Wayne Shorter & Herbie Hancock: música livre para quem não teme o desconhecido

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                                 Herbie Hancock e Wayne Shorter, no New Orleans Jazz & Heritage Festival 2016

“Uma viagem perigosa“. Foi assim, ainda agradecendo os aplausos eufóricos de parte da plateia da Sala São Paulo, que o pianista Herbie Hancock, 75, se referiu ao concerto que ele e o saxofonista Wayne Shorter, 82, tinham acabado de apresentar, anteontem, na noite de abertura do BrasilJazzFest.

No palco, a presença de um sintetizador eletrônico ao lado do piano de cauda já anunciava um concerto inusitado, antes mesmo da entrada em cena dos veteranos jazzistas norte-americanos. Quem esperava ouvir as composições mais populares de Hancock e Shorter, ou mesmo releituras de clássicos do jazz, certamente se surpreendeu. Ou até se decepcionou.

Fieis ao princípio de não se repetirem, que adotaram ainda na década de 1960 como integrantes do lendário quinteto do trompetista Miles Davis, os velhos parceiros se lançaram em uma longa aventura sonora. Sem recorrer a melodias conhecidas, tocaram por cerca de 70 minutos com um grau de liberdade que só os grandes improvisadores têm coragem de encarar.

Comparada ao que Hancock e Shorter gravaram quase duas décadas atrás, no álbum de duos “1+1” (1997), a música criada hoje por eles é bem mais livre e atmosférica, não segue formas convencionais. E a adição do sintetizador ao piano acústico e ao sax ampliou bastante as opções, em termos de sonoridades e efeitos. Aliás, é impressionante a expressiva variedade de sons que Shorter extrai do sax soprano.

As improvisações da dupla se assemelham, em várias passagens, a trilhas sonoras de filmes de aventura. Climas sombrios evocam situações de suspense, perseguições em ritmo frenético, viagens espaciais. Trata-se de música criada no ato do improviso que apela diretamente à imaginação e à cumplicidade dos ouvintes. Sem essa disposição, alguns insatisfeitos deixaram a sala antes do final do concerto.

Para quem gosta de rótulos, talvez a música desse duo já nem possa mais ser classificada como jazz. Mas é inegável que os dois a fazem utilizando a improvisação como um método de composição instantânea –-algo que os jazzistas sempre fizeram, com maior ou menor dose de liberdade.

Só mesmo ao voltarem ao palco para um bis exigido pela plateia que ficou na sala, Hancock e Shorter fizeram a única concessão da noite. Como assumidos fãs da música brasileira que são há décadas, lembraram a canção “Encontros e Despedidas” (de Milton Nascimento e Fernando Brant). Mesmo assim, o saxofonista esboçou a melodia de uma maneira tão livre que, ao perceber que ela não fora reconhecida, se viu obrigado a anunciá-la.

Compartilhar as fantasias e viagens sonoras desses grandes instrumentistas e compositores faz pensar que a música pode ser algo bem mais enriquecedor e inventivo do que os modismos vazios e “covers” apelativos que ouvimos diariamente por aí.

(Crítica publicada na “Folha de S. Paulo”, em 1/04/2016)

3 comentários:

Unknown disse...

Obrigado por esse texto Carlos.

Realmente alguém de bom senso escrevendo sobre um show que foi um absurdo de inacreditável! Ainda estou em transe...

Um grande Abraço!

* nos conhecemos no bourbon, eu estava tocando bateria com sandro albert.

Ronaldo Auad disse...


Milton não é só canção. Native dancer acrescentou muito ao jazz contemporâneo.

Fábio Alcantara disse...

Bem, minha opinião sincera é que pessoas normalmente não sabem reagir à evolução e ao novo em primeira instância. O ser humano quer e gosta de definir padrões e o que é novidade muitas vezes causa polêmica aos espectadores desavisados. Mas é preciso lembrar que o conceito de arte desde muitas décadas e eu diria que no Séc XX, se transformou por completo. A arte deixou de ir até o artista/espectador e os fez ir até ela. É uma questão de concepção. São muito mais que audições. Todo movimento de vanguarda causa polêmica, mas neste caso nem tão de vanguarda foi. Os dois já trabalham juntos desde a década de 90 dentro da mesma estética. Acontece que foi um show improvisado, sem forma, sem pulsação, com elementos orientais no que se trata da questão de musica tempo. Não vou me estender a filosofia aqui no Facebook pois isso daria uma dissertação de mestrado ou doutorado. Mas falando muito sucintamente foi um show no mais puro espírito do Jazz: o risco. Não sei pra que havia uma uma estante de partituras no palco se a mesma foi completamente deixada de lado. Foi maravilhoso. Foi inspirador. Foi genial de uma simbiose única de dois mestres que tocam juntos há quase meio século. A conversa ali foi outra. Peço humildade de quem não entendeu NADA do que aconteceu ali e falou mal. Mas, como de costume o novo remete a dúvidas. Para terminar é preciso lembrar que o adjetivo novo e a criatividade pertence a condição humana. É!

 

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