Mathilda Kóvak: compositora lança ópera-rock em livro para adolescentes

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Desde a década de 80, quando começou a chamar atenção como uma enfant terrible do pop nacional, Mathilda Kóvak compôs centenas de canções, algumas gravadas por Zeca Baleiro, Ed Motta, Fernanda Abreu, Pedro Luís, Rita Lee e Suely Mesquita, entre outros intérpretes. Nos últimos anos, além de ter escrito uma pequena biografia do compositor Lamartine Babo (1904-1963), dedicou-se mais à literatura infantil.

No próximo domingo (2/10), a compositora e escritora niteroiense lança – na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro – seu primeiro livro dirigido ao público adolescente: “A Maldição da Rainha do Rock” (Escrita Fina Edições). Nesta entrevista, ela comenta alguns de seus trabalhos musicais, critica a cena atual da MPB, justifica sua admiração pela inglesa Amy Winehouse e expõe as referências que inspiraram seu livro.


                                                A capa do quadrinista César Lobo
 
A história de seu novo livro, “A Maldição da Rainha do Rock”, me fez lembrar um filme que eu curti bastante, na década de 70, “O Fantasma do Paraíso” (Phantom of the Paradise, 1974). Dirigido pelo norte-americano Brian de Palma, ele transformou o romance “O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leroux, em uma divertida ópera-rock. Esse filme está entre as referências de seu livro? Pode falar sobre elas?
Mathilda Kóvak - Eu adoro "O Fantasma do Paraíso", que foi, sim, uma das referências para a criação deste livro. Eu vi esse filme, nos anos 70 mesmo, num cinema cheio de adoradores de rock’n’roll, no Rio de Janeiro, numa sessão da meia-noite. Esse filme e outras óperas-rock me inspiraram, porque, como digo no livro, ele é a primeira ópera-rock literária de todos os tempos. Eu me inspirei também em "Rock Horror Picture Show", que vi num cinema de Nova York, com todas aquelas pessoas singing along, reproduzindo o que se passava na tela. Eu me lembro que, na época, pensei que aquilo seria o cinema do futuro. Algo interativo. E, claro, me inspirei em "Hair", "Jesus Christ Superstar" e em musicais mais antigos, da Metro e de Fred Astaire. Eu adoro musicais também. E meu sonho sempre foi escrever libretos. De certo modo, este pequeno livro foi uma espécie de realização-mirim deste sonho, embora ele seja mesmo um romance destinado ao público adolescente. Mas um romance musical, de todo modo.

Você já trabalhou em publicidade e em rádio e TV, é compositora, letrista, cantora, humorista e roteirista, mas nos últimos anos tem se dedicado com mais frequência à literatura para crianças e adolescentes. Como você explica – se é que existe alguma lógica – essa sua trajetória no campo cultural? 

Mathilda - Não existe exatamente uma lógica, mas eu diria que existe um denominador comum a tudo o que criei em diferentes frentes, que é o meu estilo. Depois de mais de 30 anos de profissões, eu posso dizer que tenho uma marca-registrada, que meu texto pode ser identificado como de minha autoria, por quem quer que o leia, tanto faz se é uma letra, um roteiro, um livro, é a mesma narradora. Cantar foi só uma forma de tornar mais direta esta narrativa. Porém, eu ainda quero me aventurar em outros campos, como a ciência e, neste livro, de certo modo, eu me exercitei um pouquinho nisto, porque ele também tem elementos de science fiction. Eu tenho uma alma de cientista. Gosto de experimentar. E, de alguma maneira, transitar por diferentes canais de expressão, foi uma espécie de pesquisa científica para mim, uma vez que os espécimes que encontrei, neste longo e diversificado caminho, eram dignos de classificação em compêndios de biologia e congêneres (risos).
Escrever para crianças é uma atividade que me acompanha, desde 1989, ou seja, há 22 anos. Minha estreia na literatura para adolescentes vem justamente com este livro. Um convite da Laura Van Boekel, da Escrita Fina, que me conhecia da Rocco, onde editei um livro infantil, "A Caixa da Pandura". Eu recebi algumas encomendas, ao longo desses anos, para escrever para adolescentes, só que não conseguia porque achava isso muito limitado, ao contrário do que ocorre na literatura infantil, que é solta, livre e lúdica. Mas os adolescentes do século XXI se parecem comigo e, portanto, foi mais fácil entrar no universo deles. Enfim, fora minha atividade como jornalista, que você se esqueceu de mencionar (risos), nunca planejei uma carreira específica. Eu sempre fui respondendo a convites.
Eu acho que, por uma razão que eu não sei até hoje explicar, sempre fui considerada uma mulher inteligente e original, que ninguém sabia exatamente para que servia e, portanto, eu era convidada a realizar coisas em diferentes áreas, porque achavam que eu tinha algo a comunicar. Até hoje isto acontece. Eu recebo convites para escrever para teatro, ou mesmo para me apresentar num teatro, e eu pergunto: "Mas fazendo o quê?". E me respondem: "o que você quiser". Eu nunca fui do tipo que batalha por nada, porque sou muito preguiçosa. Eu respondo a estímulos. E assim eu vou experimentando minhas ideias, que independem do meio, para existir.
Talvez eu me aventure no teatro também. Mas quero fazer alguma coisa diferente do que já foi feito, porque esta é também minha marca registrada. Talvez por não ser uma especialista em nada, quando sou chamada a realizar algo, eu faço diferente, mais por incompetência, do que propriamente por compromisso com a originalidade (risos). Fui chamada recentemente, por uma curadora de artes plásticas, para fazer uma exposição num centro cultural em SP. Eu tive a ideia de fazer uma exposição sobre mim mesma intitulada: "Mathilda Kóvak, a obra póstuma de uma artista viva". Eu tenho 52 anos, e acho que até hoje existem pessoas que pensam que eu sirvo para alguma coisa, mas não sabem exatamente o quê. Eu mesma me considero apenas uma boa redatora.

