Paulinho Albuquerque: blog relembra divertidos causos do produtor carioca

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                                                                                  Guinga e Paulinho Albuquerque

Uma das figuras mais simpáticas do universo da música brasileira, o produtor carioca Paulinho Albuquerque (1942-2006) morreu prematuramente, mas seus amigos decidiram compartilhar as lembranças dos divertidos causos que ele protagonizou, ao lado de expoentes do gênero, como Ivan Lins, João Bosco, Aldir Blanc, Nei Lopes, Leny Andrade, Leila Pinheiro, Rosa Passos e Hamilton de Holanda, entre muitos outros.

Criado pela AMAPALBUCA (Associação dos Amigos do Paulinho Albuquerque, que inclui o contrabaixista e “casseta & planeta” Reinaldo Figueiredo), o blog Comendador Albuquerque reúne fotos e histórias saborosas, como a briga de Paulinho com Guinga, logo depois de produzir “Simples e Absurdo” (1991), primeiro álbum desse brilhante compositor e violonista.

O blog também disponibiliza gravações (em streaming) produzidas por Paulinho Albuquerque, como o reggae “Tributo a Bob Marley”, faixa do LP “Preto com um Buraco no Meio”, da trupe de humoristas Casseta & Planeta. Como a letra se refere a um sujeito que viaja pela Europa imitando Djavan, Paulinho foi direto à fonte: convocou o próprio Djavan para fazer cover de si mesmo.

Ouça essas gravações e confira as peripécias do Comendador Albuquerque em: http://comendadoralbuquerque.wordpress.com/




4º CopaFest: cenas de um festival de música instrumental brasileira (e algo mais)

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       Arthur Verocai (centro), Luiz Alves, Idriss Boudrioua e Nivaldo Ornelas / Photo by Carlos Calado

À primeira vista, o CopaFest – realizado de 20 a 22/10, no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro – parece um festival voltado exclusivamente à música criada por instrumentistas brasileiros, mas sua quarta edição mostrou que seus curadores, felizmente, não encaram esse perfil musical com rigidez.

No show de abertura, o saxofonista Mauro Senise e o pianista Gilson Peranzzetta, bem acompanhados por Zeca Assumpção (contrabaixo), Rafael Barata (bateria) e um quarteto de cordas, recriaram canções e temas instrumentais de Edu Lobo (expoente da canção brasileira que, vale lembrar, sempre dedicou parte de sua obra à música sem palavras), como o vibrante “Casa Forte” e o cinematográfico “Arpoador”. Já nos números finais, o próprio Edu entrou em cena para cantar algumas de suas obras primas, como "Choro Bandido", "A História de Lily Braun" (parcerias com Chico Buarque) e “Vento Bravo”. (veja os vídeos abaixo)

 
                      Zeca Assumpção (esq. para dir.), Mauro Senise e Edu Lobo/ Photo by Carlos Calado

Só pelo inusitado baile-show planejado para a sexta-feira, esse festival já teria sido um sucesso. A noite começou muito bem, com a apresentação do Clube do Balanço. Comandada pelo guitarrista Marco Mattoli, a banda paulista fez a alegria dos dançarinos mais experientes, tocando uma seleção instrumental de clássicos do samba-rock e do sambalanço, incluindo inusitadas versões do mambo “Tequila” e da jazzística “Café Reggio” (da trilha do filme “Shaft”).

No bis exigido pela plateia, veio uma surpresa: a “canja” do cantor e compositor carioca Orlandivo (que foi crooner da banda do tecladista Ed Lincoln, homenageado da noite), relembrando com a devida malemolência seu clássico “Palladium”.


                                          O guitarrista Marco Mattoli e o cantor Orlandivo / Photo by Carlos Calado

O retorno do tecladista e arranjador Lincoln Olivetti aos palcos cariocas, em seguida, não poderia ter sido mais festivo. As presenças de Jorge Benjor, Fernanda Abreu, Marisa Monte, Daúde, Charles Gavin e Ronaldo Bastos, na plateia, deram uma medida do frisson causado pelo evento.

