Avishai Cohen: baixista israelense mostra seu jazz, em concerto beneficente, em São Paulo

|

O contrabaixista e compositor israelense Avishai Cohen (não confundir com o homônimo trompetista nova-iorquino, que já tocou no Brasil) vai se apresentar na capital paulista, dia 1º de junho, na Sala São Paulo. A venda dos ingressos desse concerto será revertida à TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).

Talentoso músico de jazz, revelado em meados da década de 1990, na banda do pianista Chick Corea, Cohen já tocou com Herbie Hancock, Roy Hargrove e Paquito D’Rivera, entre outros astros do gênero. “Seven Seas” (Blue Note, 2010), seu álbum mais recente, que deve nortear o repertório do concerto, combina canções com letras em hebraico e belos temas instrumentais.


Wynton Marsalis e Willie Nelson: segundo disco da dupla só deixa saudade de Ray Charles

|

                                                                                                                           Foto: Stephen Chernin 

Se a fórmula funcionou antes, por que não repeti-la? Assim devem ter pensado os envolvidos no inusitado encontro do astro country Willie Nelson com o jazzista Wynton Marsalis, em 2008. Os dois retornam com “Here We Go Again” (lançamento Blue Note/EMI), registro de outro concerto no Lincoln Center, em Nova York, trazendo como convidada a cantora Norah Jones. O problema é que a “boa idéia” de homenagear o pioneiro do soul Ray Charles (1930-2004) acaba revelando o oportunismo do projeto.

Os arranjos criativos de Marsalis até trazem novas cores sonoras e levadas rítmicas a sucessos do gênero, como “Hallelujah I Love Her Soul”, “Unchain My Heart” e “Hit the Road Jack”. Nelson e Norah também não decepcionam, emprestando seus maneirismos vocais às canções. Porém, ao final de cada releitura, a ausência dos vocais fervorosos e da emoção espontânea que Ray Charles imprimia em suas performances só aumenta a saudade desse gênio musical.

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/04/2011)

Andrés Beeuwsaert & Tatiana Parra: um duo que anuncia um continente mais unido pela música

|


                                                                                            Photo by Maria Birba
            
Confesso que me surpreendi ao ouvir as primeiras faixas do álbum de estréia do duo Andrés Beeuwsaert & Tatiana Parra. Ele tem 32 anos e é mais conhecido como pianista e vocalista do Aca Seca Trio, um dos grupos mais cultuados da nova música popular argentina; aos 30 anos, ela é uma das cantoras mais talentosas que despontaram durante a última década, na cena da música popular brasileira. Imaginando que ouviria um repertório baseado em canções, fui surpreendido pela beleza das composições instrumentais que abrem esse disco, como um onírico prelúdio.

“Tanto em minha vivência como na de Tatiana, a música instrumental e a canção convivem no mesmo lugar, são partes da mesma coisa”, afirma Andrés Beeuwsaert (pronuncia-se “andrês beussár”), evidenciando que, pelo menos para alguns músicos de sua geração, essa desgastada dicotomia não tem sentido. “Quem faz música instrumental muitas vezes também faz canção, pois uma composição instrumental pode ter a mesma forma de uma canção. A única diferença entre elas é que a música instrumental não precisa de um texto”, argumenta.

Andrés está certíssimo. Ele e Tatiana demonstram em seis das treze faixas do CD “Aqui” (lançamento Borandá) que não necessitam de palavras para conquistar qualquer ouvinte sensível e desprovido de preconceitos musicais – bastam a voz e o piano. Como em “Brincando Com Téo” (da flautista Léa Freire), cuja melodia saltitante parece inspirada nas travessuras de uma criança; ou na vertiginosa “Milonga Gris” (de Carlos Aguirre), que mistura ritmos de baião e maracatu ao popular gênero musical nascido nos Pampas argentinos; ou ainda na lírica “Sonora”, composta pelo próprio Andrés, cuja melodia alça vôos com a leveza dos vocais de Tatiana.

Em outras faixas, para evitar o risco da monotonia, Andrés tomou o cuidado de ampliar os timbres que utiliza nos arranjos, colorindo a voz de Tatiana e seu piano com intervenções de outros instrumentos. Para gravar “Salida”, delicada composição de sua autoria, convocou o violoncelo expressivo de Heloísa Meirelles. “Ventania”, outra milonga tingida com ritmos de baião, conta com a flauta de Léa Freire, à qual Andrés dedica essa composição. Em “Jardim”, o próprio compositor e violonista Conrado Goys interage com o piano e a voz da cantora.