 
Não sei se você concorda, mas me parece que no cinema norte-americano das últimas décadas é marcante uma tendência à infantilização do espectador. Não é à toa que a maioria dos filmes de hoje produzidos em Hollywood, muitos calcados em super-heróis e histórias para crianças, parecem ser feitos para que as famílias possam ir com os filhos ao cinema. Obviamente, para que tantos os adultos como os adolescentes e crianças apreciem o mesmo filme, a solução é rebaixar, infantilizar o conteúdo. Como você vê essa questão? É a indústria que tenta transformar o público em criança, fazendo filmes feitos para serem vistos com um balde de pipoca e um barril de refrigerante na mão? Ou o ser humano que estaria sofrendo de uma espécie de síndrome de Benjamin Button?  

Mathilda - Na verdade, quando a indústria do entretenimento descobriu que existia um segmento adolescente, há mais ou menos 30 anos, que era capaz de consumir, em doses industriais, tudo o que fosse destinado a ele, começou a investir nele, maciça e massivamente. Este fenômeno veio acompanhado de pesquisas de marketing, que sempre existiram, mas que, ao se voltar para um público ainda em formação, tornaram a indústria ainda mais servil. Em vez de trazer conhecimento a este público, a indústria de massa começou a buscar nele elementos que pudessem atraí-lo. De certo modo, isto não apenas infantilizou o público, em geral, como contribuiu para a imbecilização dos adolescentes. Mas a sociedade norte-americana, berço dessa indústria, sempre teve uma tendência ao brinquedo, à infância eterna. Americanos não gostam de pensar na morte e, por esta razão, vivem uma infância de muitas décadas, como se pudessem adiar a finitude, recusando-se a crescer. Isto não é novidade. Peter Pan tem quase um século de existência.
O que é mais recente é o fato de que a indústria do cinema, principalmente, tenha se voltado para um único público, praticamente, ignorando o resto. Talvez porque este público de pais já tenha sido parte do início deste processo. Eu me lembro que, nos anos 70, quando eu era adolescente, a indústria começou a ensaiar os primeiros passos neste sentido. Eu fui uma adolescente que lia Dostoievsky, Tolstoi, Kafka, Thomas Mann e via filmes de Bergman, Fellini, os filmes noir da década de 40, enfim, eu não era exatamente uma adolescente típica de uma cidade balneária. Creio mesmo que ainda não existisse esta ideia de se criar algo exclusivamente destinado ao público adolescente, a não ser por um outro filme ou livro, que não tinham maior expressão. Mesmo o adolescente mais imbecil, da minha época, tinha uma certa cultura. Acho que foram Spielberg, George Lucas e derivados, que começaram com a teenmania. Porém, é interessante notar que agora, ainda que exista um público adolescente, que consuma produtos como "Crepúsculo," existe um outro público paralelo, surgindo talvez em virtude do aparecimento da internet, que funciona um pouco como máquina do tempo, e este segmento é mais criativo e exigente.
O meu livro foi construído a partir de pesquisas, junto a estes adolescentes, em seus blogs, no convívio com eles. Para ser sincera, eu tive que reescrever o livro todo, depois desta pesquisa, porque ele estava muito bobo antes. Existem adolescentes no século XXI, que andam colocando adultos no chinelo, em termos de conhecimento e criatividade. Digo, sem nenhuma demagogia, ou teenagogia, que aprendi muito com esses adolescentes e espero aprender muito mais. E acho mesmo que esta subserviência teen não vai durar muito tempo ainda, porque os adolescentes mesmos vão se tornar cada vez mais exigentes, com o que andam assimilando na internet. Estou quase convencida de que toda esta produção infantilizada atingiu o seu paroxismo e que, a partir de agora, vai começar a declinar. O Benjamin Button, por sua vez, veja você, foi escrito pelo Fitzgerald, na era do jazz. O filme já é uma infantilização do conto, que, aliás, não tem absolutamente nada a ver com o filme. Eu não sei se o ser humano está sofrendo de uma síndrome de Benjamin Button, mas os produtores de cinema de Hollywood certamente estão. E estão se ferrando por isto. As séries norte-americanas que apostam em temáticas mais adultas são muito mais bem-sucedidas do que os filmes. Ainda assim, acho que é possível criar para adolescentes, sem cair no tatibitati.

No final da década de 90, ao cobrir o New Orleans Jazz & Heritage Festival, na Louisiana (EUA), tive o prazer de conhecer e entrevistar Katrina Geenen, cantora e produtora de rádio, que lançou em 2001 o álbum “High & Low”, interpretando 11 canções de sua autoria – algumas em versões bem jazzísticas. Como foi essa experiência com ela?  

