Sesc Jazz: novo festival mantém a diversidade e a alta qualidade do Jazz na Fábrica

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                                                              O pianista cubano Omar Sosa, atração do festival Sesc Jazz 

Dois dos melhores festivais brasileiros dedicados ao jazz e à música instrumental se uniram. O Sesc Jazz estreia em agosto, somando a experiência de sete edições do festival paulistano Jazz na Fábrica com os seis anos do Sesc Jazz & Blues, realizado em várias cidades do interior paulista. Quem já se acostumou a frequentar esses eventos anuais pode ficar tranquilo, pois a linha da curadoria é a mesma: diversidade e alta qualidade musical, em uma programação com 22 atrações internacionais e nacionais.

Os shows do Sesc Jazz serão realizados durante três semanas (de 14/8 a 2/9), em oito unidades do Sesc paulista: Pompeia (na capital, que vai receber o maior número de atrações), além das unidades interioranas de Araraquara, Birigui, Campinas, Jundiaí, Piracicaba, Ribeirão Preto e Sorocaba. A programação completa estará disponível a partir desta quinta (19/7), no portal do Sesc SP (www.sescsp.org.br/sescjazz). A venda de ingressos começa no dia 26/7.

Quem abre essa maratona musical, no Sesc Pompeia (dias 14 e 15/8), é o veterano guitarrista norte-americano James “Blood” Ulmer e sua eletrizante fusão de jazz de vanguarda, funk e blues. Além de trazer a Memphis Blood Blues Band, Ulmer também terá a companhia de outro gigante da guitarra: Vernon Reid (líder da banda de funk-metal Living Colour), em participação especial.

Vários estilos de jazz estão representados no cardápio desse festival: o hard bop do trompetista norte-americano Charles Tolliver; o jazz mainstream da pianista canadense Renee Rosnes; as fusões eletrificadas do tecladista nova-iorquino Jason Lindner; o free jazz do saxofonista norte-americano Archie Shepp (na foto baixo), que fará um tributo a seu mentor John Coltrane (1926-1967). E para quem gosta de jazz experimental, há ainda dois craques dessa vertente: o pianista Vijay Iyer (norte-americano de ascendência indiana) e o guitarrista inglês Fred 
Frith.

Outras atrações comprovam que, ao ser cultivado nos mais diversos cantos do mundo, o jazz se se tornou uma linguagem universal. Isso é evidente na música do pianista Isfar Sarabski (da pequena República do Azerbaijão, entre a Ásia e a Europa), que funde a música folclórica de seu país com elementos do jazz moderno. Já o pianista italiano Stefano Bollani, além de ser um dos mais criativos jazzistas de seu país, cultiva uma íntima relação com a música popular brasileira, exibida em vários de seus discos. 

Diversos gêneros musicais convivem no repertório da cantora espanhola Buika, cujas referências vão do flamenco ao jazz, passando pelo blues, pelo soul e pelo bolero. Multifacetada também é a música do pianista cubano Omar Sosa, que combina a linguagem do jazz com os ritmos afro-cubanos, em meio a influencias da música clássica ou mesmo da música pop.

O Brasil também está muito bem representado nesse festival. A começar pelo brilhante quarteto formado por Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Nailor Proveta (saxofone e clarinete) e André Mehmari (piano), que recria populares canções do mestre baiano Dorival Caymmi.

Outro destaque é o sexteto do pianista e compositor Dom Salvador, paulista radicado há mais de 40 anos em Nova York. Expoente do samba-jazz, ele volta ao país para comemorar seus 80 anos. O elenco nacional inclui ainda o septeto do baixista Itiberê Zwarg (que vai lançar um novo disco pelo Selo Sesc), o pianista paraibano Salomão Soares e o guitarrista paulistano Lourenço Rebetez.


Orquestra Mundana Refugi: imigrantes e refugiados se unem a músicos brasileiros

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                                                                                                  Músicos da Orquestra Mundana Refugi

Não poderia ser mais oportuno o lançamento do primeiro disco da Orquestra Mundana Refugi. Ver músicos refugiados e imigrantes de diversos países se unirem a brasileiros em uma orquestra é um alento, num momento em que mães imigrantes são separadas de suas crianças, nos Estados Unidos. Ou que imigrantes continuam a morrer afogados, no Mar Mediterrâneo, ao buscarem refúgio na Europa.

Por essas e outras razões foi emocionante o concerto da Orquestra Mundana Refugi, ontem, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Além de apresentar o original repertório do CD (lançamento do Selo Sesc), a orquestra surpreendeu a plateia com uma criativa versão de “As Caravanas” -- a perturbadora canção de Chico Buarque, que descreve o medo e o preconceito social da classe média frente aos moradores da periferia do Rio de Janeiro, quando eles se atrevem a frequentar as praias da zona sul.

O encanto dessa orquestra cosmopolita não está apenas no fato de incluir em seu repertório músicas tradicionais de diversos países, mas especialmente no diálogo musical que o diretor e multi-instrumentista Carlinhos Antunes promove em suas composições e arranjos. Como em “Trilogia”, que mistura melodias tradicionais da Palestina, do Irã e da Andaluzia com “Cajuína” (a bela canção de Caetano Veloso). Ou em “Barqueiros do Rio” (parceria de Antunes com Mauro Iasi) que inclui temas originários do Haiti e da Bahia.

Como não pensar em uma estimulante utopia, ao ouvir instrumentos musicais que não existem na tradição brasileira (como o bouzouki do palestino Yousef Saif ou kemanche do iraniano Arash Azadeh) serem misturados aos saxofones do cubano Luis Cabrera e aos vocais da moçambicana Lenna Bahule e do congolês Hidras Tuale?