Não estranhe se, ao ouvir as composições de Andrés, em algum instante você tiver a impressão de reconhecer um fragmento de uma melodia de Egberto Gismonti ou Hermeto Pascoal. Andrés cultiva uma relação bastante íntima com a música brasileira desde muito cedo. “Na mesma época em que comecei a ouvir o jazz de Pat Metheny e Keith Jarrett, eu também já ouvia muito a música instrumental de Gismonti e Hermeto, além de outros grandes compositores brasileiros, como Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento. Eles são como a coluna vertebral de minha música”, reconhece.

Tatiana e Andrés se conheceram no início de 2008, por meio do site MySpace. Interessada em se aprofundar mais na música latino-americana contemporânea, ela viajara pouco antes para Buenos Aires, onde foi apresentada por uma amiga à música do Aca Seca Trio. “As harmonias do Andrés e do Juan Quintero seguem por caminhos extremamente inusitados, mas o que me mais me encantou no Aca Seca foi a singeleza da música que eles fazem. Para chegar a esse grau de concisão é preciso amadurecer muito”, observa a cantora.

Seduzida pela música do trio argentino, Tatiana teve uma idéia incomum para conhecê-lo pessoalmente: assumiu a produção de dois shows do grupo, em março daquele mesmo ano, no Sesc Pompéia, em São Paulo. “Quando nos encontramos, já me veio a sensação de que ainda iria fazer algo com eles. Logo nos demos conta de que tínhamos muito em comum”, relembra. Sua previsão não demorou muito a se concretizar. No ano seguinte, ela e Andrés começaram a se apresentar em duo, ocasionalmente. E ao gravar “Inteira”, seu álbum de estréia lançado pela Borandá, em 2010, pôde enfim contar com os vocais do Aca Seca, na faixa “Choro das Águas” (de Ivan Lins e Vitor Martins).

Se, em seu primeiro disco, Tatiana atuou mais como intérprete, enfatizando a relação com a palavra, com as letras das canções, no duo com o piano de Andrés seu enfoque é essencialmente musical – ela utiliza sua voz como um instrumento. “Esta formação é desafiadora. É uma delícia cantar livre, sem baixo ou bateria, mas também muito arriscado. É como andar num trapézio sem rede de proteção”, compara a cantora.

O talento e o potencial do duo foram rapidamente reconhecidos. Ao receber da Funarte o Prêmio de Apoio à Gravação de Música Popular, Tatiana e Andrés conseguiram viabilizar a produção de seu disco – gravado em apenas três dias, em outubro de 2010, no Espaço Cachuera!, em São Paulo. “Fiz meu primeiro disco com muita calma, aos poucos, já este foi o oposto. Gravar em tão pouco tempo foi uma experiência muito rica, um grande desafio”, avalia a cantora.

Andrés ressalta o fato de o repertório do álbum incluir vários compositores com os quais ele e Tatiana cultivam uma relação de amizade. É o caso do argentino Carlos Aguirre e dos brasileiros Léa Freire e Conrado Goys, já mencionados aqui, assim como o chileno Javier Cornejo, autor da singela “Cueca de Agua” – única faixa do disco cantada por Andrés, em espanhol. “Gostamos de reunir músicas de outros países da América Latina, não só de Brasil e Argentina”, comenta o pianista.

Entre os compositores brasileiros com os quais o duo tem afinidade musical e pessoal também estão André Mehmari e Sérgio Santos, cuja bela canção “Vento Bom” antecede, no disco, “Estrela da Terra”, uma das jóias da parceria que Dori Caymmi cultiva há décadas com o letrista Paulo César Pinheiro. Já o argentino Pedro Aznar (com o qual Andrés tocou durante quatro anos) musicou, com muita sensibilidade, “Tankas”, poema de seu conterrâneo Jorge Luis Borges, cantado em espanhol por Tatiana.

