Funarte Musical: programação especial comemora 40 anos da Sala Guiomar Novaes

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                                                 A banda paulistana Isca de Polícia abre série de shows na Funarte SP

Quem acompanhou a cena musical de São Paulo durante os anos 1980 e 1990 sabe que a Sala Guiomar Novaes desempenhou um importante papel de apoio às novas tendências musicais. Foi nesse palco do complexo cultural da Funarte que artistas da geração conhecida como “vanguarda paulista” – Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e os grupos Rumo, Premê e Língua de Trapo, entre outros – consolidaram suas carreiras musicais.

Comemorando 40 anos de atividades em 2017, a Funarte paulista vai exibir durante este semestre uma série especial de shows de música popular e concertos de música erudita, sempre aos sábados. Entre as atrações programadas estarão artistas que fazem parte da história da Sala Guiomar Novaes e destaques de gerações mais recentes.

A série Funarte Musical 2017 começa no dia 26/8, com o show da Isca de Polícia. A banda paulistana que acompanhava o compositor Itamar Assumpção (1949-2003) acaba de retornar aos palcos para lançar “Isca - Volume 1”, primeiro disco sem a presença de seu inspirador. O projeto inclui no repertório canções de Tom Zé, Zeca Baleiro e Arnaldo Antunes.

O mês de setembro trará uma programação bem eclética. Ex-integrante da banda de Arrigo Barnabé, o trombonista e compositor Bocato exibe fusões de jazz e música brasileira com seu grupo (em 2/9). Na semana seguinte (9/9), o quinteto de clarinetes Sujeito a Guincho mostra que não acredita em fronteiras musicais, misturando choros, sambas e peças da tradição clássica.

A cantora Ná Ozzetti e o compositor e violonista Luiz Tatit relembram divertidas pérolas do repertório do grupo Rumo (em 16/9), além de mostrar canções de fases mais recentes de suas carreiras. No sábado seguinte (23/9), o acordeonista Toninho Ferragutti, que acaba de ser eleito melhor instrumentista do ano pelo Prêmio da Música Brasileira, toca clássicos da música caipira, em duo com o violeiro Neymar Dias.

A programação de setembro termina com o show da banda Quartabê (30/9). Revelação recente da música instrumental brasileira, esse quinteto já gravou dois discos com releituras da obra do maestro e compositor pernambucano Moacir Santos (1926-2006). 



Os shows na Sala Guiomar Novaes incluem também, até dezembro, outros destaques do cenário musical paulistano, como a cantora Fabiana Cozza (28/10), o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo (4/11), a dupla Os Mulheres Negras (18/11; à esquerda, André Abujamra e Maurício Pereira, em foto de Gal Oppido) e a cantora Anelis Assumpção (2/12), além de um espetáculo especial para o público infantil com o grupo Manuí (7/10).

Os apreciadores da música clássica não foram esquecidos na programação do Funarte Musical, que inclui concertos do oboísta Alexandre Ficarelli com o violoncelista Raiff Dantas Barreto (14/10), da pianista Luciana Sayuri (21/10), do trio do pianista Gilberto Tinetti com o clarinetista Luis Montanha e o violoncelista Robert Suetholz (11/11). E ainda um concerto de percussão comandado pelo maestro Ricardo Bologna (25/11).

Feita em parceria com a equipe da Funarte SP, a curadoria da série Funarte Musical 2017 leva as assinaturas do
músico e professor Robert Suetholz e deste jornalista musical, que desde os anos 1980 frequentou bastante a plateia da Sala Guiomar Novaes.