Ao demonstrar que músicos de culturas bem diversas podem conviver de maneira tão harmônica, Carlinhos Antunes e seus 22 parceiros dão um exemplo de humanidade, um pouco de esperança para quem não se conforma com um mundo marcado por tantos preconceitos e desigualdades. A música da Orquestra Mundana Refugi emociona e faz refletir. 






Joyce Moreno: compositora e cantora recria sua estreia fonográfica no álbum "50"

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Joyce Moreno pôs em prática uma ideia inusitada. Para comemorar seus 50 anos de carreira, a cantora e violonista decidiu recriar todo o repertório de “Joyce”, seu disco de estreia, gravado no lendário ano de 1968. O resultado desse projeto está no álbum “50” -- lançado em São Paulo, no último final de semana, com shows no Sesc Belenzinho.

O primeiro disco de Joyce já trazia composições próprias, como o irreverente samba “Não Muda Não” e a polêmica canção “Me Disseram” (cuja letra causou celeuma, na época, por utilizar o termo “meu homem”). O repertório incluía também composições de Paulinho da Viola (“Ansiedade”), Marcos Valle e Ruy Guerra (“Bloco do Eu Sozinho”), entre outros jovens colegas de geração da cantora.

Agora Joyce acrescenta àquelas 11 canções a bela “Com o Tempo” (recente parceria com Zélia Duncan), que surge logo ao início do show como um poético flashback. “Com o tempo /Fui ficando mais moça /Mais olhos, menos onça /Mais tempo, menos hora /Fui ficando mais agora /Menos por aí o desejo”, refletem os versos de Zélia.

Formada numa época em que canções também eram usadas para se questionar injustiças e desigualdades, Joyce tem incluído no roteiro de seus shows o samba-afro “Canto de Iansã" (de Ildásio Tavares e Baden Powell). Com ele faz um oportuno desagravo à cultura e às religiões afro-brasileiras, que têm sofrido ataques do atual dublê de pastor e prefeito do Rio e de seus seguidores.

Joyce também não perde a chance de relembrar que sua canção “Superego” foi alvo de preconceito, em 1968. Um crítico-dinossauro chegou a escrever que se tratava de uma “grande música”, mas achava difícil acreditar que ela tivesse sido composta por uma mulher.

Ver e ouvir Joyce, no palco, é uma experiência inspiradora. Além do evidente prazer que exibe ao cantar e tocar seu violão, ela faz questão de apresentar e contextualizar quase todas as canções do show, estabelecendo assim um contato mais direto e enriquecedor com a plateia.

Depois de se ouvir o delicioso samba-jazz “Mingus, Miles & Coltrane”, outra composição da cantora que também faz parte do show, é fácil entender os frequentes sorrisos de Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (baixo) e Tiago Costa (piano), craques que costumam acompanha-la nos palcos e gravações. Que instrumentista não adoraria tocar com uma “cantautora” tão musical, sensível, bem-humorada e ainda fã do jazz como Joyce?




Dom Salvador: pianista radicado em Nova York vai festejar seus 80 anos em São Paulo

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Quando desembarcou nos Estados Unidos, em 1973, o pianista Dom Salvador tinha planejado passar um mês de férias, na casa de uma sobrinha, em Nova York. Reconhecido nos meios musicais da época como um dos expoentes do samba-jazz e experiente músico de estúdio, ele teve enfim a oportunidade de frequentar pela primeira vez os clubes de jazz daquela metrópole. Queria se aprofundar mais no gênero musical que tanto admirava.

Salvador nem imaginava que se tornaria morador de Nova York, onde passou a maior parte de sua vida. Uma parceria com o saxofonista Charlie Rouse (ex-parceiro do genial pianista Thelonious Monk) marcou o início da série de gravações e apresentações que o brasileiro veio a fazer com outros craques do jazz, como Ron Carter, Eddie Gómez e Herbie Mann. Já o convite para assumir a função de diretor musical do cantor e ator Harry Belafonte, em 1977, rendeu a Salvador o visto de permanência nos Estados Unidos.

Assim, passou 30 anos sem se apresentar em palcos brasileiros. Em 2003, quando o Chivas Jazz Festival decidiu homenageá-lo, entusiasmadas plateias de São Paulo e Rio deixaram claro que não queriam mais passar tanto tempo sem ouvir o original samba-jazz e a música instrumental brasileira de Salvador.

“Foram duas noites inesquecíveis. Como eu estava distante do país há muito tempo, já nem esperava encontrar tanta gente interessada em minha música”, relembra o pianista, que desde então voltou a tocar e a gravar no Brasil com alguma frequência. Mais sorte têm os nova-iorquinos, que podem ouvi-lo cinco vezes por semana, há mais de 40 anos, no River Café – sofisticado restaurante às margens do East River.

Às vésperas de completar 80 anos, ele vai festejar essa data especial (12/9) no Brasil. Durante o mês de agosto fará apresentações no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo, e em algumas unidades do Sesc, no interior paulista – datas e locais serão anunciados nas próximas semanas. Ao lado de Salvador estarão Daniel D’Alcântara (trompete), Jorginho Neto (trombone), Rodrigo Ursaia (sax e flauta), Sérgio Barrozo (contrabaixo) e Mauricio Zottarelli (bateria).

Ele abre um sorriso ao falar sobre o recente lançamento do álbum “Duduka da Fonseca Trio Plays Dom Salvador” (selo Sunnyside), com 11 de suas composições no repertório. Baterista e seu antigo parceiro que também vive em Nova York, Fonseca revisita nesse disco clássicos da obra de Salvador, como a balada “Mariá” ou os sambas “Tematrio” e “Meu Fraco é Café Forte”, ao lado do pianista David Feldman e do contrabaixista Guto Wirtti.