Dois clássicos da canção do século XX, letrados pelo carioca Braguinha, entraram no repertório de Tatiana e Andrés a partir do convite para se apresentarem no “Som Brasil”, o programa musical da TV Globo. A romântica “Luzes da Ribalta” (de Charles Chaplin) ressalta a capacidade interpretativa e a afinação perfeita de Tatiana. Já a versão do choro “Carinhoso” (Pixinguinha) revela a inventividade de Andrés como arranjador. “Um brasileiro dificilmente conseguiria fazer algo tão ousado”, elogia Tatiana. “Sei que ‘Carinhoso’ é uma espécie de hino para os brasileiros, mas para um argentino essa canção tem um peso diferente. Foi mais fácil para mim”, justifica Andrés.

Escolha perfeita para fechar o álbum, “Corrida de Jangada” (de Edu Lobo e Capinan) é outro clássico da MPB que já fazia parte das apresentações do duo antes da gravação do disco. No contagiante arranjo de Andrés, cantado com graça e elegância por Tatiana, chama atenção o inusitado contraponto desenhado pelo piano.

Depois de saborear as 13 faixas de “Aqui”, fiquei pensando que um álbum como esse seria quase impensável décadas atrás. Além de tratar a canção e a música instrumental com o mesmo grau de admiração e entusiasmo, deixando os preconceitos de lado, Andrés e Tatiana parecem vislumbrar o futuro de um continente mais unido por meio da música. Tomara que eles estejam certos. Nossos ouvidos e sensibilidades só vão ganhar com isso.


(Texto escrito a pedido da gravadora Borandá)

Mônica Salmaso: cantora oferece em "Alma Lírica Brasileira" um retrato de nossa sensibilidade

|


Nada como ouvir uma intérprete que sabe o que quer cantar, que não adere a modismos, porque tem personalidade musical de sobra. Se você aprecia os primeiros discos de Mônica Salmaso, vai se sentir em casa ao ouvir “Alma Lírica Brasileira” (lançamento Biscoito Fino). No fundo, ela faz neste álbum o que tem feito desde o original “Trampolim” (1998): interpreta canções que juntas compõem um retrato particular de nossa sensibilidade. 

Delicada e minimalista, a marcha “Carnavalzinho” (de Lisa Ono e Mario Adnet) já encanta de cara o ouvinte. Mônica foi buscar outras belezas em diversas fontes: na seresta (“Lábios que Beijei”, de Cascata e Azevedo), no samba (“Meu Rádio e Meu Mulato”, de Herivelto Martins), na música caipira (“Cuitelinho”, de Vanzolini e Chandó), em Villa-Lobos (“Melodia Sentimental”). Fala-se por aí que o formato do álbum pode acabar em breve, mas um disco como este prova que perderíamos muito sem ele. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos, Filmes", em 29/04/2011)

Da Do: saxofonista busca (e encontra) linguagem brasileira de improvisação

|

                                                                                      Foto: Ding Musa / Divulgação
O nome artístico do instrumentista Da Do sugere algo de oriental, mas seu quarto álbum, “Minha Cidade” (independente), não deixa qualquer dúvida: sua música é brasileira. Versátil, esse paulista de 34 anos toca sax soprano e tenor, flautas, clarinete e piano, compôs as 12 faixas desse CD e também escreveu os arranjos – exceto dois deles, de autoria do maestro Nelson Ayres, que contam com músicos de cordas da Osesp.

Formado pela nova-iorquina Manhattan School of Music, Da Do vem pesquisando há tempos a riqueza da nossa percussão e o fraseado do choro, em busca de uma linguagem de improvisação tipicamente brasileira. Faixas como a valsa “Infância”, a sensível balada “Meditativo” ou o samba-canção “Pra Sempre” provam que ele já encontrou o caminho certo. Sorte dos fãs da música instrumental e do jazz, não importa quais sejam suas nacionalidades. 

(resenha publicada no "Guia Folha - Livros, Discos e Filmes", edição de 29/4/2011)

Maíra Freitas: filha de Martinho da Vila troca recitais eruditos por samba e choro

|


Pianista de formação clássica, ela não resistiu: trocou o sonho de ser concertista pela carreira de cantora de música popular. Filha do sambista Martinho da Vila, Maíra Freitas acaba de lançar um disco que merece atenção.