Onde: Sala Guiomar Novaes, na Funarte (Al. Nothmann, 1058, tel. 3662-5177, Campos Elíseos, São Paulo)
Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 











Toninho Horta: guitarrista e compositor lança o livro “108 Partituras” em São Paulo

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                                                                              O guitarrista Toninho Horta / Acervo do artista

Não bastasse ser um dos fundadores do influente Clube da Esquina, Toninho Horta é um dos músicos brasileiros mais admirados no mundo. Autor de uma obra personalíssima, que inclui canções de sucesso e composições instrumentais cultuadas nos meios do jazz, esse guitarrista, violonista e cantor de Belo Horizonte (MG) sabe combinar, como poucos, melodias cheias de lirismo com sofisticadas harmonias.

A boa notícia para estudantes de música e fãs de Toninho que também se aventuram como instrumentistas é o lançamento do songbook “108 Partituras”. Esse “livrão” de 330 páginas, com textos em português e inglês, reúne partituras (melodias e cifras) de suas composições, incluindo as populares “Beijo Partido”, “Viver de Amor”, “Aquelas Coisas Todas”, “Pedra da Lua”, “Terra dos Pássaros” e “Diana”, entre outras.

Para facilitar a vida daqueles que desejam se aprofundar na original concepção harmônica de Toninho, o songbook também oferece diagramas de acordes para violão e piano de 40 de suas composições. Graças a esses diagramas se pode reproduzir as inversões exatas de certos acordes que o compositor e guitarrista utilizou em suas gravações e shows.

Mesmo quem não toca algum instrumento pode encontrar, além das partituras, muita informação relevante nesse livro. O compositor dividiu o material por décadas: introduz cada seção com um texto em que relembra diversas fases de sua vida pessoal e da carreira musical, detalhando gravações, parcerias, turnês e muitos encontros com músicos que conheceu no Brasil e no exterior.

A contracapa e as capas internas do livro são ocupadas por depoimentos e comentários de três dezenas de conceituados instrumentistas e cantores de diversos gêneros, como Hermeto Pascoal, Sérgio Assad, Nana Caymmi ou John Pizzarelli. O guitarrista norte-americano Larry Coryell (morto em fevereiro deste ano) declarou: “Nunca esquecerei do apaixonante momento, anos atrás, quando ouvi o seu som em uma incrível re-harmonização de ‘Stella by Starlight’. Que revelação! Qualquer sério improvisador será beneficiado abundantemente folheando este livro”.

Juarez Moreira, outro grande guitarrista e compositor de Minas Gerais, assina um dos capítulos introdutórios. Nesse ensaio, analisa o ambiente em que o colega se formou musicalmente, suas influências e seu estilo. “Toninho tem estilo e originalidade tanto na guitarra elétrica como no violão. São poucos os músicos que conheço que transitam de um para o outro e que têm um som próprio e original, rapidamente identificado”, avaliza.

Outro aspecto que valoriza esse songbook é o farto material fotográfico. Um caderno central inclui fotos do guitarrista e compositor mineiro ao lado de dezenas de colegas de profissão, além das capas de todos seus álbuns e dos discos de outros artistas, nos quais participou com instrumentista, convidado ou diretor musical.

Toninho Horta lança o songbook “108 Partituras” no dia 15/8 (terça), com show no Bourbon Street Music Club, em São Paulo. Acompanhado por Marcelo Soares (baixo), Lisandro Massa (teclado), Sérgio Machado (bateria) e Marquinho Sax (sax alto), vai tocar sucessos de sua carreira, como “Manoel, o Audaz”, “Dona Olímpia” e “Beijo Partido”.

Couvert artístico: R$ 70,00. Mais informações sobre o show no site do Bourbon Street Music Club.
Preço do livro: R$ 150,00.








Jazz na Fábrica 2017: festival do Sesc SP enfoca a diversidade do jazz globalizado

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                                                        O trompetista Roy Hargrove, atração do 7º Jazz na Fábrica

As melodias africanas do pianista Abdullah Ibrahim, o jazz moderno do trompetista Roy Hargrove, a música universal de Hermeto Pascoal, o mix de soul, funk e hip hop do baixista e cantor Thundercat. Essas são algumas das atrações do Jazz na Fábrica, festival que voltará a ocupar três palcos do Sesc Pompeia, em São Paulo, de 10 a 27 de agosto.