Sorrindo, ao lado de músicos jovens, como o tecladista Donatinho, o guitarrista Davi Moraes e o baixista Kassin, além de um afiado naipe de sopros, Olivetti relembrou sucessos de sua parceria com o guitarrista Robson Jorge, como “Eva”, “Ginga” e “Aleluia”, reconhecidos de cara pela plateia. Também fez seu tributo a Ed Lincoln, recriando o sambalanço “Palladium”, exibiu um sensacional arranjo de “Spinning Wheel” (hit da banda Blood, Sweat & Tears), em ritmo de samba, e só conseguiu sair do palco depois de bisar três números.


                         Davi Moraes e Donatinho cumprimentam Lincoln Olivetti / Photo by Carlos Calado

Os sorrisos do baixista Luiz Alves, deliciando-se com as surpresas contidas na original “Flying to L.A.”, composição de Arthur Verocai, repetiram-se nos rostos de muita gente, na plateia da terceira e última noite do CopaFest. Alguns, provavelmente, estavam ali ouvindo pela primeira vez a música desse veterano guitarrista e arranjador carioca, que ainda poucos brasileiros conhecem.

“Nunca fiz um show como este aqui no Rio, aqui na minha terra”, disse Verocai, emocionado, tendo a seu lado uma banda repleta de grandes instrumentistas, como o baterista Pascoal Meirelles e os saxofonistas Nivaldo Ornelas e Idriss Boudrioua. Depois de deliciar a plateia com belezas instrumentais de sua autoria, como “Sucuri”, “Balada 45” e “Tudo de Bom”, além de homenagear Copacabana, bairro onde nasceu, com o sinuoso samba “Posto 6”, o compositor ainda chamou ao palco Daíra Sabóia, Clarisse Grova e Sanny Alves, para cantar “Na Boca do Sol”.



                                                    O percussionista Airto Moreira / Photo by Carlos Calado
Figura rara em palcos do país desde o final da década de 60, quando se radicou nos EUA, o percussionista Airto Moreira começou seu show com garra. Relembrou a beleza selvagem de “Lilia” – composição de Milton Nascimento, lançada no cultuado álbum “Native Dancer” (1972), em parceria com o jazzista Wayne Shorter – de cuja gravação original participou.

Pena que a participação da banda Eyedentity, que destaca a cantora Diana Booker (filha de Airto e Flora Purim) e seu marido, o também percussionista Krishna Booker, tenha ficado muito aquém do talento do grande mestre da percussão mundial. Misturando hip hop, baião, rock, trip hop e outras referências musicais, em seus improvisos, essa banda californiana exibiu um som híbrido e viajandão que, ironicamente, carece de identidade.

Um final meio morno para um festival que tem sabido explorar com sucesso toda a riqueza e a diversidade da música instrumental brasileira – sem radicalismo.

(texto parcialmente publicado na “Folha de S. Paulo”, em 24/10/2011)






Lincoln Olivetti: arranjador de sucessos da MPB volta com músicos da nova geração

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                                                          Lincoln Olivetti, com Donatinho (ao fundo), no 4º CopaFest

Muitos não o reconhecem, mas na certa já ouviram seus arranjos para trilhas sonoras de novelas de grande sucesso na TV, como “Baila Comigo” (1981) e “Dancin’ Days” (1978), ou para gravações de astros de diversas vertentes da música brasileira. Hoje Lincoln Olivetti traz no rosto as marcas dos altos e baixos da fama. A barba e os cabelos totalmente brancos soam incompatíveis com seus 57 anos de idade.

A imagem de excêntrico e recluso, que já vem da década de 1980, não é gratuita. Seu estúdio de gravação, na casa onde vive, no alto de um morro na estrada do Joá, no Rio de Janeiro, é sombrio como uma caverna. Olivetti falou à Folha, na noite da última quinta-feira, minutos depois de acordar, porque costuma trabalhar só depois que o sol se põe. “Gosto de ficar em casa, trabalhando, produzindo. Nunca dei valor a festas ou eventos, não sinto falta alguma disso”, afirma.