Mathilda - A Katrina é uma das maiores cantores e artistas que conheço. Ela tem uma voz que não se parece com a voz de nenhuma outra cantora e um jeito de interpretar muito particular também. Foi algo realmente mágico este nosso encontro. Ela queria gravar um cd e não achava um repertório inédito com o qual se identificasse e, um dia, na casa de Rita Peixoto, uma excelente cantora brasileira, ela ouviu algumas músicas de minha autoria compostas originalmente em inglês, e quis fazer um disco inteiro só com composições minhas. Eu, por minha vez, procurava uma intérprete de língua inglesa para essas canções. Assim, ela convidou o Paulo Baiano, que havia produzido o meu CD, e fez um songbook de minha obra anglófona (risos). O CD foi muito bem acolhido pela crítica, em New Orleans. Fui comparada a Derrida e louvada como uma letrista do padrão de um Cole Porter. Eu fiquei bastante envaidecida, claro, com os elogios, e acho mesmo que minhas letras em inglês são superiores às em português, porque, como meu vocabulário em inglês é menor, eu escolho as palavras certas e tenho mais poder de síntese. Além disto, minha formação foi constituída através de canções em inglês, muito mais do que em português, porque sou uma fanática pela música americana, de todo o século XX.
 
Conheci seu trabalho musical em 1990, na época em que você era a líder da banda pop Os Mathildas, de breve duração. Com todo esse revival de bandas dos anos 70 e 80, vocês já pensaram em rearticular os Mathildas?  

Mathilda – (risos) Bom, eu até que gostaria muito de reunir o Mathildas, mas dois de seus integrantes moram, há 18 anos, nos Estados Unidos. O que fiz foi reunir, com o Pedro Montagna, baixista da banda, e um dos donos da Livraria da Travessa, onde farei o lançamento do livro, várias gravações da banda, que somam mais de 40 canções. A ideia é masterizar e lançar num CD. O trabalho com Mathildas é um dos que mais gosto. Eu até hoje, quando o ouço, acho que antecipamos muita coisa. Esta banda teve excelente acolhida da crítica, tanto no Rio, quanto em São Paulo e Belo Horizonte. Chegamos a ter um contrato com a WEA. Nunca vou me esquecer da cara do Liminha, quando ele ouviu a gravação de "Com a Macaca", a música de trabalho, no estúdio Nas Nuvens. Ele ouviu, perplexo, e disse: "Nossa, muito doido. Muito bom. Não se parece com nada que eu já tenha ouvido antes". E realmente não se parecia (risos). E sabe o que era o ritmo que intrigou o produtor? Um exercício de baixo, sobre o qual eu coloquei uma letra, criada por mim e pela Patricia Wuillaume, tecladista da banda, durante a projeção do filme do Caetano Veloso, no Fest Rio. O Arthur Omar, que tinha sido meu professor de cinema, se levantou na sala de projeção e gritou: "Esse filme é uma merda". Eu disse, então, para a Patrícia: "Nossa, ele tá com a macaca". Aí a gente fez a letra, ali mesmo, com as pessoas ao lado, fazendo: "psiu, psiu." Mas o filme era muito chato e a gente se distraiu inventando uma letra.

Como você encara a cena musical de hoje no Brasil? É uma época criativa?  

Mathilda - Se você pensar em mainstream, é, sem dúvida, a pior época da música no Brasil. Mas o circuito alternativo apresenta trabalhos bons e criativos, como o trio Sinamantes, da minha parceira Natalia Mallo, a Claudia Dorei, ambas de SP, ou bandas de rock´n roll formada por meninas, como algumas que participaram do CD “Mrs. Lennon”, em homenagem a Yoko Ono, no qual fiz uma faixa. Há também bandas de adolescentes muito interessantes aparecendo. Eu conheci um músico de Niterói, de 17 anos, que me deixou muito impressionada. Ele se chama Caio Mazur. Suas letras se parecem muito com as letras do Mathildas. Falam de morte, suicídio e outros temas pesados, com bom humor. O Theo Cunha, que tem 15 anos, também é uma promessa da música, para mim. Ele, aliás, inspirou um dos personagens do livro. Existe também um menino, que eu conheci, quando ele tinha 12 anos, o Diogo Strausz, que hoje tem 21 anos e é um guitarrista fenomenal de rock. E já ouvi falar muito bem de bandas de rock’n’roll, que andam aparecendo na periferia de SP. Acho que a internet trará à tona muita gente criativa na música de todos os lugares.
Agora, essa chatice de MPB, com cantoras que primam pela sensaboria, ou fórmulas reeditadas há quatro décadas, realmente, é insuportável. Acho que a última leva de gente criativa, na música brasileira, veio mesmo com o rock dos anos 80 e se estendeu ao início dos 90, com bandas como a minha, Mulheres Negras, Luni e similares. O que veio depois foi um decalque da Tropicália, do qual eu fiz parte também com o Retropicália, O Ovo e Bolsa Nova, cujos integrantes, com raras exceções, caíram na mesmice. O problema do Brasil é que se criam, desde os anos 60, uns feudos, umas glebas, que contribuem para o afunilamento do mercado. Por fim, a atitude desses artistas, que não querem largar o osso, acaba por ser burra, porque o mercado se empobreceu de uma tal forma, que eles mesmos, o senhores feudais do nosso cancioneiro, estão sofrendo os prejuízos. A concorrência é a alma do bom negócio. Se você não tem desafios, se você é hegemônico, você não cresce como artista. E o mercado, por sua vez, também passa a sofrer de nanismo artístico.


Quem acompanha suas intervenções no Facebook sabe que você é fã ardorosa de Amy Winehouse. Sei também que você gosta de jazz e blues. O que você tem ouvido de bom nos últimos tempos?   

