Rio das Ostras Jazz & Blues Festival: os destaques da nona edição

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Recheado de nomes de prestígio nas cenas do jazz e do blues, o elenco do festival de Rio das Ostras, cuja nona edição terminou no último domingo (26/6), já antecipava um evento musical de alta qualidade. Para alguém como eu, que estava visitando pela primeira vez essa emergente cidade do litoral fluminense, foi surpreendente ver cerca de 20 mil pessoas, em cada uma das quatro noites do evento, ouvindo com atenção e aplaudindo com euforia quase todas as atrações.

Outra agradável surpresa foi constatar que não é apenas o típico turista de classe média, tanto desse Estado como de outras regiões do país, que vai a Rio das Ostras para apreciar as dezenas de shows de jazz, blues e música instrumental brasileira que o festival oferece, gratuitamente. Bastava circular pelas platéias de qualquer um dos quatro palcos espalhados pela cidade para verificar que grande parte desse público pertence às chamadas classes C e D. Quem ainda acha que o jazz só interessa a uma pequena elite cultural precisa rever esse senso-comum errôneo e preconceituoso.


                                                                                              Photos by Carlos Calado


VOZEIRÃO – Maior revelação do festival, o cantor norte-americano José James (na foto acima, com o trompetista Takuya Kuroda) conquistou as platéias dos shows que fez nos palcos da Tartaruga e da Costa Azul. Com seu vozeirão de barítono, gestual de MC e um repertório híbrido que mistura jazz, soul e hip-hop, James é um exemplo perfeito de como o jazz se renova absorvendo elementos de outros gêneros musicais. Entre seus melhores momentos, a vibrante releitura de “Moanin’” (de Bobby Timmons; veja o video abaixo) e uma versão letrada de “Equinox” (John Coltrane). 


EMOÇÃO - Confirmando os excelentes shows que já fizera em São Paulo, em 2010, e no Bourbon Festival Paraty, na semana anterior, o quinteto do cubano Roberto Fonseca foi a atração mais emocionante do festival. Nem um problema no teclado do piano, que não pôde ser corrigido a tempo do show de sábado, impediu Fonseca (no centro da foto acima) de fazer uma apresentação sensacional, que levantou a platéia várias vezes. Em composições próprias, como “Consumatum Est (Oya)” e “Lo que Me Hace Vivir”, que combinam lirismo com improvisações contagiantes, ele demonstra ser um músico completo, seguindo a linhagem de outros grandes pianistas cubanos, como Chucho Valdés e Gonzalo Rubalcaba. (Veja o vídeo abaixo)

 
ENCONTRO – O trio Medeski, Martin & Wood também protagonizou um dos melhores shows do festival, no sábado (25/6). Quem imaginou que o saxofonista Bill Evans seria apenas um convidado especial, em alguns números, se enganou. O ex-integrante da banda de Miles Davis participou de todo o show, ganhando espaço para longos improvisos. Uma parceria que, pelo jeito, pode render bem mais que algumas apresentações esparsas. (Veja o vídeo abaixo)


 
SAMBAS – Outro encontro que deu certo foi o do veterano trio Azymuth com o saxofonista Leo Gandelman (na foto acima, com o baixista Alex Malheiros). Releituras instrumentais dos sambas “Me Deixa em Paz” (Monsueto) e “Canto de Osanha” (Baden Powell) brilharam no repertório desse show, que não podia deixar de incluir “Linha do Horizonte”, o hit zen do Azymuth. Na mesma noite de quinta (23/6), o guitarrista Ricardo Silveira, tocou temas instrumentais de seu recente álbum “Até Amanhã”. Incluiu uma versão jazzística do samba “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues), com destaque para os sopros de Marcelo Martins e Jessé Sadock.



REVELAÇÃO – Na banda do conceituado trompetista norte-americano Nicholas Payton, outra atração do sábado, destacou-se Lawrence Fields, jovem pianista de Saint Louis, que esteve em São Paulo com a banda de Christian Scott, em maio último, no festival Jazz na Fábrica. À frente de seu Sexxxtet, Payton trouxe um projeto inspirado nas fusões do jazz com o funk e o soul que Miles Davis desenvolveu durante a década de 1970. Um show impecável, tecnicamente, mas que carece de mais emoção.



DEBOCHE - O marketing da trompetista holandesa Saskia Laroo, conhecida na Europa como “Lady Miles Davis”, beira a propaganda enganosa. Com um show quase circense, que transita entre o hip hop, o funk e o reggae, incluindo dois rappers, ela se mostra mais preocupada em pular no palco, operando os pedais de efeitos eletrônicos que traz presos à cintura, do que realmente tocar seu instrumento. Sem falar na infame “Courtesy to John Coltrane”, suposta homenagem ao grande ícone do jazz, em levada “disco”, que soa como deboche.


