fora de série, aliás, muito bem acompanhada pela banda brasileira Alabama Johnny. Carismática e bem-humorada, Terrie exibe uma voz poderosa e versátil. É uma intérprete capaz de inflamar seus ouvintes.

Seu repertório é formado, majoritariamente, por clássicos do rhythm’n’blues e da soul music. De cara, esboçou um discurso feminista, cantando “I’m a Woman”, o pesado blues assinado e gravado por Koko Taylor (1928-2009). Fez alguns se mexerem nas cadeiras, ao lembrar a dançante “Chain of Fools”, hit de Aretha Franklin (1942-2018). Emocionou a plateia com a “I’d Rather Be Blind”, pungente balada que ganhou a assinatura vocal de Etta James (1938-2012).

O fato de reunir tantos sucessos de outras intérpretes em seu show não quer dizer que Terrie Odabi seja uma cantora de covers. Assim como faz nas releituras das canções já citadas, ela esbanja personalidade ao interpretar “Ball and Chain”, o blues associado a Janis Joplin (1943-1970), assim como na versão de “Come Together”, hit de John Lennon e Paul McCartney que também já foi muito bem gravado por Tina Turner.

Se você perdeu a chance de ouvir Terrie ao vivo, não precisa se lamentar. Os rasgados elogios que ela fez ao Brasil durante o show, assim como a reação calorosa da plateia que a obrigou a cantar um extenso bis, indicam que esta não será certamente sua única aparição por aqui.

O The Blues Festival prossegue nas próximas semanas, no palco do Bourbon Street. A Cinelli Brothers, banda de blues e r&b radicada em Londres, toca na noite de 20/03. O evento termina com o encontro do gaitista e cantor carioca Flávio Guimarães com o guitarrista norte-americano Little Joe McLerran e os Simi Brothers, em 3/04. O guitarrista Gui Cicarelli também será o anfitrião dessas duas noites.





Festivais em 2019: roteiro de eventos de jazz, blues e música instrumental pelo Brasil

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Aqui você encontra um roteiro com as atrações musicais dos principais festivais brasileiros já anunciados para 2019. É atualizado regularmente para que fãs do jazz, do blues, da música instrumental brasileira, da bossa nova, do choro, do soul, do r&b e da black music possam se programar com antecedência.


                                                                         Joshua Redman, atração do Floripa Jazz Festival 


11.º Bourbon Festival Paraty
Quando e onde: de 10 a 12/05/2019, em Paraty (RJ)
Atrações: 
Zeca Baleiro in Blues, Kenny Barron, Nilson Matta e Rafael Barata; Mark Lambert & Amanda Maria; ; Dawn Tyler Watson; Toninho Ferragutti, Edu Ribeiro e Fábio Peron; Tributo a Stevie Ray Vaughan (Gui Cicarelli, Bruna Guerin e Sérgio Duarte); Clarence Bekker Band; Celso Pixinga, Faíska e Carlos Bala; Mani Padme; John Wesley Duo e outras
www.facebook.com/bourbonfestivalparaty/

Floripa Jazz Festival
Quando e onde: de 13 a 19/05/2019, em Florianópolis (SC)
Atrações: Thiago Espírito Santo convida Joshua Redman (participação de Grégoire Maret), Eumir Deodato, Yamandu Costa Trio, Duo Peranzzetta e Senise, Quartabê, Vitor Araujo, Dudu Lima Trio, Derico Jazz Quartet, Céu, Yangos e Orquestra Manancial da Alvorada, entre outras

www.floripajazz.org

16.º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival
Quando e onde: de 20 a 23/6/2019, em Rio das Ostras (RJ)
Atrações: Roy Rogers & The Delta Rhythm Kings, Bixiga 70 e outras a serem divulgadas
www.facebook.com/rostrasjazzblues/

17.º Savassi Festival
Quando e onde: de 5 a 11/08/2019, em vários espaços de Belo Horizonte (MG)
Atrações: Marcos Paiva, Deangelo Silva, Davi Fonseca e outras a serem divulgadas
www.savassifestival.com.br/home/

10.º Fest Bossa & Jazz
Quando e onde: de 15 a 18/08, em Praia da Pipa (Natal, RN); de 19 a 21/09, em Mossoró (RN); de 10 a 13/10/2019, em São Miguel do Gostoso (RN)
Atrações: a serem divulgadas
www.facebook.com/FestBossaeJazz























Festivais já realizados em 2019:  


20.º Festival Jazz & Blues
Quando e onde: de 2 a 5/3/2019, em Guaramiranga (CE); 2 e 3/3/2019, em Aquiraz (CE); e 9/3/2019, em Fortaleza (CE)
Atrações: Guinga (com Nailor Proveta e Teco Cardoso), Trio Jobim, Terrie Odabi, Jesuton, Kátia Freitas, Mel Mattos, Marcos Maia (com Nono Garcia e Budi Garcia), Vanildo Franco, Eder Rocha, Vivi Pozzebón, Marajazz e Marimbanda, entre outras
www.jazzeblues.com.br   


The Blues Festival
Quando e onde: dias 13/03, 20/03 e 3/04/2019, no Bourbon Street Music Club (São Paulo/SP)  
Atrações: Terrie Odabi & Alabama Johnny; The Cinelli Brothers; Flávio Guimarães com Little Joe McLerran & The Simi Brothers; Gui Cicarelli (hostess e participações especiais)
www.bourbonstreet.com.br/

9.º Nublu Jazz Festival

Quando e onde: de 21 a 23/3/2019, no Sesc Pompeia (São Paulo, SP) e no Sesc São José dos Campos (SP)
Atrações: Tony Allen e Thiago França, Marc Ribot y Los Cubanos Postizos, Georgia Anne Muldrow, The Midnight Hour, GoGo Penguin e Nomade Orquestra, entre outras.
www.sescsp.org.br/programacao/27616_NUBLU+JAZZ+FESTIVAL#/content=programacao


Rafael Martini e Alexandre Andrés: músicos mineiros lançam álbum "Haru" em São Paulo

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                                                            O pianista Rafael Martini e o violonista Alexandre Andrés

Foi um prazer especial para mim assistir ao show do pianista Rafael Martini e do violonista e flautista Alexandre Andrés, ontem, no Sesc Pinheiros. Conheci esses talentosos instrumentistas e compositores uma década atrás, ao participar por vários anos do júri do Prêmio BDMG Instrumental, em Belo Horizonte. Graças à dedicação e à sensibilidade da produtora Malluh Praxedes, que o criou, esse influente prêmio já contribuiu para revelar dezenas de jovens craques da música instrumental brasileira.

Martini e Andrés estão lançando o álbum “Haru”, recheado de belas canções que compuseram, algumas delas sozinhos, outras em parcerias com os letristas Makely Ka, Bernardo Maranhão e Leonora Weissman. Os fãs de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e outros autores do lendário Clube da Esquina logo vão notar essa natural ascendência, em algumas canções desse disco, que também já foi lançado no Japão.

Reencontrar Martini e Andrés agora, mais maduros e com suas carreiras estabelecidas, trouxe de volta minha surpresa ao ouvi-los pela primeira vez, bem mais jovens, no concurso patrocinado pelo BDMG. Ambos já esbanjavam talento, como músicos que estavam praticamente começando.