No repertório, muito bem escolhido, destacam-se um samba-afro do maestro Moacir Santos, clássicos da MPB e do samba assinados por Chico Buarque, Paulinho da Viola, Joyce e Martinho da Vila, além de composições próprias. E ela ainda se dá a luxo de tocar um intrincado choro de Jacob do Bandolim, no piano.

Nesta entrevista, ela conta que queria ser concertista,  fala sobre as gravações de seu CD ("Maíra Freitas", selo Biscoito Fino), revela suas influências musicais e lembra como começou a compor.

Com uma família tão ligada ao samba, como você se envolveu com a música erudita?

Maíra Freitas - As pessoas podem estranhar, mas isso é normal para mim. Estudo piano desde os sete anos. Fiz conservatório e faculdade, cursos de música clássica na Alemanha, na Bulgária e nos Estados Unidos. Minha meta, até uns três anos atrás, era ser concertista. Toquei com orquestra, fiz recitais. Enquanto estudava música clássica, desfilava todo ano na escola de samba, ouvia Chico Buarque, Djavan, Maria Bethânia e ia aos shows do meu pai e da Mart’nália [a irmã cantora, que produziu o disco]. Sempre achei tudo isso normal.

Como seu pai reagiu à sua inclinação pelo piano clássico?
Maíra - Ele sempre teve muito orgulho de dizer que tem uma filha que toca piano e estuda música clássica. Quando eu precisava de alguma partitura que só existia na Europa, ao viajar ele a trazia pra mim, todo orgulhoso. Meu pai sempre me deu todo apoio.

Você gravou “Maracatu, Nação do Amor”, composição do maestro Moacir Santos. Já conhecia a obra dele antes de gravar seu disco?
Maíra - Sempre ouvi muita música instrumental e choro, por isso gosto bastante dos discos do Moacir. Essa música é muito bonita e também traz a coisa da negritude. A idéia do disco é retratar quem eu sou: ele começa com a pianista, passa pelo jazz, pelo samba e pela música instrumental.

Quem ouvir seu disco, sem conhecer sua história, provavelmente vai se surpreender com a primeira faixa: o choro “O Vôo da Mosca”, de Jacob do Bandolim. Foi sua a idéia de abrir o CD com uma faixa instrumental?
Maíra - Eu quis gravar essa música para mostrar meu lado pianista, mas a idéia de abrir e terminar o disco com uma música instrumental foi do meu pai. Aliás, a coisa mais fácil de fazer nesse disco foi gravar. Demoramos muito mais tempo para decidir a ordem das faixas ou a capa do disco.

Entre suas composições, “Corselet” chama atenção pela leveza e pela letra bem humorada. Quando você começou a compor?
Maíra - Não faz muito tempo, uns cinco anos. Faço música quando estou sentindo alguma coisa, tenho vários pedaços de música em casa. Foi um processo gradual passar de pianista clássica até tocar choro e começar a compor. Minhas músicas têm uma coisa de mulherzinha, porque eu sou bem mulherzinha (risos). Desde criança eu gosto de me emperequetar. Também tenho um lado engraçado, um lado moleca. Gosto muito de brincar, mas tem dia que eu vou pra Lapa, que eu bebo.

Outra faixa que se destaca é o samba “O Show Tem que Continuar” (de Arlindo Cruz, Sombrinha e Luiz Carlos da Vila), numa versão entre o blues e o jazz. O arranjo é seu?
Maíra - Essa música é muito tocada nos pagodes e o Luiz Carlos da Vila tem uma ligação muito forte com minha família. Eu estava no meio de um pagode, quando tive a idéia de fazer uma releitura mais lenta, porque essa música tem uma melodia muito bonita. Depois a Mart’nália fez o arranjo vocal.

Você também gravou os sambas-canções “Só o Tempo” (Paulinho da Viola) e “Se Queres Saber” (Peter Pan). Alguns rejeitam esse estilo de samba por ser melancólico, pesado. Você gosta?
Maíra - Eu e a Mart’nália adoramos a Nana Caymmi, somos fãs incondicionais dela, e essa música é a cara da Nana Caymmi. Quase gravei “Medo de Amar”, do Vinicius de Moraes. Acho que gosto desse tipo de música porque eu também sou meio velha (risos).