Acusado de ter “pasteurizado” a MPB com arranjos que criou durante a década de 1980, para sucessos de Gal Costa, Tim Maia, Jorge Ben, Emilio Santiago, Maria Bethânia, Marina Lima e Rita Lee, entre muitos outros intérpretes, Olivetti diz que não tinha tempo para se preocupar com essas críticas. “O fato de eu não dar entrevistas, como se esnobasse a imprensa, criou essa antipatia, mas eu não ligava para isso. Na verdade, liguei o foda-se. Tinha trabalho demais para fazer”. 

Não ter o hábito de ler jornais, segundo ele, também contribuiu para que as críticas não o incomodassem tanto. “No começo, até gostei. Achei que aquelas críticas funcionaram de maneira positiva, porque passaram a falar mais de mim. Não esquento com o passado”, diz o tecladista e compositor fluminense, nascido em Nilópolis, que acaba de retornar aos palcos, acompanhado por músicos da nova geração, como o tecladista Donatinho, o guitarrista Davi Moraes e o baixista e produtor Kassin. Seu show foi uma das atrações da quarta edição do CopaFest, onde reviveu os bailes de subúrbio que começou a fazer ainda na adolescência.  (veja os videos abaixo)

Hoje, afinal, ele se defende. “Me acusaram de pasteurizar a música brasileira, mas eu fazia exatamente o contrário disso. Para mim, cada arranjo tem que ser diferente do outro. Quando o (produtor Marco) Mazzola me pediu um arranjo para a Elba Ramalho, na mesma linha de ‘Festa no Interior’ (grande sucesso de Gal Costa, em 1981), fiz o arranjo de ‘Banho de Cheiro’, que é totalmente diferente. Sempre busquei derrubar as expectativas dos produtores, mas são eles que dão a forma final a uma gravação”.

Olivetti rebate também a repetida versão de que, nos anos 1990, após o bombardeio crítico que sofreu durante a década anterior, teria sido praticamente alijado da indústria do disco, até retornar à cena por meio de colaborações para discos de Ed Motta e Lulu Santos. “Esse papo de ostracismo não existe. Nunca deixei de trabalhar. Mesmo quando as gravadoras diminuíram suas produções, continuei fazendo muitos trabalhos independentes”, afirma.

                                                                         Lincoln Olivetti, em seu estúdio, no Rio

Ao pedido de que enumere um “top five” de seus trabalhos favoritos, ele chega a mencionar os arranjos que escreveu para o álbum “Realce” (1979), de Gilberto Gil, e “Fantasia” (1981), de Gal Costa, assim como a canção “Amor Perfeito” (da qual é co-autor com Michael Sullivan, Paulo Massadas e Robson Jorge), gravada por Roberto Carlos, mas desiste de completar a lista. “É difícil escolher um top five, porque o prazer que eu tenho ao ver o resultado final de um arranjo é quase sempre igual. Para mim, um arranjo é tão importante quanto o outro”, justifica.

Pela mesma razão, Olivetti diz também que jamais recusa uma encomenda de arranjo, mesmo que não se identifique com o estilo musical do intérprete. “Se você é profissional tem que saber fazer qualquer música soar bem. Para mim, ao fazer um arranjo, um artista que está começando hoje é tão importante quanto o Roberto Carlos. Nessa hora, não tem ídolo. E quanto menos pronta a música chega pra mim, maior é o desafio de conseguir que ela soe bem”.

Esse não foi o caso do arranjo de “Festa no Interior”, um de seus trabalhos mais populares entre o grande público, na década de 1980. “O Moraes (Moreira) já me entregou essa música com aquela frase, bem mastigada, que usei logo no início do arranjo. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que aquela frase é dele”, reconhece Olivetti, revelando humildade ao creditar ao compositor parte da eficácia de seu inventivo arranjo, que remete ao fraseado das bandinhas interioranas de coreto.

Trinta anos após ter lançado seu cultuado álbum com o guitarrista Robson Jorge (1954-1993), que reuniu hits televisivos da dupla, como “Prêt-à-Porter”, “Squash” e “Eva”, Olivetti ainda demonstra emoção ao falar sobre o ex-parceiro. “O Robson abriu minha cabeça para muitas coisas, e eu abri a dele. Nossa sintonia era total. No início, ele não lia música, mas acabou até escrevendo. Era muito bom trabalhar com ele”.