Mathilda - Eu acompanho este seu blog e pesquiso suas indicações, porque você sempre indica boas novidades, no jazz e no blues. A Amy Winehouse foi realmente a única cantora que me sensibilizou nos últimos anos. Não apenas por ser uma intérprete fantástica e uma compositora genial, mas por sua atitude iconoclasta. Eu realmente achei, quando ela ganhou todos aqueles Grammys, que iria haver uma guinada no mercado, saturado de Madonnas e seus carbonos. A Madonna deu início à saga das cantoras-executivas, das agências de publicidade cantantes, das marqueteiras. Nunca foi uma artista de verdade. Quando a Amy surgiu, eu e muita gente pensamos: "Até que enfim".
Sinceramente, eu custo a crer que ela tenha cumprido esta sina dos 27 anos. Chego a pensar mesmo numa armação de gravadora ou algo parecido. Era muito óbvio. Dizem que ela deixou 30 gravações inéditas. A julgar pela que saiu no CD do Tony Bennett, e pelo que eu vi aqui, no show dela, ainda teremos material de Amy Winehouse muito superior ao de qualquer outra cantora branca contemporânea. Digo branca, porque não dá pra concorrer com as cantoras negras, que são as melhores de todas. Mas Amy Winehouse tinha alma negra e parecia receber mesmo o espírito de divas do soul e do jazz. E, de qualquer maneira, ela era ainda uma compositora extraordinária, com letras extremamente pessoais e uma musicalidade infinita. Ela me comove, me emociona muito.
Agora, eu ando com mania também de ouvir Kate Bush. Na era punk, de onde vim, eu tinha que esconder que gostava dela. Hoje em dia, os fãs de Kate Bush saíram do armário, inclusive, o sex pistol John Lydon. Ela é uma compositora muito original e uma cantora que também tem uma personalidade singular. Tenho ouvido o CD “Red Shoes”, que já é antigo, mas que comprei recentemente. Tenho ouvido bastante também o Saara Saara, uma banda independente liderada por um artista muito criativo, Servio Tulio, que também tem um trabalho muito interessante, chamado Kabarett Berlin. Ouço também, na Rádio Roquete Pinto FM, na internet, o programa “Geléia Moderna”, que sempre apresenta uma infinidade de gente boa do mundo todo, de que infelizmente não tenho mais cabeça para decorar os nomes. E ouço bastante música clássica, na rádio MEC FM. E ouço algumas rádios da internet, quando me mandam links. Eu recebo indicações musicais muito boas, tanto contemporâneas, quanto antigas, mas pouco conhecidas, via internet.
Eu perdi a vontade de fazer música, porque, mesmo que eu ficasse 24 horas por dia, só ouvindo música, eu não conseguiria ouvir tudo de bom que é ou foi produzido no mundo. Apesar de o mercado, sobretudo no Brasil, ter se estagnado, a música está aí, na internet, pra quem quiser ouvir, e de graça. Eu acho isso maravilhoso. E tenho muito orgulho de ter tido uma de minhas canções, "Resurrection", numa lista das mais baixadas da internet. Meu CD, "Mahatmathilda, a Evolução de Minha Espécie", também foi pirateado nos quatro cantos do mundo. Meu primo entrou numa loja, que ele me disse ser a mais chique de Barcelona, e deu de cara com uma edição pirata do meu CD. Eu acho tudo isto uma insurreição. Adoro ser contrabandeada deste jeito. Acho muito melhor do que ser roubada por uma gravadora major, ou pelo ECAD, e ainda tenho planos de criar um site para disponibilizar todas as mais de 700 canções que compus, para quem quiser baixar. Por mim, a arte seria distribuída de graça e os artistas seriam bancados por fundações. Talvez estejamos caminhando para isto. Como disse Nietzsche, tem que haver o caos para que dele surja uma fulgurante bailarina.




Farofa Moderna: minha entrevista ao blog do músico Vagner Pitta

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                             O músico e blogueiro Vagner Pitta (à direita), com o jazzista Jason Moran


Neste link, uma extensa entrevista que dei, nesta semana, ao Farofa Moderna (um dos sites e blogs de música que tenho recomendado aqui), conduzido com profissionalismo e paixão pelo músico e jazzmaníaco Vagner Pitta. Falamos sobre movimentos na música brasileira, festivais de jazz, black music e a decadência da crítica no jornalismo cultural brasileiro.

Swami Jr.: violonista une elegância e virtuosismo em arranjos encantadores

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Quando recebeu o convite para participar de uma gravação da cantora cubana Omara Portuondo, em 2003, Swami Jr. nem poderia imaginar que estava prestes a iniciar uma longa e intensa viagem musical. Nos sete anos seguintes, acompanhou a mundialmente conhecida diva da trupe Buena Vista Social Club por diversos países, como diretor musical e violonista. Durante essas turnês, as horas solitárias nos quartos de hotéis o estimularam a criar composições e arranjos que surgem agora no álbum “Mundos e Fundos” (lançamento Borandá), trabalho que o consolida como um dos instrumentistas mais versáteis e criativos na cena musical de hoje. (ouça duas faixas nos videos abaixo)

“Anos atrás, li uma frase do escritor francês Balzac que ficou em minha cabeça: ‘Uma obra de arte deve conter vários mundos’. Por volta de 2008, quando notei que já tinha várias composições nascidas em diversos lugares, durante as turnês que fiz com a Omara, pensei que elas poderiam resultar em um disco interessante”, comenta o músico, que decidiu intitulá-lo com uma expressão popular. “Mundos e fundos quer dizer ‘tudo’, ‘muito’. Acho esse título poético. E tem a ver com a ideia de a arte conter vários mundos”, explica.