Você ainda tem ídolos musicais?
Maíra - Como minha formação foi bastante variada, tenho muitos ídolos. Admiro muito Bach, Beethoven, Chopin, Brahms, Schumann, Villa-Lobos, Tom Jobim, Chico Buarque, Maria Bethânia. Em casa, eu também ouvia música americana e jazz. Por isso também admiro Ella Fitzgerald, Ray Charles, Stevie Wonder.

E os pianistas? Tem afinidade com algum, em especial?
Maíra - Tive muitas influências. É difícil escolher, mas sou muito fã do Nelson Freire. Quando vou aos concertos, choro e peço autógrafo. Também gosto de outros pianistas estrangeiros, como o Horowitz ou o Ashkenazy. Na faculdade de música, a gente estuda tudo.

No show de lançamento de seu disco, vai tocar piano o tempo todo?
Maíra - O piano é fundamental nesse disco. Com certeza, vou ter um piano de verdade no show, nada de teclado. Vou tocar a maior parte do tempo. Em alguns momentos, vou ser só a cantora, mas o piano é meu porto seguro.


(entrevista parcialmente publicada no “Guia Folha – Livros, Discos, Filmes”, em 29/4/2011)



42º New Orleans & Jazz Heritage Festival: uma retrospectiva ilustrada da edição de 2011

|

                                                                                                                                   Fotos: Carlos Calado
Artista do ano - Com prestígio em alta, depois de algumas aparições na série de TV "Tremé" (HBO), na qual também interpreta o tema musical de abertura, o cantor John Boutté participou de um disputado tributo a Mahalia Jackson, na Tenda Gospel. Recém-eleito "entertainer do ano", pelo jornal musical "Gambit", Boutté está nos planos da próxima edição do Bourbon Street Fest, agendado para agosto, em São Paulo.


Na platéia - Nome já confirmado para a 9ª edição do Bourbon Street Fest (em agosto, em São Paulo), o trombonista e arranjador Delphayo Marsalis, membro de uma das famílias musicais mais famosas de New Orleans, surpreendeu a platéia da Tenda de Jazz. Desceu do palco com sua banda e desfilou pela tenda, para a alegria dos fãs.




Mestre das lentes - Um dos grandes fotógrafos que se dedicaram a registrar imagens dos músicos de jazz, o norte-americano Herman Leonard (1923-2010) foi homenageado com uma singela exposição, na tenda principal do Fairgrounds, o hipódromo de New Orleans, onde é realizado o Jazz Fest.



Revelação do clarinete - A nova-iorquina Anat Cohen voltou a mostrar seu talento ao clarinete e ao sax soprano, tocando em duas tendas: a de jazz moderno e a de jazz tradicional. Nos bastidores, acompanhando a afilhada musical, estava George Wein, 85, o lendário produtor dos primeiros festivais de jazz.


Tenda gospel - Frequentada por platéias bem menores durante os primeiros anos pós-Katrina, a Tenda Gospel voltou a reunir grandes multidões em alguns concertos. Um deles foi o tributo a Sherman Washington (vocalista do Zion Harmonizers, o grupo vocal gospel mais antigo de New Orleans), que morreu neste ano. Na foto acima, Brazella Briscoe, novo líder do grupo, que vem ao Brasil em junho para o BMW Jazz Festival.  



Tradição carnavalesca - Sempre presente na programação de qualquer edição do New Orleans Jazz & Heritage Festival, os tradicionais índios do Mardi Gras, o carnaval local, estavam bem representados pelo Big Chief Monk Boudreaux (na foto acima) e sua banda Golden Eagles.


Nos clubes - O Jazz Fest de New Orleans não se limita às sete tardes de programação ao ar livre, no hipódromo da cidade. Durante os dois finais de semana e nas noites de segunda a quarta-feira, os clubes da cidade oferecem grandes atrações locais, como a banda do cantor e guitarrista Walter "Wolfman" Washington, mestre do soul, do blues e do funk, que abarrotou de fãs o alternativo DBA, na Frenchman Street, versão mais descolada da turística Bourbon Street.

                                                                                                                                    
Noivado no palco - Só mesmo num festival descontraído, como o de New Orleans, poderia acontecer uma cena tão inusitada. O trompetista Christian Scott (que se apresenta neste fim de semana, no festival Jazz na Fábrica, no Sesc Pompéia, em São Paulo) chamou a namorada Isadora ao palco, no meio de seu show, ajoelhou e a pediu em casamento. A platéia sorriu e aplaudiu bastante o tímido casal.