FUSION – Comemorando 30 anos de vida em 2011, a banda norte-americana Yellowjackets voltou a contar com a energia do baterista Will Kennedy, que a deixou durante a última década. Não há dúvida que a presença do saxofonista Bob Mintzer contribuiu para aprimorar o repertório e os improvisos do quarteto, que segue com os fundadores Russel Ferrante (teclados) e Jimmy Haslip (baixo). Para os fãs da típica “fusion” dos anos 1980. 




POSE – Com sua habitual sessão de poses sensuais, Jane Monheit praticamente repetiu a apresentação que fez no festival de Paraty, na semana anterior. Tecnicamente, Monheit é uma cantora acima da média, mas suas interpretações de standards, como “Over the Rainbow” e “Cheek to Cheek”, soam antiquadas e piegas, como se tivessem saído da década de 1940. Alguém precisa dizer a ela que cantar clássicos da bossa nova, como “Dindi” ou “Samba do Avião”, em português capenga, compromete até sua intenção de homenagear a música brasileira. 




BLUES – A ideia de fechar as quatro as noites, no palco principal, com atrações de blues funcionou muito bem. A Igor Prado Blues Band, o norte-americano Bryan Lee, o angolano Nuno Mindelis e a banda do californiano Tommy Castro (na foto acima) proporcionaram encerramentos bem animados e dançantes, em exibições de diversos estilos de blues, que avançaram pelas madrugadas.


PAISAGEM – Instalado em um local inusitado, em frente ao mar, o palco da Tartaruga exibiu algumas das melhores atrações do festival (José James, Nicholas Payton e Yellowjackets), mas só a vista privilegiada do por de sol, em Rio das Ostras, já valeria a ida. 

 
FEIRA – Ao lado do palco principal, na Costa Azul, a Cidade do Jazz & Blues oferece uma feira com produtos artesanais da cidade, venda de CDs e camisetas, praça de alimentação e um espaço para exibição de fotos, filmes e show de artistas locais.

Numa coletiva de imprensa, no último sábado, o prefeito de Rio das Ostras, Carlos Augusto, admitiu ter pensado em extinguir esse festival, quando assumiu o cargo, em 2005. Chegou a fazer cortes na verba, mas o crescimento do evento, nos anos posteriores, o convenceu de que o festival se tornou um veículo importante para o incremento do turismo e da economia da região. Mérito do idealizador e produtor do evento, Stenio Mattos, que já está planejando a edição comemorativa dos 10 anos do evento, em 2012. Pela qualidade do que se viu e ouviu neste ano, a próxima promete ser no mínimo especial.












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Bourbon Festival Paraty: uma retrospectiva ilustrada de sua terceira edição

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As ruas calçadas com pedras e o casario colonial de Paraty, a simpática cidade histórica do litoral fluminense, serviram de cenário para a terceira edição do Bourbon Festival Paraty. Durante três dias, multidões de turistas e moradores da região puderam apreciar gêneros musicais e ritmos de diversas origens: do jazz ao R&B, passando pela salsa, pelo blues, pelo funk, até pela bossa nova. Tudo gratuito.
                                                                                        Photos by Carlos Calado

CARISMA CUBANO – Primeira atração da fria noite de sexta-feira (17/6), no palco instalado na Praça da Matriz, o pianista e compositor Roberto Fonseca (na foto acima) contagiou a platéia com seu jazz de sotaque afro-cubano, cheio de energia e lirismo. Em sua banda, destacaram-se também os sopros de Javier Zalba e o baterista Ramsés Rodríguez.

SELEÇÃO DANÇANTE – Outro destaque da primeira noite, a mais jazzística do festival, foi o baixista e cantor Richard Bona. Esse talentoso músico camaronês fez boa parte da platéia dançar com uma irresistível seleção de funks e temas afro-caribenhos de sua autoria, incluindo uma citação de “I Wish”, de Stevie Wonder.

ANIMAÇÃO – Desfilando pelas ruas da cidade, a Orleans Street Jazz Band animava os turistas e os atraía para os shows nos palcos principais, com descontração e aquela sonoridade típica das bandas de jazz tradicional de New Orleans, mesmo quando toca algum clássico pop ou da música brasileira.

BUSKERS – Outros artistas do elenco, como o bluesman argentino Danny Vincent, também fizeram shows-relâmpagos nas ruas de Paraty, levando a outras áreas do Centro Histórico a tradição dos “buskers” (como são chamados os músicos de rua nos Estados Unidos).