Admite que já pensou na possibilidade de reunir sua dispersa obra musical numa caixa de CDs ou algo semelhante, mas acabou desistindo de utilizar esse formato, num projeto pessoal que pretende lançar em breve. “Posso até incluir novos arranjos para algumas músicas que deram certo, mas quero mostrar composições inéditas, principalmente. Eu penso mais no futuro”, diz, indeciso quanto à mídia que usará. “Não sei ainda. Talvez eu só lance essas faixas pela internet”.

Sobre sua produção mais recente, Olivetti menciona o arranjo que fez para a cantora Ana Carolina (“Problemas”), veiculada na trilha sonora da novela “Fina Estampa”, ou as vinhetas musicais que criou para a entrega do Prêmio Multishow. “Tenho feito arranjos para vários artistas, mas ainda é cedo para falar sobre esses trabalhos”, esquiva-se. Já o orgulho por trabalhar há alguns anos com Alê Siqueira e Kassin, talentosos produtores da nova geração, ele não esconde. “Eu me sinto muito bem ao lado deles, porque eles são futuristas como eu”.
(entrevista parcialmente publicada na “Folha de S. Paulo”, em 24/10/11)




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4º CopaFest: evento terá Airto Moreira e baile com Lincoln Olivetti e Clube do Balanço

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Festival voltado à diversidade da música instrumental, o CopaFest surpreende ao anunciar o programa de sua quarta edição (de 20 a 22 deste mês), no palco do Copacabana Palace Hotel, no Rio de Janeiro. O elenco reúne, mais uma vez, grandes músicos desse gênero, como na noite de estreia, na qual o pianista Gilson Peranzzetta e o saxofonista Mauro Senise vão reler composições de Edu Lobo (à esquerda, na foto acima, com Senise e Peranzzetta), que fará uma participação especial durante esse show. 


Para a sexta-feira (21/10), os curadores Bernardo Vilhena e Carol Rosman prepararam uma noite inusitada, com um baile ao estilo dos anos 60 e 70. A animação e os grooves ficarão por conta de especialistas nessa modalidade: a banda paulista Clube do Balanço, que vai exibir versões instrumentais de itens de seu repertório dançante, misturando samba-rock, jazz, soul e funk; e o tecladista fluminense Lincoln Olivetti, arranjador muito influente na MPB dos anos 1980, que fará uma homenagem ao organista Ed Lincoln.

Dois cultuados veteranos de nossa música instrumental encerram o evento, no sábado (22/10). Depois de ter feito arranjos para vários astros da MPB, como Elis Regina, Marcos Valle e Ivan Lins, o músico e compositor carioca Arthur Verocai praticamente sumiu da cena musical por três décadas, até ser redescoberto por DJs estrangeiros. Quem fecha essa noite é o percussionista e compositor catarinense Airto Moreira (na foto abaixo), ex-integrante do lendário Quarteto Novo e parceiro de Miles Davis, Herbie Hancock e Wayne Shorter, entre outros expoentes do jazz. 

Nos três dias do CopaFest, os DJs Tuta e Pedro, do coletivo Vinil É Arte, prometem animar a plateia, tocando seleções especiais que incluem pérolas da música instrumental brasileira de acordo com as atrações de cada noite, sempre a partir das 20h.


Mais informações no site do evento: www.copafest.com.br                                                                                                                                                                   Ph

Ron Carter: a elegância de um contrabaixista presente em discos de vários gêneros

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Não é apenas nas capas de discos que ele, sempre muito bem vestido, costuma exibir sua classe e sobriedade. Basta ouvir Ron Carter dedilhar seu baixo acústico, em palcos pelo mundo afora ou em milhares de gravações que já fez ao longo de cinco décadas de carreira profissional, para se perceber porque o nome desse conceituado jazzista americano, hoje com 74 anos, tornou-se praticamente uma marca de elegância e competência musical.

Isso explica o fato de tantos produtores, cantores e grupos de outros gêneros musicais - do soul de Roberta Flack ao rock do Jefferson Airplane, da bossa nova de Tom Jobim ao hip hop da banda A Tribe Called Quest - terem convocado Carter para gravar seus discos. Desde suas primeiras sessões de estúdio, no fim da década de 1950, o músico já participou de mais de duas mil gravações - números que o inserem entre os contrabaixistas mais onipresentes na história da indústria musical.