“Eu me sinto orgulhoso por Duduka ter realizado esse projeto. Ele conhece todas as nuances de minhas músicas e, de certo modo, me tirou do ostracismo em matéria de composição”, comenta Salvador, que calcula ter mais de 300 composições próprias na gaveta. “Sempre compus bastante, mas nunca insisti nisso”, admite, com humildade.

Salvador também elogia o talento do pianista David Feldman, com o qual já gravou um álbum, ainda inédito, com duos de pianos. “David é um músico excelente. Ele foi muito cuidadoso durante essas gravações com o trio do Duduka. Ligava para mim quando tinha dúvidas nas partituras, até enriqueceu algumas de minhas composições. Fiquei muito feliz ao ouvir esse disco”.

Outra gravação que estará disponível em breve, liderada pelo próprio Salvador, registra a apresentação que ele fez em novembro de 2015, no Zankel Hall, salão de recitais do Carnegie Hall, em Nova York. Trata-se de um concerto comemorativo dos 50 anos do Rio 65 Trio, cultuado grupo liderado por Salvador, que deixou apenas dois álbuns gravados.

Na resenha desse concerto, publicada pelo “The New York Times”, o crítico Ben Ratliff apontou a “boa forma” de Salvador, além de sintetizar com precisão seu original estilo ao piano: “samba na mão esquerda e fraseado de jazz na mão direita”. Ao lado do pianista estavam o contrabaixista Sergio Barrozo, integrante da formação original do Rio 65 Trio, e Duduka da Fonseca, que assumiu o lugar de Édison Machado (1934-1990), sua grande fonte de inspiração à bateria.

Apesar da costumeira modéstia, Salvador tem consciência de que seu estilo ao piano é praticamente uma assinatura. Lembra-se da reação do antigo parceiro Sergio Barrozo, quando gravaram o álbum “Dom Salvador Trio” (Biscoito Fino, 2007), seu primeiro disco produzido e lançado no Brasil depois de 35 anos. “Logo no primeiro ensaio, o Sergio me disse que já tinha se esquecido de que ninguém toca samba como eu toco”, conta, rindo.

Nada mais natural para um paulista nascido na interiorana cidade de Rio Claro, que se tornou conhecido nas mais badaladas boates paulistanas, ainda no início dos anos 1960. Já vivendo no Rio, em 1964, não demorou a chamar atenção nas “jam sessions” e nos shows do Beco das Garrafas, reduto da bossa nova, onde tocou ao lado de Jorge Ben e Elis Regina, entre outros.

Os fãs mais jovens de Salvador também valorizam o pioneirismo de seu grupo Abolição, marco na história da black music produzida no Brasil. Por sugestão do produtor Hélcio Milito (baterista do lendário Tamba Trio), ele criou em 1970 um grupo formado exclusivamente por músicos negros, para participar do Festival Internacional da Canção. As roupas africanas e os pés descalços dos integrantes do grupo causaram impacto, numa época em que o movimento “black power” chamava atenção, nos Estados Unidos.

“Em entrevistas, chegavam a nos perguntar se o nosso grupo tinha alguma tendência racista. Hoje eu tenho uma certa vergonha por ter chamado o grupo de Abolição, mas naquela época esse termo parecia fazer sentido”, comenta Salvador, reconhecendo uma certa ingenuidade na maneira como a questão racial ainda era abordada no país, na década de 1970.

Já em relação ao aspecto mais musical do Abolição, vale notar que Salvador aderiu às influências da black music que estavam em voga na época, mas não abriu mão de suas raízes. No repertório do único álbum do grupo, “Som, Sangue e Raça” (CBS, 1971), ao lado do emergente samba-soul (que mais tarde veio a inspirar a criação da Banda Black Rio) também havia pitadas de baião e choro.

Embora ressalte que, mesmo na fase do Abolição, jamais se envolveu diretamente com política ou alguma forma de ativismo, Salvador se mostra preocupado ao ver no noticiário manifestações pela volta do regime militar no Brasil. “Essas pessoas que estão pedindo a volta dos militares ao poder não sabem o que realmente se passou no país durante aquela época. Ver que isso está acontecendo hoje no Brasil provoca até arrepios”, comenta.


(Texto para o caderno de cultura do jornal "Valor", publicado em 6/7/2018)







John Coltrane: álbum inédito do saxofonista ainda soa perturbador 55 anos depois

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                                                    O saxofonista e compositor John Coltrane / Foto de Bob Thiele

Para quem não está familiarizado com a obra de John Coltrane (1926-1967), a revelação de 14 gravações inéditas desse saxofonista e compositor, reunidas no álbum “Both Directions at Once: The Lost Album” (lançamento Impulse!, no mercado internacional), poderia ser comparada à descoberta de uma coleção de pinturas de Pablo Picasso. Em outras palavras, um pequeno tesouro para os apreciadores do jazz. 

Trata-se de material inédito do músico de jazz mais cultuado e imitado nas últimas cinco décadas, à frente de um dos quartetos mais perfeitos e inovadores na história desse gênero musical. Ao lado do sax tenor e do sax soprano de Coltrane, também brilham o piano inventivo de McCoy Tyner, a explosiva bateria de Elvin Jones e o contrabaixo propulsor de Jimmy Garrison.

Mesmo que essas gravações soem aquém de consagradas obras-primas de Coltrane, como as que integram seus álbuns “A Love Supreme” (1965), “Giant Steps” (1960) ou “My Favorite Things” (1961), isso não impede que o impacto seja grande, ainda mais no caso de ouvintes que desconhecem sua música.