Em sua sétima edição, esse evento conserva o perfil que o transformou em um dos maiores e mais antenados festivais do gênero no país. Ao destacar a diversidade de estilos do jazz e suas múltiplas influências na música instrumental de diferentes países, o festival Jazz na Fábrica revela a globalização desse gênero musical.

A programação começa em 10/8, com três apresentações do trompetista norte-americano Eddie Allen. Influenciado pelo jazz de vanguarda de Chicago, ele já tocou com mestres dessa vertente, como Muhal Richard Abrams e Lester Bowie. Virá acompanhado por seu septeto.

Outras duas atrações do evento também se ligam ao universo da vanguarda. Formada em 1966 pelo pianista alemão Alexander von Schlippenbach, a Globe Unity Orchestra manteve acesa a fúria iconoclasta do free jazz durante duas décadas. Nos últimos anos voltou a se reunir em ocasiões especiais.

Considerada uma pioneira da música eletrônica, a cantora e compositora nova-iorquina Annette Peacock se destacou ao lado de jazzistas de renome, como Gary Peacock (seu ex-marido), Paul Bley e Paul Motian. Seus dois concertos no festival serão em formato voz e piano.


A atuação do pianista e compositor Abdullah Ibrahim foi essencial para o estabelecimento de uma original cena jazzística na África do Sul, onde nasceu. Influenciado pelo mestre Duke Ellington (1899-1974), que o introduziu nos Estados Unidos, ele desenvolveu uma obra de grande personalidade, marcada pelo lirismo das melodias de seu país.

Também ligado à tradição do jazz, o trompetista Roy Hargrove já é mais conhecido do público brasileiro. Desde os anos 1990, quando despontou como revelação, tem alternado projetos acústicos e eletrônicos. Além de seu quinteto, trará como convidada a italiana Roberta Gambarini, ótima cantora de jazz.

Badalado na cena pop alternativa, o baixista, compositor e cantor californiano Stephen Bruner, mais conhecido por Thundercat, já tocou com a banda Suicidal Tendencies e com a cantora Erykah Badu. “Drunk”, seu último álbum, traz participações de Pharrell Williams e Kendrick Lamar, entre outros.

O elenco internacional do 7º Jazz na Fábrica inclui ainda o guitarrista moçambicano Jimmy Dludlu, o cantor ganense Pat Thomas, a Debo Band (liderada pelo saxofonista etíope-americano Danny Mekonnen) e o duo dos espanhóis Juan “Chicuelo” Gómez (guitarra flamenca) e Marco Mezquida (piano). Já o jazz de Israel será representado por duas atrações: o trompetista Itamar Borochov e a flautista Hadar Noiberg.

Além do grande Hermeto Pascoal (na foto acima) e seu grupo, que prometem tocar o repertório do novo álbum “No Mundo dos Sons” (selo Sesc), o elenco brasileiro inclui o excelente trio do baterista gaúcho Nenê, a parceria do guitarrista Emiliano Sampaio com a Soundscape Big Band, a banda feminina Jazzmin’s e o pianista pernambucano Amaro Freitas, recém revelado com o belo álbum “Sangue Negro”.

Os ingressos começam a ser vendidos no início de agosto, por meio do site do Sesc SP (
www.sescsp.org.br) e nas bilheterias de suas unidades. 

(Texto publicado originalmente na versão online da "Folha de S. Paulo", em 7/7/17)

Gustavo Bombonato: a estreia promissora de um talento da música instrumental

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Quem acompanha de perto o cenário musical de nosso país já deve ter percebido que sua vertente instrumental vive hoje uma fase brilhante. Diferentemente do que se ouve na cena da canção brasileira, que, com raras exceções, tem se revelado pouco inspiradora durante os últimos anos, a música instrumental não só se renovou ao longo deste século, como atravessa um período de intensa produção, diversidade e alta qualidade.