NA RUA E NO PALCO – Atração mais esperada do sábado (18/6), a banda Playing for Change fez um show muito aplaudido, cujo clímax foi o hit “Stand by Me”. Horas antes da apresentação, o veterano bluesman Grandpa Elliott (no centro da foto acima) e seus parceiros mostraram em uma esquina do Centro Histórico como sobreviviam antes de o projeto Playing for Change lhes dar a chance de gravar e fazer shows pelo mundo afora.


NA PRAIA – Novidade desta edição do festival, um segundo palco foi instalado em frente à Igreja de Santa Rita, com uma bela vista do mar. Na programação do domingo (19/6), o trio de jazz do contrabaixista Rhandal, radicado em Paraty, homenageou a cidade com uma de suas composições.

CARAS E BOCAS – Na noite de domingo, as caras e bocas da cantora norte-americana Jane Monheit não animaram tanto a platéia, mesmo quando ela tentou ser simpática, cantando dois clássicos da bossa nova (“Caminhos Cruzados” e “Samba do Avião”), em português. Era evidente que muitos estavam ali à espera da última atração, a cantora Maria Gadú.

RETRATOS - Aberta até 3 de julho, na Galeria Zoom, em Paraty, a exposição “Jazz em Photo” reúne fotografias de Alexandre Marchetti, Newber, Roger H. Sassaki e Silvana Franco. A seleção foi feita a partir do acervo com mais de 250 fotos autografadas por figurões do jazz e do blues que já se apresentaram no paulistano Bourbon Street Music Club. Na foto acima (da esq. para a dir.), o fotógrafo Sassaki, Edgard Radesca, produtor do festival, e Giancarlo Mecarelli, organizador da exposição.  

Eclética e bem organizada, a terceira edição do Bourbon Festival Paraty inseriu esse evento entre os melhores do gênero no país. Um programa que merece entrar na agenda de qualquer apreciador de jazz, blues ou outros gêneros da música negra, no próximo ano.


Bourbon Festival Paraty: Richard Bona exibe seu ecletismo musical em São Paulo

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                                   Richard Bona, no Bourbon Festival Paraty - Photo by Carlos Calado

Uma das melhores atrações do 3º Bourbon Festival Paraty, no último fim de semana, desembarca em São Paulo. O baixista e cantor Richard Bona se apresenta hoje, às 22h30, no Bourbon Street Music Club.

O talento e a versatilidade desse músico nascido em Camarões (África), que já viveu na França e hoje mora nos EUA, renderam-lhe parcerias com grandes nomes do jazz, como Herbie Hancock, Chick Corea e Joe Zawinul.

“Música é sempre uma troca. As pessoas com as quais você toca ensinam algo a você, mas também aprendem”, disse ele à "Folha de S. Paulo", em Paraty, onde exibiu uma dançante seleção de composições próprias calcadas em gêneros afro-americanos, como o funk, o soul e a salsa.

Na apresentação de hoje também deve entrar ao menos uma das faixas de “The Ten Shades of Blues”, seu último álbum. Nele, Bona sugere que a origem do blues não estaria apenas na África, mas em qualquer lugar onde exista um ser humano.

“Quando escuto Djavan ou Gilberto Gil, penso que o blues está em todo lugar, no mundo todo. O blues é um sentimento, uma forma de expressão”, ele argumenta. E o qual seria o sentido do jazz para Richard Bona? “Para mim, jazz significa liberdade. É tocar algo, num momento, que eu jamais vou repetir”, diz o baixista e compositor.

(Texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 21/6/2011) 

BMW Jazz Festival: Joshua Redman roubou a noite dos saxofonistas

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Foto: Divulgação


Festival de jazz tem dessas coisas: quando menos se espera, a atração mais badalada de um elenco pode acabar decepcionando. Quem imaginaria que o show de Wayne Shorter, um dos grandes mestres desse gênero musical na cena de hoje, seria o anticlímax da noite de abertura do BMW Jazz Festival?

O fato de Shorter e seu quarteto terem desembarcado em São Paulo poucas horas antes do show (seu vôo procedente de Buenos Aires, onde também se apresentou,  foi cancelado em função das cinzas do vulcão chileno) pode justificar em parte a pálida performance, no Auditório Ibirapuera.

Mesmo assim é difícil aceitar que Shorter, um dos compositores mais originais do jazz moderno, tenha dedicado 40 minutos de sua apresentação a uma peça que soou como um autocomplacente exercício de improviso. Ainda mais com o pianista Danilo Pérez e o baixista John Patitucci, solistas de alta categoria, relegados à tarefa de tecer um pano de fundo sonoro para as frases esparsas do líder.

Quem roubou a noite foi o sensacional trio do saxofonista Joshua Redman, com o baterista Greg Hutchinson e o baixista Reuben Rogers. Recriando standards, como “The Surrey with the Fringe on Top” e “Autumn in New York”, ou destilando composições próprias, como a sombria “Ghost” e a vibrante "Insomnomaniac" contagiou a platéia com improvisos excitantes, recheados de surpresas rítmicas e melódicas.