Entre as duas versões lançadas do álbum (uma básica, com sete faixas, e outra ampliada com sete “takes” alternativos) a segunda oferece aos estudiosos, ou mesmo aos fãs mais curiosos, a possibilidade de se acompanhar “por dentro” um pouco do processo de criação de Coltrane e seus parceiros musicais.

Cada uma das quatro novas versões de “Impressions” (composição própria que Coltrane gravou em diversas formações, tanto em estúdio como ao vivo, durante a década de 1960) tem uma personalidade diferente, seja no andamento adotado pelos músicos, seja na maneira de improvisar.

Não à toa, o take 4 de “Impressions” transmite uma sensação de urgência, uma busca de maior liberdade rítmica e harmônica, que identifica essa fase musical do quarteto de Coltrane. Dois anos mais tarde, ao gravar o vanguardista “Ascension”, o saxofonista ingressou de forma definitiva no universo arrítmico e atonal do chamado free jazz.

O título “Both Directions at Once” (ambas as direções de uma vez) remete ao dilema musical que Coltrane enfrentava na época: entre o jazz mais convencional que praticara no passado e a atração vertiginosa pelo jazz de vanguarda, que parecia contagiá-lo mais e mais.

Curiosamente, quando as 14 faixas desse álbum foram gravadas, em 6 de março de 1963, Coltrane ainda tentava responder de alguma maneira à expectativa de Bob Thiele, produtor do selo Impulse!, no sentido de repetirem o sucesso de seu álbum “My Favorite Things” (1961). Logo no dia seguinte, ele e o quarteto entrariam no mesmo estúdio para gravar um álbum ao lado do sofisticado cantor Johnny Hartman, com um repertório de românticos clássicos da canção norte-americana, bem adequado para atingir um público mais amplo.

É possível, portanto, que as duas versões instrumentais de “Vilia” (singela canção do húngaro Franz Lehár, extraída da opereta “The Merry Widow”), reveladas agora, tenham servido de aquecimento para as gravações com Hartman. No segundo take, o lirismo da melodia ganha mais realce graças à sonoridade branda do sax soprano.

Para os ouvidos de quem já se acostumou à redundância e à falta de substância que marcam grande parte da produção musical de hoje, faixas como a encantatória “Untitled Original 11383” (composição própria que não chegou a ser batizada pelo saxofonista) ou a angustiada versão instrumental de “Nature Boy” (popular canção de Eden Ahbez) podem ser um tanto difíceis de encarar. 
Meio século após a precoce morte de Coltrane, a música desse messiânico jazzista soa ainda mais perturbadora.

(Resenha publicada no caderno "Ilustrada" da "Folha de S. Paulo", edição de 2/07/2018)




Temporada de jazz: festivais ampliam experiência das plateias na era dos smartphones

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                                            O guitarrista Lucky Peterson, no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival 

A chegada do verão, no hemisfério norte, não traz apenas sol, calor e dias mais longos. Para muitos apreciadores de música, é neste período do ano que começa a temporada dos grandes festivais de jazz. Embora mais concentrados na América do Norte e na Europa, hoje esses eventos são realizados nos mais diversos cantos do planeta.

Como tem feito nas últimas décadas, a “Down Beat” (publicação especializada em jazz, blues e gêneros musicais afins) destacou em sua edição de maio um roteiro intitulado “204 grandes festivais de verão”. O fato de o número de eventos incluídos nesse levantamento crescer a cada ano é sintomático.

Megafestivais de jazz, como os de Copenhagen (Dinamarca), Vienne (França), Montreal (Canadá) ou Nova Orleans (EUA), realizados ao ar livre, costumam atrair centenas de milhares de frequentadores. A estratégia desses eventos, que chegam a durar até duas semanas, é oferecer centenas de shows simultâneos em diversos palcos.

Para atrair tamanhas multidões, o cardápio desses festivais tornou-se diversificado, incluindo soul, R&B, funk, hip-hop, reggae, rock, pop, música africana ou caribenha, entre outras vertentes musicais. Há quem critique essa aparente diluição do foco musical, mas é fato que, ao longo de mais de um século de evolução, o jazz tem absorvido influências de todos esses gêneros. Essa hibridez faz parte de sua essência.

Na década de 1990, festivais mais puristas, como o italiano Umbria Jazz, ainda resistiam a se abrir. O diretor artístico Carlo Pagnota orgulhava-se de programar somente jazz, com raras exceções feitas a um ou outro artista do universo pop, como Sting ou Caetano Veloso. Isso foi mudando e, na edição deste ano, o jazz de Joshua Redman e Brad Mehldau vai disputar as atenções dos frequentadores com o pop de David Byrne e a música eletrônica da banda Massive Attack.

Sting e Byrne também participaram há pouco do Jazz & Heritage Festival, em Nova Orleans. Realizado há 49 anos, esse tradicional megaevento, que prioriza vertentes da música afro-americana em seus 12 palcos, foi bastante criticado quando começou a incluir medalhões do rock e do pop, mesmo reservando palcos exclusivos ao jazz moderno, ao jazz tradicional e ao blues.

Engana-se quem pensa que os festivais de jazz derivam de lendários eventos de rock, como o Monterey Pop (1967) ou Woodstock (1969). Criado em 1954 pelo pianista e produtor George Wein, o pioneiro Newport Jazz Festival teve como sede a cidade de Rhode Island, balneário norte-americano onde é realizado até hoje.