Jazz a rigor - Lá fora o sol estava escaldante, mas o The Golden Striker Trio, formado por Ron Carter (contrabaixo), Russell Malone (guitarra) e Mulgrew Miller (piano), entrou no palco da Tenda de Jazz vestido a rigor. Os três tocaram temas próprios e standards, em arranjos suaves e elegantes. Enquanto isso, nos palcos ao ar livre a garotada curtia o rock e o pop de Robert Plant, The Avett Brothers e Wyclef Jean.


MPB à New Orleans - O nome de Ivan Lins chegou a ser incluído, no início do ano, quando o elenco desta edição do Jazz Fest foi anunciado, mas acabou desaparecendo da programação. Mesmo assim, como em anos anteriores, a MPB esteve presente no repertório da ótima cantora Leah Chase, uma discípula local de Sarah Vaughan, que costuma interpretar canções de Ivan Lins e Tom Jobim.

 

Enhanced by Zemanta

Amanda Shaw: violinista de New Orleans vem ao Brasil para o Bourbon Street Fest

|

                                                                                                         Foto: Carlos Calado

Fora do palco, ela parece uma garota como outras do sul dos EUA. Mas, com o violino na mão, a pequena e simpática Amanda Shaw cresce e se destaca. Não é à toa que, aos 20 anos, ela é considerada uma das maiores revelações da cena musical de Nova Orleans, na última década.

Foi o próprio diretor do Jazz & Heritage Festival, Quint Davis, que a apresentou à plateia, anteontem, como “a queridinha de Nova Orleans”. Carinho que essa garota nascida em Covington, no interior da Louisiana, vem retribuindo como uma espécie de embaixatriz da cultura local.

“Já toquei em todos os cantos dos EUA e em muitos países. Então posso dizer que não existe um lugar como este no mundo. Nova Orleans é uma cidade tão musical é única, que você pode ouvir música ao vivo, num boliche, num barco, até num cemitério”, disse ela à "Folha".

Amanda começou a tocar violino com 4 anos. Aos 9, já dava “canjas” em clubes, incentivada por figurões da cena local de blues, como Marva Wright e Rockin’ Dopsie Jr. Antes de se decidir pela carreira musical, chegou a atuar em dois filmes da Disney, mas diz que não gostou dessa experiência.

“Durante as filmagens tive que conviver com aquelas garotas que não gostam de comer. Elas só comiam alface, nada mais, todos os dias. Jamais recuso uma lagosta ou carne. Adoro comer”, diz, rindo.

De formação erudita, Amanda conta que seu professor de violino ficou furioso, quando ouviu que ela também queria tocar e cantar música popular. Hoje, por sinal, seu repertório mistura blues, rock, cajun e outros gêneros locais.

“Meu professor achava que o clássico era o único caminho para uma instrumentista como eu. Depois de ouvir B.B. King ou Billie Holiday, entendi que a melhor música é a que sai do coração”, diz ela.
 

Amanda Shaw será uma das atrações da nona edição do Bourbon Street Fest, agendado para agosto, em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. O produtor Edgard Radesca, que está em Nova Orleans para programar o evento, confirmou também os nomes do trombonista Delphayo Marsalis e da Dirty Dozen Brass Band.

Outro músico de Nova Orleans que vai se apresentar em São Paulo (no festival Jazz na Fábrica, dias 14 e 15/5, no Sesc Pompéia), o trompetista Christian Scott surpreendeu a platéia do Jazz Fest, anteontem, com uma cena inusitada. No meio de seu show, chamou a namorada, ajoelhou no palco e a pediu em casamento, aplaudido pela platéia.

(Texto publicado na "Folha de S. Paulo", em 7/05/2011)

Cuidado! Kenny G ainda está vivo e voltou para entediar o New Orleans Jazz Fest 2011

|

                                                                                                          Foto: Carlos Calado

Não deixa de ser uma grande ironia: no mesmo dia em que a notícia da morte do terrorista Osama bin Laden tomou conta dos Estados Unidos e do noticiário mundial, uma figura quase tão nefasta (ao menos para muitos fãs do jazz) surgiu, literalmente, pela porta dos fundos, no New Orleans Jazz & Heritage Festival.