Primeira atração da noite, Billy Harper já não toca com a alta intensidade sonora que exibiu em sua primeira vinda a São Paulo, na década de 1980. Mas a ascendência fervorosa de John Coltrane (1926-1967) continua marcante no fraseado de seu sax tenor, especialmente em “Illumination”, uma de suas composições mais conhecidas. Tocando a delicada balada “Thoughts and Slow Actions”, o veterano jazzista deu uma aula de interpretação e sensibilidade musical.

(texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 13/06/2011)

 

BMW Jazz Festival: Zion Harmonizers trazem gospel tradicional de New Orleans

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                                                                                             Foto: Carlos Calado

Em noite que destaca três conceituados saxofonistas norte-americanos, começa hoje, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, o BMW Jazz Festival. O programa reúne o quinteto de Billy Harper, o trio de Joshua Redman e o quarteto de Wayne Shorter.

No sábado, o evento vai exibir a porção mais eclética de seu elenco. A noite intitulada “Roots” (Raízes) mistura o gospel do grupo vocal Zion Harmonizers (na foto acima), os ritmos afro-baianos da Orkestra Rumpilezz e o soul energético da cantora Sharon Jones com a banda The Dap-Kings.

Em entrevista à Folha, no New Orleans Jazz & Heritage Festival (EUA), em maio, o vocalista Brazella Briscoe, líder dos Zion Harmonizers, relembrou que, na década de 1970, o grupo foi criticado por pastores de igrejas batistas que ainda resistiam à ideia de o gospel, gênero musical de essência religiosa, ser cantado fora das congregações – pior ainda num festival de jazz.

“A palavra jazz tinha uma conotação (sexual) que não soava bem aos ouvidos dos pastores”, disse Briscoe, ressaltando que a atuação de seu ex-colega Sherman Washington – morto em março, aos 85 anos – foi decisiva para que o grupo pudesse cantar pela primeira vez no festival de Nova Orleans, em 1972.

“Sherman era muito respeitado em todas as igrejas da Louisiana. Depois de conversar com os pastores, ele conseguiu que os coros participassem do festival. Desde que eles não bebessem cerveja no camarim, estava tudo certo”, disse o líder dos Zion Harmonizers.

Se repetir o formato da apresentação em Nova Orleans, Briscoe vai surpreender a plateia, ao descer do palco para apertar as mãos dos fãs. “Gosto de tocar as pessoas e de ser tocado por elas, porque o toque pode trazer bem estar”, justifica o vocalista, que age como um pregador no show.

(texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 9/06/2011)

Festivais de jazz: circuito nacional cresce e leva atrações a várias regiões do país

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                                                                       O trombonista Delfeayo Marsalis - Foto: Carlos Calado

Quem já passou férias na Europa ou na América do Norte, especialmente durante os meses de verão, sabe que os festivais de jazz se destacam entre as atrações culturais oferecidas nesse período do ano. Realizados não apenas em metrópoles e grandes capitais, como Nova York, Montreal, Roma ou Viena, eventos desse gênero também levam a centenas de pequenas cidades europeias e americanas multidões de fãs atraídos por concertos ao ar livre, em praças e pontos turísticos, ou mesmo em auditórios e clubes de jazz.

O Brasil já esteve mais distante de um cenário musical como esse. Ainda no início da década de 1990, quem quisesse apreciar ao vivo as últimas novidades jazzísticas tinha apenas duas opções: viajar para o exterior ou esperar pelo único evento anual do gênero naquela época, o Free Jazz Festival, que era realizado em São Paulo e no Rio. Hoje, o cenário é outro. Já é possível desfrutar shows de astros internacionais do jazz, do blues e de outros gêneros afins, durante quase todo o ano, em eventos programados em diversos locais do país. Só neste mês, cinco festivais de jazz serão realizados em capitais e localidades turísticas da região Sudeste.

"O Brasil se firmou como um mercado sólido e sério, nas últimas décadas", diz a produtora e cineasta Monique Gardenberg, que assina a direção artística da primeira edição do BMW Jazz Festival, em São Paulo (de 10 a 12, no Auditório Ibirapuera) e Rio (13 e 14, no Teatro Oi Casa Grande). Nomes de prestígio do jazz americano, como os saxofonistas Wayne Shorter, Joshua Redman e Billy Harper, ou o baixista Marcus Miller, chamam atenção no elenco desse evento, que também destaca dois originais jazzistas europeus: o pianista norueguês Tord Gustavsen e o contrabaixista francês Renaud Garcia-Fons.