"Às vezes eu me surpreendo com o fato de artistas e bandas famosas saberem que eu ainda estou vivo", diz ele, com um bem humorado toque de humildade. "Toda vez que músicos como Paul Simon ou Aretha Franklin me chamam para participar de seus projetos, eu me sinto muito agradecido. É ótimo saber que James Brown ou a banda Kiss, para a qual gravei com um naipe de cordas, pensaram que eu poderia contribuir para que seus projetos musicais fossem bem sucedidos."

Nem é preciso perguntar a ele de quais gravações ou projetos mais se orgulha. Em qualquer lista confiável de obras-primas do jazz não podem faltar álbuns como "My Funny Valentine" (1964), "E.S.P." (1965), "Miles Smiles" (1966) ou "Nefertiti" (1967), que Carter gravou durante os cinco anos em que tocou com o trompetista Miles Davis (1926-1991). É justamente para homenagear seu ex-parceiro, morto 20 anos atrás, que ele fará uma breve temporada de shows em São Paulo, de 21 a 23 deste mês, no teatro do Sesc Pinheiros.

"Sabíamos que estávamos criando algo diferente do que todos os outros músicos faziam naquele momento, mas ainda não tínhamos ideia do nível (de qualidade) daquela música", diz Carter, referindo-se ao cultuado quinteto de Davis, que entre 1963 e 1968 incluiu também o saxofonista Wayne Shorter, o pianista Herbie Hancock e o baterista Tony Williams. Esse grupo é considerado até hoje um dos mais inventivos na história desse gênero musical. (veja o video abaixo)

Como se sabe, o inquieto Davis não era uma pessoa muito fácil de lidar, mas o temperamento sensato e tranquilo de Carter contribuiu para que fosse escolhido pelo trompetista como seu interlocutor favorito no grupo. "Jamais tive algum tipo de problema com Miles, que sempre foi um bom amigo. Eu adorava tocar com ele e, com certeza, todos sentiam um enorme prazer em tocar naquele quinteto", elogia o contrabaixista, referindo-se ao ex-parceiro como um mestre.

"Tivemos muita sorte ao sermos escolhidos para tocar com um músico tão especial. Miles foi capaz de perceber que poderíamos levar sua música na direção que ele desejasse", comenta Carter, destacando o sentido de aventura que o líder imprimia às improvisações do quinteto. "Simplesmente nos encontrávamos para tocar, todas as noites, sem saber ao certo que caminho aquela música tomaria. Tocar com Miles foi um dos grandes prazeres de minha carreira."

No entanto, quase ao fim da década de 1960, num cenário em que o jazz passou a perder espaço para o rock e a música pop, Miles pressentiu que chegara o momento de mudar mais uma vez, de assumir novos riscos. Quando decidiu enfrentar os concorrentes com suas próprias armas, aderindo à eletrificação das guitarras e dos teclados, tornou-se um dos pioneiros na criação de uma híbrida vertente do jazz, que veio a ser conhecida como jazz-rock ou, simplesmente, "fusion".

Os parceiros do trompetista não pensaram duas vezes antes de segui-lo, exceto Carter, que preferiu deixar o grupo. "Aquele tipo de música não me interessava. Não havia nela algo que eu sentisse que poderia contribuir para eu me tornar um músico melhor", diz. "Em segundo lugar, a banda de Miles estava viajando muito e, depois de passar cinco anos na estrada, achei que já estava na hora de ficar mais em casa, para ver meus filhos crescerem. Além disso, já havia muitas sessões de gravação em Nova York, onde eu teria a chance de ganhar a vida, ficando ao lado de minha família."

Elogiados álbuns como "Uptown Conversation" (1969) e "All Blues" (1973) marcaram os primeiros anos da carreira individual de Carter, que desde então tocou e gravou com quase todos os grandes músicos da cena do jazz. Também pôde se dedicar mais à música clássica, que orientou sua formação na Eastman School of Music - conceituado conservatório de Rochester, no Estado de Nova York. Vale lembrar, aliás, que seu primeiro instrumento foi o cello, o qual ainda toca às vezes. Diferentemente da maioria dos baixistas, que se limitam a marcar o ritmo com notas básicas, ele é um solista criativo, que usa esse instrumento para improvisar.