Quem acompanha a carreira desse brilhante violonista, baixista, arranjador e produtor, nascido em São Paulo, sabe que mundos musicais aparentemente separados, como o do choro, o da MPB ou o do jazz, convivem há muito tempo em sua obra. Em três décadas de carreira profissional, Swami já tocou choro com a banda Xoro Roxo; forró, samba e outros ritmos dançantes brasileiros com a banda Mexe com Tudo. Acompanhou cantores e compositores de MPB, como Ná Ozzetti, Virgínia Rosa, Chico César e Zé Miguel Wisnik. Tocou jazz e releituras de clássicos da música brasileira com a cantora Luciana Souza e com os guitarristas Chico Pinheiro e Anthony Wilson.


“Viver na França durante quatro anos foi uma experiência que abriu minha cabeça”, ele conta, referindo-se ao período em que morou em Paris, no início da década de 1980, quando era integrante do Xoro Roxo. “No início, só tocávamos choro, mas, com o tempo, abrimos o repertório com Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Dominguinhos. O choro foi uma escola muito importante para mim, uma viagem profunda, mas eu não queria ficar apenas ali. Fui ouvir jazz, música africana, muitas orquestras. Ao voltar ao Brasil, fiz trabalhos que refletiram as experiências que vivi na Europa”.


Nada mais natural, portanto, que Swami abra o álbum “Mundos e Fundos” com uma composição que fez em Paris, dedicada a um de seus mestres chorões: o violonista carioca Dino Sete Cordas. “Aprendi muito viajando e tocando com ele, nos camarins. O Dino foi um músico da maior importância”. Mas não se trata de uma homenagem convencional. “Paladino” é um choro vibrante e contemporâneo, cujas baixarias (as frases que o violão de sete cordas costuma exibir nesse gênero) revelam influências jazzísticas. A formação do quinteto que Swami articulou para essa faixa também está longe de soar tradicional, graças ao berimbau e aos efeitos do percussionista Guilherme Kastrup.


Há outras homenagens no disco. A sensível “El Puro”, composta por Swami em Cuba, em 2006, é quase uma canção que dedicou a seu pai. “Ele foi o cara que me colocou na música. A primeira lembrança que eu tenho de criança é meu pai tocando violão”, relembra. Outra composição na qual o violonista mergulha fundo na emoção é a delicada “Helena”, que dedicou à filha pouco após seu nascimento, em 2003. “Você pode fazer uma turnê com uma grande cantora, um trabalho bacana, mas todos os quartos de hotéis, no fundo, são iguais. Nessas horas, há momentos solitários, em que a música brota. As composições deste disco nasceram em momentos como esses. Talvez tenham uma profundidade que vem desses momentos introspectivos”, reflete.


A funkeada “Abraço”, que Swami fez em parceria com o violonista Chico Pinheiro, em 2001, também entra no disco como uma espécie de homenagem ao parceiro e amigo, que participa da gravação. “Praticamente, o Chico subiu pela primeira vez, num palco, comigo e o Zé Miguel Wisnik, em 1993. Ele tinha 18 anos. Hoje é um irmão pra mim, mas é meio filho também. Ele tem um talento absurdo”, comenta Swami, lembrando que já produziu dois discos dele.


Dois compositores brasileiros que Swami também admira muito estão presentes no repertório. A inusitada versão do samba “Saudade da Bahia”, de Dorival Caymmi, já começa num improviso – a melodia só surge bem depois. “É uma brincadeira”, diverte-se o violonista, que tem a seu lado, nessa faixa, o pandeirista Amoy Ribas e o violonista Marco Pereira, outro antigo parceiro, com o qual começou a tocar em 1989. “O Marco é um músico maravilhoso, um mestre”.


Swami também não economiza elogios ao se referir ao grande instrumentista e compositor e Jacob do Bandolim, do qual interpreta o choro “Vibrações” com a maior elegância e total controle do violão de sete cordas. “Acho que o Jacob é um dos maiores compositores brasileiros, mas pouco valorizado. Ele é mais reconhecido como instrumentista. Acho que esse tema está à altura dos maiores standards da música mundial. É espetacular”.


Há ainda mais uma releitura, no álbum, que certamente vai surpreender muitos ouvintes. Mostrando ser um grande intérprete, Swami extrai uma beleza inesperada da marchinha carnavalesca “Cabeleira do Zezé” (de João Roberto Kelly e Roberto Faissal), transformando-a em uma peça cheia de lirismo. “Gosto muito de brincar com melodias mais simples ou, aparentemente, banais. Já fiz arranjo até para o hino do Palmeiras”, revela.


Faixa que se destaca pela influência da música flamenca, “Tenda” foi composta pelo violonista Tuco Marcondes, que a mostrou a Swami já no estúdio. “Trabalhei muito com o Tuco e com o Mário Manga, e queria que eles também estivessem no disco. Quando ouvi essa musica, achei que ela tinha familiaridade com as minhas composições, com os contrapontos do violão, mesmo indo por outro caminho ao incorporar a influência do flamenco”, comenta.


Composta por Swami, em um quarto de hotel de Istambul, por volta de 2003, “Valsa de Areia” mimetiza, de certa forma, a aridez do clima daquela região. “É uma valsa meio desconjuntada, que vai mudando de compasso e, no final, tem uma parte meio atonal. Do ponto de vista violonístico, é uma das mais difíceis do álbum de se executar”, analisa o compositor.