Sim, quase duas décadas depois de dominar as paradas de sucessos e as trilhas sonoras para elevadores e salas de espera de consultórios médicos com seu muzak grudento, quando ninguém mais já se preocupava com ele, Kenny G ressurgiu em New Orleans com o mesmo visual de anjo barroco decrépito e o mesmo som apelativo.


Talvez desconfiando que seu poder de atração já não é mais o mesmo, ele decidiu surpreender a platéia com um número quase circense. Em vez de entrar no palco, preferiu a porta dos fundos da tenda de jazz e postou-se no meio da platéia, cercado de guarda-costas e policiais.


Óbvio como toda sua “obra”, ensaiou um breve pot-pourri de alguns hits, terminando a pantomima com a caquética exibição de respiração circular, a mesma que seus fãs mais surdos teimam em aplaudir há décadas como um prodígio musical, quando se trata de um mero exercício físico.


Arrogante, ele ainda ensaiou uma gracinha carregada de inveja, antes de subir ao palco. “Obrigado por estarem aqui. E por não terem ido ao show do John Legend”, disse, com a maior cara de pau.


Detalhe revelador: esse atleta soprador de saxofone mal conseguiu atrair publico suficiente para ocupar todas as cadeiras da tenda de jazz, que meia-hora antes ficara abarrotada durante o concerto de Terence Blanchard.
E Legend atraiu pelo menos dez vezes mais de público do que seu suposto concorrente fanfarrão.

Por essas e outras não pude deixar de pensar em uma anedota que um músico de jazz (não consigo me lembrar qual) me contou na década de 90. “Se você tivesse um revólver com duas balas e à sua frente estivessem Hitler, Mussolini e Kenny G, em quem você atiraria?”, ele perguntou. “Essa é difícil”, respondi. “Pois é, mas eu daria os dois tiros no Kenny G”, ele disse. O cara estava coberto de razão.

Festival internacional da Louisiana: "lado B" de New Orleans faz 25 anos com música de raiz

|

                                                                                                            Foto: Carlos Calado

Os shows, gratuitos e ao ar livre, são anunciados em francês. A eclética programação mistura música étnica da África, do Caribe e do Oriente com gêneros "de raiz" típicos do sul dos EUA, como o zydeco, o cajun ou o gospel.

Esse é o Festival Internacional da Louisiana, que comemorou 25 anos no último fim de semana. Realizado na cidade de Lafayette, esse evento vem crescendo a cada ano, como uma espécie de "lado B" do Jazz Fest de Nova Orleans, cuja 42ª edição prossegue até o próximo domingo, dia 8.


Considerada a capital extra-oficial da cultura cajun (corruptela do francês "acadien"), Lafayette é uma cidade pequena e charmosa, que preserva a língua francesa e a tradição musical e culinária dos acadianos, grupo étnico que deriva de colonizadores que viviam no nordeste da América do Norte.


Essa herança cultural ainda está presente no festival de Nova Orleans, em alguns shows e nas barracas que oferecem pratos típicos da Louisiana. Mas os preços altos dos ingressos (U$ 60 por dia) e o aumento significativo do rock e da música pop nas atrações desse evento têm levado os frequentadores a se interessar pelo concorrente.


A chuva fina que caiu no início da tarde de sábado não chegou a prejudicar o festival de Lafayette. Já conhecida pelo público local, a cantora cabo-verdiana Maria de Barros (na foto acima) esbanjou simpatia, contagiando a plateia com o ritmo dançante do funaná, que lembra o nosso carimbó.


Outro cantor que transformou seu show em um animado baile foi o congolês Ricardo Lemvo e sua banda Makina Loca, que misturam o mambo cubano com ritmos africanos, em irresistíveis arranjos para metais.


Já em Nova Orleans, o sol ajudou a atrair grandes multidões, no fim de semana, especialmente para ver atrações de rock e pop, como Bon Jovi (cujo guitarrista Richie Sambora, internado em clínica de desintoxicação, foi substituído por Phil Xenidis), Robert Plant, Jason Mraz, Wyclef Jean e Jeff Beck.


(Reportagem publicada na “Folha de S. Paulo”, em 2/05/2011)


 

©2009 Música de Alma Negra | Template Blue by TNB