A música do pianista e compositor paulista Gustavo Bombonato exemplifica bem esse rico período da música instrumental produzida em nosso país. Seu disco de estreia – “Novos Horizontes Apontam”, lançamento independente distribuído pela Tratore – traz uma coleção de composições originais que revelam a consistente formação desse músico, com destaque para assumidas influências jazzísticas.

Nas nove faixas desse álbum, Gustavo comanda diversas formações instrumentais, tendo a seu lado uma seleção de craques do gênero, como os contrabaixistas Alberto Luccas, Enéas Xavier e Sérgio Frigério ou os bateristas Lincoln Cheib e Rodrigo “Digão” Braz. Sem falar nas participações de dois fenomenais bateristas: o gaúcho Nenê (ex-parceiro de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, entre outros) e o mineiro Esdra “Neném” Ferreira, que toca há décadas com Milton Nascimento e Toninho Horta.

Nascido na interiorana cidade paulista de Votuporanga (a 521km da capital), Gustavo cursou o Conservatório Dramático e Musical de Tatuí (SP), instituição que já formou vários talentos da música instrumental brasileira. Ali estudou por cinco anos com André Marques, o talentoso pianista que integra o grupo de Hermeto Pascoal há mais de duas décadas. Depois aprofundou seus conhecimentos com o maestro Cláudio Leal Ferreira e outros dois craques do piano: Irio Júnior, do Nenê Trio; e Fabio Torres, do Trio Corrente.

“Quando tive aulas particulares com o Irio, eu era obrigado a estudar dobrado porque as aulas aconteciam na casa do Nenê. De vez em quando ele vinha tomar um chá e se sentava ao lado da gente”, conta Gustavo, referindo-se à pressão que sentia por ter que tocar na presença do baterista e compositor, do qual é fã declarado. “Já assisti a mais de 30 shows dele”, conta.

É o mesmo Nenê que atesta, na contracapa do álbum “Novos Horizontes Apontam”, a evolução musical de Gustavo. “A qualidade artística de sua música, tanto instrumental quanto na canção, me surpreendeu pela beleza e complexidade das melodias e o encadeamento harmônico de extremo bom gosto e refinamento”, comenta o veterano baterista e compositor, que toca em cinco faixas desse disco.

Para a evolução de Gustavo como instrumentista também foi importante a experiência de passar quatro anos, tocando diariamente um repertório musical bem diversificado, em navios de cruzeiro. De 2011 a 2015 ele trabalhou em sete navios diferentes, sem férias, em rotas pelo Caribe, pelo Oceano Atlântico e pelos mares Báltico e Mediterrâneo.

“Foi uma escola muito louca. O repertório era mais comercial, mas também participei de um trio de jazz, com baixo elétrico e uma cantora. Tocávamos clássicos do jazz, música brasileira, choro. Toquei também com uma banda dominicana, fazendo bolero, mambo e bachata”, relembra Gustavo, que enfrentou momentos difíceis, nesse período. “Era uma solidão imensa, mas foi assim que comecei a escrever letras de canções que tinham a ver com o que eu vivenciei”.

Para enfrentar a melancolia e a saudade durante os quatro anos passados no mar, Gustavo mergulhou na música. Calcula ter composto nesse período cerca de cinquenta temas instrumentais e trinta canções. Ao retornar ao Brasil, em 2015, já tinha finalizado até os arranjos para “Um Respiro” – o disco de canções já gravado, que planeja lançar no segundo semestre de 2017.

Outra experiência incomum foram os dois meses que passou na Noruega, entre um cruzeiro e outro. “É muito triste morar lá, no meio dos fiordes. É muito gelado”, comenta o pianista, que sente ter sido influenciado em alguma medida pela música escandinava. “Eu ia para as montanhas buscar paz. Aquelas melodias medievais com saltos em quintas, que eu ouvia nas ruas, foram entrando em mim”, reconhece.  


