Paulo Moura: música brasileira perde elegância e ecletismo do grande instrumentista

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                                                                                            Foto de Alex Almeida

Não era à toa que tantos músicos e cantores queriam gravar ou se apresentar com ele. Sambistas, chorões, jazzistas, solistas eruditos, adeptos da MPB ou da bossa nova, instrumentistas de gafieira ou de big bands, todos sabiam que Paulo Moura – o eclético clarinetista, saxofonista, arranjador e maestro, morto no último dia 12, às vésperas de completar 78 anos – trazia elegância, emoção e um vasto conhecimento musical a qualquer sessão de gravação, concerto ou show do qual participasse.

Visto hoje, o currículo desse paulista de São José do Rio Preto, cuja família se radicou no Rio de Janeiro, é quase uma enciclopédia de música brasileira. Na década de 1950, quando estreou profissionalmente, tocando em gravações, programas de rádio e bailes, como solista das orquestras de Oswaldo Borba e Zacharias, acompanhou intérpretes de grande popularidade, como Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Dircinha Batista e Gilberto Alves. Nessa época também já começara a tocar jazz, paixão que dividia com outros músicos jovens que visitavam sua casa, no bairro carioca da Tijuca, como João Donato, Johnny Alf e Bebeto, que anos depois se tornaram conhecidos por suas ligações com a bossa nova.

Nada mais natural, portanto, que Moura freqüentasse, já no início da década de 1960, as “jam sessions” do lendário Beco das Garrafas, em Copacabana. Nesse reduto da bossa e do nascente samba-jazz, encontrava colegas como o pianista Sérgio Mendes e o baixista Otávio Bailly, com os quais formou o inovador sexteto Bossa Rio. Com ele, em 1962, apresentou-se em Nova York, no histórico concerto de bossa nova no Carnegie Hall, do qual também participaram João Gilberto, Tom Jobim, Carlos Lyra, Luiz Bonfá e o jazzista Stan Getz.

O que diferenciou a trajetória de Moura das carreiras da grande maioria de seus colegas instrumentistas foi o fato de sua profunda ligação com a música popular brasileira e com o jazz ter se desenvolvido paralelamente à sua atuação na música clássica. Em 1959, venceu um concurso para se tornar clarinetista da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal carioca, função que exerceu até 1978, quando decidiu se dedicar somente à carreira de solista. Durante as duas décadas em que tocou na orquestra, participou de inúmeros concertos e óperas sob a regência de maestros renomados, como Leonard Bernstein, Isaac Karabtchevsky e Eleazar de Carvalho.

A parceria com Martinho da Vila, que Moura acompanhou em turnês até no exterior, em meados da década de 1970, voltou a estimular seu interesse pelo samba e pela diversidade rítmica brasileira. Em 1976, lançou o álbum “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, um divisor de águas em sua obra. Nesse disco, à frente de uma big band, Moura interpreta clássicos das gafieiras, como “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) e “Peguei a Reta” (Porfírio Costa), misturando choros e ritmos afro-brasileiros, como o samba, o maxixe e o carimbó. A seu lado também estavam outros grandes instrumentistas, como Wagner Tiso, Márcio Montarroyos, Nivaldo Ornelas e Toninho Horta.

O impacto desse projeto, muito elogiado, estimulou Moura a seguir investindo nessa vertente. Tanto é que, ainda naquela década, voltou a frequentar a folclórica gafieira Estudantina, no Rio. Álbuns como “Mistura e Manda” (1983) e “Gafieira Etc. e Tal” (1986) reacenderam o interesse de muitos músicos e do público em geral pelo repertório dançante das gafieiras. Não é por outra razão que Moura é idolatrado hoje pelos jovens que cultivam o samba e o choro, nos bares e casas de shows da agitada Lapa carioca.

Sorte nossa que, diferentemente de outros mestres da música instrumental brasileira, Paulo Moura continuou tocando e gravando com regularidade até seus últimos meses de vida. Só nesta década transformou em discos deliciosas parcerias com João Donato, Yamandú Costa, Maurício Einhorn, Armandinho e Cliff Korman, entre outros. Perdemos a simpatia do elegante maestro, mas ao menos sua música está bem conservada em dezenas de preciosos discos.

(Artigo publicado originalmente no caderno cultural do "Valor Econômico", em 16/07/2010)



 

4 comentários:

Maria Muadiê disse...

Já (ou)viu que emocionante a despedida dele aqui:

http://vimeo.com/13307593 ?

MArtha

Carlos Calado disse...

Sim, Maria, é uma cena de cortar o coração. Paulo Moura seguiu tocando até seus últimos momentos...

csfsfrere disse...

ola carlos
sou um grande amigo de paulo moura e fizemos um projeto chamado "blind movie" e mais alex meireles e carlos sergipe. como faço para entrar em contato com voce?

Carlos Calado disse...

Oi Csfsfrere,
Segue o meu e-mail:
calado@uol.com.br

 

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