Outra boa surpresa foi ver os dois homenagearem agora, no auditório do Sesc Pinheiros, a grande compositora e flautista paulistana Léa Freire, que fez uma participação especial no show. Esse diálogo criativo, essa admiração mútua entre duas diferentes gerações musicais, me fez pensar que ainda temos algo de que podemos nos orgulhar neste país -- coisa rara por aqui, nos últimos tempos.






Bossa 60: Carlos Lyra e Paul Winter relêem clássicos que gravaram nos anos 1960

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                                                                    O saxofonista Paul Winter e o compositor Carlos Lyra

Uma comemoração dentro de outra. No show de encerramento do projeto “Bossa 60”, ontem, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, o compositor e cantor Carlos Lyra – um dos expoentes da agora sexagenária bossa nova – reencontrou o saxofonista norte-americano Paul Winter, com o qual gravou o histórico álbum “The Sound of Ipanema”, em 1964.

Emocionado, Winter lembrou da primeira vez que esteve no Rio de Janeiro, em 1962, quando participou com seu grupo de jazz de uma turnê por 23 países, bancada pelo Departamento de Estado dos EUA. “Eu me apaixonei pelo Brasil e não via a hora de retornar”, disse o saxofonista, que conheceu Lyra no final do mesmo ano, por ocasião do lendário concerto de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York.

Cinquenta e cinco anos após a gravação de “The Sound of Ipanema”, Winter e Lyra revisitaram no palco o repertório desse álbum, lançado no momento em que a bossa nova explodia internacionalmente. Entre as 11 faixas do disco já estavam canções de Lyra que se tornaram clássicos desse estilo musical, como “Você e Eu” e “Coisa Mais Linda” (parcerias com Vinicius de Moraes), “Maria Ninguém” e “Lobo Bobo” (parceria com Ronaldo Bôscoli).

Mesmo sem tocar violão, Lyra cativou a plateia com seu canto meio falado e seus comentários irônicos, como ao introduzir, sorrindo, a divertida “Lobo Bobo” como seu “maior sucesso”. Bem acompanhado, tinha a seu lado um sexteto de craques da música instrumental carioca: Fernando Merlino (piano), Adriano Giffoni (contrabaixo), Ricardo Costa (bateria), Flávio Mendes (violão e guitarra), Dirceu Leite (sax e flauta) e Diogo Gomes (trompete e flugelhorn). 


No programa distribuído à plateia, todo o repertório do concerto tinha a assinatura de Lyra, mas Winter ganhou um espaço para sair um pouco do universo da bossa nova. Emocionou a plateia com seu sax soprano, ao tocar sua lírica composição “Sun Singer”, do álbum homônimo que lançou em 1983, quando já havia trocado o jazz pela música new age. Depois provocou sorrisos da plateia ao interpretar a “Cantata 147” (de J. S. Bach) com sotaque brasileiro. 
 
Para quem ainda recusa a tese de que as influências entre o jazz e a bossa nova foram de mão-dupla, esse reencontro de Lyra e Winter não poderia ser mais didático.



Bossa 60: Dante Ozzetti cria versões instrumentais para canções de Tom Jobim

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O violonista Dante Ozzetti seguiu as regras de um ousado desafio: criar arranjos puramente instrumentais para canções de Tom Jobim. Uma tarefa que passa pela responsabilidade de lidar com melodias e harmonias de um dos maiores compositores do mundo, abrindo mão de conhecidos versos de letristas de alto quilate, como o poeta Vinicius de Moraes, Chico Buarque ou o próprio Jobim.

A estreia do show “Dante Ozzetti Interpreta Tom Jobim” (apresentado nos dias 26 e 27/1, em São Paulo) fez parte da programação do projeto comemorativo “Bossa 60”, idealizado e produzido pelo Sesc 24 de Maio, cuja equipe de programação apresentou esse desafio musical ao violonista e arranjador paulista.

Dante entrou no palco com uma formação instrumental inusitada, algo entre um conjunto de câmara e uma compacta orquestra, formada por Antonio Loureiro (vibrafone e bateria), Fi Maróstica (contrabaixo e baixo elétrico), Gui Held (guitarra), Nivaldo Ornelas (sax tenor e flauta), Gabriel Grossi (gaitas), Fábio Cury (fagote), Fernando Sagawa (flautas), Ana Chamorro (violoncelo) e Newton Carneiro (viola).

Os arranjos são inventivos, sem jamais soarem desrespeitosos aos originais de Jobim. Explorando bem as combinações permitidas por esses instrumentos de sopro, cordas e percussão, Dante criou texturas e contrapontos que permitem ouvir as belezas jobinianas de outras formas. Entre vários destaques, o arranjo da dramática “Modinha” (de Jobim e Vinicius), com a melodia recriada pela guitarra lancinante de Gui Held, chega a surpreender. A releitura de “Olha Maria” (parceria de Jobim com Vinicius e Chico) ganha uma dose de lirismo tipicamente mineiro graças à flauta de Ornelas. Ou ainda a versão de “Inútil Paisagem”, em duo de Grossi (gaita) e Maróstica (baixo acústico), capaz de tirar o fôlego do ouvinte.

Mas como resistir às palavras de Jobim, que sempre elogiou as belezas da natureza e antecipou em várias de suas canções a questão da ecologia, décadas antes que essa temática entrasse na ordem do dia? Sem quebrar as regras do desafio, Dante também apresentou um arranjo instrumental para a bela canção “Borzeguim” (lançada por Jobim no álbum “Passarim”, em 1987), mas não perdeu a chance de relembrar alguns versos dessa canção, lendo-os antes de tocar.

“Deixa o tatu bola no lugar / Deixa a capivara atravessar / Deixa a anta cruzar o ribeirão / Deixa o índio vivo no sertão / Deixa o índio vivo nu / Deixa o índio vivo / Deixa o índio (...) Deixa a índia criar seu curumim / Vá embora daqui coisa ruim / Some logo, vá embora / Em nome de Deus”. 


Preciso dizer que, três décadas depois, esses versos iluminados de Jobim soam hoje mais atuais ainda?

Bossa 60: Fernanda Takai interpreta Tom Jobim com leveza, em projeto do Sesc

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                                             Fernanda Takai, em show do projeto "Bossa 60", no Sesc 24 de Maio 

Era fácil notar diferentes gerações na plateia dos dois shows de Fernanda Takai, ontem, em São Paulo. Naturalmente, uma grande parte era composta por fãs que a acompanham há quase duas décadas como vocalista da banda pop Pato Fu, mas também havia gente curiosa por ouvi-la cantar bossa nova. A cantora foi uma das atrações do projeto “Bossa 60”, que prossegue até 3/2, no Sesc 24 de Maio.

O show “O Tom da Takai” empresta o título do álbum que ela lançou em meados de 2018, com repertório extraído do cancioneiro do grande Tom Jobim (1927-1994), que ontem teria comemorado 92 anos. Nessas gravações, Fernanda contou com o apoio essencial de outros dois mestres da bossa nova: Roberto Menescal e Marcos Valle, que dividiram a produção e os saborosos arranjos do álbum.