Já o choro “Virou Fumaça”, composto por ele em 2009, em Barcelona, foi feito especialmente para completar o repertório do álbum. “Eu queria um choro diferente, com uma harmonia mais contemporânea e um fraseado jazzístico, mas que mantivesse a raiz desse gênero”, explica Swami, que tem nessa gravação a companhia de Milton Mori (bandolim) e Douglas Alonso (pandeiro).


“Jurupari”, que encerra o álbum, nasceu em Maceió, em janeiro deste ano. Swami a compôs logo depois de ler o romance homônimo, escrito por seu amigo e conceituado violeiro Paulo Freire, que também participa da gravação. A melodia singela confirma uma característica de quase todas as composições de Swami: são cantáveis e fluentes, como se só estivessem à espera de uma letra para assumirem de vez a forma completa de uma canção.


“Acho que tenho esse perfil que o Luiz Tatit define como cancionista. Sempre gostei de canção. Mesmo quando componho uma peça para violão solo, gosto que ela seja quase cantável”, comenta Swami, consciente do papel essencial que a melodia exerce em suas composições. Aliada ao toque elegante e virtuoso de seu violão, essa é uma qualidade que contribui ativamente para que sua música seja tão encantadora.


(texto por ocasião do lançamento do álbum "Mundos e Fundos", que escrevi a pedido da gravadora Borandá)



Sara Serpa: revelação do jazz, vocalista se apresenta em Tatuí (SP)

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                                                                                                               Photo by João Ornelas
Para quem concluiu três anos atrás um mestrado em Jazz Performance, no conceituado New England Conservatory (Boston, EUA), a vocalista portuguesa Sara Serpa já possui um currículo invejável. Além de ter se apresentado em festivais internacionais e em alguns dos melhores clubes de jazz nova-iorquinos, ela acumula parcerias com nomes de peso na música improvisada contemporânea, como o saxofonista Greg Osby e os pianistas Danilo Perez e Ran Blake.

Mais do que o belo timbre vocal de Sara, chama atenção sua atitude musical: ela não limita seu repertório aos batidos standards dos anos 30 e 40, como fazem inúmeras cantoras da cena jazzística de hoje. Quando decide interpretá-los, como nas gravações que fez com o vanguardista Ran Blake (um de seus professores no New England), ela investe na improvisação criativa, usando a voz como um instrumento.

Nascida em Lisboa, hoje Sara vive em Nova York, onde leciona e se apresenta com seu grupo, que destaca o guitarrista português André Matos. Na próxima segunda-feira (dia 26/9), às 15h, ela fará um misto de workshop e show, no Conservatório de Tatuí, no interior de São Paulo. A seu lado terá a Jazz Combo, formação que reúne professores e alunos dessa instituição de ensino.

Confira abaixo o videoclipe com uma das faixas de “Mobile” (gravado pelo selo Inner Circle), o álbum mais recente de Sara Serpa. Depois assista ao making-of de “Camera Obscura” (lançado pelo mesmo selo), álbum que ela divide com o cultuado piano de Ran Blake.




Benjamim Taubkin: tocando piano e atuando no mercado musical com a mente e o coração

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É muito raro encontrar um artista como ele, tão atuante e envolvido com diversos aspectos da atividade musical, no Brasil e no mundo. Pianista, compositor, arranjador, produtor, curador e agitador cultural, o paulista Benjamim Taubkin já esteve em cinco continentes, só neste ano, apresentando-se com músicos de vários países ou participando de encontros e seminários para discutir aspectos do mercado e da produção musical.

Em sua eclética discografia, Taubkin reúne projetos musicais bem diversos. Já lançou gravações instrumentais com formações variadas, dois álbuns com a original Orquestra Popular de Câmara ou ainda parcerias com grupos dedicados a gêneros musicais particulares: choro, com o regional Moderna Tradição; jazz, com o Trio +1; música folclórica, com o Núcleo de Música do Abaçaí; música latino-americana, com o coletivo América Contemporânea, que reúne músicos de vários países deste continente.

“Eu quis, simplesmente, viver da minha música. E o fato de ter iniciado esse movimento acabou me levando a percorrer o planeta e a tocar com músicos de muitos lugares do mundo”, diz o pianista, que lançou há pouco o livro “Viver da Música - Diálogos com Artistas Brasileiros” (ed. Bei, 328 págs). Nele, entrevista músicos de diversos gêneros – do multi-instrumentista Egberto Gismonti ao maestro Jamil Maluf, incluindo também músicos desconhecidos do grande público, como o mineiro Brás da Viola ou o pernambucano Guitinho.

“O desejo de fazer esse livro foi o de estimular, tanto os músicos mais jovens, como os estudantes de música”, explica Taubkin, observando que, nas conversas com parceiros de seus vários projetos, notava que todos viviam de sua arte. “É difícil você encontrar um bom músico, que não esteja vivendo de sua música. Antes era comum se dizer que você precisava ser engenheiro ou médico, para ter alguma garantia na vida, mas hoje eu vejo médicos ganharem mil reais por mês, trabalhando para seguradoras. Há muitos músicos ganhando bem mais que isso. Você pode viver de sua música sem ser uma celebridade”.

Outro projeto mais recente ao qual Taubkin tem dedicado grande parte de seu tempo, quando não está fora do país, é a Casa do Núcleo – um pequeno centro cultural e casa de espetáculos inaugurada em março, em São Paulo. O nome se refere ao Núcleo Contemporâneo, o selo de música instrumental que ele fundou e dirige desde 1997.