Carter, que tem se apresentado no Brasil com relativa frequência durante as últimas décadas, vai tocar desta vez com o Foursight, quarteto que destaca a talentosa pianista Renée Rosnes, além do baterista Payton Crossley, que o acompanha desde a década de 90, e do percussionista Rolando Morales-Matos. O repertório será centrado em seu álbum "Dear Miles" (2007), que inclui standards da canção americana, como "My Funny Valentine" e "Bye Bye Blackbird", cujas interpretações de Miles Davis, nas décadas de 1950 e 1960, tornaram-se clássicas.

Apreciador da música brasileira, à qual dedicou o álbum "Orfeu" (1999), além das gravações que já fez com Tom Jobim, Astrud Gilberto, Hermeto Pascoal, Flora Purim, Guilherme Vergueiro e Rosa Passos, entre outros, Carter diz que está sempre aberto a ideias que o envolvam novamente com os ritmos brasileiros. "Se alguém do Brasil ligar para mim agora, querendo que eu contribua com seu projeto, ficarei muito feliz se puder participar."

Cada músico tem uma definição pessoal para o jazz e Carter não foge à norma. "Essa é a música que eu sempre quis tocar. O jazz permitiu que eu pudesse participar de muitos trabalhos, nesses anos todos, tocando com pessoas das quais acabei me tornando amigo. É um privilégio poder tocar boa música todas as noites", conclui o elegante mestre do contrabaixo. 


(texto publicado no caderno Eu & Fim de Semana, do "Valor Econômico, em 14/10/2011)



Tributo: Instrumentistas mineiros homenageiam o crítico José Domingos Raffaelli

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                                                        O violonista Celso Moreira abraça Raffaelli

Uma  seleção de craques da música instrumental brasileira vai homenagear, no próximo dia 19 (quarta-feira, às 19h), o jornalista e crítico carioca José Domingos Raffaelli – um dos maiores experts em jazz e música instrumental do país.

No palco do SesiMinas, em Belo Horizonte, estarão Nivaldo Ornelas, Juarez Moreira, Célio Balona, Túlio Mourão, Celso Moreira, Esdra “Nenén” Ferreira, Chico Amaral, Cléber Alves, Paulo Braga, Kiko Continentino, Geraldo Vianna, André “Limão” Queiroz, Mauro Rodrigues, Enéias Xavier, Magno Alexandre, Cid Ornelas e Renato Saldanha, entre outros músicos mineiros. Com quase três horas previstas de duração, esse inédito concerto terá em seu programa composições instrumentais assinadas por esses músicos.

José Domingos Raffaelli, hoje com 75 anos, estreou como crítico musical no “Correio da Manhã”, na década de 1950. Escreveu sobre jazz e música instrumental no “Jornal do Brasil” e, posteriormente, em “O Globo”, além de colaborar com publicações estrangeiras e diversas emissoras de rádio. É autor do livro “Guia do Jazz em CD” (2002), em parceria com Luiz Orlando Carneiro.


  

Mário Sève e Cecilia Stanzione: parceria de brasileiro com argentina enriquece música do continente

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É animador notar que, nos últimos anos, vem aumentando o número de parcerias de músicos e cantores do Brasil com os de outros países latino-americanos. Quem mais ganha com isso são os brasileiros, que, em geral, ainda interagem pouco com a rica diversidade musical deste continente.

A parceria do saxofonista e arranjador Mário Sève (integrante dos grupos Nó em Pingo D’Água e Aquarela Carioca) com a cantora argentina Cecilia Stanzione começou em 2008, via internet. O primeiro álbum da dupla, "Canción Necesária" (lançamento Núcleo Contemporâneo) foi produzido por Sève e reúne belas composições de sua autoria, letradas em espanhol pela própria intérprete.