Vale notar que Fernanda teve o cuidado de esperar uma década para amadurecer a ideia de gravar um álbum que a aproximou de vez do universo da bossa. Já em sua primeira incursão pela MPB (o álbum “Onde Brilhem os Olhos Seus”, com releituras de canções do repertório de Nara Leão, lançado em 2007), ela havia demonstrado a consciência de que não faria sentido gravar aquelas canções como Nara fizera.

Fernanda abre seu novo show com a contagiante beleza da canção “Bonita” (de Jobim, Gene Lees e Ray Gilbert), exatamente como fez no álbum. Bem à vontade, a cantora interpreta com leveza e simpatia tanto canções da fase pré-bossa de Jobim, caso do samba “Outra Vez” e do samba-choro “Ai Quem Me Dera” (parceria com Marino Pinto), assim como as clássicas bossas “Brigas Nunca Mais” (parceria com Vinicius de Moraes) e – já no bis – “Samba de Verão” (de Marcos e Paulo Sergio Valle) e “O Barquinho” (de Menescal e Ronaldo Bôscoli).

Mesmo sob o risco de comprometer a atmosfera do espetáculo, Fernanda fez questão de comentar com a plateia do segundo show a dramática notícia do rompimento da barragem em Brumadinho (MG) -- região onde chegou a gravar um DVD, em 2017. Mas a beleza das canções de Jobim e a leveza dos arranjos e das interpretações da cantora conseguiram fazer com que a plateia se esquecesse, ao menos por uma hora, de mais essa indesculpável tragédia em nosso país. 

Bossa 60: projeto do Sesc homenageia o estilo musical que conquistou o mundo

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                                                                O violonista Roberto Menescal e a cantora Wanda Sá 

Aos 60 anos, ela ainda não perdeu seu espírito juvenil e poético, muito menos a elegância musical que continua a seduzir fãs de várias gerações. Moderna maneira de interpretar o velho samba que conquistou o mundo, a bossa nova será homenageada em vários eventos do “Bossa 60” – projeto idealizado e produzido pelo Sesc 24 de Maio, em São Paulo.

A programação começa com o reencontro de três astros da bossa, nos dias 23 e 24/1. A cantora Wanda Sá, uma das mais conceituadas intérpretes desse estilo musical, reencontra o violonista Roberto Menescal e o tecladista Marcos Valle – dois dos maiores compositores dessa vertente. Nesse show, eles relembram clássicos da bossa, além de sucessos assinados por Menescal e Valle.

Conhecida desde a década de 1990 como vocalista da banda de rock Pato Fu, Fernanda Takai tem demonstrado sua intimidade com a bossa e a MPB, nos últimos anos. Depois do tributo que rendeu à cantora e musa da bossa Nara Leão, agora ela dedica um show inteiro à obra de Tom Jobim (1927-2004), interpretando canções da fase inicial do grande compositor e maestro da bossa, no dia 25/1 (em dois horários).

O cancioneiro de Tom Jobim também serve de ponto de partida para os shows do violonista e arranjador Dante Ozzetti, que aceitou o convite da equipe de programação do Sesc 24 de Maio para participar da série “Tirando de Letra”, nos dias 26 e 27/1. Ele encara o desafio de interpretar conhecidas canções de Jobim, em arranjos instrumentais que enfatizam contrapontos, texturas sonoras e timbres incomuns. Ao lado de Ozzetti estarão craques da música instrumental, como Nivaldo Ornelas (sax), Gabriel Grossi (gaita) e Mestrinho (acordeom), entre outros.

Amigas desde a década de 1960, quando se tornaram embaixadoras da bossa nova na noite paulistana, as cantoras Claudette Soares e Alaíde Costa se reencontram em dois shows, nos dias 30 e 31/1. No repertório, entram alguns dos sucessos mais solares da bossa, como “O Barquinho” (de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli) e “Ela É Carioca” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), além de canções mais românticas, como “Ilusão à Toa” (Johnny Alf) e “Morrer de Amor” (de Oscar Castro-Neves e Luvercy Fiorini).

A série de shows do projeto “Bossa 60” termina com o reencontro do saxofonista americano Paul Winter com o violonista e compositor carioca Carlos Lyra, dias 1º, 2 e 3/2. Os dois revisitam o repertório do álbum “The Sound of Ipanema”, que gravaram juntos em 1964, época em que a bossa nova explodiu internacionalmente. Uma histórica parceria que, por sinal, confirma o fato de que a influência inicial do jazz sobre a bossa se tornou recíproca.

Num projeto como esse também não poderia faltar João Gilberto, o hoje recluso cantor e compositor, que sintetizou a essência da bossa nova na batida de seu violão e no seu jeito natural de cantar. Depoimentos de artistas que conviveram com ele, como a cantora Miúcha, o pianista João Donato e os compositores Marcos Valle e Roberto Menescal, estão entre os momentos mais saborosos de “Onde Está Você, João Gilberto?”, filme do franco-suíço Georges Gachot, que já realizou elogiados documentários sobre Maria Bethânia e Nana Caymmi. Exibições nos dias 30/1, 31/1 e 3/2.

Venda de ingressos e outras informações no site do Sesc SP

New Orleans Jazz Fest: evento festeja 50 anos com Kamasi e Rolling Stones no elenco

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                                     Kamasi Washington, atração do 50º New Orleans Jazz & Heritage Festival

No ano em que o New Orleans Jazz & Heritage Festival comemora seu 50º aniversário, o produtor Quint Davis e sua equipe deram uma demonstração de grande prestígio. Encabeçando as centenas de atrações anunciadas hoje para esse evento – um dos maiores festivais do gênero no mundo, que será realizado de 25 a 28/4 e de 2 a 5/5 – está a veterana banda britânica de rock The Rolling Stones, cuja próxima turnê pelos Estados Unidos pode ser a última.

Outros astros de diversos gêneros musicais também se destacam no elenco desse festival: jazzistas como o pianista Herbie Hancock e os saxofonistas Kamasi Washington e James Carter, o soulman Al Green, os bluesmen Robert Cray, Buddy Guy e John Hammond, a clássica banda de funk Earth, Wind & Fire e cantores de várias vertentes da música negra norte-americana, como Diana Ross, Mavis Staples, Cecile McLorin Salvant, Shirley Caesar, Jose James e Gregory Porter.

Desde novembro, quando surgiram os primeiros rumores de que os Rolling Stones iriam se apresentar em New Orleans e, pouco depois, veio a notícia de que o evento teria um dia a mais (25/4), a polêmica se instalou nas redes sociais. O anúncio de que os habituais apoiadores da rádio pública local WWOZ (que já tinham comprado pacotes com passe livre para todo o festival) não teriam acesso ao dia do show dos Rolling Stones (2/5) irritou muita gente.

Os ingressos para esse dia do festival serão vendidos separadamente, nesta quinta-feira (17/1), com restrições. Só residentes da Louisiana, portando documento oficial, terão direito a comprar dois ingressos ao preço de 185 dólares cada (fora os impostos). No dia seguinte, os ingressos restantes – se sobrarem – serão vendidos ao público em geral. Para os outros dias do festival, quando comprados nas bilheterias do evento, os ingressos custam 85 dólares.  