“Depois de tantos anos viajando, senti que precisava de um espaço para apresentar trabalhos musicais realizados na cidade, ou que estão de passagem por ela, onde a música possa ser absorvida de um jeito bacana. Também queria um lugar para seminários, oficinas e encontros”, descreve o idealizador desse projeto.

A Casa do Núcleo conta com uma sala multiuso para 70 lugares. O bar funciona separadamente e o consumo de bebidas é interrompido durante as apresentações. O local também inclui uma loja que oferece discos e livros sobre música. Outra atração permanente é o Acervo da Casa, que reúne milhares de discos e publicações internacionais, que Taubkin reuniu durante suas viagens, nas últimas décadas.

“Eu olhava para todo aquele material, guardado em minha casa, e sabia que não há tempo físico para ouvir tudo aquilo de novo. Então decidi compartilhar. Tem muita música da África, da Ásia, da Europa, da América Latina e do Brasil, que estamos acabando de catalogar. Vamos fazer visitas guiadas ao acervo. A ideia é ouvir esses discos junto com os frequentadores da Casa, tomando um copo de vinho”, conta o músico.

Ciente de que realizar esse projeto com recursos financeiros próprios e de alguns amigos envolve riscos, Taubkin explica que tomou essa decisão por não ver nos patrocínios culturais um caminho a ser seguido. “Sei que é um grande desafio. A Casa não tem patrocínio, não tem edital, vivemos de recursos próprios. Defendo muito a autonomia: a música deve estabelecer contatos com outras áreas da sociedade, mas sem dependência. Acho que, neste momento, essa questão dos patrocínios e editais está criando uma enorme dependência para os músicos”, critica.

Taubkin admite não ser fácil conjugar as funções de diretor e produtor da Casa do Núcleo com a dedicação ao piano e suas outras atividades musicais, mas não encara isso como um problema. “Acho que esse equilíbrio é dinâmico. Às vezes, por volta de 1h da manhã, após o final da programação da Casa, sento ao piano e fico tocando até às 3h. Eu tenho essa disciplina”.

E de onde vem essa vontade de se envolver com tantos aspectos da produção musical? “Para mim, isso é orgânico. Não é algo que foi pensado ou elaborado”, diz ele, relembrando que, antes mesmo de se tornar músico, já organizava shows de artistas que admirava. Tinha apenas 17 anos, em 1973, quando produziu com um amigo de colégio – o músico Lino Simão – um show do sanfoneiro Dominguinhos com o grupo Som Imaginário, no Teatro do Colégio Rio Branco, em São Paulo.

“Não tínhamos a menor noção do aspecto financeiro. Mesmo com o teatro cheio, tivemos prejuízo, mas essa experiência acendeu um desejo de seguir por aí”, conta. Um ano depois organizou uma mostra de música instrumental, no bosque do Morumbi. O sucesso desse evento o levou à coordenação de projetos musicais na Secretaria Municipal de Cultura – sua precoce iniciação na área das curadorias.

Foi também aos 18 anos, que Taubkin decidiu enfim procurar um professor de música. “Eu tinha um piano em casa, que tocava de ouvido, mas ainda nem fazia ideia de como tocar um lá menor. Ninguém quis dar aula para mim – achavam que eu já estava velho. Como senti um grande impulso para tocar, resolvi seguir sozinho. Eu tinha uma admiração pelo universo dos músicos da noite, que achava romântico, e quis viver essa fantasia”, conta o autodidata, que durante a década de 80 aprendeu o que precisava, tocando em boates e bares da noite paulistana, como a Baiuca, o Paddock, o Anexo e o Blend.

Hoje, autor de uma obra musical tão diversificada e original, marcada pelo lirismo de suas composições e pela aguda sensibilidade que seu piano evoca, o artista e curador inclui na dedicatória de seu livro um slogan que adotou como filosofia de vida: “sentir com a mente e pensar com o coração”. 


(texto publicado no caderno Eu & Fim de Semana, do jornal "Valor", em 9/9/2011)




Curaçao North Sea Jazz: festival caribenho se firma com vitrine do jazz e da música latina

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                                                                                         Photos by Carlos Calado
Não é qualquer artista que tem o privilégio de ser chamado ao palco, por uma multidão de milhares de fãs que decidem cantar, espontaneamente, um de seus sucessos. Foi assim que a ansiosa plateia do Curaçao North Sea Jazz Festival recebeu, às 23h15 do sábado, o cantor e compositor norte-americano Stevie Wonder (na foto acima). A declaração de amor contida na canção “I Just Called to Say I Love You” ganhou novo sentido.

O dançante show de Stevie Wonder encerrou um evento musical que, já em sua segunda edição, demonstrou um expressivo crescimento. Com ingressos esgotados há dias para a noite do sábado, a circulação do público pelos três palcos instalados no complexo do World Trade Center tornou-se difícil, em alguns momentos. Por volta das 22h, a produção chegou a improvisar uma barreira, para diminuir o acesso ao palco onde se apresentava o cantor e compositor panamenho Rubén Blades, cuja plateia já estava no limite de sua capacidade.


 
A noite de sábado também confirmou o sucesso da eclética fórmula musical desse evento. Obviamente, uma parte do público estava ali para ouvir os hits de Stevie Wonder, que marcaram a história do pop e da black music norte-americana. Mas as multidões que se formaram para acompanhar os shows do jazzista cubano Roberto Fonseca, do cantor e compositor dominicano Juan Luis Guerra (foto acima) e do músico e ator panamenho Rubén Blades provaram que o público local não se contenta apenas com a mediocridade musical veiculada pelas rádios e TVs. 