O disco

“Novos Horizontes Apontam”, composição que empresta seu título ao álbum de Gustavo (à esquerda, reprodução da capa com ilustração assinada pelo grafiteiro Edgard Andreatta) começa com um instigante solo de bateria de Nenê. “Fiz essa música em uma fase bem tensa, durante a crise que enfrentei no navio. Eu não conseguia sair da cama, praticamente, porque a saudade da minha família era muito grande”, relembra o pianista. Quem o ajudou a superar essa fase foi Wilson Ribeiro, saxofonista paraibano, com o qual dividia o quarto no navio. “A gente ficava ensaiando durante a madrugada. Aliás, essa faixa tem a ver com o pôr do sol que víamos todos os dias”.

Composto pelo pianista em 2007, o jazzístico tema “Cone de Fogo” abre o álbum com beleza e sofisticação. A melodia, tocada em uníssono por Rafael Ferreira (sax tenor) e Fernando Corrêa (guitarra), é seguida por improvisos dos integrantes do quinteto, que inclui ainda Alberto Luccas (contrabaixo) e Nenê (bateria). “Pensei em um ritmo de jazz meio solto, mas o Nenê sempre faz outras coisas no estúdio. Ele dizia: ‘Me deixa ser feliz’”, diverte-se Gustavo.

Outra faixa do álbum com marcante ascendência jazzística é “Mr. Spaik”, que destaca o trompete com surdina de André Lagoin. “Eu estava ouvindo muito McCoy Tyner, na época em que compus esse tema. Ele tem essa coisa de ficar muito tempo em um acorde menor”, observa Gustavo, que também cita o trompetista Miles Davis e os pianistas Herbie Hancock e Bill Evans, todos grandes compositores, entre suas influências no universo do jazz. Já entre os mestres da música instrumental brasileira, aos quais dedicou muitas horas de escuta atenta, o pianista menciona Hermeto, o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo e o saxofonista Vinícius Dorin, do qual também foi aluno.

O ritmo vertiginoso do tema “Convidando a Meninada pra Festa”, tocado em trio, é antecedido por um etéreo solo do contrabaixista Alberto Luccas. Na bateria aparece Rodrigo “Digão” Braz, que Gustavo conheceu quando ainda estudavam em Tatuí, uma década atrás. “Ele foi supergeneroso comigo. Montou a bateria dele para gravar só uma música”, comenta o pianista.

A lírica balada “Gradativo e Constante” introduz o trompete de Diego Garbin, outro ex-colega de Gustavo em Tatuí. Essa composição nasceu durante um dos cruzeiros, numa fase em que Gustavo era obrigado a tocar muita música pop, de Madonna a Michael Jackson, quase todas as noites. Por isso, ele conta, jamais perdia uma oportunidade para tocar essa composição no navio. Outra balada que conta com participação de Garbin, dessa vez ao flugelhorn, é “Deixou Saudades”. Em seu solo, o trompetista empresta à gravação um sabor de bossa nova, inclusive fazendo uma rápida citação da clássica “Amor em Paz” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes).

Em “Sala de Espera”, um contagiante samba em ritmo acelerado, Gustavo toca escaleta e piano elétrico. A seu lado estão dois talentos da cena instrumental de Belo Horizonte: o baixista Enéias Xavier e o baterista Lincoln Cheib. “Tenho bastante contato com o mundo espiritual. Às vezes, quando aparecem vários espíritos de uma vez e fica aquela confusão na cabeça, eu brinco: ‘Calma aí, na sala de espera. Um de cada vez’”, diverte-se o compositor, explicando a origem do inusitado título desse tema.

Já na meditativa “Lá pras Bandas do Guará, Conhecimento Vou Buscar” – a faixa mais extensa do álbum, também tocada em trio – quem assume a bateria é Neném, veterano craque do som instrumental mineiro. Esse tema é dedicado por Gustavo a Jaime Barbosa, seu primeiro professor de piano, cujas aulas frequentava em Campinas (SP). “Foi ele quem corrigiu a minha técnica”, reconhece.