Também deve causar alguma polêmica, como já acontece há pelo menos duas décadas, a inclusão no elenco de outras atrações da música pop e do rock – como as cantoras Kate Perry e Alanis Morissette, os cantores Dave Matthews e Tom Jones ou o guitarrista Carlos Santana, nesta edição. A exemplo de outros festivais do gênero pelo mundo, a produção do evento tem adotado esse recurso para ampliar as plateias que frequentam o Fair Grounds (o hipódromo local), onde esse festival é realizado desde 1970.

Para quem ainda não conhece New Orleans, uma das cidades mais musicais do mundo, uma observação essencial: o nível dos artistas locais costuma ser tão alto, que é comum durante o festival você se surpreender com shows de músicos sobre os quais nunca ouviu falar antes.

Portanto, para quem vai ao Jazz Fest pela primeira vez (é assim que os moradores da cidade se referem a ele) torna-se praticamente obrigatório assistir a shows de atrações locais, como os músicos da família Marsalis, que neste ano vão homenagear o veterano pianista Ellis Marsalis, ou ainda Terence Blanchard (na foto acima), Trombone Shorty, Jon Cleary, Nicholas Payton, Aaron Neville, Donald Harrison, Kermit Ruffins, Davell Crawford, Irma Thomas e Germaine Bazzle, além das bandas Galactic, Astral Project, Dumpstaphunk, Rebirth Brass Band, The Soul Rebels e Bonerama, entre muitas outras atrações da cidade, que mais uma vez vão se alternar entre os 12 palcos do Jazz Fest.


Atualização - Com o cancelamento da turnê dos Rolling Stones, em 30/3, por causa da cirurgia cardíaca a que Mick Jagger foi submetido (em 5/4), a produção do festival incluiu a veterana banda de rock Fleetwood Mac, no elenco do dia 2/5. Mais informações sobre o New Orleans Jazz & Heritage Festival em www.nojazzfest.com






Amaro Freitas: o jazz brasileiro do pianista que já conquistou plateias na Europa

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Para quem ainda não o conhecia, deve ter soado muito excitante e surpreendente a apresentação do trio do pianista Amaro Freitas, ontem (11/01), no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo. Até mesmo para aqueles que se tornaram fãs imediatos desse inventivo músico e compositor pernambucano, ao ouvi-lo em sua primeira aparição na capital paulista, em agosto de 2017 (aliás, no mesmo palco, como atração do festival Jazz na Fábrica), não faltaram surpresas nesse show.

Amaro chegou há pouco de sua primeira turnê pela Europa, finalizada em novembro com duas apresentações no lendário clube de jazz londrino Ronnie Scott’s. Os programas dessas noites já sugeriam que seu prestígio está em franca ascensão na cena mundial. Em ambas o brasileiro dividiu a noite com um grande pianista do jazz: o italiano Stefano Bollani e o cubano Chucho Valdés.

Acompanhado por Jean Elton (contrabaixo) e Hugo Medeiros (bateria), craques de seu trio com o qual toca desde 2015, Amaro está divulgando seu segundo álbum – lançado em CD e vinil pelo selo independente britânico Far Out, ainda sem edição brasileira anunciada. “Rasif” (cujo título remete à palavra árabe que deu origem ao nome de Recife, cidade natal de Amaro) é o sucessor do belo “Sangue Negro” (2016), álbum de estreia que o transformou em grande revelação do jazz.

Amaro abriu o show de ontem, sozinho, ao piano, tocando “Dona Eni”, um alucinado baião de sua autoria com inusitada divisão rítmica. “O baião é marcado em dois, mas eu dividi em oito e tirei uma perninha para ficar em sete”, explicou o compositor, sorrindo. Emendou com a percussiva “Trupé”, composição inspirada no coco ritmado por tamancos de madeira do tradicional grupo Samba de Coco Raízes de Arcoverde, da Zona da Mata pernambucana.

Em algumas músicas do show -- como no frevo “Paço”, cheio de mudanças rítmicas -- o telepático trio de Amaro contou também com a flauta e o sax barítono do talentoso convidado Henrique Albino. Já no jazzístico frevo “Encruzilhada” (do álbum “Sangue Negro”), introduzido com um toque de ironia como “o nosso hit”, o pianista se diverte, citando trechos de temas de Thelonious Monk e Billy Strayhorn durante seus improvisos.

Nesse show de quase duas horas de duração, Amaro e seus parceiros provaram que estão prontos para contagiar plateias de festivais e clubes de jazz de qualquer lugar do mundo. “Essa interação entre músicos e plateia é maravilhosa. Nem vou conseguiu dormir hoje à noite”, agradeceu o pianista, ainda emocionado.

Para alguns que estavam na plateia, como eu, além do prazer de ter ouvido um músico tão original e com um potencial criativo imenso, ficou também uma sensação de orgulho. Em meio à mediocridade reinante, a inovadora música de Amaro Freitas faz pensar que, ao menos no campo cultural, o Brasil ainda tem muito o que o exibir aos olhos e ouvidos do mundo, sem correr o risco de dar mais vexames.













Discos em 2018: 80 álbuns recomendados de jazz, instrumental, MPB e black music

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Às vésperas de completar 10 anos, este blog oferece a você mais uma lista anual de discos recomendados. Para quem não me conhece e está acessando este blog pela primeira vez, repito algo que já disse em anos anteriores. Não tenho a pretensão de publicar uma lista de “melhores” discos de 2018, pois não concordo com a ideia de que discos de diferentes artistas, que cultivam gêneros musicais diversos, possam ser comparados para se estabelecer um suposto ranking de “melhores”.

Também não acho que o gosto pessoal de um crítico, ou mesmo uma enquete com uma dúzia de supostos experts em música, possam ser utilizados como parâmetros para se afirmar que um disco é superior a outros. Até porque, a cada ano que passa, é maior o número de lançamentos de discos, sejam eles distribuídos em versões físicas (CD ou vinil) ou por meio de plataformas digitais. É praticamente impossível a qualquer crítico especializado ter acesso a toda essa produção fonográfica.

Meu plano inicial era organizar, como no ano passado, uma lista com 50 discos de jazz, música instrumental brasileira, MPB e de algumas vertentes da música negra. Acabei decidindo ampliar esse número para 80 álbuns (listados em ordem alfabética), para não deixar de fora muitos lançamentos de 2018 que merecem atenção.

Finalmente, um aviso importante: como grande parte desses discos que vou recomendar também estão disponíveis no YouTube, se você clicar no título dos discos listados abaixo vai poder ouvi-los ou pelo menos assistir a um vídeo associado a cada um desses álbuns. Se gostar do que ouvir, o artista em questão vai ficar muito contente se você comprar seu disco ou assistir ao seu show quando ele se apresentar em sua cidade.

Aproveito para desejar a você um 2019 repleto de música de boa qualidade. Tomara que esta lista o ajude a descobrir novos artistas e discos. Quem gosta mesmo de música sabe que não há limites para isso. Nossa curiosidade por novos sons sempre se renova. 