Como a maioria dos festivais que têm usado a grife do jazz durante as últimas décadas, tanto no exterior quanto aqui, o BMW Festival também abre espaço para atrações de outros gêneros musicais. Inédita em palcos brasileiros, a cantora de soul e rhythm & blues Sharon Jones promete um dos shows mais excitantes do evento. O elenco se completa com o gospel do grupo vocal americano Zion Harmonizers, os arranjos dançantes da banda de metais italiana Funk Off e a percussão afro-baiana da big band Orkestra Rumpilezz.

Outro evento do gênero que estreia neste mês, com um formato diverso dos seus concorrentes, é o Ilha de Toque Toque Jazz Festival, que oferece como atrativo extra o visual dessa praia da cidade de São Sebastião, no Litoral Norte paulista. Com shows aos sábados, em um pequeno hotel com palco para apenas 50 espectadores, a programação desse evento destaca o jazz e os ritmos caribenhos do pianista cubano Yaniel Matos, as canções românticas de Elizabeth Woolley e as releituras jazzísticas do lendário guitarrista Lanny Gordin.

Uma característica comum a festivais de jazz e blues realizados nos últimos anos, em várias regiões do país, como os de Guaramiranga (CE), Garanhuns (PE), Ouro Preto (MG) ou Teresópolis (RJ), também norteia dois eventos programados para este mês: tanto o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (RJ), como o Bourbon Festival Paraty (RJ) nasceram com o objetivo de contribuir para o incremento do turismo em suas localidades.

                                                              Rio das Ostras Jazz & Blues Festival -  Foto: Cezar Fernandes


"A ideia é que o turista venha, fique e conheça as belezas naturais da cidade", diz o produtor Stenio Mattos, citando resultados significativos depois de realizar oito edições do evento em Rio das Ostras. "A taxa de ocupação da cidade durante o período do festival é de 100%, assim como nas cidades vizinhas de São João da Barra e Casimiro de Abreu. Em Macaé, chega a 70% de ocupação. O faturamento do comércio local durante o festival passado foi de cerca de R$ 5 milhões. A projeção que o festival dá à cidade é enorme", comenta o produtor fluminense.

Neste ano (de 22 a 26 de junho), o evento exibe em cinco palcos diversos estilos de jazz, blues e música instrumental brasileira. De alto nível, o elenco destaca o cultuado trio Medeski, Martin & Wood, o cantor José James, a banda Yellowjackets, o trompetista Nicholas Payton, o saxofonista Bill Evans e os bluesmen Tommy Castro e Bryan Lee, além do saxofonista carioca Léo Gandelman e a banda Azymuth. Já pensando na décima edição do evento, em 2012, Mattos pretende publicar um livro com uma retrospectiva do festival. E planeja programar de novo as atrações que mais agradaram ao público de Rio das Ostras desde a primeira edição.

Edgard Radesca, produtor do Bourbon Festival Paraty, também ressalta a eficácia de seu evento, no sentido de aumentar a atividade turística na região. "Conseguimos atrair um público qualificado, que gasta em restaurantes, compras e hospedagem, inclusive no domingo, dia em que usualmente a cidade se esvaziaria após o almoço. O Bourbon Festival é hoje o evento mais importante da cidade depois da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Consegue lotá-la até em um fim de semana que antes era considerado um 'mico', por preceder o feriadão de Corpus Christi".

Em sua terceira edição (de 17 a 19 de junho), o Bourbon Festival Paraty vai contar com mais um palco, para a programação vespertina; os shows da noite continuam ocupando o palco da igreja matriz. Eclético, o elenco desse evento mistura jazz, blues, soul, R&B e ritmos brasileiros, destacando o baixista camaronês Richard Bona, o pianista cubano Roberto Fonseca e as cantoras Jane Monheit e Erica Falls. Qualquer semelhança com a linha musical do Bourbon Street Music Club - casa noturna paulistana inspirada na diversidade musical de New Orleans, que Radesca abriu com um grupo de amigos em 1993 - não é mera coincidência.

A influência dessa cidade americana tão musical, conhecida mundialmente como "berço do jazz", também orienta o Bourbon Street Fest, cuja nona edição está agendada para agosto, em São Paulo, Rio e Brasília. Segundo Radesca, esse evento foi criado para festejar o décimo aniversário de seu clube. "O festival deveria ter acontecido apenas uma vez, mas o sucesso foi tanto que recebemos mais de uma centena de e-mails, pedindo que fosse repetido a cada ano. Por isso tomamos a decisão de fazê-lo", diz o produtor, que já anunciou os nomes do trombonista Delfeayo Marsalis, da violinista e cantora Amanda Shaw e da banda Dirty Dozen Brass Band, todos trazidos de New Orleans para a edição deste ano.