No Brasil, apreciadores do jazz tiveram que esperar até 1978 para desfrutar seu primeiro festival. Uma parceria com o evento suíço Montreux Jazz permitiu a realização do Festival Internacional de Jazz de São Paulo, que ainda realizou uma segunda edição em 1980. A transmissão ao vivo desses shows para outras regiões do país, por meio da TV Cultura, contribuiu para a formação de novas plateias para o gênero.

Nas décadas de 1980 e 1990, vieram o Free Jazz Festival e o Heineken Concerts, concentrados, basicamente, no eixo Rio-São Paulo. Já neste século, dezenas de eventos de jazz e blues se estabeleceram em outras regiões do país, formando um circuito que abrange quase todo o ano. O mais antigo é o cearense Festival Jazz & Blues, realizado há 19 anos durante o carnaval, nas cidades de Guaramiranga e Fortaleza.

Alguns desses eventos, como os fluminenses Rio das Ostras Jazz & Blues (cuja 15ª edição termina neste domingo, 17/6) e o Bourbon Festival Paraty (que realizou a 10ª edição em maio), têm relação estreita com as prefeituras dessas cidades. São festivais idealizados como meios para incrementar o turismo nessas regiões, além de estimular a formação cultural dos moradores.

Já o Savassi Festival, que desde 2003 é realizado nas ruas e em teatros de Belo Horizonte (MG), tem um perfil diferente. Em vez de programar jazzistas de renome, o produtor Bruno Golgher optou por estabelecer uma relação direta com os músicos da cena instrumental mineira. Ele incentiva a composição de obras pelos músicos locais e também parcerias com estrangeiros.

Não foi à toa que o número de festivais de jazz cresceu muito desde o início deste século, tanto no exterior como no Brasil, e ainda pode aumentar mais. Esses eventos redefiniram a experiência que as plateias tinham nos clubes ou em teatros: a descontração dos concertos ao ar livre e a possibilidade de se assistir a diversas atrações musicais em um único dia pesam a favor dos festivais.

No caso do jazz, há um diferencial a mais: ver e ouvir um músico, cantor ou instrumentista, em carne e osso, usar o improviso como ferramenta de criação artística. Nesta época em que passamos tantas horas diárias olhando para telinhas de smartphones e tablets, essa é uma experiência especial que nos faz sentir mais vivos.

(Texto publicado no caderno Ilustríssima, da "Folha de S. Paulo", em 17/06/2018)


Mike Stern & Balaio: guitarrista mostrou em São Paulo que continua em grande forma

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                                                                    O baixista Rubem Farias e o guitarrista Mike Stern 

É provável que uma parte da plateia que foi ouvir o quarteto Balaio, ontem, no Sesc Belenzinho (em São Paulo), não saiba até agora que o guitarrista Mike Stern, convidado especial dessa banda paulista, superou há pouco um grave acidente. Tocando com o mesmo brilho que o inscreveu ainda nos anos 1980 entre os grandes guitarristas do jazz contemporâneo, Stern não deixou qualquer dúvida de que voltou à sua melhor forma.

Dois anos atrás, correndo atrás de um táxi numa rua de Nova York, onde vive, Stern tropeçou numa pilha de detritos de construção e fraturou os dois ombros. Sua recuperação é um exemplo admirável de resiliência: dois meses e meio depois, mesmo com uma sequela na mão direita, já tinha voltado a se apresentar no 55 Bar (no bairro de Greenwich Village).

A satisfação que Stern demonstrou ontem no palco foi contagiante. Ao final do show, sorrindo, fez questão de apresentar os afiados parceiros do Balaio, mesmo tropeçando nos nomes de alguns: Marco Bosco (percussão), Rubem Farias (baixo elétrico), Leonardo Susi (bateria), Adriano "Magoo" Oliveira (teclados) e, em participação especial, Paulo Calazans (piano elétrico).

“Vocês querem ouvir mais uma, não querem?”, disparou, antes mesmo que a plateia entusiasmada, de pé, parasse de gritar e aplaudir. Fechou a noite cantando e improvisando uma original versão do blues “Red House”, de Jimi Hendrix. É por momentos especiais como esse que nada substitui a experiência de se ouvir música ao vivo.

Rio das Ostras Jazz & Blues 2018: festival fluminense confirma sua 15.ª edição

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                                                        O guitarrista Stanley Jordan, que vai tocar com Armandinho

A recente paralisação dos caminhoneiros e a falta de combustíveis em todo o país também atingiram o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, que foi obrigado a adiar sua 15.ª edição, inicialmente agendada para a semana passada. A boa notícia é que esse evento fluminense, reconhecido como um dos maiores do gênero no país, já divulgou as novas datas: de 15 a 17/6 (sexta a domingo).

Segundo a produção do festival, mais de 70% das atrações previstas estão confirmadas. Como em anos anteriores, a programação musical vai ocupar três palcos (Costazul, Iriry e Praça São Pedro). Entre os destaques desta edição estão o encontro do guitarrista norte-americano Stanley Jordan com o guitarrista baiano Armandinho e os dois shows do cantor e guitarrista de blues Igor Prado e a banda Just Groove, com participação do vocalista norte-americano Leon Beal Jr.

Outras atrações de peso vão fazer a festa dos frequentadores desse festival, como o pianista pernambucano Amaro Freitas (revelação da música instrumental brasileira), o bluesman norte-americano Lorenzo Thompson, a parceria do saxofonista Leo Gandelman com o grupo Azymuth, a lendária Banda Black Rio, a cantora Rosa Maria Colin com o gaitista Jefferson Gonçalves, a banda gaúcha de jazz Delicatessen e o trombonista Marlon Sette, com sua banda de funk e soul.