                                    
                        

Alexandra Jackson - “Legacy & Alchemy” (Legacy and Alchemy) – Cantando em português quase sem sotaque, essa talentosa intérprete americana declara sua paixão pela música brasileira. Canções de Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Milton Nascimento se destacam no repertório de seu disco de estreia.

Amaro Freitas - “Rasif” (Far Out) – Ritmos nordestinos, como o baião, o maracatu e o frevo, revelam a identidade do jazz (ou música instrumental, para quem preferir) cultivado por esse inventivo pianista e compositor pernambucano, em seu segundo álbum. Amaro é uma das grandes revelações recentes na cena musical brasileira.

Anaí Rosa - “Anaí Rosa Atraca Geraldo Pereira” (Sesc) – A cantora paulista homenageia Geraldo Pereira, mestre do samba sincopado, cujo centenário é festejado em 2018. Clássicos do gênero, como “Escurinho”, “Acertei no Milhar” e “Cabritada Malsucedida”, surgem em inusitados arranjos de Cacá Machado e Gilberto Monte.

André Abujamra - “Omindá” (independente) – Conhecido por seus trabalhos com Os Mulheres Negras e a banda Karnak, o compositor dedicou 11 anos ao ambicioso projeto de um show-filme sobre as relações do ser humano com a água. Mesmo sem a companhia das belas imagens do espetáculo, as canções continuam soando encantadoras.

Anelis Assumpção - “Taurina” (Scubidu) – A sombra musical do pai, o grande Itamar Assumpção (1949-2003), já não a ofusca mais. Em seu terceiro álbum, a cantora e compositora aborda o universo feminino de modo bem pessoal. Anelis não esconde a tristeza pela morte da irmã, Serena, mas também revela humor e doçura em suas canções.

Aniel Someillan - “Quilombo” (independente) – Primeiro álbum do contrabaixista cubano, que se radicou no Brasil em 2014. A releitura do samba-afro “Canto de Xangô” (de Baden Powell e Vinícius de Moraes), que mistura elementos rítmicos da santeria cubana e do candomblé brasileiro, é exemplar de suas pesquisas musicais.

Antonio Adolfo e Orquestra Atlântica - “Encontros” (AAM) – Nos últimos anos, o pianista e compositor carioca tem lançado discos saborosos e este, em parceria com uma big band, não foge à regra. No repertório, uma versão instrumental de “Sá Marina”, seu grande sucesso, e um arranjo de “Milestones” (Miles Davis), em ritmo de frevo.

Antonio Loureiro - “Livre” (YB) – O título do sexto álbum do multi-instrumentista, compositor e cantor mineiro soa como uma afirmação. Da engajada canção “Resistência” à instrumental “Caipira”, passando pela exuberante versão de “Oriente” (de Gilberto Gil), Loureiro parece decidido a romper fronteiras musicais.

Ari Borger Trio - “Rock ‘n’ Jazz” (independente) – Depois de morar na eclética New Orleans, é natural que este pianista e organista paulistano traga diversidade em sua música. Neste álbum, ele exibe releituras jazzísticas e blueseiras de clássicos dos Beatles, dos Stones e dos Doors, entre outras bandas de rock e pop.


Balaio (Cendi Music) – O quarteto formado em 2009 por Rubem Farias (baixo), Adriano Oliveira (teclados), Leonardo Susi (bateria) e Marco Bosco (percussão) tocou bastante na Ásia e na Europa até, enfim, lançar o primeiro álbum. Calcada em ritmos brasileiros, sua música remete às fusões do jazz dos anos 1970 e 1980.   

Benji Kaplan - “Chorando Sete Cores” (Big Apple Batucada) – Apreciador da música brasileira, o violonista, compositor e arranjador nova-iorquino reveste com cores e texturas eruditas ritmos como o samba, o maxixe, o baião e o maracatu. Para isso, utiliza um quinteto com flautas, clarinetes e trompa, além de seu violão.

Bixiga 70 - “Quebra Cabeça” (Deck) – O 4º álbum da compacta big band paulistana soa como virada de página. A forte ascendência do afrobeat, em seus primeiros discos, dá lugar a composições se abrem para influências de Cabo Verde, Cuba, Jamaica, Índia, Bahia e, naturalmente, da África. Música contagiante para dançar e viajar.

Cacá Machado - “Sibilina” (Circus/YB) – Cinco anos depois do inventivo “Eslavosamba” (2013), seu primeiro álbum, o compositor e professor universitário paulistano exibe mais uma coleção de canções que desafiam padrões. A etérea e ruidosa “Sob Neblina” representa bem o álbum, mas a inquietante “Tem Um” soa como obra-prima.

Cainã Cavalcante - “Corrente” (independente) – Saudado como “genial artista” por ninguém menos que Guinga, o violonista e compositor cearense lança aos 38 anos seu primeiro disco de violão solo. No repertório, belezas como a lírica “Mar de Saudade”, o samba “Vento Sul” e “Forró Gaúcho”, dedicado ao violonista Yamandú Costa.

Carlos Badia e Grupo - “0+2” (independente) – Blues, maracatu, baião, samba: o violonista, cantor e compositor gaúcho (ex-grupo de jazz Delicatessen) não parece preocupado em cultivar gêneros ou ritmos de sua região, no seu segundo disco. Até o belo tema “Uruguai”, que poderia ser considerado um chamamé, soa bem jazzístico.

Carol Panesi & Grupo - “Primeiras Impressões” (independente) – Depois de mais de uma década com a Itiberê Orquestra Família e o grupo de Itiberê Zwarg, a violinista e trompetista carioca gravou seu primeiro álbum. A influência da música universal de Hermeto Pascoal é marcante, mas não falta personalidade às suas composições.

Ceumar, Lui Coimbra e Paulo Freire - “Viola Perfumosa” (Natura/Circus) – A cantora mineira, o violoncelista carioca e o violeiro paulista fazem uma emocionante – e divertida – homenagem à cantora Inezita Barroso (1925-2015), expoente da música caipira. Clássicos como “Luar do Sertão” e “Índia” ganham versões camerísticas.

Coladera - “La Dôtu Lado” (Scubidu) – O português João Pires e o brasileiro Vitor Santana, ambos violonistas, encabeçam esse grupo que realiza um inspirador diálogo entre os universos musicais de Cabo Verde, Portugal e Brasil. Nove das 11 faixas do álbum são cantadas em português, mas a diversidade rítmica é ampla.

Conrado Paulino - “A Canção Brasileira” (independente) – Depois do ótimo álbum “4 Climas” (2015), o violonista argentino lança um sofisticado álbum de violão solo. “Todo Sentimento” (de Cristóvão Bastos e Chico Buarque) e “Sim ou Não” (Djavan) estão entre as pérolas da MPB que ganharam inventivos arranjos.   




Cris Delanno & Nelson Faria - “Bossa Is Her Name” (Batuke) – A cantora americana e o violonista mineiro, ambos radicados no Rio, recriam “Julie Is Her Name” (1955), influente álbum da cantora Julie London. A dupla transforma standards do jazz, como “Cry Me a River”, “’S Wonderful” e “I Should Care”, em atraentes bossas.