                                                                                  Bourbon Festival Paraty - Foto: Roger H. Sassaki

Outra característica que aproxima festivais de jazz de diversas regiões do país, como os de Manaus (AM), Joinville (SC) ou Rio das Ostras (RJ), é a programação de atividades didáticas: geralmente, workshops e oficinas para estudantes de música, ministrados por artistas do elenco, além de palestras e debates. O Festival Choro Jazz Jericoacoara (CE), que vai realizar sua terceira edição de 29 de novembro a 4 de dezembro, já está se preparando para receber 40 estudantes de música da cidade americana de Cazadero (Califórnia), interessados em participar de seus workshops.

"Os inconformados com a música de péssima qualidade executada nas rádios encontraram uma bela válvula de escape nos festivais de jazz que surgiram na última década, muitos com ingressos a preços acessíveis ou mesmo gratuitos", observa Maria Alice Martins, que produz desde 2001 o festival Tudo É Jazz, na cidade histórica de Ouro Preto (MG). "Esses festivais motivaram a formação de um público realmente jovem, que procura na internet dados sobre os músicos de jazz, baixa vídeos no YouTube e os compartilha no Facebook. Alguns se inspiram e vão estudar mais seriamente, para se tornarem músicos de jazz. Atualmente, em Minas Gerais, o jazz tem um público bem mais jovem que o do rock, cinquentão."

Apesar da repercussão do Tudo É Jazz, que atrai anualmente turistas de melhor nível cultural e econômico a Ouro Preto, aumentando a arrecadação da cidade, o evento tem enfrentado dificuldades para sua realização desde 2008, quando perdeu seu patrocinador principal. "O cenário para a captação de patrocínio está dificílimo, devido à instabilidade econômica mundial, a catástrofes que se sucedem e à falta de definição de uma política econômica, tanto do governo federal quanto do governo estadual", lamenta a produtora mineira.

Para enfrentar esse e outros entraves do setor, os produtores de oito festivais criaram, no ano passado, a Abrafest (Associação Brasileira dos Produtores de Festivais de Música Instrumental, Jazz e Blues). Entre os primeiros projetos musicais da entidade destaca-se o "Palco Abrafest" - elenco formado por revelações da música instrumental brasileira, indicado pelos membros da associação, que terá um palco específico, ou um horário especial, para se apresentar em todos os festivais organizados pelos associados.

O pianista e compositor André Mehmari, que já participou de festivais de jazz no Brasil e no exterior, reconhece que esses eventos conferem prestígio aos músicos, além de permitir que exibam suas obras a um público mais selecionado, mas faz uma objeção aos critérios na escolha dos elencos de alguns festivais. "Poderia haver mais espaço para os projetos de músicos brasileiros, que não devem nada aos gringos. Imagino que os organizadores dos festivais enfrentem problemas para colocar essa ideia em prática, já que a demanda é por artistas estrangeiros, de preferência com amplo reconhecimento e, invariavelmente, famosos".

                                                                Festival Tudo é Jazz, em Ouro Preto - Foto: Adriana Gallupo

"Fazer um festival de jazz custa muito menos do que um festival de rock", diz Toy Lima, criador e produtor de importantes eventos nessa área, como o Heineken Concerts (1992-2000), o Chivas Jazz Festival (2000-2004) e o Bridgestone Music (2008-2010), observando que também na Europa já é perceptível uma tendência entre os festivais do gênero, no sentido de se programar mais jazz nos próximos anos.

"Alguns festivais da França, como o de Juan-Le-Pins, estão voltando a ser mais puristas, mas isso está acontecendo porque o jazz custa menos para o produtor do que a música pop. Hoje, esses festivais não podem mais pagar um James Taylor, que faz sucesso na Europa até hoje, mas podem pagar um Dave Douglas. Aliás, pode-se dizer que, na música, a qualidade costuma ser inversamente proporcional ao custo do show de um artista. Um festival de rock pode custar 18 vezes mais que um festival de jazz", comenta o produtor paulista.

Com a experiência de ter produzido o Free Jazz, festival que contribuiu ativamente, entre 1985 e 2001, para o crescimento do interesse por essa vertente musical no país, Monique Gardenberg reconhece que hoje é mais fácil se fazer um evento desse gênero. "Claro que ainda existe uma minoria de empresários de artistas que ainda não se deram conta da fertilidade do nosso mercado, da nossa modernidade, e acreditam que estão lidando com algo menor. Eu me divirto bastante quando isto acontece."