Outra homenagem textual de Gustavo está na balada “Dá um Relax, né Bicho!”, cuja bela melodia é exposta pelo baixo fretless de Sérgio Frigério e, mais adiante, reapresentada pelo trompete de Diego Garbin. O título dessa composição, explica o pianista, se refere ao baterista Nenê, que costuma repetir essa expressão com frequência.

Em meio a um período tão difícil como o que vivemos hoje no Brasil, é estimulante ver um músico jovem como Gustavo Bombonato estrear em disco com performances e composições de alto quilate, ao lado de conceituados instrumentistas que referendam seu talento. É muito bom saber que ainda resta algo do que nos orgulhar neste país, que já foi tão admirado mundialmente pela grandeza de sua música.


(Texto escrito a convite da produção do artista)





Blaxtream: selo de música instrumental chega com conceito inovador e 4 álbuns

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                                   O produtor Thiago Monteiro (3º da esq. para dir.) com músicos do selo Blaxtream 
 
O produtor, pianista e engenheiro de som Thiago Monteiro já contribuiu para o sucesso de gravações de conceituados artistas da música brasileira, como Chico César, Ivan Lins, Arismar do Espírito Santo, Léa Freire e Trio Curupira, entre outros. Nesta sexta-feira (30/6), no clube JazznosFundos, em São Paulo, ele lança um projeto inovador ao qual tem se dedicado intensamente: o selo Blaxtream, focado no jazz e na música instrumental brasileira.

“Há dois anos tenho investido todo o meu tempo e energia no antigo sonho de criar um selo com um formato diferente: além de oferecer livre acesso a todo o conteúdo do selo, também apostamos em um intercâmbio de musicalidades”, conta Monteiro, destacando o fato de ter conseguido o apoio de patrocinadores que viabilizaram o projeto sem recorrer a leis de incentivo.

O lançamento oficial dos quatro primeiros álbuns do selo Blaxtream vai reunir, em uma única noite, 18 jovens craques da música instrumental brasileira. A festa começa com o show do quinteto do guitarrista e violonista Vinícius Gomes, que inclui Edu Ribeiro (bateria), Bruno Migotto (contrabaixo), Gustavo Bugni (piano) e Rodrigo Ursaia (sax e flauta). Eles tocam faixas de “Resiliência”, álbum com composições do líder.

A atração seguinte será o quarteto do baterista Paulo Almeida, que destaca os sopros de Jota P (também integrante do grupo de Hermeto Pascoal), o piano de Salomão Soares e o contrabaixo de Bruno Migotto. No repertório, composições do álbum “Parceria”, o terceiro lançado por Almeida.

O quinteto do guitarrista, violonista e compositor Fabio Gouvea, outra atração da noite, vai tocar material do inédito “Método do Acaso”, seu quarto álbum. Cléber Almeida (bateria), Felipe Brisola (baixo), Beto Corrêa (piano) e Dô de Carvalho (sax e flauta) completam o grupo.

Finalmente, o quarteto Ludere –- formado por Philippe Baden Powell (piano), Rubinho Antunes (trompete), Bruno Barbosa (contrabaixo) e Daniel de Paula (bateria) -– interpreta faixas do álbum “Retratos”, o segundo do grupo.

Durante a noite de lançamento, no clube JazznosFundos, será exibido um vídeo, resultado do projeto de intercâmbio musical que também vai gerar um álbum. “Nesse vídeo, músicos de diferentes lugares do mundo tocam um mesmo tema. Quinzenalmente, lançaremos um novo vídeo. O mote será revelado no dia do lançamento”, avisa Thiago Monteiro, que criou o selo em parceria com
Thalita Magalhães, a produtora executiva.