Todos os shows desse evento são gratuitos. Mais informações no site do festival: www.riodasostrasjazzeblues.com









Mauricio Pereira: músico oferece poesia e graça no álbum "Outono no Sudeste"

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                                                                                   Mauricio Pereira e seus filhos Manu e Chico 

Ontem, durante o show de Mauricio Pereira, no Sesc Pompeia (em São Paulo), fiquei pensando que esse versátil cantor, compositor, letrista e saxofonista também seria capaz de protagonizar um show de comédia stand-up. Como os melhores artistas dessa modalidade de humor, Mauricio tem uma facilidade natural para extrair graça e poesia de situações corriqueiras, das pequenas coisas do cotidiano.   

Essa habilidade também transparece em várias canções de “Outono no Sudeste”, seu novo álbum -- produzido por Gustavo Ruiz e disponível em CD e nas plataformas digitais. A bela e melancólica canção que empresta título ao disco (parceria com Daniel Szafran) destaca nos versos um daqueles achados característicos da poética agridoce desse “cantautor” paulistano: “O ar tá particularmente imundo hoje / E isso deixa o pôr do sol ainda mais bonito”. 

Melancolia e lirismo também se misturam em “A Mais (Rubião Blues)”, canção feita em parceria com Dr. Morris, que mimetiza os altos e baixos de uma paixão. Conforme a canção avança, os versos deixam de encaixar na melodia e o canto se aproxima da fala –- outra sacada de compositor sensível.

Como outras canções de Mauricio, “Mulheres de Bengalas” (parceria com Lu Horta) e “Piquenique no Horto” (com Daniell Galli e Felipe Trielli), desta nova safra, também trazem referências diretas a São Paulo: rua Augusta, Consolação, o Horto Florestal. Jornalista que também é, o compositor se aproxima nessas canções da abordagem narrativa de um cronista.

Com um arranjo delicioso, cheio de suingue, “Quatro Dois Quatro” (parceria com Tonho Penhasco) traz outra letra brilhante, que mergulha no universo do futebol para filosofar: “Lá atrás / o goleiro faz / o sinal da cruz / e isso é o princípio de tudo / achar a graça é a nossa missão”, diz o refrão, repetido no show de ontem como um mantra.

Para quem, como eu, conheceu Mauricio Pereira ainda nos anos 1980, quando formou com André Abujamra a irresistível dupla Os Mulheres Negras, ver esses dois parceiros lançarem, num mesmo ano, discos tão inspirados como “Outono no Sudeste” e o ambicioso “Omindá” (de Abujamra) tem um sabor muito especial.
  



Cesar Camargo Mariano: plateia paulistana pede que o pianista volte mais ao país

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                                                               Cesar Camargo Mariano e a cantora Madison McFerrin

Bloqueios nas rodovias, imensas filas nos postos de gasolina e falta de abastecimento nos supermercados. Encarar as mazelas e os escândalos diários deste país desgovernado não tem sido fácil, mas ao menos ainda temos a música para nos aliviar um pouco de tantas tensões e frustrações.

Quem teve a sorte de estar no clube Bourbon Street, em São Paulo, na noite de ontem, certamente conseguiu esquecer um pouco desses problemas. Bastou Cesar Camargo Mariano começar a dedilhar o piano, sozinho na penumbra do palco, para nos transportar a uma outra dimensão: um universo cheio de belezas, onde tudo se combina de maneira harmônica. Como o diálogo precioso que o samba e o jazz travam em seu repertório desde os anos 1960.

Cesar imprime uma espécie de assinatura na música que cria, algo que só os grandes artistas são capazes de fazer. Sua maneira personalíssima de tocar samba, utilizando figuras rítmicas que ele mesmo criou e aprimorou durante décadas de shows e gravações, é hoje cultuada e imitada por músicos de diversas gerações.

Aos 74 anos, sua vitalidade é admirável. Não à toa, toca com um jovem quarteto, que destaca três dos melhores instrumentistas de São Paulo: Conrado Goys (violão), Thiago Rabello (bateria) e Sidiel Vieira (baixo elétrico e acústico), que o estimulam com energia e criatividade, nos improvisos.

Mais jovem ainda é a cantora Madison McFerrin, de 26 anos, sua convidada especial. Com um timbre vocal delicado e expressivo, ela demonstra talento e bagagem musical para encarar um repertório eclético, que inclui a sensual canção “Fever” (de Cooley & Davenport), o samba “Mas Que Nada” (Jorge Ben) e a bossa “Águas de Março” (Tom Jobim), entre outras. Também exibiu sua faceta R&B ao cantar “No Time to Lose”, de sua autoria, criando vocais em camadas com o auxílio de um pedal de loop.

“Cesar, você tem que tocar mais aqui”, gritou alguém na plateia, já quase ao final do show, lembrando aos outros fãs desse grande músico (radicado há mais de duas décadas nos Estados Unidos) que não podemos ouvi-lo ao vivo com a frequência que gostaríamos. Quem sabe, a admiração e o carinho demonstrados pela plateia de ontem o estimulem a se apresentar mais no país. Claro que isso depende, em grande parte, dos produtores de festivais e clubes brasileiros.

César Camargo Mariano e Madison McFerrin: pianista encontra cantora no Bourbon Street

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Embora já tenha se apresentado no Brasil em duas outras ocasiões, a cantora norte-americana Madison McFerrin, 26, ainda é pouco conhecida por aqui. Mas depois do show que fará hoje à noite no clube paulistano Bourbon Street, como convidada do pianista César Camargo Mariano, é provável que passe a contar com um fã-clube local.