 
 
Quem circulou pelos três palcos, na noite de encerramento deste festival, teve a chance de ouvir um sintético panorama da moderna música popular da América Latina: o jazz afro-cubano e as contradanças de Chucho Valdés e Roberto Fonseca (na foto acima), as bachatas e os merengues de Juan Luiz Guerra, a salsa de Rubén Blades, além dos ritmos nativos da própria ilha de Curaçao, exibidos pelo tecladista Ronchi Matthew. 


 
Na noite anterior, o saboroso cardápio musical oferecido variou mais entre o jazz e a black music.
O saxofonista norte-americano Branford Marsalis (que toca amanhã, dia 6/9, em São Paulo; dia 7, no Rio), o pianista panamenho Danilo Perez e o percussionista Poncho Sanchez (foto acima), com participação especial do trompetista Terence Blanchard fizeram apresentações de alta qualidade jazzística. Já as bandas Earth, Wind & Fire e Chic (comandada por Nile Rodgers) excitaram suas plateias com muitos hits dançantes dos anos 70 e 80. 

 
Prejudicada pela concorrência direta com o show do astro pop britânico Sting, a cantora norte-americana Sharon Jones (na foto acima) não escondeu sua decepção ao ver grande parte da plateia sair, no meio de sua apresentação. “Sem problema. Esta é minha primeira vez em Curaçao, mas não vou deixar de dar o máximo de mim a vocês que ficaram aqui”, disse, aplaudida euforicamente pelas centenas de felizardos de a viram incendiar o palco com seu clássicos funks e rhythm & blues. 



Não havia artistas do Brasil nessas duas noites (só a pianista paulista Eliane Elias participou dos shows preliminares do festival), mas, mesmo assim, a música brasileira não ficou de fora. A cantora norte-americana Dione Warwick (foto acima) dedicou parte de seu show de sábado a um tributo ao Brasil, que incluiu as clássicas “Águas de Março” e “Corcovado”, de Tom Jobim.


E o tecladista curaçolenho Ronchi Matthew, que encerrou o evento no palco dedicado ao jazz, surpreendeu a plateia com "Samba Tropikal", um suingado samba instrumental de sua autoria. “Nunca estive no Brasil, mas vejam do que o amor pela música é capaz”, explicou, com um grande sorriso.

(Texto publicado na Folha.com, em 5/9/2011; cobertura realizada a convite da Oficina de Turismo de Curaçao)

Curaçao North Sea Jazz: cantoras dominam programação prévia do festival caribenho

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                                                                                          Photos by Carlos Calado
Espécie de franquia do holandês North Sea Jazz (um dos maiores eventos musicais do mundo, conhecido por seus vários palcos com shows simultâneos), o Curaçao North Sea Jazz Festival repete neste ano a bem sucedida receita musical de sua primeira edição. O elenco combina nomes de prestígio nos universos do jazz e da música latina (Branford Marsalis, Danilo Pérez, Roberto Fonseca, Poncho Sanchez, Chucho Valdés e Ruben Blades) com figurões do pop e da black music (Sting, Sharon Jones, Earth, Wind & Fire, Chic e Dionne Warwick).

A exemplo da edição passada, os organizadores desse festival também promoveram shows durante a semana para esquentar o evento. Essa programação preliminar foi iniciada na última segunda-feira (29/8) com o som dançante do grupo cubano Los Van Van, que, por coincidência, apresentou-se há poucos dias em São Paulo.

As noites seguintes foram dominadas por cantoras de diferentes países. Na terça (30/8), a holandesa Trijntje Oosterhuis (na foto acima) atraiu centenas de compatriotas ao show que fez ao ar livre, no Avila Hotel. Com um repertório bem pop, que destaca antigos sucessos de Burt Bacharach e Michael Jackson, ela demonstra capacidade técnica, mas ainda é um tanto deficiente no item personalidade.


A lourinha belga Selah Sue (na foto acima) saiu-se bem melhor. No show que lotou a casa noturna Mambo Beach, na quarta-feira (31/8), ela confirmou sua condição de revelação pop, com canções que misturam reggae, soul, hip hop e até pitadas de rock. Não à toa, Selah cita Bob Marley, Erykah Badu e Lauryn Hill entre suas influências. A plateia bem jovem reconheceu na hora “Raggamuffin”, hit que a tornou conhecida graças ao clipe veiculado na internet pelo site MySpace.

Única atração brasileira no elenco do Curaçao North Sea, a pianista e cantora paulista Eliane Elias fez um show irretocável, quinta-feira, na concha acústica do Brakkeput Mei Mei, confirmando o prestígio que desfruta na área do jazz desde a década de 90. Com um repertório centrado em clássicos da bossa nova, ela mostrou seu virtuosismo ao piano, em números como “Chega de Saudade” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e “Bananeira” (João Donato e Caetano Veloso).

No entanto, além de não permitir, estranhamente, que a imprensa a fotografasse tanto na coletiva de imprensa como em sua apresentação, Eliane ainda correu o risco de soar antipática frente à platéia, ao interromper o show duas vezes para advertir alguns fãs que estavam usando suas câmeras fotográficas. Daí em diante, a platéia reagiu de maneira mais morna.

(Texto publicado no site Folha.com, em 3/09/2011)

 

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