Dani Gurgel - “Tuqti” (Da Pá Virada) – O título do 2.º disco autoral da cantora paulistana tem a ver com o estilo de canto onomatopaico que os jazzistas chamam de scat. Dani abre o álbum exibindo sua habilidade vocal, no contagiante samba “Cadê a Rita” (com Gabriel Santiago), mas também interpreta canções em português e inglês.

Daniela Spielmann - “Afinidades” (independente) – Primeiro álbum totalmente autoral da saxofonista e flautista carioca, que também faz parte do grupo Rabo de Lagartixa. No repertório, ritmos brasileiros se misturam com a marcante influência do jazz. Participações especiais de Anat Cohen (clarinete) e Silvério Pontes (trompete).

Douglas Braga - “Música Livre” (independente) – Música clássica, jazz e música instrumental brasileira se encontram neste inusitado álbum idealizado pelo saxofonista e compositor paulista. O clarinetista Nailor Proveta e o violonista Gian Correa contribuíram com obras encomendadas especialmente para o projeto.

Duduka da Fonseca Trio - “Plays Dom Salvador” (Sunnyside) – O baterista carioca, radicado em Nova York, faz contagiante homenagem ao pianista Dom Salvador, que festejou seus 80 anos em 2018. Com David Feldman (piano) e Guto Wirtti (baixo), Duduka relembra “Tematrio” e “Farjuto”, entre outros clássicos do mestre do samba-jazz.

Duo Taufik - “D’Anima” (independente) – Para comemorar 10 anos de parceria, os irmãos Eduardo (piano) e Roberto Taufik (violão) gravaram este álbum com inspiradas composições próprias e criativas releituras de “Lôro” (Egberto Gismonti) e “Último Pau de Arara” (Corumba e Venâncio). Esse duo potiguar merece ser mais conhecido.

Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle - “Edu, Dori & Marcos” (Biscoito Fino) – O encontro desses três grandes compositores e intérpretes da MPB, de fato, ficou restrito à sessão de fotos para a capa. Ainda assim, nas 12 faixas deste álbum, há belezas de sobra nas releituras que cada um deles faz de composições dos outros.

Edu Ribeiro, Toninho Ferragutti e Fábio Peron - “Folia de Reis” (Blaxtream) – A inusitada formação – bateria, acordeom e bandolim – explica a sonoridade diferente deste trio de craques liderado por Ribeiro. No repertório, composições próprias como o frevo “Procure Saber” (de Peron) e o maracatu “Mogiana” (Ferragutti). 




Elza Soares - “Deus É Mulher” (Deck) – Menos sombrio que o anterior “A Mulher do Fim do Mundo”, este álbum da cantora soa mais político e contundente. Entre ruídos e guitarras distorcidas, canções como “Exu nas Escolas” (de Edgar e Kiko Dinucci) e “Credo” (Douglas Germano) parecem ter sido compostas com os olhos num sinistro 2019.

Escalandrum - “Studio 2” (Warner) – Perto de completar 20 anos, o grupo de jazz argentino gravou seu 11º álbum no lendário estúdio Abbey Road, em Londres, só com repertório autoral. Do frenético tema “Acuático” (Nicolás Guerschberg) à melancolia de “Lolo” (Pipi Piazzolla), o brilhante sexteto tem vários motivos para comemorar. 

Eugénia Melo e Castro - “Mar Virtual” (Sesc) – Pioneira no diálogo entre a música popular brasileira e a canção portuguesa, a cantora e compositora lusitana realiza aqui um belo e ousado projeto. Inspirou-se na obra de seu pai, o poeta Ernesto Melo e Castro, que também dialoga com a poesia concretista brasileira. 

Fabiano Chagas - “Tributum” (independente) – No seu segundo álbum, o violonista e arranjador goiano homenageia em composições próprias músicos que admira, como o bandolinista Hamilton de Holanda e os jazzistas John Coltrane, Bill Frisell e Pat Metheny. Participações de Duduka da Fonseca (bateria) e Bororó (baixo). 

Fotografia Sonora - “Viva Airto!” (independente/Tratore) – O quinteto instrumental paulista tem como convidado especial, em seu quarto álbum, ninguém menos que Airto Moreira, grande mestre da percussão. De essência jazzística, as seis composições são assinadas por músicos do grupo, incluindo a homenagem “Viva Airto!”.  


Gaia Wilmer - Migrations (RPR/Biscoito Fino) – A saxofonista catarinense, hoje radicada em Boston (EUA), estreia bem em disco. Suas composições reciclam influências de músicos do jazz, como a americana Maria Schneider e o argentino Guillermo Klein, assim como de Hermeto Pascoal, cujo tema “Acuri” integra o repertório. 

Gilberto Gil - “OK OK OK” (Biscoito Fino) – É estimulante se ver um artista que já não precisa provar mais nada, aos 76 anos, lançar um disco só de composições inéditas. Entre canções leves que dedica a amigos, familiares e musas ocasionais, destaca-se sua sinceridade ao abordar temas difíceis, como o envelhecimento. 
 

Gilson Peranzzetta - “Tributo a Oscar Peterson” (Fina Flor) – Gravada ao vivo, em 2000, só saiu em 2018 esta bela homenagem do pianista carioca ao canadense Peterson (1925-2007), que despertou seu interesse pelo jazz. Com Paulo Russo (contrabaixo) e João Cortez (bateria), Peranzzetta toca standars de Cole Porter e Henry Mancini. 

Guilherme Dias Gomes - “Trips” (independente) – Jazz acústico de excelente qualidade, nesta sessão de gravação comandada pelo trompetista, compositor e arranjador carioca. Idriss Boudrioua (sax tenor), David Feldman (piano), André Vanconcelos (contrabaixo) Rafael Barata (bateria) e Firmino (percussão) formam o sexteto. 




Hamilton de Holanda - “Toca Jacob do Bandolim” (Deck) – Só mesmo um músico criativo como este bandolinista e compositor poderia encarar um projeto tão audacioso. Hamilton recria em quatro álbuns – cada um com uma abordagem musical diferente – a obra monumental de Jacob do Bandolim (1918-1969), mestre do choro.

Hamleto Stamato - “Ponte Aérea” (Fina Flor) – O pianista paulista continua a cultivar com personalidade o estilo ao qual já dedicou vários álbuns: o samba-jazz. Desta vez revisita clássicos de Tom Jobim (“O Morro Não Tem Vez”), Baden Powell (“Berimbau”) e Moacir Santos (“April Child”), além de tocar composições próprias.

Hércules Gomes - “No Tempo da Chiquinha Gonzaga” (independente) – Sem recorrer a releituras, o talentoso pianista capixaba interpreta clássicos da obra de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) de maneira respeitosa, mas mais palatável aos ouvidos de hoje. Participações da cantora Vanessa Moreno e do flautista Rodrigo Y Castro.

Isca de Polícia - “Irreversível” (Elo Music) – A banda paulistana, que acompanhava Itamar Assumpção (1949-2003) nos anos 1980, lança seu segundo álbum. No repertório, uma nova safra de canções inspiradas pela estética musical de seu inspirador – a maior parte delas é assinada pelo baixista e produtor Paulo Lepetit.