“Nossa parceria deu uma liga musical muito boa. Madison também toca piano muito bem, além de outros instrumentos”, avaliza o conceituado músico e arranjador paulista, que vive nos Estados Unidos desde os anos 1990. No último sábado, ele e a cantora se apresentaram no Bourbon Festival Paraty (RJ).

Essa parceria nasceu por acaso, em 2016, no Festival Música em Trancoso, na Bahia. Madison foi convocada para substituir o cantor de jazz Bobby McFerrin (seu pai), quando ele cancelou a apresentação que faria com Mariano por um problema de saúde.

“Cantar com Cesar me traz uma sensação de grande conforto. Quando cantei ao lado dele pela primeira vez, em Trancoso, tive a sensação de que já fazíamos música juntos há muito tempo”, relembra Madison, que tem sido apontada como promissora revelação na área do R&B e da soul music por blogs e veículos especializados, como o site Pitchfork ou a rádio de jazz WBGO.

O acaso também a ajudou, dois anos atrás, quando decidiu compor material para um projeto de piano e voz. “Durante os primeiros shows que fiz sozinha eu não me sentia segura ao tocar as harmonias e cantar o que tinha escrito ao mesmo tempo. Então comecei a usar um ‘pedal de loop’ para reproduzir as harmonias”, conta, referindo-se ao recurso eletrônico que permite gravar sons e reproduzi-los, em uma sequência que se repete.

“Sinto muito prazer ao cantar ‘a capella’ [sem acompanhamento instrumental]. A melhor maneira de exibir música feita assim é mesmo ao vivo”, diz a cantora, confirmando que trouxe o pedal eletrônico para mostrar canções extraídas dos dois volumes de seu projeto “Founding Foundations”, já disponíveis no mercado.

E como Madison encara as comparações com seu pai, cuja canção “Don’t Worry, Be Happy” ocupou as primeiras posições das paradas de sucessos nos Estados Unidos, em 1988, por mais de quatro meses?

“Embora eu tenha começado a fazer música ‘a capella’ por acaso, sem a intenção de seguir o mesmo caminho de meu pai, eu adoro sua música, que é uma grande fonte de inspiração para o que faço”, diz ela, demonstrando segurança. “Quando você sente que está fazendo a coisa certa, deve seguir em frente sem se preocupar com comparações”.

Voltando à parceria, Mariano observa que a afinidade musical que sente com a cantora, apesar dos quase 50 anos que os separam, é natural. “Não gosto de rotular a música, mas o gênero que a Madison abraça, essa mistura de R&B, soul e jazz, me agrada bastante. Além disso, lá no fundo, essa música combina muito bem com o samba”, diz o pianista, cujo afiado quarteto inclui Conrado Goys (violão), Thiago Rabello (bateria) e Sidiel Vieira (contrabaixo).

Cesar Camargo Mariano convida Madison McFerrin
Bourbon Street, r. dos Chanés, 127, Moema, São Paulo, tel. (11) 5095-6100. Hoje (terça, 29/5), 21h30. Couvert artístico: R$ 145,00 e R$ 175,00. Censura: 18 anos.


(Texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 28/5/2018)

Jazzmin's Big Band: orquestra feminina chega com formação e arranjos originais

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                                                                                  Instrumentistas da Jazzmin's Big Band

A falta de combustíveis e outros transtornos provocados pela greve dos caminhoneiros não impediram que o teatro do Sesc Consolação ficasse lotado, na noite de ontem, em São Paulo, para o show da Jazzmin’s Big Band. A plateia aplaudiu com animação os arranjos e improvisos dessa pioneira orquestra feminina e ainda exigiu bis.

Duas ou três décadas atrás, uma big band formada apenas por mulheres instrumentistas seria algo quase inimaginável. Com menos de um ano de atividade, a Jazzmin’s sugere no palco que não pretende apenas conquistar mais espaço profissional em um universo ainda majoritariamente masculino.

Trata-se de um trabalho musical seríssimo, a começar pelo fato de todos os arranjos interpretados pela Jazzmin’s serem originais. A própria formação não-convencional dessa big band, que inclui instrumentos como trompa, clarone e vibrafone, impede que ela utilize arranjos tradicionais para big bands.

Entre os números favoritos da plateia, no show de ontem, destacaram-se “Doralice” (de Dorival Caymmi), “Bebê” (Hermeto Pascoal) e “Duas Contas” (Garoto), além do saboroso samba “7 x 1” (composição da baixista Gê Cortes). São exemplos da alta qualidade do repertório que essa orquestra vem formando com o apoio de diversos arranjadores, como Gaia Wilmer, Thiago Costa, Luca Raele, Welbert Dias e Anderson Quevedo, entre outros.

Tomara que o primeiro disco da Jazzmin’s não demore.





Notas para turistas: novo hotel em New Orleans oferece preços acessíveis e restaurante

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Ao saber que durante minha estadia em New Orleans para acompanhar o 49º Jazz Fest eu ficaria hospedado no recém-inaugurado B on Canal Hotel, achei que teria uma sensação de “déjà vu”. Foi naquele mesmo edifício da hoje renovada Canal Street que me hospedei algumas vezes, no início da década passada, quando ali funcionava o Clarion Hotel, também recém-inaugurado na época. 

No lugar de mais um hotel padronizado, como os de tantas outras cidades norte-americanas, encontrei agora um simpático hotel boutique. A decoração é inspirada no charme da antiga New Orleans e das marcantes influências que a cidade recebeu da cultura francesa desde sua fundação, três séculos atrás, em 1718. Como as coloridas máscaras do Mardi Gras (o carnaval local), que você vê enfeitando os corredores e paredes do hotel.  