Um detalhe que pode interessar bastante a estudantes de música ou mesmo a ouvintes mais jovens que não têm o hábito de comprar discos: os álbuns e todo o material didático (videoaulas e partituras) produzido pelo selo Blaxtream serão disponibilizados, gratuitamente, para download.

Ao comentar o caráter coletivo do projeto do selo, que busca levar a música instrumental da nova geração a um público mais amplo, o guitarrista Vinicius Gomes se diverte: “Tem que ser todo mundo louco: tanto eu, como outros músicos que topam fazer isso, e o Thiago, que é o mais louco de todos”.

Tive a oportunidade de ouvir algumas faixas dos quatro primeiros discos do selo e posso dizer que o material é de primeira linha. Se há mesmo algo de louco (ou de não comercial, aparentemente) no projeto, fico na torcida para que venham outras "loucuras" como essa. A cena cultural brasileira só tem a ganhar com música de alto quilate.


Mais informações no site do clube JazznosFundos. No sábado (1º/7), outro show de lançamento do selo será realizado na fábrica da Cervejaria Colorado, em Ribeirão Preto (SP).

“O Piano que Conversa”: documentário com Benjamim Taubkin desafia padrões

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Não espere pelo habitual narrador para introduzir o tema do filme, muito menos entrevistas com alguns dos personagens. “O Piano que Conversa” documentário de Marcelo Machado, que está sendo exibido no Festival In-Edit, em São Paulo rompe com padrões desse gênero cinematográfico. Tanto que sua encantadora narrativa dispensa até o uso de palavras.

À primeira vista, o protagonista do filme seria um piano de cauda. Logo nas imagens iniciais esse instrumento é desmontado e carregado, cuidadosamente, para um caminhão que vai transportá-lo para um concerto em um festival no interior de São Paulo (sugerindo um “road movie”). Em cenas posteriores a câmera chega a penetrar no interior do piano, revelando a perfeição de seu mecanismo: os movimentos sincronizados dos pequenos martelos de madeira que percutem as longas cordas revestidas de cobre.

Uma beleza estranha, tanto visual como sonora, é desvendada nessa relação íntima que a câmera trava com o piano, mas logo se percebe que o protagonista real da narrativa é Benjamim Taubkin. É por meio da fina sensibilidade desse pianista e compositor paulistano que vamos acompanhar seus encontros com duas dezenas de músicos de diversas regiões do Brasil, de Moçambique, de Israel, da Polônia, da Bolívia e da Coreia do Sul.

Quem acompanha a trajetória musical de Taubkin, registrada em vários discos da gravadora independente Núcleo Contemporâneo, sabe que ele tem realizado criativos diálogos com instrumentistas de várias vertentes e tradições musicais (do jazz ao choro, passando pela diversidade da chamada “música do mundo”) há pelo menos vinte anos. Assim como Machado desafia nesse filme padrões tradicionais dos documentários, Taubkin tem questionado há décadas os limites entre gêneros, em suas experiências musicais.

A coragem de realizar um documentário sem palavras, a sofisticada fotografia de Fernando Fonini, a criativa montagem de Joaquim Castro e a riqueza dos diversos encontros musicais estão entre os muitos atributos de “O Piano que Conversa”, que propõe uma maneira mais sensitiva de se criar (ou mesmo de se assistir) um documentário.

“Eu tinha vontade de entrar mais na música”, disse Marcelo Machado, na rápida conversa que ele e Taubkin estabeleceram com a plateia, anteontem, logo após a exibição do filme, no Museu da Imagem e do Som. As expressões emocionadas de vários espectadores, durante a projeção dos créditos finais, confirmaram que o diretor alcançou seu objetivo nesse inovador documentário.

“O Piano que Conversa” será exibido novamente nos dias 23/6 (no Cine Olido), 6/7 (no Cine Sesc) e 15/7 (no Cine Olido, com bate-papo sobre o filme), em São Paulo.



 

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