Itiberê Zwarg & Grupo - “Intuitivo” (Sesc) – Depois de tocar com Hermeto Pascoal durante quatro décadas, esse baixista e compositor já se tornou um expoente da chamada “música universal”. Provas disso são composições de sua autoria incluídas neste álbum, como “Partiu”, “Explodindo Pipoca” e “No Galinheiro do Garga”.

Ivans Lins e Gilson Peranzzetta - “Cumplicidade” (Fina Flor) – O título é bem adequado. Ivan (voz e teclado) e Gilson (piano e arranjos) celebram sem pompas essa parceria de mais de quatro décadas. No repertório, “Setembro”, belo tema da dupla, e sucessos como “Abre Alas” e “Começar de Novo” (de Ivan e Vitor Martins).

Jane Duboc - “Duetos” (independente) – Uma das cantoras mais completas do país, a paraense sempre demonstrou interesse por diversas vertentes musicais – da MPB ao jazz. Neste projeto de viés mais romântico, ela canta em duos com Bianca Gismonti, Mafalda Minnozzi, Celso Fonseca e Fábio Jr., entre vários convidados.

John Coltrane - “Both Directions at Once” (Impulse/Verve) – Uma das surpresas de 2018 foi o lançamento de gravações inéditas do mais cultuado saxofonista do jazz. Ouvidos 55 anos depois, esses registros do quarteto de Coltrane, com McCoy Tyner (piano), Elvin Jones (bateria) e Jimmy Garrison (contrabaixo), ainda soam sublimes.

John Mueller – “Na Linha Torta” (independente) – O cantor, violonista e compositor catarinense aposta em repertório totalmente autoral (com diversos parceiros), em seu segundo álbum. Conta também com participações especiais de Guinga (voz e violão, na faixa-título) e da cantora Ana Paula da Silva, em “Maré Rasa”.  




José James - “Lean on Me” (Blue Note) – Versátil cantor americano, James costuma alternar projetos calcados em diversos gêneros de música negra. Desta vez homenageia Bill Withers, expoente da soul music, que festejou 80 anos em 2018. No repertório, grandes canções, como “Ain’t No Sunshine”, “Just the Two of Us” e “Use Me”.

Joyce Moreno - “50” (Biscoito Fino) – Para comemorar 50 anos de carreira, a cantora e compositora revisita o repertório de “Joyce” (1968), seu disco de estreia. Além das 11 canções assinadas por Paulinho da Viola, Ruy Guerra e Marcos Valle, entre outros, ela inclui a bela “Com o Tempo”, parceria recente com Zélia Duncan. 


Kamasi Washington - “Heaven & Earth” (Young Turks) – Três anos depois de seu cultuado álbum triplo “Epic”, o saxofonista e compositor de jazz se lança em outro ambicioso álbum conceitual de longa duração, que inclui um coro e uma orquestra. Entre as místicas de John Coltrane e Sun Ra, Washington vai erguendo a sua.

Kastrup - “Ponto de Mutação” (independente) – “No Brasil de hoje, precisamos de uma utopia para encarar os próximos anos”, sugere o percussionista, compositor e produtor Guilherme Kastrup. De essência filosófica e experimental, seu álbum reúne um elenco de 25 instrumentistas e vocalistas, como Ná Ozzetti e Arícia Mess.

Leila Maria - “Tempo” (Biscoito Fino) – Quem já ouviu seu disco dedicado ao repertório de Billie Holiday, sabe que ela é uma grande cantora. Mesmo neste álbum, um projeto mais autoral, com canções em português e em parceria com o pianista e produtor Rodrigo Braga, Leila também se vale de seus recursos jazzísticos.

Leny Andrade e Gilson Peranzzetta - “Canções de Cartola e Nelson Cavaquinho” (Fina Flor) – A cantora carioca já havia dedicado álbuns inteiros às obras de Cartola e Nelson Cavaquinho, com arranjos de Peranzzetta. Décadas depois, eles voltam a interpretar sucessos desses preciosos cancioneiros, em emotivos duos de voz e piano.  




Luciana Souza - “The Book of Longing” (Sunnyside) – A refinada cantora e compositora paulistana, que vive nos EUA desde os anos 1990, interpreta poemas de Leonard Cohen e Emily Dickinson, entre outros, que ela mesmo musicou. Tem a seu lado dois craques do jazz: Chico Pinheiro (guitarra) e Scott Colley (contrabaixo).

Luísa Mitre - “Oferenda” (Savassi Festival) – O primeiro álbum da jovem pianista mineira inaugura o selo do Savassi Festival, um dos maiores eventos de música instrumental do país. Influenciada por mestres brasileiros do piano, como Egberto Gismonti e César Camargo Mariano, Luísa também releva referências eruditas em suas composições.

Martin Iaies 4 – “Rewind & FF” (Club del Disco) – Filho do pianista de jazz Adrián Iaies, o guitarrista argentino faz uma promissora estreia em disco. Composições de sua autoria, como “JSV Blues” ou as sensíveis baladas “Sábado” e “Mauri’s Rules” demonstram seu domínio da linguagem do jazz clássico.

Matthew Shipp - “Ao Vivo - Jazz na Fábrica” (Sesc) – Neste concerto solo (registrado em 2016, no festival Jazz na Fábrica, em São Paulo), o inventivo pianista americano toca composições próprias e recria standards. Para fãs do jazz de vanguarda, ouvi-lo descontruir clássicos como “Summertime” (Gershwin) tem um sabor especial.

Mauricio Pereira - “Outono no Sudeste” (independente) – Da bela canção que intitula o álbum à suingada “Quatro Dois Quatro” (sobre o universo do futebol), o compositor e cantor paulistano exibe toda sua versatilidade. “A Mais (Rubião Blues)”, canção que mimetiza os altos e baixos de uma paixão, é um achado.

Música de Montagem (Circus) – O violonista e professor Sergio Molina é também compositor (em parcerias com vários letristas) das nove canções gravadas por esse septeto paulistano. Elas ilustram o procedimento de “montagem” que, segundo tese de Molina, tem sido utilizado na criação da música popular desde 1967.


Nelson Ayres Big Band (independente) – Quase quatro décadas após o impacto de sua pioneira big band na então emergente cena instrumental brasileira, o pianista e compositor paulista voltou a ativá-la e, enfim, lança seu disco de estreia. Não pense que se trata de música orquestral para dançar: é jazz da mais alta qualidade.

Nelson da Rabeca e Thomas Rohrer - “Tradição Improvisada” (Sesc) – Instrumento medieval, precursor do violino, a rabeca pode ser ouvida em várias regiões brasileiras. Seu som áspero aproxima, neste álbum, representantes de tradições bem diversas: o rabequeiro alagoano e o multi-instrumentista suíço, adepto da improvisação livre.

Orquestra à Base de Sopro de Curitiba e Izabel Padovani - “Passarinhadeira” (Tratore) – É difícil acreditar que este disco dedicado às incríveis canções de Guinga possa ter sido gravado ao vivo. Da formação incomum da orquestra, dos sofisticados arranjos e das sensíveis interpretações da cantora nasceu uma coleção de belezas.