Da lírica “Una Milonga” à delicada bossa “Samba Errante”, cujo arranjo destaca o bandoneón de Martin Lima, a dupla mistura gêneros característicos da Argentina e do Brasil, como o tango, o chamamé, o choro e a modinha, sugerindo afinidades. A faixa “Justo Ahora” conta com participação do cantor Ney Matogrosso.


 (resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/9/2011)


Moksha Trio: música instrumental brasileira com ecos de vanguarda

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                                                              Lauro Lellis, Gilberto Ferri e Felipe Alvez

Integrante da banda do compositor e cantor Tom Zé há duas décadas, o baterista paulistano Lauro Lellis é o músico mais conhecido do Moksha Trio, que inclui o pianista Gilberto Ferri e o contrabaixista Felipe Alvez. O nome do grupo já antecipa sua concepção musical: em sânscrito, Moksha tem o sentido de soltura, de liberação. 

O repertório de “Introspection” (lançamento independente), álbum de estréia do Moksha Trio, inclui oito composições próprias, sete delas assinadas por Ferri. Temas como “Kronos” e “Introspecção” combinam influências melódico-harmônicas da música erudita contemporânea com a variedade rítmica afro-brasileira, sem dispensar a liberdade dos improvisos jazzísticos. Repleta de dissonâncias, “Fragmentos” (outra de Ferri) é uma sombria peça para piano solo. Já em “Idéias”, Lellis exibe sua técnica, num vibrante solo de bateria. Música instrumental brasileira com ecos de vanguarda.

(resenha publicada no “Guia Folha – Livros, Discos e Filmes”, em 30/9/2011)

Choro: três lançamentos que vão agradar os fãs desse gênero musical

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Gênero musical tipicamente brasileiro, o choro já enfrentou períodos de ostracismo em sua trajetória de um século e meio, mas segue ativo e criativo, contando hoje com uma nova safra de autores. É o que mostra o CD “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo” (lançamento Pôr do Som), com 16 composições inéditas de talentosos chorões de diferentes gerações.

Produzido por Yves Finzetto e Roberta Valente, percussionistas presentes em várias faixas, este álbum expõe em seu repertório a diversidade de estilos e influências que caracteriza o gênero: do gingado samba-choro “Lá Pelas 9” (de João Poleto) ao acelerado “Não Me Siga que Eu Não Sou Novela” (Zé Barbeiro); do seresteiro “Tocando pra Mariza” (Arnaldinho Silva) ao brejeiro “Do Coreto para Roberta” (Nailor Proveta). 


Esse elenco de compositores inclui outros brilhantes expoentes do choro de São Paulo, como os bandolinistas Danilo Brito e Izaías de Almeida, o acordeonista Toninho Ferragutti e o pianista Laércio de Freitas. Pena que eles não foram lembrados em “Nas Rodas do Choro”, documentário de 2009, lançado agora em DVD (pela gravadora Biscoito Fino), que focaliza apenas chorões do Rio de Janeiro e de Recife.  

O fato não desmerece o filme de Milena Sá, que não pretende traçar um panorama do gênero, mas sim mostrar como as rodas de choro têm uma função pedagógica. Por meio de depoimentos e números musicais de conhecidos chorões cariocas, como a cavaquinhista Luciana Rabello, o violonista Mauricio Carrilho ou o bandolinista Joel Nascimento, entre outros, esse documentário revela que as rodas de choro exercitam e divertem os participantes, assim como educam os músicos mais jovens. 

 
Para os apreciadores desse gênero, a compilação “Choro” (lançamento EMI) também é um lançamento precioso. Com pesquisa de Carlos Alberto Sion e texto do arranjador Henrique Cazes, esse CD duplo resgata gravações das décadas de 1950, 60 e 70, com virtuoses chorões, como o cavaquinhista Waldir Azevedo, o bandolinista Luperce Miranda ou o maestro Radamés Gnattali.
 

Faixas como “Bate Papo” (de Gnattali), em arranjo que destaca o saxofonista Zé Bodega, ou “Xeque-Mate” (do maestro Gaya), que traz Joel Nascimento como solista, surpreendem pela atualidade. Cazes não exagera ao dizer que esses arranjos poderiam ter sido escritos na semana passada. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", em 30/9/2011)

 

 

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