Com diárias bem acessíveis, o hotel oferece 155 quartos e suítes com dimensões variadas, para atender aos bolsos ou aos tamanhos dos grupos que ali se hospedam. Fiquei em uma suíte bastante confortável no 11.º andar (semelhante à da foto abaixo), com sala, frigobar e TV de tela plana, além de uma vista privilegiada da Canal Street e seus arredores, com o lendário rio Mississippi ao fundo. 

Como a maioria dos hotéis nos Estados Unidos, o B on Canal não inclui o café da manhã no preço de suas diárias. Essa refeição é oferecida no Madam’s, bar e restaurante que funciona no piso térreo do hotel. Para quem, como eu, não aprecia o pesado café da manhã local, recomendo o delicioso Croque Madam’s, versão do popular sanduíche francês.

Já na hora do almoço ou no jantar, o menu do Madam’s combina clássicos da original culinária de New Orleans, como o Gumbo (sopa de frutos do mar) ou a Muffuletta (sanduíche de diversos frios e queijos), com pratos de ascendência francesa, latina e asiática. Se você tiver a sorte de ser atendido pela simpática garçonete Cat, certamente vai deixar uma boa gorjeta.

Situado na região central da cidade, próximo aos teatros e a apenas duas quadras do disputado French Quarter (bairro histórico e destino mais frequente dos turistas), o B on Canal tem a vantagem de não ser atingido pelos incômodos congestionamentos que costumam acontecer durante os dias do Jazz Fest. Para quem passa seis ou sete horas diárias correndo de um palco para outro, em busca das melhores atrações do festival, voltar à noite para o quarto de um hotel em uma área mais tranquila é um bálsamo.

Viagem realizada a convite do New Orleans Visitors Bureau e do B on Canal Hotel.

New Orleans Jazz Fest: alto nível da 49ª edição promete grande festa no próximo ano

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                                                                     A cantora Dianne Reeves, no New Orleans Jazz Fest 2018

Terminou no último domingo a 49.a edição do New Orleans Jazz & Heritage Festival, um dos maiores eventos musicais do mundo. A comemoração dos 300 anos da cidade, capital cultural do estado americano da Lousiana, fazia prever muitas menções a essa efeméride durante as sete tardes de shows, mas a música acabou falando mais alto.

Atração final do festival no maior de seus 12 palcos, o instrumentista e cantor Trombone Shorty (hoje o musico mais popular de Nova Orleans na cena internacional) fez uma homenagem ao saxofonista Charles Neville. Ex-integrante da lendária banda The Neville Brothers, que encerrou o Jazz Fest durante decadas, ele morreu aos 79 anos em 26/4, véspera da abertura do evento.

Shorty, de 32 anos, relembrou emocionado do convite que recebeu, ainda adolescente, para participar de um show dos Neville Brothers no Jazz Fest. E chamou ao palco os músicos Cyril, Ian e Ivan Neville (irmão e sobrinhos do saxofonista) para cantarem juntos "Fire on the Bayou", um dos hits dos irmãos Neville.

Conhecida dos paulistanos por suas temporadas no clube Bourbon Street, a cantora Charmaine Neville dançou muito durante sua exuberante apresentação, no sábado. "Sei que meu pai está aqui em espírito", disse, logo ao entrar em cena, tentando conter a emoção. 


No dia anterior, o cultuado cantor Aaron Neville (na foto ao lado), que se apresenta com os Neville Brothers desde 1977, já tinha levado para o palco o saxofone do irmão, em seu show no festival. "Ele está aqui com a gente", disse, visivelmente abatido. 

Tristezas à parte, não faltaram alegria e animação durante o último final de semana. "Não sei explicar como isso aconteceu, mas este é o nosso 40.º show no Jazz Fest", brincou no sábado Tony Dagradi, saxofonista do Astral Project, sensacional quarteto de jazz da cidade, que merece ser mais conhecido internacionalmente.

No mesmo palco dedicado ao jazz moderno, a carismática cantora Dianne Reeves já foi ovacionada logo ao entrar em cena. Seu excelente guitarrista e violonista, o carioca Romero Lubambo, também brilhou durante todo o show, especialmente na releitura jazzística da bossa "Corcovado” (Tom Jobim).

No domingo, enquanto Jack White entretia a plateia mais jovem com seu rock, no palco dedicado à música negra urbana, o veterano cantor Smokey Robinson, 78, atraiu uma multidão de fãs de várias geracões para ouvir sucessos do soul e do R&B, que compôs para o clássico selo Motown, como "My Girl", "Get Ready" e "I Second That Emotion".

Outro veterano que o público de domingo não queria deixar sair mais de cena foi o guitarrista e cantor Buddy Guy. Aos 81 aos, o expoente do blues de Chicago não deixou por menos: depois de eletrizar a plateia por mais de uma hora, ainda desceu do palco e foi tocar "Slippin'in" no meio dos fãs.

Como já é habitual, num festival com cerca de 500 atrações musicais, não faltaram revelações. Como a talentosa cantora Quiana Lynell, que fez uma participação especial no show do trompetista Terence Blanchard, que está produzindo seu disco de estreia. Ou o guitarrista e cantor Mr. Sipp, músico do Mississippi que surpreendeu na tenda de blues.

Pelo alto nível musical que o New Orleans Jazz & Heritage Festival exibiu neste ano, sua edição de 50 anos promete uma daquelas festas para ficar na memória por muito tempo.

Resenha publicada parcialmente na "Folha de S. Paulo", em 8/05/2018. Viagem realizada a convite do New Orleans Visitors Bureau e do B on Canal Hotel. 



 

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