Vale lembrar que o Free Jazz não foi o primeiro evento do gênero no país. Realizado em 1978 e 1980, o Festival Internacional de Jazz de São Paulo pavimentou o caminho trilhado pelo Free Jazz e os diversos festivais que o sucederam, não só por ter reunido, em suas duas edições, astros de primeira grandeza do jazz e da música instrumental brasileira, mas também porque os concertos foram transmitidos para o resto do país por meio da TV Cultura e outras emissoras estatais. Graças a esse festival e seus sucedâneos, o jazz passou a ser apreciado por um publico mais amplo e mais jovem, no Brasil.

Algo semelhante está acontecendo hoje, em virtude dessa nova geração de festivais. Um exemplo revelador foi o Jazz na Fábrica, festival realizado durante o mês de maio pelo Sesc Pompeia, em São Paulo. Com um formato inovador, esse evento exibiu 23 atrações musicais - de conceituados jazzistas estrangeiros, como o saxofonista Archie Shepp, o trompetista Christian Scott e a cantora Dee Dee Bridgewater, até instrumentistas nacionais do primeiro time, como Toninho Horta, Arismar do Espírito Santo e a Orquestra Ouro Negro. Quem teve a sorte de acompanhar esses concertos, encontrou um público bem jovem, que aplaudia os improvisos dos músicos com uma euforia típica de torcedores de futebol. Um sinal de que outros festivais de jazz podem vir por aí.

(Reportagem publicada no caderno Eu & Fim de Semana, do jornal “Valor Econômico”, em 3/06/2011)


Festivais de jazz: um roteiro com eventos desse gênero no Brasil em 2011

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                                           O percussionista Airto Moreira, atração do CopaFest

1º Ilha de Toque Toque Jazz Festival
Quando e onde: 4, 11, 18, 24 e 25/6, em São Sebastião (SP)
Atrações: Yaniel Matos, Lanny Gordin, Elizabeth Wooley, Fabiano de Castro
www.ilhadetoquetoque.com.br


1.º BMW Jazz Festival

Quando e onde: de 10 a 12/6, em São Paulo; 13 e 14/6, no Rio (RJ)
Atrações: Wayne Shorter, Joshua Redman, Billy Harper, Tord Gustavsen, Marcus Miller, Sharon Jones, Ranaud Garcia-Fons, Zion Harmonizers, Funk Off Brass Band, Orkestra Rumpilezz
www.bmwjazzfestival.com


10º Jazz Festival Brasil

Quando e onde: 16 a 19/6, em Belo Horizonte (MG)
Atrações: John Pizzarelli, Playing for Change, Richard Bona, Roberto Fonseca
http://jazzfestivalbrasil.ning.com


3º Bourbon Festival Paraty

Quando e onde: de 17 a 19/6, em Paraty (RJ)
Atrações: Richard Bona, Roberto Fonseca, Jane Monheit, Erica Falls, Playing for Change, Rhandal Jazz Group, Funk Como Le Gusta, Miranda Kassin e André Frateschi, Oito do Bem
www.bourbonfestivalparaty.com.br


9º Rio das Ostras Jazz & Blues

Quando e onde: de 22 a 26/6, em Rio das Ostras (RJ)
Atrações: Medeski, Martin & Wood, Nicholas Payton, Yellowjackets, Saskia Laroo, Jose James, Roberto Fonseca, Jane Monheit, Tommy Castro, Bill Evans, Bryan Lee, Léo Gandelman, Azymuth, Nuno Mindelis, Ricardo Silveira, Orquestra Kuarup
www.riodasostrasjazzeblues.com


4º Poços de Caldas Jazz & Blues Festival

Quando e onde: de 8 a 10/7, em Poços de Caldas (MG)
Atrações: Dave Riley, Bob Corritore, Badi Assad, Marcelo Naves e Danilo Simi, Naná Maran Grupo
www.jazzbluespocosdecaldas.com.br


6º Festival Amazonas Jazz

Quando e onde: de 19 a 24/7, em Manaus (AM)
Atrações: Eddie Palmieri, Brian Lynch, Aaron Goldberg, Kenny Davis, John Fedchock, Cynthia Scott, Will Vinson, Daniel Barry, Todd Murphy, André Mehmari & Hamilton de Holanda, Helio Alves, Irio Jr. e Amazonas Band.
www.festivalamazonasjazz.com.br


9º Savassi Festival

Quando e onde: de 25/7 a 3/8, em Belo Horizonte (MG)
Atrações: Chris Potter & Underground, Cliff Korman, Billy Drewes, Matt Warnok & Holly Holmes, Omri Mor Trio, Weber Lopes, Tulio Mourão, Violentango e outros.
www.savassifestival.com.br


9º Bourbon Street Fest

Quando e onde: agosto, em São Paulo (SP), Rio (RJ) e Brasília (DF)
Atrações: Delfeayo Marsalis, Dirty Dozen Brass Band, Amanda Shaw e outros.
www.bourbonstreetfest.com.br/ 