Orquestra Mundana Refugi (Sesc) – Liderada pelo violonista e arranjador Carlinhos Antunes, essa orquestra de instrumentação inusitada (formada por músicos refugiados e imigrantes de diversos países, além de alguns brasileiros) mistura no repertório músicas de diferentes tradições – do Haiti e da Andaluzia ao Irã e à Palestina.

Paula Santoro e Duo Taufik - “Tudo Será Como Antes” (independente) – A talentosa cantora mineira se une aos irmãos Eduardo (piano) e Roberto (violão), do Duo Taufic, para recriar sucessos de Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta e outros compositores do chamado Clube da Esquina. A leveza dos arranjos chama atenção.   




Paulo Bellinati & Marco Pereira - “Xodós” (Borandá) – Uma amizade de cinco décadas ajuda a explicar a relação quase telepática que caracteriza o encontro desses grandes violonistas.  O repertório do álbum destaca sucessos do sanfoneiro Dominguinhos e de Dilermando Reis, mestre do violão, além de 
composições próprias. 

Poesia - Canções de Carlos Rennó (Sesc) – Letrista conceituado, com mais de 130 canções gravadas por populares intérpretes, Rennó reúne nesse disco 16 de suas canções, incluindo nove inéditas. Para compor esse painel de sua obra, conta com parceiros como Lenine, João Bosco, Chico César, Zeca Baleiro e Arrigo Barnabé.

Raul de Souza - “Blue Voyage” (Sesc) – Trombonista reconhecido mundialmente e mestre do samba-jazz, o carioca de 84 anos oferece a seus fãs um álbum autoral gravado na França. Do contagiante samba “Vila Mariana” à emotiva balada “Primavera em Paris”, passando pela valsa-jazz “St. Martin”, Raul continua em grande forma.

Renato Gama - “Olhos Negros - Vivo” (independente) – Líder da banda paulistana Nhocuné Soul por mais de duas décadas, o cantor e compositor gravou seu primeiro álbum solo. Fusões do samba com o soul, o funk e o reggae dominam suas canções, que abordam com poesia o cotidiano da periferia. Difícil ouvi-las sem dançar.

Rogerio Boccato Quarteto - “No Old Rain” (RPR) – Radicado em Nova York, o baterista paulista estreia como líder, bem acompanhado por Dan Blake (sax tenor e soprano), Nando Michelin (piano elétrico) e Jay Anderson (contrabaixo). Temas de Milton Nascimento, Egberto Gismonti e Toninho Horta ganham novas cores, em criativas versões.

Ron Carter Quartet & Vitoria Maldonado - “Brasil L.I.K.E” (Summit/Tratore) – O cultuado contrabaixista americano e a cantora paulistana gravaram juntos este disco de jazz e bossa nova. Clássicos de Cole Porter, George Gershwin, Tom Jobim e João Donato destacam-se no repertório. Roberto Menescal é um dos convidados.

Rubinho Antunes - “Expedições” (Blaxtream) – O afiado quinteto do trompetista paulista inclui Vinicius Gomes (guitarra), Fabio Leandro (piano), Daniel de Paula (bateria) e Bruno Barbosa (contrabaixo). Composições próprias, como “Silence” e “Indi”, revelam influências do jazz da Europa, onde Rubinho viveu por três anos. 




Sergio Albach - “Clarone no Choro” (independente) – Líder da original Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, esse virtuose do clarinete realizou um projeto inusitado: gravou clássicos do choro, executando os solos com um clarone (ou clarinete baixo), instrumento raramente utilizado na música popular brasileira.

Sergio Galvão, Lupa Santiago, Clement Landais e Franck Enouf - “2x2” (Origin) – O “2x2” do título não tem nada a ver com competição, mas sim com o fato de esse quarteto incluir dois músicos brasileiros e dois franceses. Gravado na França, combina jazz contemporâneo da melhor qualidade com influências da música brasileira.  


Stefano Bollani - “Que Bom” (Biscoito Fino) – Fã assumido da música brasileira, o pianista italiano se superou nesta gravação. Com participações especiais de Caetano Veloso, Hamilton de Holanda, Jacques Morelenbaum e João Bosco, ele toca sambas, choros e baiões de sua autoria com muita liberdade e bom humor.

Thiago Amud - “O cinema que o sol não apaga” (Rocinante) – O 3.º álbum do compositor, cantor e violonista carioca confirma seu prestígio como grande revelação da MPB nesta década. Inventivo tanto nas letras como nos arranjos, Amud dedica esse disco ao compositor mineiro Nelson Ângelo. As gravações contaram com 73 músicos.

Toninho Ferragutti e Salomão Soares (independente) – Representantes de duas gerações de nossa música instrumental, o acordeonista paulista e o pianista paraibano decidiram gravar este álbum depois de tocarem juntos somente duas vezes. O baião “Alegria de Matuto” (de Soares) é uma das faixas mais contagiantes do repertório.

Trio Corrente & Orquestra Jazz Sinfônica (independente) – É tanta a sintonia entre os músicos desse grupo instrumental, que ele pode até atuar como solista num concerto com orquestra. Mesmo uma canção já interpretada de tantas maneiras, como “Garota de Ipanema”, ganhou frescor na versão desse trio com a Jazz Sinfônica.

Trio Puelli - “Radamés Gnattali - Integral das obras para piano, violino e violoncelo” (Sesc) – A pianista Karin Fernandes, a violinista Ana de Oliveira e a violoncelista Adriana Holtz interpretam cinco peças (duas são inéditas) do grande compositor gaúcho, que ignorou as supostas fronteiras entre a música popular e a erudita.

Van Morrison and Joey DeFrancesco - “You’re Driving Me Crazy” (Exile/Sony) – O que mais chama atenção neste encontro do cantor pop irlandês com o organista americano é o suingue de DeFrancesco, que também toca trompete, em algumas faixas. No repertório, standards como “You’re Driving Me Crazy” e “Have I Told You Lately”.

Vintena Brasileira - “[R]existir” (independente) – Comandada pelo criativo pianista e compositor paulista André Marques, essa pequena orquestra de formação incomum também inclui viola caipira, bandolim e guitarras, além de sopros, baixo e bateria. Exemplo inspirador de como a música universal de Hermeto Pascoal frutificou.

Yamandu Costa e Ricardo Herz (independente) – Baião, xote, milonga, choro, chamamé – a diversidade rítmica brasileira está bem representada neste álbum, que une pela primeira vez o violonista gaúcho e o violinista paulista. O resultado é tão atraente que, na certa, esses grandes instrumentistas podem se reunir outras vezes.

Yaniel Matos - “Carabalí” (independente) – Radicado em São Paulo há quase duas décadas, o eclético pianista e violoncelista cubano comanda seu trio Carabalí, com Aniel Someillan (contrabaixo) e Eduardo Espasande (percussão). No repertório, composições de sua autoria calcadas em ritmos de Santiago de Cuba, onde nasceu.

(Agradeço a Katia Medaglia pela sugestão da foto e pelo auxílio na produção)

 

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