Telefônica Sonidos
Quando e onde: de 24 a 27/8, em São Paulo (SP)
Atrações: Chucho Valdés com Hamilton de Holanda; Omar Sosa com Jaques Morelenbaum; Alex Cuba com Tulipa; Juan Formell y Los Van Van com Carlinhos Brown e outros. 
www.telefonicasonidos.com.br


Série Jazz All Nights
Onde: São Paulo (SP)
Atrações: Branford Marsalis (6/9), Esperanza Spalding (21/9) e Candy Dulfer (7/11)
www.dellarte.com.br 


4º CopaFest
Onde e quando: Rio de Janeiro (RJ), de 20 a 22/10
Atrações: Mauro Senise e Gilson Peranzetta com Edu Lobo, Lincoln Olivetti, Clube do Balanço, Airto Moreira e Arthur Verocai
www.copafest.com.br

10º Tudo É Jazz
Quando e onde: de 21 a 23/10, em Ouro Preto (MG)
Atrações: Jaques Morelenbaum, Paula Morelenbaum, Quarteto Jobim, Paula Santoro, Danilo Caymmi, Zé Renato, Weber Lopes, Celso Moreira, Flavio Henrique, Chico Amaral, Celio Balona, Orquestra de Ouro Preto e outros
www.tudoejazz.com.br 


3º Festival Choro Jazz Jericoacoara
Quando e onde: de 29/11 a 4/12, em Jericoacoara (CE)
Atrações: Bob Mintzer, Ensemble Gurrufio, Ivan Lins, Hamilton de Holanda e outras não divulgadas ainda
www.chorojazzjericoacoara.com.br


13º Festival Jazz e Blues

Quando e onde: fevereiro de 2012, em Guaramiranga e Fortaleza (CE)
Atrações: ainda não divulgadas
http://jazzeblues.com.br


                                                           Vinicius Dorin com a Amazonas Band, no Festival Amazonas Jazz

Jim Tomlinson e Stacey Kent: dupla interpreta com graça clássicos do jazz e da bossa

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Lançado originalmente em 2005, este álbum assinado pelo saxofonista britânico Jim Tomlinson acaba de ganhar edição brasileira por ocasião da recente apresentação que ele fez com a cantora Stacey Kent, em São Paulo. Parceiros musicais (e casados) desde a década de 1990, os dois seguiram em “The Lyric” (lançamento Blue Note/EMI) a bem sucedida fórmula musical de outros saborosos álbuns dessa intérprete norte-americana.

A paixão de Stacey pela música brasileira, que a tem levado a estudar seriamente a língua portuguesa nos últimos anos, já era evidente no repertório deste CD, que inclui três clássicos da bossa nova. Em “Manhã de Carnaval” (de Luiz Bonfá), que abre o álbum, a influência “cool” de Stan Getz (1927-1991) soa bem evidente no sax tenor de Tomlinson, que também é o solista da leve versão instrumental de “Outra Vez” (Tom Jobim). Já na releitura de “Corcovado” (outra de Jobim) é a voz delicada de Stacey que rouba a cena. 


No resto do repertório, destacam-se clássicos da canção norte-americana, como “I’ve Grown Accustomed to His Face” (Lowe e Lerner), “Stardust” (Carmichael e Parish) ou “My Heart Belongs to Daddy” (Cole Porter), que Stacey canta com graça e delicadeza, tirando proveito de seu timbre vocal juvenil. Para os fãs da cantora, que já apreciam seus outros álbuns com Tomlinson, “The Lyric” é mais um item essencial. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes, em 27/5/2011)


Quinteto Vento em Madeira: a liberdade do improviso em composições e arranjos sofisticados

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Só por ter criado o selo Maritaca, que em 13 anos de atividade vem produzindo um precioso catálogo de música instrumental brasileira, a flautista e compositora Léa Freire já merece muitos aplausos. Seu novo trabalho é o álbum de estréia do Vento em Madeira, quinteto que inclui seu antigo parceiro Teco Cardoso (sax, flautas e produção musical), além de Tiago Costa (piano), Edu Ribeiro (bateria) e Fernando Demarco (baixo).

Equilíbrio é um conceito-chave neste projeto, que combina a liberdade do improviso com sofisticados arranjos e composições próprias, formação camerística e muita diversidade rítmica. Beleza não falta a composições como “Copenhague”, carregada de melancolia, ou à lírica “Viva Júlia”. Surpresas rítmicas se sucedem em temas inventivos, como “A Fuga da Zabumba” e “Frango no Trevo”. Em criativa releitura, o samba-canção “Luz Negra” (Nelson Cavaquinho) destaca o vocal de Monica Salmaso. Música brasileira de primeira linha.
(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 27/5/2011)

 

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